29 de Dezembro de 2013

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Os meus e os seus amigos

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Minhas malas estavam abertas ao lado da penteadeira.

Não me dei ao trabalho de guardar minhas roupas no armário, afinal, no primeiro dia de janeiro estaríamos voltando para Bristol. Só de lembrar da minha cidade e do que eu havia deixado pra vir pra cá eu queria chorar!

Okay, eram só alguns dias, eu podia controlar a vontade de tomar um trem para ver se o Dobby, meu gato siamês que estava sendo bem cuidado pela vizinha da frente.

— Lily? – Três batidas se seguiram.

— Oi, mãe. – Eu respondi com um pouco de sono.

— Vamos tomar café, venha. – Ela pediu e eu escutei seus passos se distanciando.

Bufei e tirei as mil cobertas que eu fui obrigada a desenterrar no armário da cabana. Procurei uma calça térmica e minha calça de moletom, uma blusa grossa de lã e meu casaco grosso vermelho.

Todos já estavam sentados e saboreando o café da manhã tradicional em Hogsmead, e com roupas especiais para o frio. Eu imaginava que eles não demorariam pra aproveitar a neve lá fora. Menos a Lily, eu lembrei.

— Bom dia, Lilica. – Minha irmã disse.

— Bom dia.

— Bom dia. – Eu respondi.

Peguei o pão e geleia e tomei meu café sem pronunciar muito sobre o meu ataque de ontem. Acredito que mamãe e papai devam ter conversado com Tuney, porque ela não me irritou pela manhã.

Voltei para o meu quarto e peguei o meu livro.

Não estava nevando e nem ventando do lado de fora e minha mãe havia me obrigado a (pelo menos) permanecer do lado de fora. E assim foi a minha manhã, sentada na cadeira enorme, enrolada em cobertores e lendo Harry Potter e a Pedra Filosofal.

Começou quando Tuney e Valter retornaram no fim da tarde.

Eu estava terminando de secar o meu cabelo com a toalha – porque Tuney havia escondido o secador dela pra me irritar – quando alguém tentava abrir a porta do quarto sem sucesso, já que havia trancado-a para evitar mais conflitos com Tuney.

— Hey, Lilica, mamãe mandou você se arrumar pra ir com a gente no Três Vassouras! – Tuney gritou do lado de fora.

Meu primeiro pensamento é que ela estava doida. Que ela sabia que eu não iria, porque eu simplesmente havia detestado a ideia de vir a esse lugar primeiramente.

Sai do quarto e dei de cara com a pessoa que me salvaria. Minha mãe.

— Mãe? – Perguntei a ela. – Que história é essa de Três Vassouras, que a Tuney disse? – Eu estava rindo, e ela estava séria. – Tipo, que nome estranho né?

Era para ela rir, mas ela não o fez.

— Vá se arrumar, Lily. Você vai com Tuney e o Valter nesse pub. – Eu estava prestes a pestanejar quando ela levantou o indicador na altura do meu nariz. – Nem me venha com manha mocinha. Vai gostando ou não, e sem discussões. Você precisa aproveitar um pouco esses dias aqui!

Quando ela saiu da sala, Tuney e Valter, que estavam sentados em frente a lareira me olharam curiosos.

— Assim que a gente sair dessa bacia de gelo eu vou matar você, Tuney!

E disparei para o meu quarto ainda escutando as risadas do casalzinho na sala.


Hogsmead é uma cidade que nasceu em meio a crenças de bruxaria e magia, de acordo com a Mel.

Graças a Buda, Melani estava aqui! Ela havia chego um dia após a gente e se instalado a pouco tempo na sua cabana com a mãe e o padrasto.

Bom, Mel não é a Dorcas, minha melhor amiga e vizinha de rua, mas era a única amiga de Tuney que eu gostava.

Mel era da minha altura só que ao invés de ruiva de olhos verdes, era morena de olhos azuis. Ela havia me contado sobre toda a formação da cidade e sobre os lugares que eu iria gostar visitar, como a Dedos de Mel, Zonko's e o próprio lugar onde iríamos naquela noite, O Três Vassouras.

— Você vai amar, Lily! É tudo tão lindo! Tenho certeza que vou fazer você sair de casa! – Ela disse feliz.

— Quem disse isso?

Nós estávamos caminhando pelas ruas com os capuzes sobre a cabeça para fugir da neve fina que caía, com Tuney e Valter na nossa frente.

Verdade que aqui todo mundo ficava até tarde fora de casa, inclusive as crianças pequenas, claro, acompanhadas dos pais. O pub para onde estávamos indo era o lugar preferido de todos os moradores e turistas. Principalmente dos jovens.

— Tuney. – Ela disse rindo. – Ela ficou preocupada que uma avalanche tinha tomado o seu lado da casa e te deixado congelando.

Eu fui obrigada a rir, mesmo com aquele formigamento irritante com a palavra "avalanche".

Minha irmã e o namorado desceram algumas escadas e eu percebi que teria que ir para debaixo da terra. Mel começou a gargalhar quando eu comecei a tremer de medo.

Eu não sou claustrofóbica, mas sabe, vai que a neve tranca a saída? Como várias pessoas vão sobreviver até chegar o resgate? Vamos ter que virar carnívoros e comer uns aos outros?

Mel me tranqüilizou e disse que não iria acontecer. E também comentou sobre haver uma saída de emergência na cozinha ou na dispensa, porque em lugares onde nevava muito era comum ter mais que uma saída de algum lugar.

Valter havia segurado a porta para todas nós entrarmos e eu fiquei completamente surpresa com o lugar.

— É lindo! – Eu disse sincera.

Era simples, mas também aconchegante. Havia um grupo se apresentando com violão e gaita. Um bar ao fundo em estilo rústico e mesinhas espalhadas pelo pub. As paredes eram de rocha mesmo e havia uma lareira próxima da banda, onde algumas crianças tinham permissão de sentar.

— Maneiro né? – Mel disse. – Ah, Oi Sirius.

— Eu sei que sou lindo ruiva, é o meu charme.

Maneei a cabeça e encontrei um rapaz com quase dois metros de altura parado na minha frente. Ele usava uma rouba de esquiador preta e o cabelo dele era na altura dos ombros, os olhos eram tão azuis quanto os da Mel.

— Lily, esse é o Sirius. – Mel disse.

— Oi. – Eu falei contrariada e vermelha. — Com licença.

Passei por ele como um raio e tentei encontrar Tuney. O que era um pouco difícil já que a iluminação era bem baixa.

— Lily! Espera!

Mel chegou ao meu lado e apontou para onde Tuney e Valter que se sentavam com um grupo de desconhecidos numa mesa mais perto do bar.

— Achei que o pessoal da Constance estava aqui. – Eu disse enquanto ela me empurrava até a mesa.

Literalmente me empurrava, porque eu já estava começando a procurar a saída daquele lugar.

Não me levem a mal, eu só não sou boa em fazer novos amigos. Dorcas era minha única amiga de toda a escola, se não for contar Mel e Tuney, que agora iriam para a universidade. E haviam outros, mas depois de muito tempo eu havia desistido de fazer amigos e depois perde-los, como era comum de acontecer.

— Eles estão por aí. – Mel sorriu. – Qual é Lily, são só pessoas!

— E isso me faz me sentir tão bem. – Eu disse enquanto sentia meu estômago revirar.

Mel começou a rir e algumas cabeças começavam a se virar.

—... Podemos ir amanhã esquiar no monte Furado... – Tuney sorriu animada para a outra menina a frente dela. – Oi Mel. – Ela se virou para nós.

Eu não sabia como ela viu minha amiga atrás de mim, e quando percebi ela estava ao meu lado. Sorridente.

— Oi, pessoal. – Eles cumprimentaram ela.

Além da garota morena havia outra loira, um menina baixinho e loiro. Outro rapaz moreno. E...

O garoto que eu acertei a bola de neve!

— Hey ruiva, não precisa fugir de mim, eu não mordo.

O tal de Sirius veio por trás de mim e colocou a mão no meu ombro. Eu não gostei nadinha da aproximação dele e deixei bem claro, minha cara não fingia o desgosto e ele ria.

— Não se folga Sirius. – Disse a morena.

— Só com você amor. – Ele respondeu. Eu queria ser uma ema nessas horas e enfiar minha cabeça no chão do pub. – Ruiva-Lily esses são meus amigos aqui em Hogsmead.

— Ah... – Eu só disse.

Ninguém sabia como meu estômago se revirava naquele momento. A roda gigante em Londres não era nada terrível quanto comparada ao meu estômago agora.

— Que é? – Sirius perguntou desconfiado. Eu não consegui responder.

— Lily tem certos problemas pra conhecer pessoas. – Tuney disse rindo. – Ela é bem tímida, Sirius.

— Quem precisa de uma inimiga quando se tem a Tuney, como irmã? – Eu cochichei para Mel depois que Sirius havia tirado o braço dos meus ombros.

Ela estirou a língua e cedeu um lugar para nós duas e nos sentamos perto deles. Eu observava as pessoas ao meu redor e a música animada que estava tocando. Tudo parecia... Bom... Diferente do que eu achava, afinal.

— Olha ela faz piadas, Pads. – Alguém deles disse, me fazendo ficar vermelha como a cor do meu cabelo.

— Eu to vendo, Pontas. – Sirius e o garoto que eu atirei a bola de neve riam entre si.

A garota loira maneou a cabeça, ignorando as risadas deles.

— Não dá atenção pra eles, Lily. – Ela disse sorrindo. – Eu me chamo Emmeline. Essa é a Marlene.

— Yo!

— Esse é o Peter. – Ela indicou o menino baixo e loiro. – O Remus. – Era o outro loiro. – E o James.

— E eu? – Perguntou Sirius.

Eu sorri comigo mesma. Por algum motivo que eu desconheço o cara que eu acertei a neve, agora conhecido por James, me encarou e depois virou a cara.

Ué, o que eu tinha feito agora?

— Você não precisa de apresentação, Sirius. – Disse Marlene.

— Como você é má, amor. – Disse Sirius. Ele passou o braço ao redor dela e deu um beijo na bochecha. Marlene ficou completamente vermelha.

— E eu achava que você era a única que ficava tããão vermelha, Lily. – Mel disse e eu só balancei a cabeça rindo. – Mas é verdade!

— Eu te odeio. – Eu falei.

— Não minta pra você mesma, Red.

— Ah. Claro. – Eu falei olhando o cardápio.

Desviando meu olhar para James de vez em quando. E por coincidência, todo o momento que eu arriscava ele me encarava também.

Até aquele momento eu só havia lido a primeira linha.

— Lily, quer o que? – Tuney perguntou.

— Chocolate quente. – Eu disse rapidamente, pra ela não perceber que eu não havia lido nada ainda.

— Tá certo. – Ela sorriu. – Vou buscar.

De repente, eu me senti sozinha, já que Mel foi acompanhar minha irmã, e Valter falava animadamente com Peter sobre esquis.

Procurei ao redor se havia mais alguém da Constance que eu conhecia. Eles havia organizado um grupo pequeno pra cá e outro pra praia, e sabe, eu votaria por estar na praia nesse momento.

E por sorte do destino, ou mandinga da Petúnia, havia sim.

Severus...

— Lily? Lily Evans? – Ele me encarou e deu um sorriso de canto, veio passando por algumas mesas antes de chegar na nossa.

Eu me apressei e levantei cumprimentando ele.

Severus era meu melhor amigo quando criança, mas quando estava com um certo grupo de outros alunos da nossa idade, ele simplesmente fingia que eu não existia.

Eu só, não conseguia deixar de falar com ele, afinal, ele já tinha sido meu melhor amigo.

— Oi Sev! Que bom te ver aqui. – Eu disse. Ele me encarou ansioso. – Quero dizer, é bom ver um rosto conhecido. – Eu queria me bater nesse momento. – Quero dizer...

— Tá tudo bem, Lils. – Ele passou a mão e bagunçou meu cabelo. Como eu odiava ser a menina baixinha que todo mundo bagunçava o cabelo! – Nunca achei que viria pra cá.

— Nem eu. – Eu falei sorrindo. – Mas você conhece a Petúnia.

— Oh, eu bem sei.

— Porque ela nunca viria pra cá? – Eu escutei a voz de Sirius entrando na conversa.

Eu me senti tããããão envergonhada nessa hora. Não que eu não queria que ninguém soubesse. Bom. Havia um motivo porque eu havia detestado a ideia de vir pra cá.

Eu só não gostava de lembrar desses tempos.

— Ah. Severus estes são uns amigos da Tuney que eu conheci hoje. Esta é a Marlene, o Sirius, a Emmeline, o Peter, o Remus, e o James... – Eu senti passar uma descarga elétrica pelo meu corpo, que nem consegui encara-lo. – E o Valter, você já conhece.

— E ai?

— Não respondeu a minha pergunta, turista.

Eu senti uma pontada de culpa nessa hora. Mas nem consegui intervir.

— Ah é que a Lily deteeeeeeeeesta neve. Desde pequena. – Ele riu, não... Gargalhou como se fosse a coisa mais idiota que alguém poderia ter como qualidade.

Eles me encararam surpresos. E eu mais ainda, encarando Severus.

— Não é que eu odeie Sev. Eu só que Lily e neve não se colocam na mesma frase. Não é que eu deteste. – Eu disse tentando parecer mais humana possível.

Como se ele não soubesse.

— Ah. Claro.

— Voltamos. – Disseram as duas. – O que faz aqui, ranhoso? – Tuney emendou, irritada.

Ela não aprovava que eu falasse com Severus, mesmo que eu dissesse que ele ainda era meu amigo.

— Tuney! – Eu gritei com ela.

Todos começaram a controlar o riso (exceto Sirius). Ele ficou cabisbaixo e deixou as duas passarem entre nós.

— Bom. Lily a gente se vê. – Ele falou triste.

— Claro. – Eu disse com ele se afastando. Encarei minha irmã totalmente normal depois de insultar meu amigo. – Tuney, pra que fazer isso com o Sev?

— Primeiro ele é um idiota. Segundo esse garoto te come com os olhos. – Ela falou me entregando o chocolate quente. – Eu fiz um favor te livrando dele. – Ela me encarou como se quisesse que eu me desculpasse por falar com ele.

Encarei todos na mesa essa hora. Exceto James que ainda me analisava com aquele olhar estranho, eu baixei a cabeça desolada. Mas irritada.

— Um favor? – Eu perguntei alterada. – Um favor? – Me levantei, pegando minha bolsa. – Então me faça um agora e vê se eu to na esquina! – Sai quase correndo até a porta

— Hey, Lily! – Mel vinha gritando. – Tuney, vai atrás dela!

Eu bati a porta do pub e sai escada a cima, encontrando as ruas ainda apinhadas de pessoas. Eu só não lembrava para onde eu tinha que ir.

Eu detestava esse meu senso de direção, nem mesmo em Bristol eu conseguia me virar sem um mapa! Ai! Olhei mais para cima da rua e avistei a cabana onde fizemos o chek-in e me apressei para chegar lá e perguntar qual o caminho para a cabana onde eu estava hospedada.

Foi quando eu senti alguém me puxar pelo braço, me desequilibrando.

— Hey! – Eu já estava preparada para usar o que eu aprendi nas aulas de defesa pessoal quando dei de cara com quem eu não esperava ver até o final das minhas férias.

— Calma aí, ruiva! Sou eu, o idiota que levou uma bola de neve na cara. – Era James!

Eu parei de tentar puxar o meu braço e ele me soltou aos poucos, enquanto eu ainda sustentava o olhar, surpresa.

E com a certeza de que minhas bochechas estavam muito, mas muito, vermelhas.

— O que faz aqui? – Eu perguntei.

— Não é óbvio? Fomos te procurar. – Ele disse ríspido.

Senti uma parte de mim se despedaçar quando eu escutei que "fomos" no plural, e não "vim" no singular.

— Porque? – Eu guardei minhas mãos no meu casacão vermelho – Eu posso me virar sozinha!

— Então porque tá indo pro lado contrário da sua cabana? – Ele perguntou erguendo uma sobrancelha.

Eu não conseguia fazer o mesmo. Droga.

— Porque eu iria pedir informação. – Disse indicando a cabana onde eu fiz o chek-in com a minha família e quando eu o acertei com uma bola de neve.

— E acertar outro morador com uma bola de neve? Nem pensar! – Ele disse me puxando pelo braço de novo.

— Você me escutou? – Eu perguntei tentando me soltar. – Não preciso de ajuda!

De repente ele parou e me encarou, bem de perto. Eu podia sentir a respiração dele no meu rosto. E olha que ele era bem mais alto que eu.

— Mas eu quero ajudar. – Eu arregalei os olhos mais ainda, tentando não olhar pra boca dele. Tão perto da minha. – Satisfeita?

Como ele conseguia falar comigo tão naturalmente estando tão perto assim?

Claro, só eu estava me sentindo desse jeito. Homens eram imunes a sentimentos. Principalmente os das montanhas, eu pensei comigo mesma.

Empurrei ele um pouco e passei a mão sobre meus cabelos.

— Tudo bem. – Eu disse. – Me ajude então a encontrar a minha cabana?

— Sim. – Ele disse voltando a caminhar.

Eu encarei suas costas por um momento e depois decidi acompanha-lo. Ele era um morador local, ele havia contado lá no pub, sabia o que estava fazendo.

Sabia também onde eu morava depois de agradecer a ele. Foi a coisa mais ridícula que eu já havia passado. Porque, nos filmes, quando o garoto leva a garota pra casa eles sempre se beijam antes dele ir embora. E eu não sabia porque esse pensamento me veio a tona naquele momento.

Eu só fiquei com cara de tonta ao ver James se distanciar.

Eu não podia culpá-lo também. Eu havia deixado bem claro que eu odiava estar aqui, na cidade que ele chamava de lar.


Já tava na hora de atualizar né? Haha. Eu realmente gostei de escrever a fanfic, não só por ter uma Lily um pouco diferente do que a gente costuma encontrar, mas pela participação que a Petúnia tem na história. A gente sabe que elas não se davam bem por conta do mundo bruxo, e acho que como elas não estão nesse universo de HP, elas podem ser amigas/irmãs.

E isso vai se tornar importante pra fanfic.

Ana tá aí o capítulo fresquinho. Que achou?

Até o próximo capítulo (que sai ainda nessa semana! Bjos!)