~ Capítulo Um ~
Eu costumava pensar que, um dia, quando conseguisse tudo o que queria na vida, seria feliz. Eu valorizaria essas coisas, adoraria, e nunca reclamaria que a vida foi injusta comigo. Quando a maturidade chegou e se esticou para acomodar os anos que avançavam, e eu não somente não consegui o que queria na vida, mas ainda procurava pelas coisas que havia perdido – como a minha irmã – me conformei por não viver uma vida perfeita.
Eu não parecia destinado a conhecer alguém, me apaixonar e fazer um futuro cheio de bebês e reunião de pais e mestres. Eu quis isso por muito tempo; quis superar o legado que meus pais deixaram no mundo, sob o nome Mulder. Talvez achando meu caminho naquele mundo idílico, eu poderia reconciliar de alguma maneira a perda da minha irmã – e o respeito do meu pai. Eu protegeria minha família, e trataria meu filho maravilhosamente...
Enquanto isso, eu tinha um emprego e uma parceira que era também minha amiga – que parecia também ter uma vida pessoal curta – e no meio de casos e mutantes e Diretores Assistentes chatos, eu me convencia, às vezes, de que era moderadamente feliz.
Acho que só queria a vida normal que outros homens pareciam apreciar. Eu olhava à minha volta, para os outros agentes, os que tinham esposas e famílias. Eles iam trabalhar todos os dias e lutavam contra os demônios do crime assim como Scully e eu; a única diferença era que nós estávamos centrados nos Arquivos X, e tudo o que eles representavam. E isso era muito assustador, com certeza. Mas ainda assim... Por que não teríamos o direito a ter uma vida normal? Sim, ambos tínhamos compartilhado um excesso de bagagem – certamente eu mais do que Scully. Eu tinha uma irmã desaparecida e um pai assassinado e uma mãe reclusa. Tinha pesadelos e insônia e nenhuma saída para minhas necessidades físicas, salvo alguns vídeos bons dos quais eu sempre negaria ter posse. Tinha peixe, ao invés de um cachorro. Tinha um Taurus e ternos caros ao invés de uma bicicleta suja ou um Jeep, e jeans antigos e camisetas furadas. Tinha uma face lisa ao invés de barbuda. E freqüentemente sofria de dores de cabeça ao invés de queimaduras por comer muitos cachorros-quentes em jogos...
Então, durante o que parecia ser a época mais ocupada da minha vida assombrada, conheci Lillian... Agarrei-me a esta normalidade com as duas mãos ansiosas. Eu queria ser o Sr. Comum, levando sua garota para jantar e ao cinema. E fiz exatamente isso, com Lillian. Cinemas e jogos, longos jantares sempre que podia – finais de semana no parque. Eu fiz isso – e tentei muito lembrar que, ao meu tempo, podia ser aquele cara comum. Nunca conversei sobre negócios com ela; ela sabia que eu tinha uma parceira chamada Dana Scully, e só isso. Eu realmente tentei...
Levou dois anos para eu entender que, enquanto trabalhasse nos Arquivos X, nunca seria o Sr. Comum. Que, enquanto tivesse em minha posse uma ID Federal e um Taurus e uma merda de uma Sig pendurada no meu paletó – e conhecimento de todas as coisas X... Comum era só uma invenção da minha imaginação super zelosa. Que, enquanto eu tivesse uma parceira a quem eu dava cobertura e cuja amizade significava tanto para mim – e cujas exigências do meu tempo eram legítimas e necessárias, uma relação com qualquer mulher teria que ser malditamente única.
Mas dois anos atrás, eu, com certeza, tentei.
Conheci Lillian na Starbuck, de todos os lugares. Raramente eu ia lá aos finais de semana, mas num sábado pré-outono, eu estava almejando por um latte de baunilha, e me vi parado numa fila comprida, pacientemente esperando minha vez. Como última pessoa da fila, eu estava quase perto da porta; consequentemente, quando ela subitamente abriu com uma rajada de vento de outono e a mulher que veio com isso literalmente soprou dentro dos meus braços... Fiz a coisa de cavalheiro e ajudei-a a ficar em pé enquanto ambos lutávamos para fechar a porta. O sorriso dela brilhou para mim e naquele segundo me senti mais quente do que senti em muito tempo. Ela brilhou para mim; e nunca vi ninguém brilhando antes – mas foi só o que ela fez.
"Muito obrigada! Nada como um ventinho vivo para te derrubar!" Ela tinha uma voz suave e alta; não um tom de garotinha, mas ela nunca seria capaz de cantar "Old Man River", tampouco. Eu me vi encarando-a abertamente – muito mal educado, eu percebi. Mas havia tanto tempo que uma mulher caiu em meus braços, com as circunstâncias não tendo nada a ver com os perigos do trabalho.
Vi seu cabelo castanho claro, na altura dos ombros, caindo em cascata e cortados a emoldurar seu lindo rosto. Olhos castanhos, e um sorriso muito doce. Lillian não era tão alta e nem muito magra – levemente arredondada seria uma boa maneira de descrevê-la. Lillian de repente era muito atraente para mim.
Eu ofereci a ela meu lugar na fila e ela agradeceu; fiquei atrás dela e inalei seu delicado perfume e tentei não encarar a parte de trás de seu cabelo brilhante. Quando ela se virou para olhar para mim e começou a conversar, eu participei de boa vontade. Conversamos sobre a sensação de início de inverno e a poça em frente ao Starbuck que encharcou nossos pés, e como ultimamente os preços dos combustíveis alcançaram níveis estratosféricos. Ela fez o pedido dela primeiro e achou uma mesa; quando paguei pelo meu pedido e me virei, todas as mesas estavam ocupadas e percebi que teria que beber e dirigir, quando a voz suave dela falou de uma mesa lateral com vista para o estacionamento.
"Gostaria de sentar comigo?" Ela sorriu para mim e devolvi o sorriso, murmurando um agradecimento, e sentei na frente dela e bebi meu latte bem devagar, assim como ela comia seu bolo de chocolate. Trocamos nomes e profissões; o último nome dela era Maxwell e ela trabalhava como contadora numa firma de advocacia a algumas milhas do meu escritório. Ela perguntou sobre meu emprego e contei o mínimo possível – e omiti isso, também.
"Oh... Trabalho para o governo federal. Nada demais – traço perfis para o FBI." Bem, isso era meia-verdade; eu traçava perfis e trabalhava para o FBI. Lillian ficou ligeiramente impressionada e disse o quanto, enquanto eu encolhia os ombros e fazia parecer como se o trabalho que eu fazia fosse entediante e comum.
Uma hora veio e se foi antes que eu percebesse. Eu sabia que tinha que ir embora – e também sabia com repentina certeza que não queria nada mais do que vê-la novamente. Levantei e apertei a mão dela e não soltei imediatamente, enquanto a chamava para sair. Eu disse palavras que não dizia há anos a uma mulher...
"Gostaria de jantar comigo?" Palavras simples, as mais simples de fato. Homens usavam essas palavras todos os dias de suas vidas, por todo o mundo. A maioria dos homens. Fox Mulder usava-as como garantia de que quando chegasse o jantar, ou ele estaria comendo sozinho, ou trancado no escritório, ou em um quarto de motel em algum lugar, curvado sobre um laptop com sua parceira – comendo pizza fria ou comida Chinesa ruim e esperando a indigestão. E eu nunca tinha que pedir para Scully porque era sabido que, se ficássemos presos trabalhando em um caso até tarde, haveria entrega de comida de algum tipo e compartilharíamos.
"Eu adoraria, Fox."
Ela me chamou de 'Fox'. Quanto tempo fazia desde que uma mulher bonita aceitou meu convite para jantar, e me chamou de Fox? Quanto tempo fazia desde que permiti que outra mulher sequer me chamasse de Fox? Talvez fosse essa a pergunta verdadeira. Obviamente só uma mulher podia me chamar de Mulder... E de repente precisei diferenciar minha melhor amiga e um encontro em potencial. Peguei o endereço dela e fui para casa viver o resto do meu dia, até que trocasse de roupa para o jantar e pegasse Lillian.
Aquele primeiro jantar foi maravilhoso e estranho e não queria que terminasse. Lillian usou rosa claro que parecia suave e linda e muito palpável. Jantamos devagar e conversamos sobre tudo – bem, acho que ouvi mais do que falei, a princípio. Ela me contou da firma de advocacia onde ela trabalhava e o fato de que ela ficou órfã quando criança e foi criada pela avó. Contei a ela sobre meu apartamento em Arlington. Ela me contou sobre seus hobbies e sobre seu gato Mange e sobe seu desejo de infância de ser uma autora mundialmente famosa. Contei sobre meu peixe. Ela me contou, em uma noite de muita conversa, sobre alguns de seus desejos mais profundos e favoritos. E após três horas com ela revelando tudo para mim e comigo desistindo de muita coisa em troca... Finalmente contei um pouco sobre Scully.
"Sim, eu tenho uma parceira. Muitos agentes do FBI têm parceiros quando fazem serviço de campo. O nome dela é Dana Scully. Somos parceiros há mais de dois anos." Bebi um gole do meu café e esperei a reação, mas a resposta de Lillian foi educadamente curiosa.
"Aposto que é bom ter uma parceira para dividir a carga de trabalho." Ela sorriu sobre a xícara de café e suas palavras me deixaram aliviado por não ter que dizer mais do que isso... Só uma parceira chamada Dana Scully, que me dava cobertura e me mantinha na linha e equilibrado e me acalmava quando eu ficava desesperado – e que dividia pizza fria e comida chinesa ruim em motéis baratos durante alguns dos piores casos na história do FBI. Uma parceira, e uma amiga.
Eu quis saber se ela gostaria de Lillian.
E se Lillian gostaria dela... E naquele momento não havia mais nenhuma pergunta que eu pudesse fazer a esta mulher encantadora a não ser chamá-la para outro encontro – ou senão ela não se tornaria alguém importante para mim. Foi uma concessão, eu acho – depois do primeiro encontro. Eu a levei para casa após uma noite agradável, e beijei a bochecha dela à porta; virei para ir embora – e então voltei para onde ela estava parada me vendo ir embora. Dei um passo de volta até ela e me inclinei e pus uma mão sob o queixo dela, segurando-a para o beijo que plantei em seus lábios rosas. Beijei Lillian muito devagar e suavemente e ela me beijou de volta – e quando levantei minha cabeça e olhei para o rosto dela, seus olhos estavam brilhando – para mim.
Eu gostei disso. Senti falta disso; daquele olhar que uma mulher dá quando acabou de ser beijada, e seu corpo todo está suave e aberto e tudo está só... bom. Na verdade, talvez nunca tenha tido isso, não desse jeito. Só sabia que gostei disso – e queria isso. Tive um gostinho de normalidade, e se soubesse como, isso seria mais do que só um gostinho no futuro.
Tive mais do que dois anos de normalidade.
Tem sido ótimo, de verdade. Conhecer Lillian foi uma das melhores coisas na minha vida tão miserável. Ela é incrivelmente doce e educada e nunca tem nada de ruim a dizer sobre ninguém. Decidimos logo manter nossos próprios apartamentos, ambos independentes o suficiente para precisarmos do nosso próprio espaço. Desde o começo, passamos tanto tempo juntos que isso não importava.
Lillian sempre foi muito tolerante sobre minha agenda às vezes tão irregular, e as tantas vezes que tive que me afastar para um caso. Nos últimos anos fui capaz de explicar para ela um pouco do que Scully e eu temos que enfrentar no trabalho – e enquanto ela não finge entender, acho que tem um respeito saudável pelo trabalho que fazemos. Ela e Scully se encontraram frequentemente nos últimos dois anos e se dão bem.
Elas não são amigas, mas se dão bem. Honestamente, eu esperava menos e ansiava por mais. Vamos encarar – meu relacionamento com Dana Scully seria uma coisa difícil para muitas mulheres aceitarem. A primeira vez que percebi que às vezes teria que colocar minha parceira antes da minha namorada, foi alguns meses depois que começamos a namorar.
Outro caso terrível, pior do que a maioria mas não tão ruim quanto meu sentimento que teríamos que enfrentá-lo num futuro próximo; Satã na forma de um monstro de um serial killer com fetiche por cabelo e unha de suas vítimas mortas. Ele foi atrás de Scully e eu mal cheguei a tempo; mal consegui salvá-la. Donnie Pfaster foi preso e levei Scully de volta ao hotel; ela desmoronou no caminho de volta e de jeito algum a deixaria sozinha no quarto dela. As palavras trêmulas e repetidas dela de "Eu estou bem, Mulder," não adiantaram, não desta vez. Eu já sabia. Eu a segurei, violentamente trêmula ao perceber o que quase acabou com sua vida da maneira mais brutal, e pensei que estive perto de perder minha parceira e melhor amiga.
Acho que também tremi um pouco aquela noite.
Ela teve dois pesadelos; após o primeiro, desisti de tentar dormir na cadeira ao lado da cama e subi ao lado dela, encostei-me em dois travesseiros e segurei a cabeça dela no meu colo. Suas lágrimas molharam meus jeans e ela agarrou minha mão tão forte que senti como se tivesse quebrado meus dedos – mas Scully finalmente caiu no sono. Passei meus dedos pelo cabelo dela e vigiei seu sono pelo resto da noite. Era a coisa certa a se fazer, eu disse a mim mesmo. Ela fez o mesmo por mim no passado; era o que bons parceiros faziam um pelo outro. E bons amigos. Acordaríamos na manhã seguinte e
acharíamos um lugar para tomar um rápido café da manhã, e voaríamos de volta a D.C. – e deixaríamos toda essa bagunça para trás.
Nesse meio tempo, esqueci de ligar para Lillian e contar o que aconteceu, por que tive que sair da cidade quase sem avisar. Era realmente a primeira vez que acontecia, e, é claro, eu estava com raiva de mim mesmo por não ter pensado. Resolvi ligar para ela logo de manhã...
"Oi, Lilly – sou eu." Eu sorri ao tom aliviado da voz dela, vindo até mim pelo telefone.
"Fox! Fiquei tão preocupada – você está bem?" Prendi meu telefone contra o ombro e dei uma olhada em Scully; ela ainda estava dormindo. Encostei a porta do banheiro e falei baixo ao telefone.
"Estou bem, de verdade. Sinto muito não ter ligado antes – mas esta é a primeira chance que tive. Estive fora da cidade em um caso..." E tão breve quanto possível contei a ela um pouco do que aconteceu, durante o caso. Contei um pouco sobre Pfaster e seu ataque contra Scully. Lillian ficou horrorizada; até aquele momento ela não tinha percebido o quão perigoso era nosso trabalho.
"Meu Deus, Fox! Dana está bem? Aquele animal a machucou?" Lillian estava horrorizada, e com razão. Ela era contadora numa firma de advocacia velha e estável e eventos como este estavam muito longe de seu dia-a-dia, enquanto eram lugares-comuns no meu e no de Scully. Minha nova namorada era uma alma gentil e ainda um pouco inocente sobre o lado mais sórdido da existência humana... Apressei a assegurar a segurança de Scully.
"Ela vai ficar bem, Lilly. Ela está fragilizada e chocada, mas ele não teve chance de fazer nada mais do que isso. Cheguei a tempo." Suspirei e cocei meus olhos cansados, pensando de repente em todas as vezes que 'cheguei a tempo' – e na vez em que não cheguei. E como se Lillian pudesse ler minha mente, sua voz ressonou no meu ouvido, num tom de simpatia.
"Há muito mais no seu trabalho do que fui levada a acreditar, não é, Fox? Tenho uma sensação, de algum modo – que vocês dois estão em mais perigo, a um nível básico, do que disseram. Acho que supus que agentes do FBI passam a maioria de seu tempo investigando em escritórios seguros." Havia uma resignação nas palavras dela e eu suspirei novamente, sabendo que este era um ponto crítico para nós. Queria que esse relacionamento desse certo, queria mesmo. Afundei na beira da banheira e tentei explicar mais.
"Fazemos, sim, bastante serviço burocrático, e investigamos do escritório mesmo, Lillian. Fazemos muito isso. Mas Scully e eu estamos designados para um projeto especial que lida com casos inexplicáveis, os que ninguém quer resolver ou entender. Lidamos com um tipo de perigo que os outros agentes não dariam conta – e algumas vezes somos pegos bem no meio disso, como com este bastardo do Pfaster. Ambos saímos feridos, algumas vezes. Faz parte do trabalho. Somos bons no que fazemos e é assim porque trabalhamos juntos e confiamos um no outro e somos parceiros leais." Parei para tomar fôlego, de repente me dando conta que o conhecimento e aceitação das minhas próximas palavras ditariam se teríamos ou não algum tipo de futuro como casal.
"Olhe... haverá vezes em que um caso aparecerá e Scully e eu teremos só que nos levantar e ir. Passamos muito tempo juntos na estrada, mais do que em casa. Por alguma razão, tivemos uma brecha entre os casos, o que acontece e é raro – e é por isso que tenho estado bastante no escritório nos últimos dois meses. E as poucas tocaias e casos nos quais estivemos envolvidos, não nos tiraram da cidade e é por isso que parecemos agentes de escritório para você. Mas garanto que isso não é normal para nós."
"Bem, então... o que é 'normal' para vocês?" Eu podia ver que Lillian estava tentando entender. Ergui minha mão até a porta do banheiro e fechei completamente, antes de responder.
"Pfaster é normal para nós, Lillian. Mutantes como Pfaster são o que lidamos, na maioria do tempo. Nossa divisão é chamada de Arquivo X, como em 'inexplicado'. E infelizmente, o lixo da sociedade às vezes pode ser a cereja do bolo, na nossa linha de trabalho. Não vou suavizar o que fazemos, Lillian – e não negarei que haverá vezes, como esta noite... em que Scully vem em primeiro lugar. Ela é minha parceira e me dá cobertura, assim como faço por ela. Ela já salvou minha vida muitas vezes – na verdade, mais do que posso contar – e quando ela precisa de mim, estou lá. Ela faz o mesmo por mim."
Minha voz sumiu, quando o silêncio do outro lado da linha ameaçou me subjugar. Eu havia conseguido fazê-la compreender e aceitar? Esperava realmente que sim, pois era muito importante para mim que Lillian e Scully entendessem seus lugares na minha vida – e somente o fato de eu oferecer a Lillian um pedaço de mim falava volumes sobre o rumo que meu romance com ela estava tomando – e só faziam alguns meses.
"Fox... está tudo bem. Não, eu não compreendo tudo, mas acho que a lealdade com sua parceira é admirável e deve ser mantida. Não vou a lugar algum... eu prometo..."
Suas palavras me fizeram sorrir em alívio. Ela entenderia; isso daria certo.
Apesar de encarar monstros com Pfaster ter se tornado lugar-comum para Scully e eu, e não me assustarem... o dia em que Scully desmaiou no meu apartamento, bem na minha frente, e de Lillian... pensei que ficaria louco. Naquele dia assustador, eu sabia que estava ruim, quando vi o sangue pingando do nariz dela, e entrei em pânico. Segurando seu corpo mole em meus braços; chamando por ela, então gritando para Lillian ligar para a emergência, experimentei o pior tipo de medo, aquele dia.
Scully tem estado quieta ultimamente; mais cansada do que de costume e menos tentada a permanecer ao fim do dia, quando nosso trabalho acabava e costumávamos sentar no escritório e conversar um pouco antes de irmos embora. Mas tivemos um desentendimento – e mais de um mês depois, ainda pisávamos com cuidado perto um do outro. Talvez, durante aquele tempo, ela pensou em sua saúde e se preocupou com tantas coisas, que se recusou a compartilhar comigo. Honestamente, não sei. Às vezes, Scully era mais difícil de ser lida do que qualquer pessoa que conheço. Ela ficava sensível com coisas que eu não compreendia. E ficaria fria a ponto de quase congelar. Quando isso acontecia, ela rebatia minhas teorias com um desprezo que mal podia esconder, o que me irritava e me fazia ainda mais determinado a bancar o babaca, só para provocá-la. Às vezes, eu descobria o motivo, de imediato – e algumas vezes, não me ocorria até meses depois.
Esta foi uma das vezes em que não soube de nada, até ser quase tarde demais...
Mas, voltando ao desentendimento. Acho que deixei transparecer no meu comportamento e na perspectiva geral da vida, que estava feliz, pela primeira vez em um tempo extremamente longo. Eu tinha uma namorada e a vida estava muito boa. Lillian era maravilhosa, carinhosa e fácil de conviver e tão doce... Estávamos juntos há dois anos e foi o relacionamento amoroso mais longo que tive. Estava orgulhoso disso, e, apesar de não exibir meus relacionamentos, tampouco ficava quieto perto de Scully. Como disse, ela e Lillian se encontraram várias vezes. Eu gostava de estar feliz – e queria nada mais do que Scully fosse feliz também – achar alguém – como eu tinha feito. Mas ela ainda não tinha encontrado – e se a solidão dela a fazia fria ou chateada, tentei simpatizar com isso, por eu mesmo ter passado por aquilo.
Na manhã que cheguei ao escritório, após uma ótima noite com Lillian, e descobri que deveria tirar uma semana de férias, ou perder oito semanas de férias vencidas... Força do hábito me fez lutar contra isso. Não queria me afastar agora; tinha um caso para trabalhar. Podia sentir que as coisas não estavam certas entre Scully e eu, mas não sabia por que, e não queria me afastar de nossa parceria, tampouco. Eu ficava preocupado e aborrecido, apesar de não demonstrar. Finalmente, desisti quando percebi que poderia usar uma semana longe disso tudo, com Lillian, se ela conseguisse ir, também.
E por que diabos não?
Então, levei Lillian comigo para um lugar em Graceland e nos divertimos muito, mas me peguei pensando em Scully na Philadelphia, sozinha, cuidado de um caso; preocupado com ela e com o caso... bem, mais com ela. A estranha atitude que ela teve antes de eu sair, e o tom educado, mas frio, que ela usou com Lillian, quando ela foi me pegar. É verdade que Scully nunca foi muito efusiva com Lillian, mas até ali, ela havia sido, pelo menos, educada.
Liguei para Scully umas duas vezes enquanto estava fora e pude ouvir pela voz dela que algo estava errado. Ela tentou esconder, mas eu podia sentir, e deixei aqueles sentimentos se meterem na minha diversão em compartilhar meu lugar especial com Lillian. Acho que Lillian sentia isso também – mas ela nunca perguntou... E quando ouvi sobre Ed Jerse, aquilo me balançou. Nunca me senti tão bravo, no que percebi ser um descuido de Scully com si mesma e com sua própria segurança. Nunca ter perguntado a ela por que ela esteve tão perto do limite que resolveu caminhar no lado selvagem com um estranho perigosamente desequilibrado, pareceu ser uma coisa boa de fazer. Eu só sabia que estava magoado, profundamente magoado – e o porquê disso me confundiu muito. E é claro no meu modo diplomático e inimitável, fui 'educado' o suficiente para deixá-la saber disso.
"Tudo isso porque eu não te dei uma mesa...?" Sim, eu fui burro o suficiente para fazer aquela pergunta, após meu retorno das férias e o dela do hospital – e a dor que a minha indiferença causou estava estampada em seu rosto. E ela estava completamente certa; naquele momento tudo era sobre ela e nada sobre mim. Mas eu ainda não sabia disso – e acho que Scully estava só começando a saber.
Quando ela finalmente soube com certeza; tão certa quanto ela poderia estar... Sua revelação me chocou profundamente e pela primeira vez na vida eu tive medo, muito medo.
"Scully! Jesus! SCULLY!" Eu a segurei, pálida e inanimada em minhas mãos; os dedos dela estavam gelados. Lillian correu para ligar para a emergência e eu segurei minha parceira em meus braços e tentei acordá-la; tentei estancar o sangramento constante que saía do seu nariz. Eu estava em pânico, tentando imaginar o que havia de errado. Ela estivera muito pálida e trêmula o dia todo; finalmente a convenci a ir para casa mais cedo, pensando que talvez fosse um resfriado. E então deixei Lillian entrar e tinha acabado de beijá-la quando Scully bateu na porta e eu abri para ver sua face pálida olhando para mim, quase oscilando ali de pé. Ela tinha uma pasta grossa de arquivos nas mãos e a oferecia para mim, parada na entrada.
"Mulder, você deixou isso na sua mesa..." Isso foi tudo que ela disse antes de rolar os olhos e cair para frente.
