MENTIRAS

"A mentira, senhora do mundo, é habil e

astuta; mascara-se com a hipocrisia,

enfeita-se toda de ilusões e vence."

Coelho Neto

Capítulo 31

Tarde fria e enregelante. Garoa gelada caindo sobre todas as coisas. Ruas solitárias. Poucas pessoas atrevem-se a percorrê-las; somente as que, por obrigação, sentem-se impelidas a caminhar nesse tempo tão ruim.

E, neste momento, há um casal movido à determinante missão de andar pelas ruas inóspitas da cidade de Washington, dirigindo-se ao trabalho.

— Que azar, hein Scully? Esse carro não poderia enguiçar em pior hora!

— O reboque irá apanhá-lo quando? Disseram a hora?

— Imediatamente. Eu o exigi!

— Humpf! Tomara mesmo que sua exigência seja obedecida, Mulder.

— Sempre duvidando, hein Scully? - toma-lhe a mão - Venha. Vamos mais depressa.

— Mais do que isso, Mulder? Estou quase correndo! Você é que tem pernas longas e engole a distância mais rapidamente do que eu!

Ele dá uma risadinha sem graça:

— Engole a distância...! Muito boa essa!

— Não me sinto nem um pouquinho inclinada a rir...

— Desculpe, Scully. - aperta-lhe a mão - Nossa! Está gelada mesmo! A outra também?

Ela lhe estende a outra mão, retirando-a do bolso.

— Estou com muito frio, Mulder... - fala, em voz manhosa.

Ele segura-lhe o braço para ajudá-la a caminhar mais rápido.

Ainda está distante para ser avistado o prédio do Quartel General do FBI. Faltam ainda algumas centenas de metros para percorrerem.

O sinal vermelho numa esquina impede-os de atravessarem a larga rua, agora. Aguardam, impacientes.

— Mulder! Daqui a pouco não aguento! - reclama Scully em voz trêmula, fazendo tudo para sorrir.

Ele, num gesto rápido, abre seu longo sobretudo, abraça Scully, apertando-a contra si, agasalhando-a então juntamente com seu próprio corpo, enquanto ela ri do modo engraçado que ele arranjara para mantê-la aquecida.

Ambos unidos, estão de frente um com o outro, corpos encostados, sentindo as respectivas quenturas de suas carnes dentro de uma mesma roupa quente, de grossa lã.

Scully continua rindo.

— É... é a melhor solução, você não acha?

— Engraçado, Mulder...

— O que?

— Isso me faz lembrar uma foto que vi.

— É? De quem?

— Não sei bem... acho que era um ator: carregando a filhinha dele dentro do seu próprio agasalho. Era muito lindo!

— O que? O casaco?

— Não. Ele!

— Ah vá, Scully! Não tem coisa mais agradável para lembrar?

Falam com os rostos muito próximos por estarem ainda unidos dentro do mesmo agasalho.

— Está bom assim? Hum? - ele quer saber.

— Ótimo! - ela sussurra - Apenas há algo acontecendo aí dentro da sua roupa... –

— Por que diz isso? - ele está rindo, com ar cínico no semblante matreiro.

— Faz-me lembrar o filme que fizeram sobre nós...

— Ah... aquele! - joga a cabeça para trás, amolado só em recordar.

— É ... quando a atriz pergunta ao "Mulder" se o que ela estava sentindo era a lanterna dele sob a roupa, ou se era porque ele estava feliz em estar abraçado com ela ali. - ri mais ainda.

Mulder não fala nada. Continua rindo ainda, com cinismo e apertando Scully, para que fique com o corpo colado ao seu e possa ela sentir o desejo a revelar-se entumescidamente sob as grossas roupas que veste.

Um homem de idade passa neste momento e vendo o casal à sua frente, ergue o olhar para a frente, talvez querendo demonstrar assim sua discordância pela inusitada cena que vê diante de seus olhos.

Passa por eles, balançando a cabeça, negativamente, em sinal de reprovação.

Se Mulder e Scully deram-se conta de que alguém por ali estava passando e os censurando? De jeito algum! Neste momento só existem eles dois, ali nessa calçada. Todo o resto do mundo está em segundo plano para eles.

O sinal verde aparece no semáforo, para que os transeuntes possam atravessar a rua.

— Ah, Mulder, que pena! Estava tão bom!

— A gente dá um jeito. - ele diz, enquanto a faz caminhar, juntando os passos dela aos seus, ainda sob o mesmo agasalho, que ambos agarram com força para forçá-lo a fechar na frente, sem poder, no entanto, abotoá-lo.

Mulder levanta as sobrancelhas, lembrando:

— É... hoje tenho que fazer uma faxina no meu apartamento...

A busina estridente de um carro faz-se ouvir, chamando a atenção de alguém desatencioso no trânsito.-

— O que? - ela está distraida; não ouvira as palavras dele.

— Vamos. - segura-a pelo braço para atravessarem a rua.

Sendo uma sexta-feira torna-se um final de dia de trabalho propício ao entusiasmo do pessoal que trabalha no Bureau.

— O que está havendo?

— Está o maior entusiasmo, Agente Mulder!

— Estou vendo, Sue. Eu queria saber do que se trata.

— Ah, não sabe? É o nosso colega Martin, que vai casar-se... depois de amanhã.

— Sei, sei... alguém havia me falado sobre isso.

Scully já está aproximando-se dos dois.

— Dana, você ouvir falar no casamento do Martin? - indaga Sue.

— Ouvi... - olha para Mulder - ... quando vai ser?

— Depois de amanhã. - informa Mulder, antecipando a resposta.

— Por isso há esse entusiasmo aqui no Bureau nesta noite! - comenta Scully, admirada, quase para si mesma.

— É verdade!

Sue faz um ar brejeiro para Mulder.

— Os solteiros do Bureau estarão lá! Dizem!

Mulder balança a cabeça, anuindo.

Scully apenas ouve as palavras de Sue, mas procura manter-se bem desligada das ditas informações.

— Sabe, Dana, - continua Sue - na maior parte das festas de despedida de solteiro, somente

comparecem os homens casadouros, mas nessa vão mulheres! Pode?

— Pode! - Mulder ri, divertido com a admiração da moça - Depende do gosto de cada um!

— E o que você faria, Mulder, se fosse você o noivo? - pergunta Sue.

— Eu?

— É sim. Você! O que faria?

Mulder fica desajeitadamente indeciso numa resposta.

Dana cruza os braços, na espera das palavras dele.

— A minha festa só teria um convidado...

— Quem?

— A noiva.

Fita Scully num olhar disfarçado, observando sua reação.

Ela somente levanta as sobrancelhas; respira fundo.

Sinceramente, fôra para ela um alívio a resposta clara de seu amado.

"Mas será que ele faria isso mesmo?" - bate-lhe fundo um pensamento, vindo do coração.

— Vamos, Scully! - chama-a Mulder - Sue, até outra hora.

— Até lá!

— Tchau. - fala Dana.

— Scully, neste final de tarde somente temos que entregar os relatórios do dia ao Skinner. - fala, enquanto ajuda-a a descer as escadas.

— E depois...?

Ele dá nela um furtivo beijo na face.

— ... casa! - diz, convicto.

Abre a porta da sala e deixa Scully entrar, acompanhando-a em seguida.

Imediatamente Dana liga o computador para digitar suas informações sobre a investigação realizada no decorrer do dia.

Mulder dirige-se ao arquivo de aço, puxando-lhe uma gaveta para nela retirar algumas pastas. Coloca nelas alguns papéis.

Soa na sala a chamada do telefone.

Ele atende.

Dana dá uma olhada em sua direção. Pela fisionomia que Mulder demonstra neste momento, ela pode perceber que está aborrecido com alguma notícia.

Após alguns minutos ele bate o telefone, colocando a mão na testa, pensativo.

— O que foi, Mulder?

— Skinner.

— O que ele queria?

— Nos reunir agora com o Kersh a respeito de um assunto importante.

— Agora? Ah, Mulder... por favor... ahn... eu tenho mesmo que ir?

— Não... ele disse que se você não quiser ir, não haverá problema... mas Scully...

— O que foi?

— Eu preferiria que você fosse também.

— Por que? - faz a pergunta com um meio sorriso, sem entender bem.

— Porque assim sairíamos juntos e tudo ficaria melhor.

— E eu não sentiria sono antes de você...

— Também. - ele abre um lindo sorriso para ela.

— Seu bobo! Sabe que não vai acontecer isso! Além do mais... Mulder... eu estou quase com aquele mal-estar do outro dia, novamente.

Ele levanta-se. Aproxima-se dela.

— Quero tê-la a todo instante junto de mim.

— E inclusive ainda estou com muito frio, Mulder...

Mulder não pensa um segundo a mais, sequer. Com gestos impetuosos, e no seu jeito decidido de ser, como lhe é habitual, dirige-se para a porta. Gira a chave na fechadura, trancando-a

Scully vê o seu gesto repentino e não entende.

— Pra que isso?

Mal ela tem tempo para protestar. Já está envolvida nos braços dele, num inesperado e quente abraço.

— Quero te aquecer! - ele diz, sorrindo.

— Não adianta muito assim, Mulder! - ela ri.

— Tem certeza?

Ele procura-lhe a boca; ela o recebe com a sofreguidão que sente dentro do seu ser.

Beijam-se intensamente. Parecem querer devorar-se mutuamente, na intensidade daquele ato de amor.

Foram muitos anos de tensão, espera, sofrimento, ansiedade. Agora já não podem guardar os desejos que impulsionam-lhes a se amarem o máximo de tempo de que dispõe nesta vida terrena.

Após o beijo, afogueados, ela repousa a cabeça sobre o peito dele.

— Scully, mal posso esperar...

— ... chegarmos em casa?

— Sim.

— Uma forte pancada é ouvida na porta.

— Mulder! - murmura, sentindo-se temerosa.

— Calma! - faz um gesto com as mãos - Recomponha-se.

Espera alguns segundos para que Dana recoloque-se frente ao computador.

Mulder aperta os lábios, um pouco preocupado, passa os dedos sobre eles.

Dirige-se à porta, para abri-la.

Skinner está diante dele, com um ar circunspecto. Suspende um pouco o aro dos óculos.

Mulder não se deixa abalar pelo acontecido.

— Senhor? Desculpe... - volta-se para dentro - Scully, você havia trancado a porta?

— Eu? - ela abre muito os olhos intensamente azuis.

— Ah... aaaaaah! - bate na testa, lembrando algo - Lembra-se Scully, que o cara da limpeza avisou que a porta está trancando sozinha? A lingueta da fechadura solta...!

— Ah... é! - concorda Scully, achando-se uma verdadeira cúmplice da mentira de Mulder.

Skinner os fita, entendendo e aceitando sua explicação. Observa.

A mesa de Mulder repleta de pastas, relatórios e fotos; Scully, compenetrada está com o olhar fixo na tela iluminada do computador, manejando o seu mouse.

Skinner faz um imperceptivel meneio de cabeça, imaginando dentro de si mesmo que a dinâmica dupla de seus agentes de confiança são de extrema responsabilidade e discrição. Sente-se feliz por vê-los sempre juntos, unidos no trabalho mas distante o bastante num plano mais íntimo.

— Agente Mulder, vim buscá-lo para a reunião com o Diretor Kersh e desejo dar-lhe antes umas instruções.

— Ah... ah sim, senhor. - toma o paletó na cadeira, para vesti-lo; volta-se para Dana, aproximando-se - Scully... ainda falta muito pra terminar?

— Não, Mulder... - ela nem o olha.

Mulder volta-se para Skinner.

— Há horas que ela está diante do computador! Não se levanta nem pra...

Ele cala-se, vendo o olhar acusador de Scully sobre si.

Skinner, mais uma vez, dentro de seus pensamentos considera o quanto os seus funcionários têm de disciplina e responsabilidade.

Sente-se triunfante na sua competência como um exigente Diretor Assistente.

Chega ao término a reunião que havia se prolongado bastante.

Mulder despede-se dos Diretores, afastando-se a seguir.

Está indeciso em seus passos: ir logo para casa como deseja ou fazer antes o que planejava há dias? A limpeza no seu apartamento torna-se uma coisa imprescindível. Jamais deixaria a cargo da faxineira colocar no lixo os seus objetos, tais como: fitas e revistas pornôs, tão de desagrado de Scully.

Ele agora sente-se na obrigação de dar um fim nesses objetos e quer ele mesmo, resolver o caso.

Não mais precisará ver cenas eróticas em filmes com a intenção de excitar-se, se tem a sua própria personagem ao vivo para amar, usufruir do gôzo dos desejos que ela lhe proporciona.

Só em pensar em Scully todo o seu ser entra em ebulição. Seu sangue parece querer ferver de prazer dentro de suas veias. A sua Scully é a dona total e completa de sua vida agora.

Fecha os olhos, divagando, vendo em sua mente o jeitinho céptico e altaneiro dela, mas que carrega dentro de si uma alta dose de fervor amoroso. Ela o retribui sempre em todos os seus anseios ardorosos nos momentos de amor.

Abre os olhos e enfrenta a realidade. Começa a caminhar pelos corredores para alcançar o elevador.

Duas figuras femininas acompanham seus passos de longe, sem que ele perceba.

— Está vendo ele lá, Sue? - pergunta uma delas.

— Quem, o Mulder?

— Sim. - suspira - Ai... não é um pedaço de mau caminho?

— Se é!

— Não suporto é aquela tal parceira dele...

— A Dana?

— É.

— O que lhe fez ela?

— Justamente o que não fez! Felizmente pra ela, ora!

— E então...?

— Então é que a boboca tem a companhia daquele deus grego o tempo todo...!

— E daí?

— Iiiih... você faz-se um bocado de desentendida, hein?

— Você está querendo dizer que tem inveja dela?

A outra dá uma risada.

— Bem, acho que inveja não é bem o termo, mas que é quase isso!

Apressa-se no andar, para com rapidez juntar seus passos aos de Mulder.

— Espera aí, Kate! - chama a outra.

Porem ela já havia abordado o Agente.

— Oi? - cumprimenta-o

— Oi. - ele responde.

— Tudo bem?

— Claro. E você?

— Tudo ótimo.

Aproxima-se a outra colega. E Mulder a vê.

— Oi, Sue!

— Você vai à festa do Martin? - indaga Kate, interessada, com olhos brilhantes.

Mulder lança o seu melhor sorriso para as duas.

— Não... eu não costumo ir a essas...

— Pois é, a gente sabe disso! Mas saia da mesmice e vamos lá!

— Vamos lá? - Sue surpreende-se com a frase da amiga.

— Por que ficou surpresa, Sue? - dirige o olhar espantado para a outra.

— Imagine! Não estou surpresa. Eu... estava distraida.

Kate levanta as sobrancelhas, com ar intrigado.

Mulder faz um gesto com a mão.

— Bem... já vou.

— Espere, Mulder! Vai pra onde agora?

— Até minha sala. A Scully deve estar ainda à minha espera.

— Não está. - responde prontamente - Eu a vi sair há mais ou menos uma hora atrás.

— Ahn...! - leva a mão aos cabelos.

— Hein, Mulder? - insiste - Vamos lá nos divertir um pouco?

Novamente Mulder sorri e dá meia volta.

— Um abraço pra vocês. Fica pra próxima.

As duas o vêem afastar-se.

— Mulder! - Kate chama.

— O que? - ele volta-se para olhá-la.

— Promessa é dívida! - fala ela com um sorriso enigmático.

Pára, com ar aborrecido, enquanto a colega observa a sua raiva e frustração.

— Palhaço! Acha-se um cara super! Deve ser isso! Quando não passa de um...

— Mas você o acha um deus grego! - replica Sue, com um sorriso de deboche.

— Deixa eu contar uma coisa: eu gostaria de poder colocá-lo em apuros numa oportunidade...

Um toque de mão sente Mulder em seu ombro.

— Mulder, estou te esperando lá!

É Martin, que o alcançara. Coloca um braço sobre os ombros de Mulder, amigavelmente, para irem caminhando.

— Sinto muito, Martin; não dá.

— O que é isso, rapaz? Vamos lá! Noventa por cento do pessoal do Bureau vai hoje à minha despedida.

Mulder movimenta a cabeça, negativamente.

— Acredite, Martin. Não vai dar mesmo.

— Tem algum compromisso, então?

— É por isso mesmo.

— Aaaah! - Martin sorri - Bom proveito.

Mulder não sorri ante as palavras de ironia do seu colega. Pareceu-lhe haver um toque de sarcasmo nas palavras de Martin, entendendo ser o compromisso de Mulder somente um encontro banal, com uma mulher qualquer.

E seu amor por Scully não é apenas uma aventura.

Nada que venha a atingir a integridade moral de sua Scully o pode deixar satisfeito.

Martin afasta-se, acompanhando uma turma de outros agentes.

Kate e Sue haviam se encaminhado para sua sala.

Conversaram mais entre si durante algum tempo.

— Kate, eu já vou pra casa.

— Mas você está decidida mesmo a não ir à festa?

— Completamente! Estou cansada...

— Pois eu vou! - toma sua bolsa e coloca a alça no ombro - E espero me divertir.

— Faço votos que sim.

— Obrigada, amiga. - ela sorri - Vamos; eu também vou descer, agora.

Ao encontrarem-se as duas no corredor, a figura pequena e sempre elegante de Dana, nos seus altíssimos saltos altos, chama a atenção de Sue, que fica pasma.

— Kate! Por que você fez isso?

— Isso o que? - espanta-se.

Olha para a direção que a colega está direcionando sua vista.

— A Dana ainda não tinha ido embora! - diz Sue, sentindo remorso pela mentira da outra.

— E daí? Fiz mal?

— Claro que sim! Não se faz isso!

— Ah, por favor, Sue. Não seja tão santinha! A gente se diverte com uma mentirinha de nada dessas! Além do mais ele nem vai saber de nada, amanhã.

— Quem vai garantir?

— Ah, deixa pra lá. - levanta a cabeça, com ar decidido - Eu vou é completar a minha diversão!

No momento em que Scully aproxima-se das duas, Kate a faz parar.

— Oi, Dana!

— Oi. - responde Scully, distraida, enquanto distancia o olhar adiante, no corredor.

— Oi. - cumprimenta-a também Sue.

— E então? Você vai à festa do Martin?

— Festa? - Dana ri, divertida - Claro que não!

— Claro que não, por que?

— Ah, não sei... eu não acho um bom modo de me divertir. Só isso.]

— Pois devia... talvez fosse até diferente pra você.

— Diferente o que?

— Sei lá... uma noite mais... bem... eu não conheço sua vida...

Dana cruza os braços e espera, mal disfarçando a má vontade em ter que aguardar a frase da colega.

Sue está visivelmente incomodada:

— Bem pessoal, eu tenho que ir embora. - avisa.

Kate aponta para Sue, mostrando-a a Dana:

— Essa também é outra que não gosta de divertir-se um pouquinho... talvez até arranjar um... - abaixa o tom de voz - encontro amoroso nesta noite...

Scully meneia a cabeça, afirmativamente, mas sem sorrir.

— Até segunda. - despede-se e afasta-se das duas colegas.

— Olha, Dana! - chama Kate.

Scully volta-se para ver o que ela lhe deseja falar.

— O Mulder vai estar lá! Vou me divertir muito em vê-lo de modo diferente hoje! Está sempre tão arredio, não é mesmo?

Essas palavras produzem o efeito de uma lança venenosa dentro do coração de Scully.

"Como? Mulder resolvera ir naquela festa? Impossivel! Ele estava doidinho pra chegarmos em casa e nos... - corta, imediatamente, o resto do pensamento - Não é possível o que está acontecendo! Não acredito! Festa? Ele foi a uma festa? Qual é a explicação plausível que ele poderá me dar para esse modo idiota de comportamento?"

Um grupo de homens e mulheres aproxima-se agora, em direção ao elevador, deixando o trabalho.

Dana, ansiosa, dirige-se a um seu colega.

— Oi Donald!

— Sim, Dana? O que manda?

— Você viu o Mulder?

— Olha, eu estava retornando aqui ao Bureau depois de um serviço e eu o vi saindo há uma hora atrás com o Martin, já na porta do prédio.

— Com o... Martin? - ela franze as sobrancelhas.

— É... dizem que hoje ele vai fazer uma comemoração de despedida de solteiro... acho que é isso...

— É... está bem. Obrigada, Donald.

Essas palavras completaram toda a intrigante pergunta que estava dilacerando o coração e os pensamentos de Dana Scully. Sente-se péssima. Enjoada. Fatigada e num extremo desânimo.

"Nada de desgosto, nem desânimo;

se acabas de fracassar, recomeça."

Marco Aurelio