Uma Questão de Negócios
"Hell has three gates: lust, anger and greed."
"-Sim."
"-O quê?"
"-Eu disse que sim, que aceito sua proposta." – o homem de cabelos pretos à sua frente piscou algumas vezes diante do que a garota havia acabado de falar. Recapitulando mentalmente os passos dela, não pode deixar de sorrir: ela havia invadido sua repartição, escancarado a porta de seu escritório e jogado uma pilha de relatórios sobre sua mesa antes de finalmente dar-lhe a boa notícia de que havia decidido aceitar seu pedido. Ótimo! O dia não poderia ter começado melhor.
"-Sabia que você não ia resistir, Kagome querida!" – radiante, ele apertou um botão do telefone à sua frente e retirou-o do gancho, aguardando alguns instantes antes de retomar a fala, desta vez com alguém do outro lado da linha. – "Faça o favor de mandá-la vir até aqui agora, Ayame." – seu sorriso se alargou diante da cara inquisitiva da garota. – "É alguém que vai te ajudar na missão, não se preocupe." – comentou para ela, desligando o aparelho antes de espreguiçar-se na cadeira onde estava sentado.
"-Não confio em você." – declarou a morena, sentando-se também e tentando ajeitar-se de maneira confortável. A idéia de ter alguém a acompanhando rumo ao inferno que sua vida se tornaria não soava de todo mal... Quem seria? Miroku havia dito 'mandá-la', então só podia ser uma mulher. – "Quem é a garota que vai me acompanhar?"
"-Garota?" – ele arqueou uma sobrancelha de maneira curiosa, a súbita idéia de que a reação de Kagome ao encontrar seu 'parceiro' poderia não ser essencialmente boa cruzando-lhe a mente como um flash. Riu sem graça, balançando a mão no ar enquanto procurava as palavras certas para explicar que Jakotsu não era exatamente uma mulher... Mas também estava muito longe de ser um homem. Aliás, agora que estava pensando daquela forma, ele estava mesmo muito mais perto de ser uma garota do que qualquer outra coisa. A maquiagem ridícula que ele usava o tempo todo apenas ressaltava esse fato. – "Veja bem... Não é exatamente de uma garota que estamos falando." – parou por instantes, esperando a reação dela para certificar-se de que continuar com a explicação seria seguro. Quando ela murmurou um 'Oh' Miroku resolveu que poderia seguir em frente. – "Ela... Quero dizer, ele..."
"-Ele?" – a morena riu, cruzando os braços em frente ao peito. Que amadorismo era aquele agora? Mandar um homem junto com ela sendo que ela teria que seduzir outro? Certamente ter alguém ao seu lado apenas espantaria seu alvo e daria uma péssima primeira impressão dela. – "Você tem certeza que sabe o que está fazendo?"
"-É claro que eu tenho!" – um leve tom de indignação pôde ser sentido na voz dele, e quando ele abriu a boca para continuar a porta do escritório abriu-se e um gritinho escandaloso tomou conta do lugar.
A garota de cabelos negros torceu o nariz levemente diante da imagem que seus olhos captaram: um homem – ou qualquer que fosse o gênero no qual aquela coisa se encaixava – correu – ela não tinha muita certeza se correr era a palavra certa, estava muito mais para saltitar – até onde seu amigo estava sentado e atirou-se em seu pescoço, dando um beijo estalado em sua bochecha enquanto o outro tentava inutilmente livrar-se dele.
Havia uma centena de evidências para classificar aquele ser como uma mulher: começando pelos cabelos visivelmente bem cuidados e presos, passando pelo rosto coberto de maquiagem e terminando nas roupas estranhas. Em contrapartida, havia algumas outras que alegavam o contrário: a voz um tanto grossa, o queixo um pouco marcado e... Bem, debaixo daquela calça colada certamente tinha um acessório.
A morena suspirou, tentando convencer-se de que ter aceitado aquilo tinha sido uma boa idéia e de que a visão que estava tendo não passava de um pesadelo ou uma piadinha de mal gosto de seu amigo. Pigarreou alto na tentativa de se fazer notada novamente, mas arrependeu-se no instante seguinte quando o 'ser' depositou os olhos nela e piscou algumas vezes.
"-É... Isso?" – pôde ouví-lo perguntar, o rosto contorcendo-se em uma espécie de careta enquanto ele a analisava dos pés à cabeça. Certo, definitivamente aquilo era uma brincadeira de péssimo gosto.
"-Isso?" – repetiu entre os dentes, não se importando muito se o tom soara agressivo. O homem pareceu não se importar também, pois caminhou até ela e segurou uma mecha dos cabelos negros entre os dedos, a careta aumentando.
Segurou-a pelo queixo e a fez fitá-lo, os dedos finos e com unhas feitas – Kagome não pôde deixar de notar – percorrendo toda extensão de suas bochechas e parando por instantes nas orelhas, a decepção nítida nos olhos dele quando o mesmo constatou que os furos de brincos estavam praticamente fechados pela falta de uso. Segurou-a pelos ombros e forçou-a a ajeitar a postura, afastando-se um passo para uma melhor análise. Quando voltou a se aproximar dela, resmungou um 'com licença' e sem aviso apertou-lhe os seios. E então a situação toda tomou um cenário diferente, porque aquilo estava muito, mas muito além de tudo o que ela havia preparado-se para suportar no instante em que entrara na sala de seu amigo.
A garota levantou-se com um pulo, empurrando-o para trás enquanto voltava-se para Miroku, furiosa.
"-O que você pensa que está fazendo?" - silêncio. - "O que vocês dois pensam que estão fazendo?" – ela apontou de um para outro, ameaçadoramente.
"-Pensam?" - ele colocou a franja comprida que caía-lhe no rosto atrás da orelha e bufou. - "Minha querida, Mirokinho aqui me contratou para ajudá-la." - ele levou o indicador aos lábios e sorriu de maneira maldosa. - "Ou você pensa que vai seduzir alguém vestida desse jeito e com esse cabelo? Sinceramente...!"
"-Com licença?" - Kagome fechou os punhos, aproximando-se dele mais um passo. O amigo atrás da mesa apenas engoliu em seco enquanto observava o circo pegar fogo... Já era de se imaginar que o encontro daqueles dois acabaria assim, mas naquele momento se a garota perdesse o controle e espancasse Jakotsu tudo ficaria muito pior do que já estava.
"-Isso mesmo que você ouviu meu benzinho." - ele suspirou. - "A verdade dói, mas não se preocupe que quando eu terminar com você ela não vai mais machucar. Você viverá uma nova realidade!" - uma palminha pôde ser ouvida. - "Que bom que você só é desengonçada mesmo, por um instante tive medo que Mirokinho tivesse me chamado para uma causa impossível!"
"-Desen...gonçada...?" - a garota arqueou uma sobrancelha novamente.
"-Não precisa ter vergonha minha querida, tenho certeza que ouve falta de incentivo à feminilidade nessa sua vidinha medíocre." - ele suspirou, tentando dar um ar dramático à coisa.
"-Na sua com certeza isso não faltou, não é mesmo?"
"-Claro que não." – tomou-a pela mão e acenou para Miroku com a outra que mantinha livre. – "Nós já vamos andando, temos muito trabalho pela frente. E minha querida? Pode me chamar de Jakotsu." – antes de ser arrastada porta afora, Kagome fez questão de que seu melhor amigo visse nitidamente o sinal que fizera para ele com a mão, indicando que era um homem morto.
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"-Sim." – arqueou a sobrancelha à medida que a garota à sua frente mudava sua feição para algo totalmente surpreso, e por um instante ele quase teve pena. Quase. Uma pena que instantes não fossem eternos e durassem apenas frações de segundos.
"-Está falando sério?" – ela uniu as mãos, quase como uma criança entusiasmada com um sorvete de chocolate coberto com calda quente.
"-Hm..." – o hanyou sorriu de maneira marota, debruçando-se sobre a mesa e brincando com uma mecha dos cabelos castanho-escuros dela. – "Não." – completou então, aumentando o sorriso ao ouví-la grunhir algo ininteligível e voltando à sua posição natural na cadeira. Provocá-la era quase como um exercício diário que ele fazia questão de nunca esquecer de praticar... Ajeitou-se na cadeira de repente, os cotovelos no apoio enquanto ele subitamente tentava parecer sério, e Sango sabia exatamente que aquilo só podia significar uma coisa: alguma idéia idiota estava por vir.
"-Quero a festa na cobertura do Palace Hotel, Sango. E você vai conseguir isso para mim."
A garota girou os olhos ao constatar que estava certa, porque aí estava a idéia idiota.
"-Porque não pode fazer uma festa no salão do nosso apartamento, como qualquer pessoa normal do mundo? O salão é enorme!"
"-Porque não." – ele sinalizou com as mãos para que ela se apressasse. – "Agora ande logo com isso, vou arranjar os convites!"
"-Não entendo porque você insiste em fazer essas festas, elas atraem publicidade negativa, sabia? Crianças se espelham em você, você acha que uma mãe gosta quando seu filho vê que seu ídolo está fazendo orgias em coberturas de hotéis famosos?"
"-Orgias? São festas, meu bem."
"-Ah sim, festas com cerca de 100 mulheres e 10 homens não são consideradas orgias, desculpe." – resmungou, sarcástica, respirando fundo e fechando os olhos por alguns segundos. Discutir com InuYasha era o mesmo que tentar fazer com que uma parede pensasse. – "Muito bem, tenho uma condição e você não vai poder negar."
"-Exigente, não?" – provocou, apoiando agora os cotovelos na mesa e o queixo nas mãos. – "Manda."
"-Nada de Naraku e muito menos de seus clientes." – ele riu, e não havia absolutamente nada de engraçado naquilo.
"-Pensei que ia me pedir pra não convidar a Kikyou. Uma pena ter gasto seu único pedido com Naraku." – sorriu de lado, mas o sorriso se desfez ao notar que o dela era maior ainda.
"-Isso, meu caro, não foi um gasto." – Ah, o doce triunfo de lidar com mentes tão limitadas quanto a de InuYasha. – "Sei que não vai convidá-la mesmo, porque sabe que se fizer isso não vai poder falar com nenhuma outra garota presente sem causar um escândalo e arruinar sua festa." – e muito antes que ele pudesse abrir a boca para protestar, ela já havia deixado a sala.
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"-Sim." – Miroku apontou para os lados. – "Quero o convite na minha mesa assim que chegar a confirmação do nome na lista." – abriu a porta de sua sala lentamente. – "Não esqueçam de checar a munição da pistola automática e – CÉUS!"
Talvez a cara que estava fazendo não fosse exatamente a mais puritana e não abismada do mundo – e a julgar pela reação e coloração que a garota sentada na cadeira de sua sala tomou, certamente não era – mas não tinha nenhuma melhor para aquele momento. Era por obras como aquela que ele agradecia aos céus a existência de Jakotsu e esquecia completamente a criatura irritantemente homossexual que ele era.
"-Passou pelo dia de princesa, Kagome?" – provocou, deixando a cabeça tombar um pouco para o lado enquanto seu olhar deixava novamente os sapatos de salto alto de cetim e subiam pela perna bem torneada, morrendo desapontados na barra da saia cinza-claro – definitivamente mais curta seria melhor, mas não se pode ter tudo, certo? Foi só quando uma mão de unhas bem feitas tocou seu braço que percebeu que havia dito algo errado.
"-Não me compare com essa gentalha que realiza serviços de quinta categoria, Mirokinho." – suspirou. – "Fiz um milagre nessa menina, e vou precisar de algo muito melhor que boas lojas e um ótimo salão de beleza para transformá-la em uma dama."
"-Ei..." – o moreno aproximou-se dele, falando baixo para que a garota não ouvisse. – "Como a fez fazer tudo isso sem tomar um tiro?"
"-Já chega!" – ela levantou-se da cadeira rapidamente, tropeçando assim que tentou dar o primeiro passo. Sobre o olhar perplexo mas atento dos dois homens da sala bufou algo indecifrável e tirou os sapatos Prada dos pés, jogando-os no chão e passando pela porta como um tufão.
Miroku assobiou em surpresa ao passo que Jakotsu suspirou pesadamente e passou a mão pelos cabelos. Aquela garota petulante lhe custaria muito mais que sua paciência... Já podia sentir rugas surgindo, e ela que pagasse para ver do que era capaz caso um pé de galinha aparecesse em seu lindo rostinho.
"-Não vai atrás dela?"
Girou os olhos para não entendiam nada mesmo, se ao menos prestassem atenção nos detalhes... Apontou para a bolsa esquecida sobre a cadeira que antes Kagome ocupava, enquanto abaixava-se para ajuntar os sapatos tão injustamente jogados no chão.
"-E isso quer dizer que...?" – ergueu os olhos para ele diante de tal pergunta, indignado.
"-Que ela vai voltar quando perceber que a carteira, a chave do carro e da casa estão aqui e não no seu bolso." – deu de ombros, ainda com a atenção voltada para a porta, e então finalmente a apreensão do silêncio atingiu-os.
E ambos teriam permanecido quietos se Jakotsu não tivesse começado a balbuciar números seguidos da palavra 'vaquinha'.
"-Que diabos você está fazendo?"
"-Contando vaquinhas."
"-Vaquinhas?"
"-Couro é muito mais fashion que lã meu querido, além do mais apenas contar é demasiado chato. Então conto vaquinhas e imagino os mais lindos casacos que já vi nas passarelas de..." – Miroku teria comentado tal frase depois que ele a terminasse se não fosse por Kagome entrar na sala tão rápido quanto havia saído minutos antes, parando em frente a Jakotsu e praguejando algo antes de tomar os sapatos das mãos dele. – "Não me faça essa cara!" – ele suspirou antes da garota caminhar lentamente até a cadeira e pegar a bolsa dela. – "Vamos meu bem!"
"-Vamos?" – ela repetiu, uma ênfase sádica na pergunta. Não sabia o que ele estava pensando, mas ela não tinha plano algum de passar mais um minuto se quer com ele.
"-Sim. Afinal tenho que analisar como você come, e espero que não seja como um mamute." - e sem que pudesse responder, fora arrastada dali, exatamente como ele fizera dois dias antes, quando haviam se conhecido naquele exato mesmo lugar.
Bhagavad Gita
Umas palavrinhas rápidas dessa vez! Primeiro, desculpem pela demora... Eu estava viajando e voltei só agora, então o próximo capítulo não deve demorar tanto quanto esse.
Segundo, quero agradecer a algumas pessoas: Nai(obrigada por comentar e desculpe pela demora, espero que também tenha gostado desse capítulo), Kk (quanto tempo né? Eu mandei uma mensagem pra você via pm aqui do site mesmo, chegou a receber? Se não recebeu me avisa que eu mando de novo, quero falar com você! E obrigada pelo apoio!) e também Pampinha, sayurichaan, LilyMione-chan e Kagome e InuYasha-!
