Kn POV:
Entrei no banheiro bufando e minha vontade era bater a porta, mas isso só ia dar mais piadas para o Ks e para o Kl, então a fechei normalmente e fui tomar minha ducha.
Larguei as roupas a esmo pelo chão e entrei no chuveiro, deixando a água quente cair sobre meus ombros por alguns minutos, relaxando meus músculos. Ia ser um dia cheio, não havia dúvidas. Com certeza os irmãos não perderiam nenhuma oportunidade de me atormentar com perguntas idiotas. Afinal, estava assim tão óbvio que eu estou apaixonado? - perguntei-me, falando entre os dentes.
- Mas que droga, odeio essa vida. Não me contive e dei um soco na parede à minha frente, aproveitando que o som seria abafado, pelo menos em parte pelo barulho do chuveiro. Estendendo minha mão para a prateleira procurando pelo meu shampoo, só encontrando o ar. - Maravilha... O Pirralho escondeu meu shampoo de novo. Passei a procurar pelo sabonete, e nada mais uma vez. - só faltava o Kl ter entrado na do Pirralho, eu mereço...
Tateei o gancho de toalhas procurando pela minha, já sabendo que não iria encontrá-la, soltei um urro de frustração misturada com raiva. Fechei então o chuveiro, achando que o dia acabara de passar de ruim para deprimente e insuportável. Vesti novamente a cueca, não queria dar de cara com minha mãe no corredor estando nu, pois o dia então se tornaria dolorosamente barulhento. Abri a porta, olhando os lados, trincando os dentes de raiva, dividido entre procurar um shampoo e uma toalha ou procurar meus irmãozinhos e dar uma boa surra naqueles dois grandes idiotas. Ouvi risadas vindas do andar de baixo, imaginei ter sido alguma piadinha infame contada pelo KL ou pelo Ks. Aproveitando a deixa, fiquei com a primeira opção e fui procurar toalha limpa e um shampoo a salvo das garras da dupla, quando vi que havia me enganado. Um deles não havia descido e alguma coisa em seu rosto me fez passar da raiva para a preocupação. Precipitei-me ao encontro do caçula, puxando seu rosto, procurando seu olhar.
- Irmão, o que foi? O que está sentindo? - tentava manter a voz baixa, evitando preocupar nossa mãe.
A única resposta às minhas perguntas foi um olhar vago e a nossa demora e silêncio acabaria por preocupar o Kl, mas eu não sabia o que fazer. Decidi tentar o óbvio, coloquei o caçula no meu ombro e o levei para seu quarto. Tentando colocar um tom calmo à minha voz chamei o mais velho.
- Kl, você pode vir aqui em cima, por favor, me ajudar com minha camisa?
- Já vou subir Kn. - ouvi a voz grave me respondendo, enfadado.
Tinha esperanças que se ele realmente tivesse entrado na onda do Ks perceberia que meu problema era outro que não a roupa.
- Ks, irmão, acorda cara. Repetia isso enquanto dava leves tapas no rosto dele tentando acorda-lo – ei irmãozinho, volta, acorda.
Nenhuma resposta, e naquele momento, eu cheguei à conclusão que nada no Ks é mais irritante que o seu silêncio.
- Onde você está Kn? - Esse era o Kl subindo as escadas. Respirei fundo para tentar manter a voz calma antes de responder:
- Aqui no quarto do caçula.
- O que é que você...?
- Fala baixo e fecha a porta. Não pude evitar o tom seco ao me dirigir a ele, sem,contudo desviar o olhar do rosto de nosso irmão mais novo.
- O que houve? Por que o Ks está apagado? - Era tangível o tom de preocupação na voz do Kl.
- Eu não sei irmão, eu saí do banheiro para procurar uma toalha e o vi parado no corredor escorado na parede...
Então, ele tomou meu lugar na tentativa de acordar o caçula.
- Vamos irmãozinho, acorda, anda man. Kn checa o pulso dele.
Segurei o braço do Ks e passei a tomar o pulso
- Estável. - Fiquei segurando a mão dele só pra dar apoio – Ks, você tem que acordar Pirralho, a mãe vai estranhar nosso silêncio, acorda cara... - Suspirei de alívio quando ele apertou minha mão, voltando lentamente à consciência.
- Acho que ele está acordando Kl. O mais velho relaxou de sua postura tensa e se deixou sentar nos pés da cama. Percebi o movimento dos olhos de Ks se abrindo.
- O... O que...
- Bem vindo de volta irmão. Kl estava sereno e sorrindo, já vi que eu é que vou ter de fazer o interrogatório.
- Você nos deu um baita susto, Pirralho. O que foi aquilo lá no corredor?
- Vocês... Droga. Vocês viram?
- Eu saí pra procurar uma toalha e vi você apagado no corredor "segurando a parede" por assim dizer. Não sabia o que fazer então chamei o Kl. Mas você ainda não respondeu. O que foi aquilo?
- Não foi nada Kn. Foi só uma tontura à toa, nada que vocês precisem se preocupar. - A voz dele não passava de um murmúrio.
- Como assim nada que a gente precise se preocupar? - Minha voz elevou uns quatro tons e eu recebi um olhar de advertência do Kl. – Desculpe... Murmurei para o mais velho, voltando minha atenção para o mais novo. – Sua cara estava mais branca que papel, Ks. Como pode não ser nada?
- Não sendo Kn, podem ficar tranqüilos. - Ks falou em tom cortante. Era nítido que queria fugir do assunto.
- Mas... - estava prestes a começar um sermão quando senti a mão de Kl em meu ombro.
- Deixa Kn, se ele diz que está tudo bem então está. Me virei para encará-lo, pronto para soltar uma resposta bem afiada quando me deparei com seu olhar tranqüilizador que dizia claramente: "Vamos abordá-lo de novo quando ele não estiver tão na defensiva...".
- Assenti e levantei-me, imitando o gesto de Kl. Ks permaneceu imóvel na cama, nos fitando com ar de dúvida. Por fim, balançou a cabeça, como que espantando algum pensamento e tornou a fechar os olhos, murmurando. - Desço em alguns minutos.
- Lançando um último olhar ao nosso irmão mais novo, saímos pela porta e descemos as escadas. É o dia ia ser longo...
Kl e eu não trocamos nenhuma palavra até chegarmos à cozinha e confirmar que nossa mãe já havia saído para a aula de pintura. Peguei uma maçã e me apoiei na bancada, passando a comer distraidamente enquanto Kl voltava sua atenção para uma pilha de panquecas já começadas.
Por alguns instantes nos concentramos apenas em nossos próprios pensamentos, enquanto ouvíamos nosso irmão se movimentar pelo andar de cima e ligar o chuveiro. Mantivemos o silêncio por mais um tempo, quando Kl finalmente o quebrou:
- O que me diz Kn? – Desviei meu olhar da maçã que estava comendo e olhei para o Kl que ainda mirava o prato de panquecas.
- Não sei Kl, apesar de aparentemente aquilo ter sido súbito, ele não parecia surpreso por ter acontecido, e sim porque nós o vimos naquele estado. Acho que não é a primeira vez que acontece. E acho também que ele não está nos contando alguma coisa... – deixei a frase pairar no ar e dei outra mordida na maçã, mastigando pensativamente.
- Ao que parece ele não é o único, certo Kn? – quase engasguei com a súbita mudança de assunto e recebi um sorriso brincalhão vindo de meu irmão.
- O que você quer dizer com isso?
- Ah, vamos lá irmão. Nós dois sabemos o quanto o caçula é irritantemente perceptivo. Qual é o nome dela? Eu e o Ks conhecemos?
Infelizmente o Kl estava certo, o Ks sempre foi muito perceptivo, mas fui poupado de ter de responder, pois ouvi o som do chuveiro ser interrompido, hora da saída estratégica. Olhei tranqüilamente para o mais velho antes de responder.
- Não tem nenhuma "ela" meu irmão. Bem, vou tomar meu banho.
Deixei meu irmão terminando seu café da manhã e comecei a subir as escadas imaginando onde aquelas duas crianças super-desenvolvidas tinham escondido minhas roupas.
Uma coisa era certa, o dia hoje ia ser longo, mas, interessante apesar de tudo...
