Capítulo I
"A Família Lestrange"
Estávamos no ano de 1968 e a Roseira Brava mantinha o seu aspecto frio e destroçado, lançando uma sombra sobre toda a beleza que a rodeava. A mansão estava agora nas mãos de Lady Sophia, descendente de Eliza Rosier, e do seu marido, Lorde Gerard Lestrange. Habitavam ainda a casa os três filhos do casal, Rodolphus, Rabastan e Morgaine.
Rodolphus e Rabastan, de 17 e 16 anos respectivamente, eram tudo o que dois herdeiros de uma das mais antigas famílias puro-sangue deveriam ser. Eram fortes, bonitos, orgulhosos. Tinham a beleza aristocrática característica da sua linhagem, ambos de cabelos negros, nariz aquilino e queixo forte, Rodolphus com penetrantes olhos verdes e Rabastan com profundos olhos cinzentos. Frequentavam a Escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts, pertenciam a Slytherin, e claro, detestavam muggles e sangues de lama.
Morgaine, no entanto, era uma história completamente diferente. A filha mais nova de Lady e Lorde Lestrange tinha acabado de festejar os seus 15 anos, e era em tudo diferente da sua família. Começando pelo aspecto, os seus cabelos de um loiro platinado contrastavam fortemente com o negro habitual na sua família, e os seus olhos eram de um azul tão límpido que se podiam comparar ao céu sem nuvens de um dia quente de Verão. Tinha uma constituição frágil e delicada, uma voz suave, e nem uma réstia do porte altivo e seguro dos seus irmãos. Não sentia qualquer sentimento negativo face a muggles e feiticeiros de ascendência muggle (nunca lhes chamara nem chamaria sangues de lama), e era fortemente contra as atitudes da sua família. Morgaine nunca se considerara melhor por ser puro-sangue, muito pelo contrário, tinha uma grande falta de confiança em si mesma e uma timidez extrema, corando desde o pescoço à raiz dos cabelos se alguém desconhecido lhe dirigia a palavra, nem que fosse para pedir um simples copo de água. Dava tudo para ficar fechada no seu Jardim de Rosas, o seu sítio predilecto em toda a casa, ou na Biblioteca de Hogwarts, preferindo espaços vazios e calmos a uma sala comum recheada ou a um salão barulhento. A solidão era sua amiga e Morgaine apreciava-a. Era assim que tinha crescido, e era assim que se sentia confortável.
Apesar da sua faceta pública, longe dos olhares dos outros, Rodolphus mantinha uma relação de carinho extremo com a sua irmã mais nova. No dia-a-dia, era frio com ela, tal como devia ser, nunca mostrando sentimentos. Mas em privado, era a única pessoa da família que dava a Morgaine a certeza de ser amada, e protegia-a de tudo. Para Rodolphus, Morgaine era como uma flor frágil que tinha de ser mantida numa redoma de vidro para sobreviver a todos os males que povoavam o mundo.
Estávamos então no dia 31 de Agosto, e toda a família Lestrange dormia profundamente…ou pelo menos quase toda.
O antigo e pesado relógio do salão estremeceu momentaneamente antes de anunciar a meia-noite. O seu som ecoou por toda a casa, procurando uma alma desperta que escutasse a sua melodia, e encontrou-a no quarto de Morgaine. Por mais voltas que desse na cama, nunca conseguiria adormecer. Afinal, acontecia sempre o mesmo desde o seu primeiro ano em Hogwarts. Na noite anterior ao regresso, não conseguia comer e a sua barriga estava povoada de borboletas. Temia o dia 1 de Setembro mais do que tudo, pois sabia que seria o início de mais um ano em que se sentiria inadaptada.
Para os puro-sangue, os Slytherins amigos dos seus irmãos, não passava de uma fraca, uma mancha na família. Mas eram as únicas pessoas que Morgaine conhecia, e quando não estava sozinha, era com eles que passava os seus dias em Hogwarts. Para todos os outros alunos, era uma puro-sangue odiosa e preconceituosa. Afinal, que outra coisa poderia ela ser? "Já viram a sua família e os seus amigos? São todos iguais!" diziam pelos corredores.
Morgaine escutava tudo isto em silêncio, e as palavras magoavam-na. Não era igual à sua família e aos amigos dos seus irmãos. Muito pelo contrário, discordava das suas atitudes e desprezava-as! Mas faltava-lhe a coragem para o admitir, e como tal, deixava-se andar, dia após dia, sentindo-se cada dia mais presa. Mas afinal, como poderia a primeira Lestrange a ser seleccionada para Gryffindor adaptar-se?
