ÚLTIMO DIA DE AIOROS

Por Vane

Esta história integra o "Ciclo Saint Seiya".

"Saint Seiya" pertence a Masami Kurumada, Shueisha, Akita Shoten e Toei Animation.

CAPÍTULO 2



Aioros foi ao seu quarto, pensando em pôr um pouco de ordem em seu armário. Ele vinha adiando esta tarefa por semanas, e dois dias antes prometera a si mesmo que naquele domingo ele finalmente cuidaria disso.

Abriu o armário e começou a tantas vezes adiada arrumação. "Ainda bem que o Aioria é bastante organizado", pensou, com um suspiro. "Se eu tivesse que arrumar outro quarto como este aqui..." Entretanto, logo sua mente foi tomada por outros pensamentos. "Como eles devem estar agora? Será que estão bem?"

Sem Aioria por perto, e tendo de executar uma tarefa tediosa, tornava-se impossível para Aioros não pensar "neles". Seus amigos. O único deles que não lhe preocupava era Shura, pois sabia exatamente onde ele estava ("Na Casa de Capricórnio") e como ("Se não veio me ver até agora, é porque deve ter decidido dormir até mais tarde hoje").

Saga, por outro lado, preocupava-o e muito. Ele havia desaparecido vários meses antes, e por mais que o procurassem, não conseguiam encontrar uma pista sequer de seu paradeiro. Shura e Aioros foram as duas pessoas mais diretamente afetadas por este desaparecimento.

Aioros e Saga haviam sido companheiros de treinamento, e sua amizade vinha desde aquela época. Quando souberam, poucas semanas após terem obtido suas armaduras, que havia chegado ao Santuário mais um cavaleiro de ouro, e que este, assim como eles, também tinha quatorze anos, logo trataram de se apresentar ao "espanhol", como costumavam se referir a ele no começo. Em pouco tempo, o novo companheiro passou a ser chamado por seu nome, Shura, e tornou-se um grande e querido amigo dos cavaleiros de Gêmeos e Sagitário. Os três estavam quase sempre juntos.

Saga era sem dúvida bem mais sério do que seus dois amigos. Shura e Aioros achavam que Saga era infeliz, e faziam todo o possível para animá-lo; porém não conseguiam fazer com que seu amigo mudasse. Os jovens cavaleiros de Sagitário e Capricórnio acreditavam que era muito fácil descobrir se uma pessoa era feliz ou não: bastaria observar seu semblante durante alguns dias. Se esta pessoa, na maior parte do tempo, exibisse um sorriso em seu rosto, isto seria uma prova da suposta felicidade desta pessoa. Uma vez que Saga sorria pouco, e ria menos ainda, Shura e Aioros julgavam que era preciso "pôr mais sorrisos em seu rosto"; quando atingissem este objetivo, Saga automaticamente ter-se-ia convertido num jovem feliz. Às vezes, Shura perguntava a Aioros, em tom quase acusador, se havia acontecido "alguma coisa" a Saga antes de sua chegada ao Santuário, algo que Aioros pudesse estar escondendo dele. Ele achava que Aioros tinha a obrigação de saber a razão da "infelicidade" de Saga, já que o conhecia havia mais tempo. O próprio Aioros por vezes sentia-se inquieto, já que ele realmente não fazia idéia do motivo pelo qual Saga não era sorridente como Shura e ele. Acreditava que um bom amigo tinha o dever de saber estas coisas e que, consequentemente, ele estava falhando no cumprimento do seu dever para com Saga.

Shura e Aioros, ainda muito novos e imaturos, simplesmente não compreendiam que "seriedade" e "tristeza" eram duas coisas bem distintas. Em algumas ocasiões, Saga chegava a se incomodar um pouco com a insistência de seus amigos em tentar "alegrá-lo". Ele queria provar-lhes que o fato de ser diferente deles não significava que não fosse feliz. Porém, os outros dois jovens pensavam que Saga estava apenas sendo gentil e que não queria preocupá-los.

Aioros não pôde evitar uma risadinha ao pensar nisto. "Coitado do Saga! Nós enchíamos a paciência dele!..." Mas a risada se desvaneceu quando ele se lembrou da época em que a infelicidade de Saga deixara de ser uma simples hipótese e se transformara num fato, de causas conhecidas.

Kanon nunca se integrara ao grupo deles. E deixava claro que não tinha o menor interesse nisso, pois fazia questão de cultivar amizades diferentes das de Saga. Ele era bem menos dedicado aos treinamentos do que seu irmão gêmeo, e por isso ainda não havia conseguido obter sua armadura. Aioros tinha o costume de comparar o relacionamento entre os gêmeos com aquele que havia entre ele e Aioria: ele estava sempre próximo ao seu irmão, ao passo que Saga e Kanon passavam a maior parte do tempo afastados um do outro; Aioria e ele se abraçavam, Saga e Kanon nunca o faziam. Deste modo, Aioros deduziu que os gêmeos não se amavam de verdade. E uma atitude radical tomada por Saga parecera confirmar sua tese.

O cavaleiro de Gêmeos estava agindo de forma estranha havia mais de uma semana. Shura e Aioros tinham certeza de que havia algo de errado, pois seu amigo parecia estar evitando sua companhia, e quando os encontrava, simplesmente não prestava atenção ao que eles diziam. Seu olhar era vago, sua fisionomia era quase inexpressiva, bem diferente do semblante sério, porém sereno, que ele normalmente apresentava. Isto causou uma grande preocupação aos dois amigos de Saga, sobretudo porque ele se negava a contar-lhes qual era seu problema.

Um dia, Aioros e Shura estavam numa das saletas da casa de Sagitário, sentados num sofá (o qual Shura dizia que deveria ser "o mais feio de todo o Santuário"), conversando justamente sobre Saga, quando este chegou e, sem cumprimentá-los, aproximou-se e sentou-se no canto direito, ao lado de Shura. Ele permaneceu em silêncio durante alguns minutos. Seus amigos perceberam que ele torcia as mãos e mordia o lábio inferior nervosamente, e que a inexpressividade dos dias anteriores fora substituída por uma expressão inicialmente apreensiva. Pouco a pouco, esta apreensão transformou-se nitidamente em aflição.

Aioros e Shura observavam Saga ansiosamente e trocavam entre si olhares angustiados; eles precisavam saber o que se passava com seu amigo. Ainda assim, desta vez nenhum dos dois fez qualquer pergunta. Numa espécie de acordo tácito, ambos aguardaram que Saga tomasse a iniciativa de falar.

Por fim, ouviram-no dizer com voz fraca:

- Tentei matar meu irmão.

Aioros e Shura permaneceram mudos, devido ao choque que estas palavras lhes causaram. Saga, com o olhar fixo em algum ponto distante, sem encarar em nenhum momento seus companheiros, finalmente confessou tudo: a descoberta dos planos de Kanon para tomar o poder no Santuário, sua decisão de puni-lo, aprisionando-o no Cabo Sunion, e a constatação, feita na manhã daquele dia, de que Kanon já não estava lá.

Depois Saga calou-se novamente. Os três ainda permaneceram em silêncio por mais algum tempo. Subitamente, Aioros ergueu-se e pôs-se a berrar com Saga:

- Ele era seu irmão! Como pôde fazer isso? Ele era seu irmão! IRMÃO!

Shura assustou-se ao ver a quietude do ambiente ser quebrada daquele modo. Havia horror e incredulidade no semblante de Aioros, que estava parado diante de Saga. Este finalmente fitou Aioros, e Shura constatou que seu olhar estava carregado de medo. Não de Aioros, mas de si mesmo, constatou o cavaleiro de Capricórnio.

Shura levantou-se lentamente, aproximou-se de Aioros e pôs uma de suas mãos no ombro de seu amigo, pedindo-lhe que tentasse se acalmar. Porém, Aioros voltou a gritar:

- Eu não posso ficar calmo, Shura! Ele tentou matar o próprio irmão!

- Ele agiu corretamente - replicou Shura.

- Corretamente? - perguntou Aioros, chocado - Você acha que é correto fazer uma coisa dessas com um irmão? Você acha que é correto...

- Chega, Aioros! Pare de gritar! Controle-se! - disse Shura, num tom muito severo, sacudindo levemente o ombro de Aioros - Sim, ele está certo. Se Kanon planejava atacar o Mestre, então Saga fez apenas o que qualquer cavaleiro realmente leal teria feito em seu lugar.

- Não! Eu não aceito isso! Ninguém tem o direito de fazer uma coisa dessas com o próprio irmão!

- E ninguém tem o direito de atentar contra a vida do nosso Mestre, que é o representante da nossa deusa! - Shura pôs bastante ênfase nesta última palavra.

Aioros pareceu confuso por alguns instantes. Depois olhou para Saga, acusadoramente. Shura pensou que ele começaria a gritar novamente, e pôs mais pressão no ombro de Aioros, como se tentasse contê-lo.

- Saga... - murmurou o cavaleiro de Sagitário, em desespero; sua face agora estava banhada em lágrimas. Saga, ainda sentado e em silêncio, também chorava. Seu olhar parecia conter um apelo. Ele precisava de ajuda, disto Shura estava certo.

- Saga, vá embora daqui. Por favor... você também, Shura. Vão embora, os dois - sussurrou Aioros. Não havia agressividade em sua voz.

Shura retirou a mão de seu ombro e, dirigindo-se a Saga, ajudou-o a se levantar. O cavaleiro de Gêmeos parecia estar muito fragilizado. Por isto, Shura o amparou enquanto os dois caminhavam lentamente, deixando a nona casa zodiacal.

Aioros permaneceu de pé durante algum tempo, imóvel. Depois, sentindo-se um pouco tonto e cansado, deitou-se vagarosamente no sofá. Ele sabia que aquele cansaço que sentia não era físico, mas sim emocional. Decididamente, ele não estava preparado para ouvir uma revelação tão grave quanto aquela feita por Saga.

Ele era uma pessoa correta, e estimava seus amigos porque eles também eram corretos. Mesmo achando que Saga não amava Kanon, Aioros jamais poderia supor que um dia seu amigo se transformaria num fratricida. Este fato significava que Saga havia cruzado uma fronteira perigosíssima, e esta era a causa do desespero de Aioros: saber que um de seus melhores amigos havia cometido uma falta extremamente grave, que estava decaindo moralmente, e não poder fazer nada, pois aquele já era um fato consumado e que dificilmente poderia ser reparado.

Se ao menos ele tivesse podido fazer algo para evitar tudo aquilo... mas como? Shura e ele raramente viam Kanon, e por isso nem se haviam dado conta de seu desaparecimento.

"Se tivéssemos percebido a tempo, poderíamos tê-lo libertado, e agora Kanon estaria a salvo, e tudo estaria bem. Mas Saga disse que Kanon não estava mais lá... então isso quer dizer que ele ainda está vivo! Ele deve ter fugido! Se tivesse morrido, Saga teria visto o corpo dele. Então ainda existe uma chance de salvar a alma de Saga!", pensou Aioros, tentando animar-se.

Entretanto, logo em seguida a angústia tomou conta dele novamente. "O fato de Kanon ainda estar vivo não apaga o fato de que Saga o tinha condenado à morte", ponderou Aioros, com grande pesar.

De repente, começou a desejar intensamente que seus pais estivessem ali, com ele. Eles eram seus pontos de referência; saberiam guiá-lo e confortá-lo nesta situação tão difícil. "Mãe... pai...", foram as palavras que ele murmurou várias vezes, entre soluços. "Queria tanto que vocês estivessem aqui comigo e com... Aioria!"

Aioros teve um sobressalto ao pensar em seu irmão. Erguendo-se apressadamente, ele começou a correr, deixando a sala onde estava e dirigindo-se às escadas que levavam ao segundo andar da casa. Subiu-as e correu até o quarto de seu irmão, no qual ele entrou sem nem mesmo bater à porta. Encontrou Aioria sentado diante da escrivaninha, ocupado com alguns exercícios teóricos sobre a cosmo-energia.

A criança se assustou com a entrada súbita de Aioros, e mais ainda ao ver a expressão desesperada e as lágrimas na face do cavaleiro de Sagitário:

- Aioros, por que você está chorando?

Sem responder, Aioros olhou para seu irmão por alguns instantes. Depois, aproximando-se dele, ajoelhou-se ao lado da cadeira onde Aioria estava sentado e abraçou-o, ao mesmo tempo em que o afagava ternamente. Seria impossível não amar seu irmão. Seria impossível para Aioros tentar fazer algum mal a ele; isto era inconcebível. Por que Saga agira daquela forma? Kanon e ele eram irmãos, eles tinham que se amar! Ainda que Kanon tivesse as piores intenções, como Shura observara.

Ao pensar nisto, Aioros sentiu um arrepio. De fato, o que Kanon planejava fazer era extremamente grave. Como ele reagiria se Aioria, já crescido, tentasse fazer algo parecido?

- Não!... - disse Aioros a si mesmo, apoiando seu rosto no peito de Aioria, que se limitava a observá-lo, sem compreender o que se passava. Este pensamento era doloroso demais; Aioria era puro, era inocente, tinha um bom coração, e Aioros achava que ele sempre seria assim. Jamais pensara na possibilidade de que um dia seu irmãozinho pudesse decair... como ocorrera com Saga e Kanon. Mas se um dia isto acontecesse, o que ele faria? Será que um dia ele teria que agir como seu amigo?

O jovem cavaleiro sentiu uma imensa aflição. Fechou seus olhos, apertando as pálpebras com força, tentando afastar as imagens que estavam se formando em sua mente. Ele não queria pensar em possibilidades tão nefastas; ele não poderia suportar isto.

Por fim, levantou o rosto e olhou novamente para a face infantil de seu irmão. Isto foi o suficiente para que conseguisse se acalmar um pouco. Aioria era bondoso por natureza, e os dois tinham um relacionamento extremamente harmonioso. Aioros cuidaria para que ele se mantivesse sempre no caminho certo, e sabia que não seria difícil fazê-lo. Não, não havia o que temer. Aioria estava a salvo. Ele não se corromperia. Nunca.

Aioros pôs-se de pé e beijou a fronte de seu irmão afetuosamente. Após afagá-lo mais um pouco, disse em voz baixa que estaria em seu quarto, caso Aioria precisasse dele.

Aquele mesmo quarto onde ele se encontrava no dia presente. Perdido em todas estas lembranças, Aioros acabara se esquecendo de prosseguir com a arrumação de seu armário, e continuou a permitir que o passado revivesse em sua mente.

Olhou para sua cama de solteiro, na qual estava sentado no momento, e lembrou-se de que, naquele triste dia, após sair do quarto de seu irmão, ele ficara deitado aí por um bom tempo. De repente, vira a porta se abrir. Era Aioria, que entrava quieto em seu quarto.

A criança fechara a porta, tentando não fazer barulho; tinha percebido que seu irmão mais velho estava muito nervoso, e não queria fazer nada que pudesse sobressaltá-lo. Aproximara-se cuidadosamente da cama, onde jazia Aioros. Notando que este ainda estava acordado, Aioria pegara uma cadeira que estava encostada na parede à esquerda, levara-a para perto da cama e sentara-se, observando Aioros em silêncio, querendo demonstrar que, já que não sabia a causa da aflição de seu irmão, ele não podia fazer nada, a não ser oferecer-lhe sua companhia e velar seu sono.

"Ele veio cuidar de mim... como quando nosso pais morreram", pensara Aioros, comovido, e não sem sentir uma certa culpa por estar mais uma vez forçando uma inversão de papéis entre Aioria e ele. Ainda assim, resolvera desfrutar a tranquilidade que a presença de seu irmãozinho lhe proporcionava, e por fim adormecera.

Depois daquele dia, a amizade entre Aioros e Saga praticamente deixara de existir. Eles evitavam a presença um do outro; Aioros, por não suportar a idéia de que uma pessoa a quem ele sempre admirara havia se manchado moralmente, e Saga, porque sentia vergonha de si mesmo e estava ciente da opinião de Aioros sobre seu ato. Às vezes, eles se observavam mutuamente, à distância. Saga parecia aguardar algum sinal ou gesto que lhe indicasse que sua aproximação não seria rejeitada pelo cavaleiro de Sagitário. Este, por sua vez, percebia a ansiedade e a angústia no semblante do jovem de longos cabelos azuis, mas logo desviava o olhar, e seu rosto assumia uma expressão severa, deixando claro que, para ele, Saga não merecia perdão.

A amizade entre Aioros e Shura também fora abalada, já que o espanhol insistia em dizer que Saga agira corretamente, algo que Aioros não estava disposto a admitir. Ele compreendia os argumentos de seu amigo; sabia que quando se tratava de defender os interesses de Athena, um cavaleiro deveria se esquecer de si mesmo e de todos que lhe fossem caros, pois sua deusa estava acima de tudo. Todavia, o modo contundente como Shura expunha seus pontos de vista deixava Aioros nervoso, e levava-o a abreviar ao máximo seus encontros com o amigo estrangeiro, o qual acreditava ter o dever de mostrar-lhe o "caminho certo".

"Certo"... Aioros já não suportava mais pensar nesta palavra e em seu verdadeiro significado. Sentia-se mental e emocionalmente exausto. Em sua mente, o incessante embate entre seus valores morais e seus deveres como cavaleiro lhe causava um grande desgaste. Antes, ele pensava que estes elementos, que compunham o conjunto de suas crenças pessoais, estariam sempre em harmonia. Mas após a revelação de Saga... o equilíbrio se extinguira. Aioros tentava recuperá-lo, mas suas cada vez mais frequentes discussões com Shura não o ajudavam em nada.

Entretanto, os cavaleiros de Sagitário e Capricórnio logo esqueceram suas desavenças. O que voltou a uni-los foi o desaparecimento de Saga, algumas semanas após sua revelação de que tentara matar Kanon.

Numa ensolarada tarde de quinta-feira, Shura, trajando sua armadura, chegou apressado à casa de Sagitário. Chamou por Aioros, que o recepcionou com uma certa frieza. Ignorando este fato, Shura disse abruptamente:

- Saga sumiu há dois dias.

Aioros demorou um pouco a reagir, sua má vontade inicial substituída pelo espanto. Shura, tomando assento numa cadeira, prosseguiu:

- Ele havia me dito que iria... procurar Kanon - hesitou ao dizê-lo, pensando no quanto a simples menção deste nome melindrava seu amigo. - E era o que ele vinha fazendo nas últimas semanas: saía pela manhã bem cedo e normalmente voltava muito tarde, desanimado por não conseguir reencontrar o irmão...

Shura se interrompeu ao ver a expressão algo irônica de Aioros, que permanecia de pé, próximo à janela da sala onde estavam. Ele sabia que o cavaleiro de Sagitário não acreditava no arrependimento de Saga. Não obstante, resolveu continuar:

- O que quero dizer é que, ainda que demorasse, todas as noites Saga regressava ao Santuário. Porém, há dois dias ele saiu no horário de costume, e dessa vez ele não voltou! Eu estou preocupado. Já pedi permissão ao Mestre para me encarregar pessoalmente das buscas, e ele concordou. Agora vim aqui para pedir sua ajuda.

- Não sei por que está tão preocupado, Shura. Provavelmente Saga conseguiu encontrar Kanon, e dessa vez se certificou de que ele não conseguiria sobreviver, e agora deve estar ocupado escondendo o corpo do irmão, ou inventando um álibi, ou fugindo... - disse Aioros sarcasticamente.

- Chega, Aioros! - gritou Shura, levantando-se. O sarcasmo de seu amigo o havia surpreendido desagradavelmente. Em seguida, tentando conter sua irritação, ele se aproximou do guardião da nona casa zodiacal:

- Aioros, por favor, ajude-me. Se ainda me considera um amigo, ajude-me, por favor! E caso me considere seu ex-amigo, bem, mesmo assim acho que você deveria pensar um pouco... sua amizade sempre foi muito importante para mim, e para Saga também. Será que em nome dessa antiga amizade, a qual ainda espero que volte a ser como antes, você não poderia esquecer o que houve e me ajudar, mesmo que seja só por algumas horas?

O emotivo cavaleiro de Sagitário não pôde mais oferecer resistência ao ouvir o apelo de Shura, e assentiu. Compreendendo que eles deveriam buscar Saga fora do Santuário, e que certamente era por isso que Shura trajava a armadura de Capricórnio, Aioros rapidamente pôs sua própria armadura, e partiu ao lado do jovem espanhol.

Passaram-se horas, depois dias, semanas e meses. Por mais que se esforçassem, e mesmo contando com a ajuda de soldados e espiões do Santuário, Shura e Aioros não lograram encontrar Saga. E o tempo, somado às preocupações e incertezas causadas pelo desaparecimento deste cavaleiro, fez com que Aioros se arrependesse por ter se afastado de seus amigos. Mas pelo menos ele pudera se reaproximar de Shura.

Os dois tentavam juntos imaginar o que poderia ter acontecido ao cavaleiro de ouro de Gêmeos. Achavam possível que ele tivesse sido sequestrado e estivesse aprisionado em outro santuário. Esta era sua hipótese preferida... porque era a menos dolorosa. A única que lhes deixava alguma esperança. A única que não significava "morte".

No fundo, eles sabiam que estavam se enganando. Sabiam que o mais provável era que Saga tivesse sido atacado e morto por algum dos inúmeros inimigos de Athena. Porém, recusavam-se a admitir tal possibilidade, alegando que um cavaleiro de ouro, mesmo sendo muito jovem e inexperiente, não seria derrotado tão facilmente. Ainda assim, ambos tinham maus pressentimentos. Especialmente Aioros.

E suas angústias redobraram após a conversa que teve com Shura, no dia em que Saga teria sido o último dos três a completar dezoito anos.

Os dois jovens estavam na cozinha da casa de Capricórnio. Haviam acabado de jantar, e enquanto Aioros lavava a louça, Shura a enxugava e guardava. Eles haviam passado toda a noite falando sobre amenidades, tentando não lembrar o aniversário de seu amigo desaparecido, até que Shura não mais pôde se conter e disse o que pensava:

- Nunca mais veremos Saga.

Aioros quase deixou cair o prato que segurava no momento em que ouviu esta frase. Ele sabia que em alguma ocasião Shura acabaria falando algo sobre Saga, mas mesmo assim fora pego de surpresa. Pensou em dizer algo que pudesse desviar a atenção de seu amigo deste assunto, mas o cavaleiro de Capricórnio já não podia mais ser detido:

- Vamos encarar os fatos, Aioros. Hoje Saga deveria ter feito dezoito anos... mas nós dois sabemos que isto não aconteceu, porque ele já deve estar morto. Ele deveria estar distraído, procurando pistas que o ajudassem a encontrar Kanon, e algum de nossos inimigos deve ter se aproveitado disso para atacá-lo e matá-lo. E não podemos descartar a hipótese de que o inimigo em questão seja o próprio Kanon. Afinal de contas, ele também está desaparecido. E no caso dele, isso significa que deve estar vivo, já que, se tivesse morrido no Cabo Sunion, o corpo dele teria sido encontrado lá. Ele pode ter abordado Saga e querido se vingar. E ainda há mais uma hipótese: que nosso amigo tenha se matado. Pois mesmo que você não acredite, ele sentia um imenso remorso pelo que havia feito a Kanon, e eu sei que esse sentimento estava acabando com ele! Eu sei muito bem disso, porque eu fiquei ao lado dele!

As últimas frases foram proferidas em tom claramente acusador. Mas se Shura soubesse a dor que elas causariam a Aioros, teria ficado calado.

Nos minutos seguintes, os dois amigos continuaram executando suas tarefas, em silêncio. O guardião da casa de Capricórnio estava nitidamente aliviado por enfim ter se permitido desabafar. No entanto, o jovem grego ao seu lado sentia-se desolado. Depois de muito hesitar, por fim murmurou:

- Mas se ele tivesse se matado, acho que teríamos encontrado o corpo dele...

Shura suspirou e retorquiu:

- Também pensei nisso. Mas aí me ocorreu outra possibilidade: se alguém tiver tentado atacá-lo, ele pode não ter tentado se defender, entende? Como ele estava muito deprimido, ele pode ter achado que merecia morrer... principalmente se a pessoa que o atacou foi o próprio irmão dele. Já que ele mesmo quase havia causado a morte do Kanon, poderia considerar justo que este se vingasse. Ou pode não ter querido revidar os ataques dele para não correr o risco de matá-lo de verdade.

Notando o grande pesar no semblante e no cosmo de Aioros, Shura rapidamente acrescentou:

- Aioros, eu não quero que pense que eu te culpo pelo que houve. Quero dizer, às vezes, quando me lembro das suas atitudes para com Saga, eu confesso que fico com um pouco de raiva de você. Mas isso não importa. O que temos que fazer é permanecer unidos, e continuar procurando nosso amigo. Apesar de tudo o que eu disse, ainda não perdi a fé, e acredito que os deuses irão nos ajudar de alguma forma.

Aioros assentiu fracamente. Shura lhe deu alguns tapinhas nas costas, tentando animá-lo, sem sucesso.

Poucas semanas depois, os dois cavaleiros foram incumbidos pelo Mestre de cuidar da fase de pré-treinamento de um dos novos grupos de aprendizes que haviam chegado ao Santuário. Com isso, já não lhes restava muito tempo para prosseguir com as buscas. Naquele mesmo ano, a deusa Athena voltou à Terra. Estes dois fatos somados fizeram com que aqueles jovens recuperassem em parte a alegria que costumava caracterizá-los, e com que pouco a pouco se conformassem em nunca mais rever seu amigo. Sem embargo, ainda se entristeciam ao se lembrar do cavaleiro de Gêmeos.

E tristeza era o que Aioros sentia no presente. Com dificuldade, conseguiu interromper esta seqüência de pensamentos melancólicos e levantou-se de sua cama, disposto a finalmente prosseguir com a arrumação de seu armário, tarefa da qual, imerso em suas recordações, havia se descuidado.


Capítulo escrito em janeiro de 2003

NOTA DA AUTORA: Agradeço à minha boa amiga Ducky por ter me alertado sobre a necessidade de acrescentar mais detalhes a esta história. Isto fez com que eu mudasse meu modo de escrever, e espero que os leitores fiquem satisfeitos com o resultado.