Capítulo 2- "O mundo segundo James Ford"
Domingo de sol. James havia acordado de muito bom humor naquela manhã. Abriu a janela de seu quarto e respirou o ar puro da maresia. Emily, sua esposa, remexeu-se inquieta na cama e colocou o travesseiro no rosto, resmungando.
- Hey baby, hora de acordar, sua preguiçosa!- brincou James, tirando o travesseiro do rosto dela.
- Ai não amor!- ela queixou-se. – Fecha essa janela, tô morrendo de sono!
- Que sono o quê! Emily, você se esqueceu?
- Me esqueci do que, James?- ela indagou de olhos fechados.
- Que hoje nós vamos pescar!- ele respondeu, empolgado.
- Pescar?- ela repetiu, sentando-se na cama e esfregando os olhos. – Oh James, me desculpe, eu esqueci mesmo, completamente!
- Tudo bem querida, estará perdoada se levantar dessa cama agora mesmo, tomar um banho e descer pra tomar café. Temos que ir logo antes que o sol fique muito quente.
Ela balançou a cabeça negativamente:
- James, me desculpe querido, mas não vou poder ir pescar com você hoje.
- E por que?
- Porque como tinha me esquecido, acabei marcando de sair pra fazer compras com a Mary e as minhas outras ê sabe amor, eu a estou ajudando com o enxoval do casamento dela.
- Mas Emily, vocês podem sair pra fazer isso amanhã, hoje é domingo, eu estou de folga e quero passar um tempo com a minha mulher.
- Amor, nós estamos o tempo todo juntos, jantamos juntos ontem à noite e foi maravilhoso.
- Não importa, quero ficar com você hoje de novo, por que, eu não posso?
Emily respirou fundo:
- James, baby, não vamos brigar por causa disso, hã? Você chama o Jack ou o Michael pra ir com você pescar, eu saio com a Mary e as garotas e à noite pegamos um cinema, o que acha?
Ele ficou em silêncio, pensando.
- Por favor, amor! Podemos ir pescar na sua próxima folga.
- Está bem, Emily. Saia com suas amigas, vamos ao cinema à noite!
Sorrindo, Emily levantou da cama e pulou em cima dele que a levantou do chão.
- Por isso que eu te amo James, você é tão lindo, tão compreensivo!- ela começou a encher o rosto dele de beijinhos que abrandaram o seu coração.
Depois do café da manhã, James apressou-se em ligar para Jack. O amigo atendeu ao terceiro toque do celular.
- Grande Jacko!- saudou James.
- E aí, James?- respondeu Jack do outro lado da linha. – Espera só um segundo! Ô Dana, cuidado minha filha com essa escada, está lisa e você pode cair! Sim James, fala!
- Tá ocupado, amigo?
- Não, pode falar! Ô Theo, meu filho, camarão a gente não come com casca e tudo, peraí que o papai vai descascar pra você! Mas sim, James? O que você manda?
- Jack, onde é que você tá, cara?- indagou James.
- Estou no parque aquático de Oahu com Terry e as crianças.
- Hum!
- Mas o que você queria?
- Ia te chamar pra pescar comigo, mas como está com sua família, fica pra próxima.
- Pôxa, se você tivesse me ligado mais cedo...- lamentou Jack. – Mas liga pros rapazes, eles devem estar de bobeira lá no alojamento. Menos o Hugo que viajou pro México e só chega hoje à noite e o Charlie que foi assistir ao Pipeline com a Kate.
- Tá ok, Jack, valeu! Divirta-se aí no parque!
- Vou tentar!- gracejou Jack. – Até mais, cara.
James desligou o telefone e viu Emily toda pronta para sair.
- E aí, falou com o Jack?
- Não vai dar pra ele ir. Vou dar um pulo no alojamento e ver se convido outra pessoa.
Ele deu um rápido beijo de despedida nos lábios da esposa e saiu na sua picape, com todo o equipamento para ir à pesca, caso encontrasse alguém que quisesse ir com ele. Chegou ao alojamento e encontrou tudo calmo, parecia que todos tinham saído. Cruzou com Claire na sala, ela também estava indo ao Pipeline, encontrar Charlie e Kate, convidou-o, mas James estava mesmo era a fim de pescar. Declinou educadamente do convite e saiu perambulando pelo alojamento. Encontrou Michael estendido numa rede na sacada.
- Hey, man!- chamou.
MIchael levantou a cabeça com cara de ressaca e o cumprimentou de volta:
- Hey, yourself!
- Que cara é essa de quem comeu e não gostou?
- Ressaca cara, eu e o Jin saímos pra tomar umas ontem e exageramos. Nesse momento ele tá jogado lá no quarto dele que nem presta! E você, vai fazer o que hoje?
- Tô a fim de ir pescar, mas não encontro um cristão que queira ir comigo. Ia te convidar, mas já que está desse jeito nem adianta, e o Jin então, nem pensar!
- Chamou o Jack?
- O Jaack tá num daqueles passeios de família. E o John, tá por aí?
- Cara, você sabe que o Locke só gosta da natureza no Lost, fora isso o cara não curte nem pescaria em tanque particular!
- Só me resta o Sayid!
- O Sayid? Nem liga pra ele, porque a Nadia tá aqui e eles foram dar uma volta na cidade.- falou Michael, terminando de cortar as forças de James.
- Ah cara, tá ruim então! Quem que eu vou convidar?
- Elektra! Vem já aqui garota!- bradou uma voz feminina rouca, familiar aos ouvidos de James.
Uma simpática cachorrinha Yorkshire de lacinho vermelho na cabeça apareceu na sacada e começou a fazer "festinha" nos pés de James.
- Elektra!
- Hey, Ana-Lucia!- saudou James ao ver Ana-Lucia adentrando a sala, descalça, usando moletom, os cabelos presos de qualquer jeito.
- Hey!- ela respondeu.
- Por acaso você perdeu essa coisinha peluda que parece um cachorro?- James gracejou.
- Por acaso perdi! Vem aqui Elektra, com a mamãe!- Ana disse com a voz doce, acalentando a cachorrinha em seu colo. – Mas sim meninos, domingo, folga do Lost, qual é a boa hoje?
Michael olhou para James e fez uma expressão que dizia claramente convide-a. James hesitou por alguns instantes, mas resolveu arriscar:
- Você já pescou alguma vez?
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Durante todo o percurso para o píer onde estava seu barco, James pensou em um milhão de coisas, dentre elas se havia sido uma boa ideia convidar Ana-Lucia para ir pescar com ele, e o real motivo de ter feito tal convite. Ela era sua colega de elenco, natural que se interessasse em conhecê-la melhor, principalmente porque de acordo com os roteiros de Lost que havia recebido naquela semana, ele e Ana-Lucia contracenariam em várias cenas. Porém, em seu íntimo sabia que não era só isso. Ana-Lucia Cortez chamara sua atenção desde o primeiro olhar trocado na reunião de elenco. O que isso significava? Ele ainda não sabia.
- Sabe, à primeira vista não imaginei que você fosse um cara tímido.
James voltou seus olhos para ela no banco do carona da picape, deixando seus pensamentos um pouco de lado.
- Bem, não sou sempre assim calado, na verdade acho que falo até demais, mas tenho meus momentos, gosto de silêncio e de concentração quando vou pescar.
- Então acho que convidou a pessoa errada, cowboy.- ela respondeu, divertida, abaixando momentaneamente os óculos escuros para poder vislumbrar melhor o tenro azul dos olhos dele.
- E por que você diz isso?- James indagou. – Não gosta de ouvir o som do silêncio de vez em quando?
- Não mesmo, eu sou uma tagarela nata, o silêncio me aborrece!
- Meu pai costumava dizer que só conseguimos ser capazes de saber quem nós somos quando nos permitimos parar e ouvir os sons do silêncio: o barulho da chuva fina caindo na grama, o som dos insetos, o quebrantar das ondas nas pedras, a respiração da mulher amada...
Ana-Lucia deu um sorriso: - Mas isso é muito profundo! Quem diria? James Ford é um cara sensível! Gosta de feng shui também?
James deu uma risada:- Ah não, isso é um pouco demais pra mim, mas Emily, a minha esposa, ela gosta dessas coisas, está fazendo até Yoga.
- Eu nunca fiz yoga, mas dizem que é bom pra relaxar.
Naquele momento, tinham acabado de chegar ao píer. James estacionou a picape e pegou um refrigerante no isopor que havia trazido, estava com sede.
- Se é bom pra relaxar, então talvez eu devesse começar a fazer yoga também!- disse ele, retomando o assunto.
- Yeah.- Ana-Lucia concordou pegando sua bolsa. – Mas eu pessoalmente conheço uma forma mais barata e divertida de relaxar.
- E qual seria?- perguntou Josh, bebendo mais um gole do refrigerante.
- Sexo. – ela respondeu espontaneamente.
James alargou os olhos azuis e quase se engasgou com o gás do refrigerante.
- James, você está bem?- indagou Ana-Lucia dando uns tapinhas nas costas dele.
- Eu estou ótimo!- ele respondeu com a voz um pouco embargada.
Ana-Lucia começou a rir: - O seu nariz está vermelho!
- Obrigado por me avisar.- disse James, sorrindo envergonhado.
Ela sorriu para ele, e falou, empolgada: - E então? Quando é que vai me mostrar o seu barco?
- Agora mesmo!- James respondeu, descendo da picape. – Só me dê uma ajuda com as coisas, ok?
- Ok, isso vai ser divertido!- disse Ana-Lucia, também descendo do carro. Ela levantou os óculos escuros do rosto, posicionando-os sobre os cabelos e ajudou James com o material de pesca. Logo eles chegavam ao barco.
- Sardenta? Esse é o nome do seu barco? Estou me perguntando qual o significado disso.
- Então você nunca prestou atenção realmente em Lost, não é?
- Isso tem a ver com o Lost?- questionou Ana. – Então imagino que tenha um significado interessante.
- Coloquei esse nome no barco em homenagem à minha querida amiga Katherine Austen. Meu personagem chama o dela de sardenta em Lost o tempo todo.
- Ah, agora entendi! Kate e sardas, tudo a ver! Eu andei lendo o roteiro esses dias, já que vou começar a gravar minhas cenas amanhã e percebi que o seu personagem gosta muito de inventar apelidos para as pessoas. Já inventou algum interessante pra mim?
James riu: - Pensei em muitos, mas por ora não te digo nenhum, os apelidos do Sawyer não entram nem no roteiro, apenas eu tenho acesso pra ser surpresa e o ator conseguir se surpreender tanto quanto o personagem.
- Interessante!- ela observou. – Mas por que você não arrisca inventar algum pra mim, agora mesmo? Só olha pra mim e diz!
Ela ficou parada diante dele, segurando o isopor de refrigerantes e a vara de pescar. James balançou a cabeça negativamente e respondeu: - È melhor eu nem te dizer que apelido te daria agora já que nem a vara de pescar você sabe segurar direito.
- Ora, vamos! Inventa um apelido pra mim!- Ana insistiu.
- Não funciona assim!- James retorquiu caminhando para o barco. – Preciso de tempo!
- O Sawyer não precisaria!
- Mas eu não sou o Sawyer, anda logo, senão vamos perder o melhor da pesca! Depois de meio-dia o sol é insuportável!
Ana-Lucia finalmente o acompanhou e os dois adentraram o barco. James pôs-se a instalar o equipamento, enquanto Ana paquerava o leme do barco, ansiosa para dirigi-lo.
- Ô James?
- O quê?
- Eu posso dirigir o barco?
- E você já fez isso antes?
- Não, mas sou capaz de dirigir qualquer coisa.- ela respondeu, já colocando suas mãos no leme.
- Tudo bem.- James assentiu. – Eu vou içar as velas, soltar a âncora, e te aviso assim que estiver tudo pronto para zarparmos.
- Ok!
Assim que ele terminou todo o procedimento para partir com o barco, autorizou Ana-Lucia com um sinal positivo do dedo polegar para que ligasse o motor e seguisse com o barco. Empolgada, Ana girou a chave com muita rapidez e saiu arrancando com o motor. James se segurou no mastro para não cair na água.
- Assim não Ana-Lucia, vai mais devagar!- gritou.
Ana girava o leme sem saber o que fazer, o barco pendia de um lado para o outro. Com esforço, James saiu se esgueirando pelo barco até alcançar Ana. Colocou-se por trás dela e pousou suas mãos sobre as dela no leme.
- Você tem que ir com calma, não pode sair arrancando desse jeito!
Ele começou a fazer com que Ana-Lucia girasse o leme, bem devagar e logo o barco tomou plumo.
- Entendeu agora?
- Aham!- ela respondeu.
James fez menção de tirar suas mãos de cima das dela para que seguisse sozinha com o barco, mas ela não deixou.
- Hey, eu ainda não dou conta de pilotar isso aqui sozinha não!
- Ok!- concordou James mantendo suas mãos sobre as dela no leme.
Ana-Lucia estava achando a experiência de dirigir um barco incrivelmente excitante, ainda mais amparada pelo másculo corpo de James Ford. Sentindo-se segura nos braços dele, não hesitou em apoiar sua cabeça delicadamente no peito dele. James ficou um pouco surpreso com o gesto carinhoso dela, mas não a afastou. Eles seguiram mar adentro para onde estavam os peixes de verdade, segundo ele.
Durante o resto da manhã, ficaram lá no meio do mar com as varas de pescar dentro da água, em silêncio, esperando pelos peixes. No início Ana-Lucia achou divertido, mas depois aquela tarefa silenciosa começou a entediá-la, definitivamente não tinha paciência para escutar os "sons do silêncio". Enfadada, largou a vara de pescar sobre o convés e ficou de pé.
- Hey, o que foi?- indagou James, sentado ao seu lado.
Ana despiu a blusa branca e o short folgado, ficando somente com o biquíni preto, de lacinhos, estilo tradicional.
- Cansou de usar as minhocas e resolver ser a isca pra ver se fisga algum tubarão?- ele brincou.
- Eu estou com calor.- Ana limitou-se em responder. – Dá um nó mais apertado pra mim? Acho que amarrei muito folgado.- ela perguntou virando de costas pra ele e apontando o fiozinho da parte de cima do biquíni.
James engoliu em seco e com dedos desajeitados apertou bem o nó. Assim que ele terminou, Ana-Lucia sorriu em agradecimento e atirou-se na água. Nervoso com a loucura dela, James largou a vara de pescar e se levantou, gritando:
- Ana-Lucia, sua louca, onde você está? Não pode pular na água assim não! Tem tubarão por aqui! Ana!
Buscou-a com os olhos em meio à profundidade do oceano e não a encontrou. Levou as mãos aos cabelos loiros e pensou consigo: - Péssima ideia tê-la trazido comigo!
Tirou a camiseta azul ficando somente com o calção de banho, posicionou a corda no lugar certo e se jogou na água atrás dela mesmo com medo dos tubarões. Nadou ao redor do barco por alguns segundos e quando estava começando a se desesperar porque não a encontrava sentiu um puxão no pé direito. Instintivamente, puxou a perna com força e deu de cara com Ana-Lucia rindo muito.
- O que foi? Pensou que fosse um tubarão?
- Quer saber? Eu já tenho um apelido pra você!- bradou James, zangado.
- Ah é? Qual?
- Louca varrida!- ele respondeu, nadando até a corda.
- Eu não acredito, você tá zangado comigo? James foi só uma brincadeira!
Mas ele não se deu ao trabalho de olhar para ela, por isso Ana-Lucia jogou água nele, várias vezes até conseguir sua atenção.
- Eu quero ver um daqueles lindos sorrisos nos seus lábios, hã? Aquele que mostra as suas covinhas!
James continuou sério, Ana voltou a jogar água nele até que se surpreendeu quando ele começou a revidar.
- Ai não, isso é golpe baixo!- ela gritou, nadando pra longe dele.
- Você não queria ver um tubarão? Agora vai conhecer um!- ele falou brincando, nadando atrás dela imitando o barulho da melodia inconfundível do filme "Tubarão" de Spilberg. – Tum, tum, tum, tum..."
Ana-Lucia ria muito, tentando nadar pra longe dele até que James a pegou a segurando com força dentro da água.
- Não, James, para, para!- ela dizia, rindo. – O que vai fazer agora, me devorar?
Ela parou de se debater e os olhos deles se encontraram. James começou a olhar para a boca de Ana-Lucia insistentemente, desejando-a. Ana queria isso também e umedecia os lábios numa provocação inconsciente. De repente, ouviram uma buzina de barco atrás deles. Era uma lancha da guarda-costeira de Oahu.
- Por favor, eu gostaria de pedir ao casalzinho que retomasse o seu barco agora mesmo, essa região é perigosa para o mergulho existem várias espécies de tubarões por aqui!
Continua...
