Voltei rápido! :) Aqui está a segunda e última parte de "Muse".
Não vou ficar enrolando nas notas iniciais. Só queria agradecer pelos comentários e o apoio que recebi de vocês. Não somente por aqui, mas no twitter também! Então, muito obrigada por acompanharem esse meu retorno!
Bom, vou deixar vocês com a Parte II, que não é nada pequena (e espero que não se importem em lerem 12k de palavras). Falarei mais nas notas finais.
Até lá e boa leitura!
MUSE
PARTE II
Não tente demais.
A diferença entre um fotógrafo bom e um fotógrafo excelente é que o fotógrafo bom meticulosamente planeja a composição da imagem para tirar fotos interessantes. O fotógrafo excelente reconhece o momento certo para quebrar todas essas regras de composição, apropriando-se de pequenos acidentes para tornar sua fotografia diferente de todas as outras.
James Potter eventualmente se tornou um excelente fotógrafo. E quando perguntavam "como consegue fotografias tão naturais e bonitas?", ele respondia "não fico tentando". Era simples assim. Ou nem tanto.
Todas as coisas que ele adquiriu e conquistou em sua vida ocorreram de forma natural. Ele tinha essa filosofia de que se você tenta demais, sua expressividade e impulsividade se perde no processo. Ele não estava nem um pouco interessado na perfeição, embora essa busca, para ele, o inspirasse a continuar fotografando.
Esse aspecto impulsivo se tornou reconhecido e, após dois anos fazendo um curso na mesma cidade em que se formou no colégio, seus trabalhos começaram a trazer propostas de empresas publicitárias, de moda, design, artes e música, para que ele finalmente saísse pelo país.
Ele aceitou todas as propostas. Não perca a chance, uma antiga voz dizia-lhe diariamente dentro da cabeça – ou nas lembranças. Correu atrás delas. Até que seu nome passou a fazer parte de uma lista dos jovens futuros da fotografia, em blogs e páginas de revistas que tinham fortes reputações.
Morou em Liverpool por mais de um ano e meio. Nessa fase, ele conheceu uma banda que estava querendo se tornar os novos Beatles. Eram bons e eles assinaram um contrato para gravar o primeiro álbum. Foi um ano importante para aqueles jovens e, especialmente, para James. Ao final da gravação no estúdio, com o nome do álbum na mente, comprar uma das fotos de James para usar como capa.
James aprendeu da melhor maneira que ser fotógrafo, antes de tudo, era se surpreender com os detalhes que as outras pessoas gostavam sobre o que ele capturava nas lentes de uma Canon. A banda fez sucesso, vendeu várias cópias do álbum com a capa na qual James tinha direito autoral sobre a foto. Eles gostaram tanto de James que, quando o primeiro single disparou na lista das mais tocadas da semana no iTunes, o agente da banda reconheceu seu talento e quis contratá-lo para dirigir o clipe musical.
Ali, no momento em que olhava diretamente para o contrato, James percebeu que ele havia alcançado um sonho. Ele sempre fora apaixonado por clipes musicais. Nunca considerou, no entanto, dirigir um. Mas, com a chance ali a sua frente, James se sentiu realizado. Claro que não deixou de se sentir inseguro. Com 22 anos apenas, o que aqueles caras estavam esperando de James?
Ele tinha paixão, ousadia, inspiração e um jeito muito bom de lidar com as pessoas. Foi isso o que o levou para tão longe em tão pouco tempo. Ele aceitava qualquer desafio à sua frente. As pessoas gostavam, não só das fotos, mas do cara que estava tirando elas.
Quatro meses depois, o clipe pronto e editado foi divulgado na página do facebook da banda. Muitas curtidas e, principalmente, compartilhamentos. James leu críticas de "que merda" até "que maravilhoso". Recebeu mensagens de elogios, pessoas perguntando sobre preços e disponibilidade de trabalho. A caixa de e-mail dele, não muito tempo depois, começou a ficar lotada. Ele passou a recusar trabalhos para priorizar os mais interessantes, o que significava uma coisa: ele estava na profissão certa e não a trocaria por nada.
– Amor, quem é Lily Evans? – Aquela pergunta havia saído da voz da namorada da época. Uma jovem aspirante escritora, Angela, que gostava de fumar maconha quando estava entediada, usava as camisas de James depois do sexo e perambulava de calcinha pelo apartamento dele quando queria assaltar a geladeira na madrugada.
– Por quê? – Ele estava com a cabeça no travesseiro, sonolento. Ela, com o notebook no colo ao seu lado.
– Estou vendo seu portfólio e encontrei essa. Lily Evans nunca olha para trás. Só estou curiosa.
– É mais antiga. Eu não tinha experiência nenhuma quando a tirei.
– Doze mil curtidas no Instagram? Porra, isso não é pouco para algo inexperiente. Vinte e seis mil no Tumblr. Cento e três no Pinterest. E quer saber? Merecidos. Está linda a foto.
– Obrigado.
– Não vai me dizer quem é ela?
– É minha ex-namorada. – Resumiu do melhor jeito que pôde. Mas, para ele, dizer aquilo pareceu vazio. Lily Evans havia sido mais que isso. Mas, claro, Angela não estava interessada em saber detalhes. Ele, muito menos em contá-los.
Achou que ela ia ser como outras garotas com quem ele já havia namorado até então. Achou que ia ficar irritada por saber que James ainda guardava uma foto da ex-namorada nas redes sociais. Mas não. Angela viu aquilo como um trabalho fotográfico de James, não uma recordação de um relacionamento que ele não havia superado. Ela havia superado, afinal.
– O nome não me é estranho.
– Ela é dançarina da Academia Real de Ballet em Londres.
– Espere... lembrei. Então foi ela quem dançou no aniversário da Rainha Elizabeth, mês passado, não é? Em rede internacional? O vídeo está rodando o facebook.
Ele confirmou.
Angela incomodava um pouco James por sua mania de não saber exatamente como perguntar as coisas. Sem contexto algum, foi direta:
– Eu posso usar a foto de capa para o meu próximo livro?
Ele piscou os olhos e se desencostou do colchão, sentando-se na cama. Esticou o braço para pegar os óculos no criado-mudo e limpar as lentes com o lençol.
– Não entendi sua pergunta, Angel. – Ajeitou os óculos no rosto e viu o rosto nítido e empolgado da namorada.
– Eu amei a foto. É exatamente a que eu estava procurando para mandar para a editora. Amor... por que não me mostrou antes? Você sabe que estou escrevendo sobre uma mulher que dança e... – Ela viu a expressão dele e fez uma interpretação errônea. – Eu não estou pedindo de graça. Meu agente vai conversar com você, podemos resolver os preços e...
– Não. Não é isso. Só não estou vendendo a foto.
Não era a primeira vez que ele recebia a proposta de vender os direitos de Lily Evans nunca olhava para trás.
– O processo é mais complicado. Para autorizar a venda preciso entrar em contato com ela para ela me autorizar a vender uma foto com a imagem dela. E, você sabe, ela está ocupada dançando para a realeza. Não vai ver o e-mail.
– Ela está de costas na foto.
– Ainda é ela. E preciso de autorização por direito de imagem.
– Eu garanto que ela nem vai chegar a ver a capa do meu livro-
– Não, Angela. Não. Existem milhares de fotos melhores para você usar de capa. Não precisa ser essa.
Levantou-se da cama e foi ao banheiro escovar os dentes. Ela ficou olhando para os ombros do namorado e acendeu um baseado depois que compreendeu tudo.
– Você ficou tenso. Essa foto significa alguma coisa, não é?
Ele estava ocupado demais com a boca cheia de pasta de dente para responder. Por isso, a moça continuou:
– Não acho que você não queira vender para mim só porque tem que enfrentar o trabalho de receber autorização, coisa que o agente dela pode muito bem resolver. Você nem precisa-
– Não me interessa vendê-la. Se quiser que eu tire uma foto de uma dançarina só para a capa do seu livro, eu tiro.
– Eu nunca vi um fotógrafo com tantos ciúmes de uma foto. Ou isso é porque você... não superou o que quer tenha acontecido entre vocês dois?
– Eu só não quero vender – ele repetiu claramente antes que começasse a se zangar com o assunto. – Podemos falar sobre outra coisa?
Ela deu um suspiro irritado, mas conseguiu respeitar a decisão dele. James não estava nem um pouco interessado em começar uma discussão naquela hora, então saiu do quarto.
Ele viveu três relacionamentos sérios em um período de seis anos. Ao longo de cada um desses relacionamentos, conheceu diferentes personalidades, visitou lugares novos, fez novos e revia velhos amigos. Na Inglaterra, ele ainda andava na montanha-russa do passado e do presente. O futuro era uma névoa que somente a cada passo que dava um determinado espaço ficava nítido, mas não o ambiente inteiro a sua frente.
Tirar fotos o levou para o mundo. Conheceu lugares que nunca pensou em conhecer. Ficou com garotas que o surpreenderam, que o testaram, que o amadureceram. Ele não tinha planos, não tinha metas, nem expectativas, motivo por também ter terminado com Angela, dois anos depois: ela pensava em casar e viver em uma casa de praia com três filhos; ele pensava no mundo que esperava por ele. Chegou a achar que conheceria com ela, mas ele vivia a vida como se ela fosse uma jornada; Angela vivia como se fosse o destino. Não daria certo.
Aos vinte e quatro, no que ele consideraria o melhor momento de sua carreira, ele precisou arrumar suas malas para pegar um avião internacional. Tinha um visto americano nas mãos e passaria os próximos meses trabalhando para uma empresa de vídeos musicais em Nova York. Se ele gostasse suficientemente dessa cidade que prometia mudar sua vida, quem sabe, poderia morar permanentemente por lá. Deixar as coisas que conquistou na Inglaterra – namoradas, fotografias, lugares, cursos, exposições, trabalho – e não olhar para trás. Recomeçar, de algum jeito. Ou só continuar explorando o mundo e deixando uma marca em cada canto dele.
– Bem, essa foi a última chamada para o voo – ele disse, virando-se para Sirius e Remus em um contato de despedida, enquanto segurava a passagem nas mãos. – Está chorando, Padfoot?
Costumavam tirar sarro dos sentimentos que tinham, mas agora que James ia se mudar para outro país, Sirius não viu motivos para isso. Ele fez um gesto e o abraçou, forte.
– Tchau, cara. – Era difícil se despedir do melhor amigo de infância, então não conseguiu reunir nenhuma palavra bonita.
Remus foi o próximo e ele tinha mais jeito com as palavras.
– Boa sorte por lá. Se precisar de alguma coisa, estamos aqui.
Sirius e Remus estiveram presentes em todos os momentos de sua vida, mesmo que, em boa parte dela depois da escola, esses momentos tivessem sido virtualmente.
– Amo vocês – disse James. – Se cuidem.
– Manda uma mensagem quando chegar. Sabe, pra gente saber que você está vivo.
Garantindo isso a Sirius, ele colocou a mochila nos ombros. Quando se aproximou do portão, James deu uma última olhada para trás.
No ballet professional, é tudo ou nada. Ela escolheu o tudo e a consequência foi o sucesso. Nos dias difíceis, quis desistir. Mas tentava de novo, e de novo, e de novo, e de novo. Em entrevistas, perguntavam "o que a motiva?" e Lily Evans respondia com um sorriso inspirado "a perfeição".
Ela nunca deixou de ser ambiciosa. Conquistou objetivos que a fizeram realizar sonhos. Paris foi um breve e maravilhoso momento de sua vida. Por três anos, praticou para vencer uma das maiores competições internacionais do mundo na cidade francesa. Chorou e sorriu. Quando levava prêmios embora e se deitava sozinha no apartamento em que morava, ela sabia que precisava encontrar outros sonhos para evitar o vazio.
Lily temia o vazio.
Ela também planejava seu dia meticulosamente. Dança era sua rotina. Apesar de sua mãe ter eventualmente se tornado sua própria agente, Lily apenas sentia que as coisas estavam sob controle quando ela as controlava.
Nos poucos relacionamentos que viveu, Lily continuou cometendo erros. Não conseguia o equilíbrio que buscava com a dança, porque sua vida fora dos palcos era tudo, menos perfeita. Quando achou que teria futuro com Christopher, um talentoso dançarino francês que prometia a ela o mundo, Lily aprendeu que semelhanças demais eram também empecilhos. Eles terminaram sem ao menos uma discussão. Ao final de uma performance de A Bela e a Fera que realizaram juntos no palco, rendendo aplausos dos mais críticos do ballet clássico, Christopher foi até ela em seu camarim.
– Você foi perfeita.
– Você também.
Suas amigas brincavam que eles deveriam ter o sexo mais sincronizado do mundo, devido ao ritmo alucinante que tinham juntos na dança, além da química e a sensualidade que transbordavam no palco através de seus movimentos. Quando Lily contou que, na verdade, transar com Christopher era absolutamente entediante, elas não esconderam suas decepções.
Por alguma razão, Lily estava pensando se ele teria a iniciativa para transar com ela naquele camarim. Pensou que não.
– Eu não quero magoá-la – ele disse com seu sotaque francês. – Amamos a mesma coisa e queremos os mesmos objetivos. Poderíamos até conquistar tudo isso juntos, mas...
– Mas não é real. Não é?
– Não é. Eu sinto muito.
– Eu também.
Depois que terminou com Christopher, ela decidiu que Paris seria mais uma página virada e que, para ela, relacionamentos nunca funcionariam. Suas performances em A Bela e a Fera rendeu uma turnê extremamente agitada pelos países europeus, garantindo, finalmente, reconhecimento mundial.
Aos vinte e quatro anos, no que ela consideraria o melhor momento de sua carreira, Lily precisou arrumar as malas, mais uma vez, para pegar outro avião internacional. Quando recebeu a proposta de ser a principal atração em O Lago dos Cisnes, Lily soube que mais um sonho estava se realizando. Assinara um contrato de um ano em Nova York. Os ensaios seriam longos e pesados. Mas como sempre, ela estava preparada para dar tudo de si.
Há uma certa inconstância no modo como as coincidências aconteciam na vida. James Potter desembarcou às quatro e meia da tarde no Aeroporto Internacional de NY no dia vinte e cinco de outubro. Lily Evans desembarcou às quatro e meia da madrugada no Aeroporto Internacional de NY no dia vinte e seis.
Ele conseguiu um loft aconchegante em Manhattan, onde tinha a vista para o pôr-do-sol e lugar para montar seu espaço pessoal de equipamentos fotográficos. Ela se acomodou em um apartamento ao lado oposto de Manhattan, onde tinha a chance de assistir ao sol nascendo e meditar no chão da sala. Ela não desfez as malas nos primeiros três meses, porque passava a maior parte do tempo ensaiando seu número principal em O Lago dos Cisnes. Nos três primeiros meses, ele já tinha personalizado o loft inteiro.
Ela acordava às cinco e pegava o metrô às seis para chegar ao ensaio às sete em ponto. Ele acordava às seis e meia para chegar ao estúdio às sete, dirigindo. Ela não gostava do trânsito e preferia usar o tempo de ida no metrô para ler um livro. Ele quase bateu três vezes a caminho do trabalho. Ela quase foi atropelada três vezes a caminho do trabalho.
Ele adquiriu costume de tomar café da manhã em uma padaria, onde também conheceu uma garota interessante para flertar e, após muita conversa jogada fora, transar no banheiro quando o lugar ficava vazio.
Ela adquiriu o costume de almoçar em um restaurante, onde também conheceu um rapaz que sabia conversar sobre arte e música e a convidou para assistir à um filme em um daqueles cinemas ao ar livre. Ela se deu uma chance para mais um relacionamento. Eventualmente, ele não conseguiu lidar com a ausência dela.
Lily fez uma amiga, Emmeline, a bailarina que atuaria como o cisne negro na apresentação. James fez muitos amigos.
Ele acordava de ressaca. Ela acordava com dores musculares.
Estavam próximos e distantes ao mesmo tempo. No momento raro em que poderiam ter se reencontrado, James estava mexendo no celular e Lily verificando se a carteira estava em sua bolsa. Nenhum dos dois olhou para os lados; caso contrário, teriam se visto. A cidade era constantemente movimentada por pessoas apressadas. Era impossível encontrar um rosto conhecido em meio a tanta movimentação diário, mas não era impossível que duas pessoas fossem levadas por uma sucessão de acontecimentos para que, em um momento, elas estivessem no mesmo lugar e na mesma hora.
Os ensaios para O Lago dos Cisnes drenavam toda a energia do corpo de Lily. Naquele dia, em particular, seus movimentos estavam fervorosos e ela se sentia inspirada. Um ímpeto crescia em seu interior, correndo por toda sua corrente sanguínea. Os olhos dos que observavam a dança estavam hipnotizados e não conseguiam desviar da beleza, leveza e impetuosidade que Lily transmitia em seus gestos. Quando ela finalmente deu o salto final, sentindo-se flutuar, conseguiu visualizar suas maiores aspirações.
Que foram completamente espatifadas quando apoiou os pés de volta no chão do palco e uma dor inconveniente pressionou o osso de seu joelho direito. Ela não conseguiu se equilibrar perfeitamente, o que fez Maddie Singer, a coreógrafa, evitar o elogio que estava preso em sua garganta.
– Tente outra vez, Lily, sim? Estava excelente, mas o salto, o principal, não foi perfeito. Você nos deixou sem fôlego por dois minutos. Se acertar o salto, ninguém esquecerá de sua apresentação tão cedo.
Suando e com o coração disparado, Lily assentiu.
Começou do início, encantando por dois minutos. A pontada de dor insistia em atrapalhá-la, mas Lily recusou a senti-la. Sabia que estava exausta, mas já aguentara pior em sua carreira. Preparando-se para o pulo, no embalo, a dor ficou insuportável. Ela esperou que sua expressão não ficasse visível, mas equilibrar-se depois do salto estava causando um incômodo terrível em seu joelho.
– Lily está exausta – disse Emmeline, entrando no palco. – Vamos passar a minha vez.
– Não – Lily retrucou. – Eu consigo. Vou tentar mais uma vez.
Emmeline apertou o braço de Lily, levemente, impedindo-a de se posicionar.
– Não seja estúpida – ela cochichou em seu ouvido. – Todo mundo viu que está dor. Não insista ou vai piorar.
– Solte-me, por favor, Emms.
– Não force.
Lily a ignorou.
– Farei mais uma vez.
E, dessa vez, piorou. Ela caiu, o que causou um estralo agudo no joelho. As dançarinas vieram ao seu alcance, mas Maddie Singer fechou os olhos em um lamento precipitado e avisou:
– Vamos passar a vez de Emmeline.
– Você está bem, Lily? – perguntou uma das dançarinas, enquanto ela tentava se levantar com ajuda.
– Estou. Só preciso beber água. É cansaço. Com licença.
Não podia ser cansaço. Saiu do palco e se dirigiu ao vestiário fora do teatro o mais rápido possível. Fechou a porta com força, imediatamente se sentando no banco a frente do espelho. Verificou os movimentos da perna.
– O que foi isso, Lily?
Sua mãe, que sempre assistia aos ensaios, tentou alcançá-la. Abriu a porta com tudo e parecia ligeiramente brava.
– Está distraída de novo? Por que está chorando? Ora, até parece que nunca caiu antes. Sei que essas garotas são extremamente talentosas, mas você é você. Vai ficar tudo bem. Repetindo os passos fará você acertá-los. Aquele salto realmente é muito difícil.
– Mãe. Deixe-me sozinha.
– Não, não posso deixá-la sozinha. Em dois meses faremos a pré-estreia e você parece que está ficando cada dia mais distraída. Maddie Singer percebe tudo isso. O que aconteceu? Está saindo com algum rapaz?
– Me deixe em paz, mãe. – Dessa vez, não conseguiu conter a grosseria. A sra. Evans assentiu, finalmente.
Quando o vestiário voltou a ficar silencioso, Lily chorou. Não por estar se sentindo pressionada, não por ter caído, muito menos por estar se achando insuficiente como a dançarina principal do maior espetáculo de ballet do mundo.
Ela chorou de dor.
Emmeline Vance
Maddie Singer percebeu que você está com dor. Ela vai te mandar fazer exames. Meu conselho? Faça.
Lily Evans
Já acordei melhor essa manhã
Vou conseguir finalizar o número
Desculpe pelo estresse ontem :(
Emmeline Vance
Você quer que eu vá com você ao médico?
Lily Evans
Não vou precisar de médico
Já falei, já passou
Na semana seguinte, ela finalmente reuniu coragem para parar os alongamentos e confessar à sua coreógrafa que ela não conseguiria ensaiar naquele dia.
– Há quanto tempo sente a dor, srta. Evans?
Ela não respondeu imediatamente.
– Há quanto tempo? – pressionou.
– Dois meses – ela respondeu. – Eu achei que passaria, mas foi piorando.
– Não acredito que escondeu isso por tanto tempo, Lily! – ralhou Emmeline.
– Eu temia atrapalhar os ensaios.
– Srta. Evans, deverá marcar uma consulta médica imediatamente.
Passou os últimos dias correndo atrás disso. Os resultados foram preocupantes. Ela teria que começar sessões de fisioterapia semanalmente. Teria que evitar atividades físicas puxadas. Ela teria que parar de dançar por um tempo indeterminado.
Ela nunca ouviu palavras que doessem tanto.
A alternativa era cirurgia, mas nenhum médico recomendava tal coisa. Ela era muito jovem e, mesmo que a cirurgia no joelho fosse bem-sucedida, Lily deveria repousar por alguns meses, sem atividade física alguma.
Qualquer escolha que fizesse a tiraria do papel principal – da apresentação em geral – de O Lago dos Cisnes.
Lily temia o vazio e foi o que ela sentiu quando saiu do médico naquela quarta-feira cinzenta.
O céu estava caindo. Uma tempestade que durou a tarde toda atrapalhara excessivamente a vida da cidade. Lily não conseguiu pegar o metrô para voltar para casa, então precisava imediatamente conseguir a chance de entrar em um táxi. Os taxistas eram a prioridade dos pedestres, o que explicava a dificuldade de tal acontecimento.
Estava tendo um dia péssimo.
No instante em que o taxista parou em frente a Lily, um rapaz alto e completamente desprotegido da chuva – sem guarda-chuva e casaco – se aproximou apressadamente também. No entanto, o taxista gritou que só teria um lugar.
– Pode ir você, eu pego o próximo – ele permitiu com seu sotaque inglês. Os óculos estavam tão embaçados pela chuva que ele só enxergava borrões aguados. As luzes da rua também atrapalhavam a nitidez, o que não o fez perceber logo de cara as feições da moça que estava ao seu lado.
Mas Lily percebeu e ela não se mexeu para entrar no táxi. O que fez foi perguntar inconscientemente:
– James?
A chuva estava tão forte que James não escutou direito. O taxista não estava com paciência para esperar Lily falar oi para o ex-namorado, então um homem do outro lado da rua grosseiramente empurrou os dois para entrar no carro. Lily saiu imediatamente de seu transe e gritou:
– Ei! Eu fiquei uma hora esperando para entrar! Idiota!
Dessa vez James reconheceu a voz. Limpou os óculos com a própria mão e viu os cabelos ruivos. Nada de sua beleza estava mudada, exceto uma postura mais alterada pelo excesso de nervosismo que enfrentara o dia todo.
– Merda – ela xingou. Quando se virou para James, ele não soube decifrar se ela estava realmente zangada ou encontrara um certo tipo de humor naquele momento. – Foi sua culpa.
– Minha culpa?
– O que está fazendo aqui?
E então, com certo alívio, ele percebeu que ela abrira um daqueles sorrisos inesperados que as pessoas abrem quando reencontram alguém que, há muito tempo, foi especial. Como segurava um guarda-chuva e Lily Evans era uma pessoa extremamente preocupada com as outras, ela tentou posicionar o objeto sobre a cabeça de James, embora ele fosse muitos centímetros mais altos, já estivesse com os ossos encharcados e de nada um guarda-chuva adiantasse. Achou o gesto tão típico dela que era como se seis anos nunca tivessem passado desde a última vez que se viram pessoalmente.
– Bem, é uma longa história. E quanto a você? – ele perguntou.
– Longa história também.
Ele se viu sorrindo.
– Eu posso imaginar. Ouvi seu nome por aí, uma ou duas vezes.
– E eu ouvi o seu. Uma ou duas vezes.
Depois disso, o diálogo se seguiu com uma pausa na qual James estava tentando decidir se olhava para os olhos dela. Aquele verde raro ainda era atraente demais.
– Desculpe ter feito você perder a chance de pegar o táxi – ele disse.
– Eu só estava brincando. Foi, hum, foi bom te rever. Um pouco surpreendente.
– É, o dia só poderia estar um pouco mais ensolarado.
Depois de espirrar, ele reparou que ela o olhava, aflita.
– Você foi assaltado?
– Estava cinquenta graus quando saí de casa – defendeu-se.
– Você sabe que não pode confiar nisso.
– Aprendi a minha lição hoje.
A chuva cessou como se só tivesse surgido para causar aquele reencontro tão raro, tão acidental. James ainda continuava o mesmo rapaz alto, bonito e com o sorriso de lado que era capaz de fazer as pessoas acreditarem que elas eram únicas no mundo. No entanto, havia algo diferente, algo mais forte e maduro na postura dele. Lily reparou nisso quando o próximo táxi parou e ele trocou sua necessidade para priorizar a dela.
– Você estava esperando há mais tempo.
– Obrigada, James.
Lily entrou no táxi. James estava olhando atentamente para verificar se não perdia nenhuma oportunidade de sinalizar para outro quando Lily desceu a janela da porta e disse:
– James?
Ele olhou para o rosto dela.
– Tem mais um lugar aqui.
E se perguntou como teria sido seu dia se tivesse decidido trabalhar de carro.
James reparou que ela estava com uma expressão cabisbaixa, embora forçasse para não demonstrar ao mundo. Mas ele não perguntou o que aconteceu, não eram mais próximos. Eram ex-namorados ingleses que acidentalmente pegaram o mesmo táxi em Nova York. Quais as chances?
O silêncio era quebrado pelo animado taxista que, ao reparar no nome de Lily, imediatamente pediu um autógrafo para a filha dele. James observava tudo, como se aquilo estivesse sendo parte de um sonho em que ele acordaria e ficaria com a testa franzida a manhã inteira.
Foram quinze minutos de percurso, o que deu tempo de saber algumas coisas que estavam acontecendo. Ela tinha um contrato assinado para fazer parte de um espetáculo de ballet. Ela descobriu que ele ajudava em montagens e fotografias de clipes musicais.
Aparentemente, eles realizaram aqueles sonhos que compartilharam na adolescência. Só não souberam dos detalhes:
James perdera todas as fotos e poderia ser demitido se não recuperasse elas.
Lily estava com problemas no joelho e isso poderia causar sua saída – ou mesmo o cancelamento – do espetáculo.
Eles se reencontraram em um dia terrível.
James não acreditava em sinais, nem em destino, nem em sorte, nem em azar, nem em todas essas coisas que tentavam explicar coincidências. Mas ele não soube explicar cientificamente o que aconteceu.
Especialmente depois que Lily saiu do táxi quando chegou ao seu destino e esqueceu o casaco que retirara no começo do trajeto, apoiado no banco.
James reparou nisso dois quarteirões depois. O que ele poderia ter feito? Pedido ao taxista para que voltasse e entregasse a Lily? Não. Deixá-lo ali porque ele não tinha nada a ver com aquilo? Afinal, era só um casaco. Lily poderia comprar outros. Não sentiria falta do casaco...
Depois de muito pensar nas possibilidades e impossibilidades, James se viu saindo do táxi com o casaco na mão.
Que porra eu to fazendo?
– Cara, que porra é essa? Eu teria fingido que não reparei no casaco – disse Sirius. Estavam conversando através do Skype. – Você é muito certinho, Prongs.
– Eu não sei o que me deu.
Remus perguntou algo interessante:
– Você quer vê-la de novo?
– Não – ele respondeu imediatamente. Nem a webcam acompanhou o movimento com a cabeça que ele fez, porque travou um pouco. – Não é isso.
Era?
– Bom, não vamos julgá-lo – garantiu Remus. – Você encontrou sua ex-namorada em um táxi depois de seis anos sem nunca ter trocado uma palavra com ela nesse meio tempo. E aí ela esquece um casaco e você pega o casaco. James... você quer vê-la de novo.
– É como se ela tivesse esquecido o sapatinho de cristal. Fofo.
– Mas pelo menos o sapatinho de cristal deve ter sido bem caro e valioso. Não algo provavelmente comprado às pressas na Forever 21.
James quis fechar a conversa depois dessa comparação. Mas então Sirius perguntou algo ainda mais interessante:
– Você viu se tem alguma coisa no bolso do sobretudo?
– Não. Eu não saio por aí botando a mão em bolsos alheios.
– Nem uma espiada? Vai que você encontra algo valioso. Isso faria você não se sentir patético por só ter tentado proteger um casaquinho.
– Quer saber? Vou fingir que nada aconteceu e que não tem nenhum casaco aqui. Eu tenho coisas mais importantes com o que me preocupar e...
Ele parou quando começou a ouvir um som. Um toque de celular que não vinha do dele.
– Isso é o que estou pensando que é?
– Você tem razão, Sirius. Agora não me sinto patético.
James Potter
Oi, Lily. Aqui é James Potter. Nós nos vimos no táxi hoje à tarde. Não sei se verifica inbox de facebook, mas se ler essa mensagem, eu
Ele parou de escrever. Algo parecia estranho. Ele precisava soar mais despretensioso.
Foi quando ele viu que Lily Evans estava digitando. Em menos de um minuto recebeu a mensagem.
Lily Evans
Boa noite, James. Desculpe incomodá-lo. Eu esqueci meu casaco no táxi hoje à tarde e gostaria de saber se você se lembra do nome do taxista para que eu possa entrar em contato com ele.
James Potter
É esse daqui?
Ele enviou a foto do casaco em cima de seu sofá.
Lily Evans
Meu Deus. É esse mesmo. Você pegou? Obrigada, obrigada mesmo.
James Potter
Antes um casaco perdido com alguém que já conhece do que em um táxi aleatório no meio de Manhattan :)
Ele enviou aquilo. E quando releu o que havia escrito, ele balbuciou um "que porra eu escrevi?" e "por que eu enviei?". Despenteou os cabelos. Decidiu fechar a janela da conversa para não ter que reviver sua própria idiotice. Nem quis saber se ela visualizou nos próximos vinte minutos.
A resposta dela havia sido imediata.
Lily Evans
Hahaha acho que tem razão
Obrigada. Eu esqueci meu celular dentro do bolso do casaco. Teria sido um desastre.
Tem algum dia que eu poderia pegá-lo com você?
James Potter
Amanhã de manhã, talvez? Assim você não passa muito tempo sem ele
Lily Evans
Eu não quero atrapalhá-lo ou ser inconveniente
James Potter
Tranquilo, amanhã é sábado
Tem uma cafeteria por aqui
Posso entregar pra você lá
Somente depois que enviou aquelas palavras, James se deu conta do que acabara de fazer. Ela poderia muito bem interpretar aquilo como uma desculpa dele para chamá-la para sair, o que não era o caso. A situação estava complicada, mas Lily foi bem madura e digitou:
Lily Evans
Por mim tudo bem. Me passa o endereço? Apareço por lá às 9h, pode ser?
James Potter
Claro, sem problemas
Lily Evans
Obrigada de novo :)
Ele passou o endereço e pensou em escrever mais alguma coisa como "foi legal te rever", mas... tudo pareceu ter acontecido rápido demais. Ele tinha que se lembrar que seis anos haviam se passado e em seis anos muitas coisas mudaram. Em um momento estava indo trabalhar, a cabeça cheia com os problemas do trabalho, das fotografias perdidas, a correria para recuperá-las... e no outro, ele estava preocupado em entregar o celular de Lily Evans sã e salvo para ela.
Ele chegou primeiro na cafeteria em que combinaram e esperou dez minutos. Quando a porta de entrada se abriu, revelando Lily, ele percebeu que estava ansioso para revê-la desde a tarde anterior. Dessa vez, resquícios de sol iluminavam seu cabelo solto, comprido e ruivo, dando aquela sensação de que estavam em chamas. Eram mais longos do que ele se lembrava e o movimento ondulado acompanhava seu andar ligeiramente leve e apressado, que dava impressão de emanar passos de dança mesmo quando não estava dançando.
As pessoas reparavam em sua presença. Uma mulher bonita com a postura marcante. Lily Evans não era ignorada por onde passava, mas ela mesma não reparava em ninguém exceto no seu próprio objetivo, que era o de encontrar James Potter no meio de todas aquelas outras mesas ocupadas. Quando Lily o achou, a expressão concentrada foi substituída por uma aliviada.
Caminhou até ele, sem olhar para os lados. James se levantou, segurando o sobretudo preto nos braços, esperando pela aproximação dela.
– Aqui está – ele disse, estendendo o sobretudo para ela, que imediatamente o vestiu e tirou o celular do bolso, ajeitando o cachecol.
– Obrigada, James. – Ela estava ofegando, como se tivesse corrido três quarteirões para não se atrasar. – Não quis fazê-lo esperar, o trânsito é horrível à essa hora. Mas... consegui. Obrigada de novo. Eu não saberia o que fazer se tivesse que entrar em contato com o taxista. Aliás, dá pra entrar em contato com eles? Eu nem sei.
– Você já teria perdido o celular, sinto muito – ele foi sincero, achando graça em sua afobação.
– Não é nem o celular que me preocupa. Eu estou até tentando fugir dele nos últimos dias. O sobretudo foi um presente da minha avó, eu odiaria perdê-lo para sempre.
Algumas coisas não mudavam, reparou James. Lily ainda falava rapidamente quando estava nervosa. Ele só não entendeu por que ela estava tão nervosa.
James se sentiu bem, de repente. Sua intuição havia sido guardar o casaco e ele sempre confiava em suas intuições. Dessa vez, não foi desapontado. Lily sempre tivera uma ligação forte com sua avó, ele se lembrava na época da escola ela dizendo o quanto sua avó a inspirava. Fora uma daquelas conversas dramáticas que melhores amigos tinham e que fortaleciam amizade.
Por esse motivo, mesmo após anos, James achou importante saber:
– E como ela está? Sua avó?
Lily colocou um pedaço do cabelo atrás da orelha, gesto que, na adolescência, enlouqueceu James muitas vezes.
– Ela faleceu. Ano retrasado.
Ele não se surpreendeu com a resposta.
– Eu sinto muito.
– Obrigada. Mas aliás, por que estamos tendo essa conversa?
– Tem razão. – Ele havia interpretado o corte do assunto como um modo sutil de já se despedirem. No entanto, quando James já estava pronto para apertar sua mão e vê-la ir embora, apressada como sempre, Lily ficou e perguntou outra coisa:
– E você? Como estão as coisas?
Eles estavam em pé ao lado da mesa, agindo com uma formalidade exigida pelo tempo separados. Era uma contradição entre lembrar e não lembrar. Não tinha como ignorar o que eles tiveram, mas precisavam se concentrar no que eram naquele momento. E eles não sabiam mais o que eram.
– Eu vou expor um trabalho fotográfico em uma galeria, então tem sido uma correria louca.
– Uma galeria? Qual?
Ele explicou o local. Lily escutara sobre o lugar uma vez. Ele massageou a nuca após responder, acrescentando:
– Se quiser ir, é livre para todos os públicos.
– Talvez eu apareça – sorriu de uma forma não intencionalmente doce.
Ele sabia que isso não aconteceria, mas não se importou que ela mentisse por educação. Os dois abriram um sorriso no momento em que o café de James ficou pronto e a garçonete trouxe para ele na mesa.
Ainda estavam em pé, então a garçonete virou seu bloquinho de anotações de pedidos e, mascando o chiclete de um jeito alto, perguntou:
– E o seu, flor?
Lily notou que a pergunta foi para ela e, de repente, lembrou-se que não havia tomado café da manhã por causa da correria. Após trocar um breve olhar com James, respondeu:
– Um suco de maçã, por favor.
Sem combinarem, sem terem tido a intenção daquilo, os dois se sentaram em lados opostos da mesa da cafeteria para esperarem o pedido.
– Não aprendeu a gostar de café? – ele perguntou, incapaz de deixar o silêncio se sobressair.
– Não consegui. Eu tentei frequentar essa Starbucks, para parecer uma legítima americana, mas a quem eu quero enganar? Sempre vou preferir o típico chá inglês.
– Há quanto tempo está aqui?
– Outubro.
– Desse ano?
– Sim. Espere, você também?
Ele respondeu com uma risada incrédula, que foi acompanhada pela dela. Por quanto tempo iria se deparar com coincidências em relação a Lily Evans?
– Então conseguiu – ela disse, após um tempo. – Trabalhar com fotografias.
– E você dançou no aniversário da Rainha.
– Aquilo foi... uma loucura. Sabe quando seu estômago parece que vai sair pela boca? Nunca fiquei tão nervosa na minha vida, e isso é dizer muito.
– Deve ter sido incrível.
– Foi, foi maravilhoso.
Por um momento, ela desejou que ele tivesse estado lá para acreditar nela.
Os dois pensaram a mesma coisa, mas não sabiam.
– E para qual espetáculo está ensaiando aqui em NY? – ele perguntou. – Já ouvi falar ou é algo mais alternativo?
– O Lago dos Cisnes – ela respondeu.
Ele não deixou de ficar impressionado.
– Então está no auge, Lily Evans.
Estou em ruínas, ela quis corrigi-lo. E de repente quis contar que tudo seria destruído por causa de uma dor. Uma dor em um osso, sendo que ela tinha mais uma quantidade considerável de ossos pelo corpo que estavam em perfeito estado. Um defeito, um único defeito, menor do que uma colher de arroz, poderia acabar com tudo o que ela lutou e se esforçou para conquistar.
Provavelmente Lily não percebeu a expressão que fazia. James perguntou:
– Você está bem?
– Oi? Estou, estou sim. Só...
– Pressão – ele adivinhou, quando ela não encontrou as palavras.
– Pressão – ela concordou.
– Bem – ele disse, otimista. – É só se divertir. Não tem erro. Quando vai estrear?
– Em dois meses.
– Entendi. É um daqueles espetáculos que faz Nova York parar? Ou o mundo?
Uma sensação horrível estava crescendo nela. Não, Lily, você não vai chorar na frente do seu ex-namorado, ele só está tentando ser legal. A vontade, no entanto, era essa. Talvez tivesse sido uma péssima ideia entrar naquele assunto.
– Eu preciso ir, James.
Aquilo não deixou de surpreendê-lo. Não por ela querer ir embora, mas por ele não querer que ela fosse.
– Tem certeza? Seu suco...
– Eu vou levar no caminho. Acabei de lembrar que tenho um compromisso importante.
Ele sabia que ela estava mentindo.
– Entendo. Bem... nos vemos por aí.
E ele sabia que aquilo seria muito improvável.
– Obrigada pelo casaco. E o celular. Eu realmente preciso ir. Tchau.
Após pegar o suco, Lily andou até a saída da cafeteria, mas deu meia-volta, talvez pensando que aquela realmente seria a última vez que veria James. Ela disse:
– Boa sorte. Na exposição.
Não deu tempo para que ele agradecesse. Lily cruzou o caminho das pessoas que atravessavam a rua e, mais uma vez, não olhou para trás.
Ela passou a semana esperando para saber qual seria a decisão dos produtores do espetáculo quanto à sua saída do elenco. Ele ficou uma hora ao lado do armário onde guardava suas sapatilhas, olhando para nenhum lugar específico. Esperariam Lily se recuperar ou a trocariam por outra bailarina?
A sra. Evans foi a primeira a sair do escritório de Maddie Singer e ela não sabia como esconder o que precisava dizer à sua filha, que batalhou tanto. Tanto, mas tanto que agora sofria consequências.
– Estamos lindando com contratos e prazos. Eles não podem esperar por você, querida.
Lily não chorou; estava farta de chorar.
– Só não podemos negligenciar sua dor. Começará a fisioterapia com o Dr. Downey semana que vem e vamos esperar que se recupere o mais rápido possível. – Aproximou-se de Lily e levantou seu queixo. – Você não tem mais dezessete anos, Lily. Entende que precisa se cuidar em primeiro lugar. E O Lago dos Cisnes não definirá sua carreira. Terá milhares de outras chances.
– Eu estou bem, mãe – ela tentou se tranquilizar. – Eu só não quero que as pessoas pensem que eu desisti.
– Não vão pensar.
Iriam pensar sim.
Mas para que pensar no que os outros iriam pensar? Lily teria que apenas ficar longe das críticas. Iriam apontar sua negligência, sua falta de compromisso para com o espetáculo, o fato de que ela havia prejudicado uma produção caríssima, e que isso poderia causar a destruição de sua carreira, perdendo patrocínios importantes.
Somente as pessoas que conheciam Lily, entendiam.
Emmeline foi até ela no corredor do vestiário, no momento em que Lily recolhia sua roupa e as sapatilhas para ir embora.
– Oi, Lily. Estamos bem?
– Oi, Emmeline. "Estamos bem"? O que isso significa? – Lily entendeu a pausa e a expressão dela. – Você ficou com o papel?
– Eu decoro os passos facilmente. E o tempo que ficamos juntas ensaiando fez com que eu aprendesse bastante com você.
Lily precisaria mais do que um minuto para refletir sobre isso.
– Parabéns, você vai se sair bem.
– Não melhor do que você se sairia e eu estou falando sério. Terei que praticar o dobro do que eu já estava praticando. Mas... confesso que estou lisonjeada. Pode ser minha chance.
– Aproveite ela.
– Eu só não queria que fosse assim.
– Está tudo bem. Essas coisas acontecem.
Saíram juntas do teatro e conversaram até que estivessem na mesma estação de metrô. Costumavam fazer esse mesmo trajeto juntas, o que causou uma amizade singela. Por isso Lily achou espaço para perguntar:
– Sexta-feira à noite, o que acha de sairmos? E eu estou precisando me distrair, depois de todos os exames no joelho e... isso.
– Eu adoraria, Lily, mas sábado estarei louca. Vou ensaiar horas extras, então... não vou poder. Mas podemos combinar outro dia. Talvez no sábado à noite? Tudo bem?
– Tudo bem. Quando estiver livre.
Lily a compreendia, mas se sentiu estranha por ironicamente estar observando o outro lado da situação: a de quem não poderia deixar que a dança, dessa vez, fosse uma prioridade.
James andava apressadamente pela calçada extensa, pedindo licença a cada dois minutos para que as pessoas presas em suas rotinas apenas pudessem dar espaço para ele passar.
Falava com seu colega pelo celular, ofegante pelo esforço físico de correr, literalmente, contra o tempo e os prazos.
– Viu a foto reenviada? Eu consegui recuperá-las hoje. Não sei, cara, foi sorte. Tudo bem, então. Estou indo para a galeria, preciso verificar se está tudo bem com meu trabalho para a abertura hoje.
Era sempre importante a noite de abertura de uma exposição. James ficava ligeiramente ansioso por poder mostrar seu trabalho e perceber as reações que causava nas pessoas, ao vivo. Não estava se sentindo diferente dessa vez. Até comprou roupas novas para usá-las naquela noite.
A exposição ocorreria no salão de um clube muito frequentado nas proximidades de Manhattan. De todas as exposições que James participou com seus trabalhos, aquela era a mais importante, principalmente porque ele dividiria espaços com trabalhos de fotógrafos mundialmente conhecidos.
A abertura ocorreu às nove horas e se estendeu até tarde da noite. Ele conversava com as pessoas que se aproximavam para fazer perguntas, trocar ideias e comentar sobre o que acharam de seu trabalho. Não era somente um lugar para ficar observando fotografias, mas também para socializar, tomar vinho, saborear aperitivos. Não era um local exclusivo para a sociedade alta, mas era bem frequentado e agradável, com música e pessoas bem vestidas.
James evitava ora ou outra ver como estava a movimentação ao redor de sua fotografia, porque não era legal vê-la ligeiramente vazia. Na galeria, mais vinte trabalhos de nomes muito maiores do que o dele estavam ofuscando o caminho para o corredor onde o seu estava disposto nas paredes.
– Primeira vez que está expondo aqui? – Uma jovem se aproximou dele, simpática e com um jeito fácil para conversas. James, que até então estava procurando coisas interessantes para fotografar, retirou a máquina perto de seu rosto e a segurou na altura do abdômen. A dona da voz simpática era uma universitária de óculos grandes, cabelo curto, rosto fino e um sorriso bonito.
– Está tão na cara?
– Não se preocupe, as pessoas vão notá-lo em alguns instantes. Seus trabalhos são lindos.
– Obrigado.
– Eu sou Jessica – ela disse, estendendo sua mão. – Uma grande fã, na verdade.
– Sério? – ele achou aquilo extremamente interessante. Nunca havia conhecido uma fã de perto. Apertou a mão feminina e delicada. – Prazer em conhecê-la... – e seus olhos fixaram-se em um ponto único da galeria, perto de seus trabalhos. – Lily?
Jessica não escondeu o desconforto.
– Não. É Jessica. É completamente diferente-
– Com licença.
Realmente não esperava revê-la ali. Não soube dizer se foi a surpresa por saber que Lily considerara de verdade visitar sua exposição ou se foi porque ela de fato parecia absorta na fotografia, como se quisesse tocá-la, mas não sabia se poderia. Estava tão próxima do vidro da moldura que James poderia facilmente vê-la fundida ao aspecto preto e branco da fotografia que capturara com a câmera.
Aquele ímpeto que um artista não podia ignorar se acendeu dentro dele. James precisou levar a câmera para o rosto, posicionando o visor em seu olho esquerdo. Mas, claro, não sem antes perguntar:
– Posso?
Lily pareceu sair de seu torpor e, como todas as pessoas quando percebiam que uma câmera estava direcionada a ela, sentiu-se sem graça. O que fez seu sorriso ficar mais bonito, natural, e James congelar aquela breve expressão para sempre.
– Tive alguma escolha? – ela perguntou, em um tom irônico, depois que James abaixou a câmera e sorriu para ela.
– Você poderia ter mostrado o dedo do meio. Assim sabemos quando alguém não quer ser fotografado.
Isso a fez rir, como ele, singelamente, esperou que fizesse.
– Então você veio.
– E você duvidou.
– Duvidei?
– Você sempre foi meio transparente, James.
Ele ergueu os ombros, sem saber como se defender dessa vez.
– De qualquer forma, não me arrependo – Lily garantiu, voltando a observar a fotografia. – Está incrível. Eu gostei especialmente dessa.
– É particularmente a minha favorita também. Você está com alguém?
A pergunta saiu completamente fora de contexto em voz alta. E sem o consentimento de sua racionalidade, porque ele não queria perguntar, só estava se perguntando. Lily olhou para ele dessa vez e James precisou ser rápido.
– Quero dizer, você está sozinha? Não. Ainda não é isso o que quero dizer. Eu só quero saber se mais alguém entrou com você para ver a exposição.
Ela sentiu vontade de rir com o jeito embaraçado dele.
– Não, não estou com alguém – respondeu, sob o silêncio que ele se obrigou a fazer. – E você?
– Eu estou...
– Complicado?
– Você quer beber alguma coisa?
Ela não respondeu imediatamente. Ele entendeu que estava sendo impulsivo demais.
– É melhor eu voltar a tirar as fotos que preciso. Obrigado por ter vindo, Lily. Não vou atrapalhar.
– James... – ela o chamou quando ele estava pronto para deixá-la em paz. – Eu menti.
Ele olhou para ela novamente.
– Sobre o quê?
– Eu menti que apareci aqui porque você duvidou.
– Então por que está aqui?
– Porque eu queria te ver de novo.
Foi súbito. Surpreendente. Sincero.
Não foi a resposta que ele esperava. Ele realmente não esperava por isso. Nem pela reação que teve ao ouvir aquilo.
Não tinham superado?
– Achei que não olhasse para trás, Lily.
– Não estou olhando para trás. Estou olhando para o cara que estava disposto a dar o seu lugar no táxi, no meio de uma tempestade. Nem todos fazem isso aqui.
Ele estava querendo entender. Lily continuou:
– Essa cidade é sufocante. O tempo todo, as pessoas não se importam com as outras. Ou você segue o fluxo e não olha para os lados ou você se fode. Então, sim. Sim, eu quero beber alguma coisa.
Na medida certa, o álcool era capaz de fazer barreiras cessarem. Não era como se eles fossem voluntários no resgate de algumas lembranças jogadas na conversa, mas não podiam culpar inteiramente o vinho que era servido na galeria.
Mentir a si mesma que não sentiu falta de James? Ela não fazia isso. Ela realmente sentiu falta deles em muitos momentos. Aprendeu a lidar com essa falta, pois fora uma escolha, então sua mente ainda estava trabalhando para adaptar de forma coerente o significado da conversa que estava tendo com ele, na área vasta do clube, em um jardim bem cuidado com uma fonte de água e os prédios de Manhattan erguidos no horizonte testemunhando aquele momento.
Mas não se recusou.
De fato, conversaram. Muito. Coisas que aconteceram e os desesperos que passaram. Na maior parte do tempo, falaram sobre as experiências que tiveram em Nova York. Eles estavam rindo das situações embaraçosas que tiveram na cidade. Não viram esse tempo passar. De repente, beber só virou um pretexto. Depois disso, todas as frustrações que tiveram nos acontecimentos das últimas semanas ficaram em segundo plano.
Antes de tudo, lembravam-se que foram amigos e como a conversa entre eles fluía fácil. Inacreditável como os anos acumularam tantas conversas que, em uma noite, nunca terminariam. Por isso, sentados no banco do jardim, James interrompeu o assunto – algo sobre terem visitado a mesma lanchonete com um péssimo atendimento – para perguntar:
– Não é o mesmo número, não é?
– O quê?
– O seu celular.
– Não. Não é...
– Posso? – Era a segunda vez que ele fazia aquela pergunta. Dessa vez, referia-se a conseguir seu número novo.
Ela colocou os cabelos atrás da orelha e pegou o próprio celular da bolsa, porque decidiu que ele podia. Ao desbloquear a tela, tocou em ícones até que finalmente estivesse a um passo de adicioná-lo como novo contato.
Ou melhor, atualizar um antigo.
Além de telefone, trocaram um sorriso.
– É bom saber que não fui a única a me perder trinta vezes por aqui.
– É uma cidade maravilhosa – disse James –, mas realmente sabe ser sufocante quando você não está preparado. O que é quase sempre.
– Especialmente quando tudo está em jogo. – Quando ela disse aquilo, pensava nas dores físicas. Ela contou para ele: – Tive que me afastar do espetáculo. Trocaram a bailarina.
Dizer em voz alta foi como concretizar o que estava acontecendo. James olhou para ela, mas não conseguiu dizer nada. Foi como ouvir que um pedaço de Lily havia sido tirado dela.
– Estou com um problema no joelho. Não consigo fazer um mísero salto sem ter a sensação de que ele será arrancado para fora.
– Vai parar de dançar?
– Por um tempo. Preciso pensar na recuperação agora. Pode demorar meses.
– Pelo menos não será algo permanente.
Esse era o pensamento que fazia com que ela não surtasse.
Lily espiou as horas no celular e se assustou. Passara da meia-noite. Tinham conversado demais.
– Acho que é melhor eu ir. – Levantou-se do banco e ajeitou o vestido azul-marinho. James a acompanhou. – Foi uma ótima noite, James. A exposição estava linda.
Ela quis culpar o vinho quando deu um longo suspiro, considerou todas as alternativas e se aproximou para se despedir do ex-namorado com um beijo no rosto.
Com as mãos nos bolsos da calça, vendo-a ir embora, ele de novo deu atenção ao desapontamento de saber que teriam que se afastar mais uma vez. Mas, dessa vez, ele não achou que seria improvável vê-la por aí de novo.
James pensou nela. E ela pensou nele. Não em momentos propositais, mas em situações aleatórias.
Nos exercícios que Lily fazia na fisioterapia. Nas fotos que James tirava. Nas rotinas opostas que haviam estabelecido durante meses. Na correria dos dias. Nos lugares que visitavam. Enquanto estavam com outras pessoas. E durante esse tempo, as mensagens que trocavam no whatsapp foram aumentando com mais frequência.
Durante o tempo em que se recuperava das dores no joelho, Lily criou um blog no qual ela atualizava às pessoas sobre sua recuperação e recebia muito apoio. A ideia fora de James. "Talvez isso dê a você uma força", ele escrevera na mensagem. E Lily o agradeceu, porque estava mesmo dando.
E então ela conheceu um cara.
E ele conheceu uma garota.
Claro, ainda estavam vivendo vidas separadas. Mas, sem perceberem, havia um laço invisível tentando criar conexões o tempo todo. Em uma noite de sábado, ambos transavam. Com pessoas diferentes. Ele, em uma cama que não era sua. Ela, em um apartamento que era o seu. A música que acompanhava a noite de James era um hip hop. A que acompanhava a de Lily era ritmo e batida. Ela estava por cima; ele também. James fez a garota atingir o orgasmo três vezes, mas ela continuou sem querer chupá-lo. Lily se sentiu extremamente insatisfeita quando o cara gozou primeiro e deitou ao seu lado, deixando por isso mesmo.
A garota tinha assuntos supérfluos e entediaram James, depois de ouvir um excesso de palavras sobre como ela gostava de passear em shoppings.
O rapaz não fazia Lily rir. Se Lily ria, era só para ser educada e não parecer entediada.
Não era culpa da garota e do cara. Era culpa deles mesmos.
Simplesmente porque eles não estavam com quem realmente queriam estar.
E James percebeu isso quando, na manhã de domingo depois do sexo, ele pensou em mandar um bom dia à Lily.
E Lily percebeu isso quando, na manhã de domingo depois do sexo, a mensagem bom dia havia sido de James.
James Potter
Como passou a noite?
Lily Evans
Pensando em você. E você?
James Potter
Pensando em você também
Mas a troca de mensagem verdadeira fora essa:
James Potter
Como passou a noite?
Lily Evans
Bem. E você?
James Potter
Bem também
James Potter
Eu quero vê-la de novo
Sirius Black
Vai fundo, cara
Mas sendo sincero
E lembrando de como ficou quando
vocês terminaram
Você tá fodido
Remus Lupin
Muito fodido
Lily Evans
Eu quero vê-lo de novo
Emmeline Vance
Com tantos caras por aqui,
interessantes e bonitos
E diferentes
Você quer ir atrás do seu ex?
Lily Evans
Mais ou menos isso
Emmeline Vance
Você é louca, Evans
Mas quem sou eu pra impedir?
À medida que Dezembro chegava, as propagandas de O Lago dos Cisnes infestaram os outdoors de Nova York. Os cartazes não expunham os rostos das bailarinas, mas neles estavam gravados os nomes delas. Lily só conseguiu pensar na dor que a impediu de ter seu nome ali. Ela doou tudo de si durante os ensaios. Deixou coisas para trás para morar em Nova York e dedicar-se a isso. Ter saído do elenco foi como parar de assistir à um filme pela metade. Ela odiava deixar coisas incompletas.
E ela sabia que havia deixado coisas incompletas com James Potter também.
Quando se encontraram na entrada do Teatro, onde cerca de duas mil pessoas reuniam-se para apreciar o espetáculo de Ballet mais esperado do ano, Lily soube que aquela poderia ser uma ideia maravilhosa ou uma ideia péssima. Tendo ganhado os ingressos – um agradecimento pela participação nos ensaios, talvez? –, ela convidou James para sentar ao lado dela na plateia.
Ele chegou com sua câmera nas mãos, como sempre. Enquanto o observava registrando fotografias dos lugares, das pessoas e da atmosfera natalina de dezembro que dava à Nova York uma perfeição visual, Lily teve um súbito desejo de dançar para capturar sua atenção. Ela quis inspirá-lo novamente, mas não tinha mais certeza de suas capacidades.
A fila andou e James estava tão envolvido com sua câmera que Lily precisou pousar levemente a mão no braço dele para fazê-lo se mexer. Quando James percebeu que estava atrasando a fila, despenteou os cabelos, desculpando-se. Lily sorria.
– Eu reclamei algumas vezes de Nova York, confesso, mas eu deveria ter esperado dezembro chegar – ela disse. – Maravilhosa, não é?
– Sim – ele disse. Olhando para o quanto Lily era linda, ecoou: – Maravilhosa.
Toda aquela atmosfera foi uma preparação para perderem o fôlego com o espetáculo, assim que entraram no teatro. A música, as dançarinas, o cenário. Lily assistiu a tudo com o coração apertado, porque ela estava achando maravilhoso, mas queria ter ido até o fim. A paixão, não só de dançar, de assistir também, estava estancada nos brilhos dos olhos de um verde que, mesmo após vivenciar tantas coisas, James nunca chegou a ver igual.
Ele passou a maior parte do tempo assistindo às reações dela, contidas, mas ainda transparentes, ao seu lado. Ele ainda sentia algo por ela e pela paixão que ela tinha. Ele aprendeu, depois que terminaram, que não gostaria de fazê-la escolher entre a dança e ele. Lily tinha prioridades. O que doeu, naquela época, foi saber que ele não era a dela. Em qualquer cara apaixonado, aquilo doeria.
Eles não terminaram a noite quando o espetáculo chegou ao fim. Seguiram o fluxo da fila no momento da saída e, conversando sobre a apresentação, andaram sem um rumo aparente pela calçada da rua.
– Como está a sua perna? – ele perguntou. Havia sido um espetáculo incrível, mas ele gostaria que tivesse visto Lily no palco.
– Podemos sentar? – ela rebateu a pergunta, quando passaram ao lado de uma fileira de bancos. James retirou o resquício da neve do assento e se sentou ao lado dela. Lily queria conversar sério com ele. – Eu tenho pensado bastante. Tive tempo de pensar bastante depois que meu joelho ficou ruim. E me assusta. Porque tirando dança, eu não tenho nada.
– Isso não é verda-
– Não, James, me escute. Não estou sendo dramática, é verdade. O que eu estou querendo dizer com tudo isso é que eu cometi um erro terrível. Sabe... – ela sorriu, tristemente. – Eu deveria ter me preocupado em me sentir completa, não perfeita. Quando eu danço, eu esqueço o mundo, eu me sinto como eu gostaria de me sentir. Mas quando eu paro, quando tudo acaba, quando eu não estou no palco...
– Você faz tudo de novo – ele disse. – Pratica, tenta e tenta de novo, até se sentir completa novamente. É um ciclo e eu entendo isso.
– Entende?
– Você inspira as pessoas, mas isso não vem da perfeição. É porque você nunca desiste dela, mesmo sabendo que não vai alcançá-la.
James sempre reconheceu, como ninguém, o esforço dela. Nada a ver com talento, mas uma garra inspiradora. Um silêncio se seguiu no qual ele brincava distraidamente com o botão de sua câmera.
– Mas quando terminamos pareceu que isso não estava lá com a gente. Quero dizer, você não fez como faz na dança. Quando você erra, você tenta uma, duas, três vezes, fica repetindo os passos por uma hora direto até acertar. Com a gente, você não tentou. Nós não tentamos, na verdade. Desistimos antes de tentar.
Ela se manteve calada, reconhecendo todo o erro que havia cometido.
– Queria ter tentado antes – ele admitiu –, mas você estava determinada. E, porra, até naquele momento eu amei você mais do que nunca. Eu não estou aqui agora, em Nova York, porque fiquei parado depois que terminamos. Você me inspirou a seguir um caminho, mesmo não sendo perto de você.
Ele disse aquilo, mirando para tirar uma nova foto dela. James gostava de fotografar os carros deslocando-se na cidade. Era interessante o modo como a câmera capturava a rapidez de Manhattan em borrões vermelhos, amarelos e laranjas. Lily estava em primeiro plano e, dessa vez, olhava diretamente para a câmera como se estivesse olhando para os olhos de James.
Ele capturou a imagem e abaixou a câmera para procurar aqueles olhos verdes com os seus próprios. Ela perguntou em um tom baixo:
– Você quer tentar de novo?
– Umas cinquenta vezes, se precisar. Você ainda me inspira.
As pernas cruzadas de Lily ficaram imóveis. Sentado, James ergueu a mão para que pudesse colocar um pedaço do cabelo ruivo para trás de sua orelha. Aproveitando o contato, ele segurou o rosto dela. Nos próximos segundos, James manteve uma distância que provocou Lily.
Depois de entender que ela precisava completar aquela distância, beijá-lo não pareceu suficiente.
E isso frustrou os dois, o que incendiou uma urgência no modo como seus lábios se moveram. Eles queriam que fosse suficiente, mas seis anos vivendo vidas opostas até que finalmente se reencontrassem não era qualquer tempo. Ao perceber que essa frustração não poderia ser sanada em um banco no meio de Manhattan, eles se afastaram, relutantemente. Ela perguntou:
– Quanto tempo daqui até seu apartamento?
Eles não podiam esperar mais seis anos.
Subindo o elevador, James encostou Lily contra a porta e a beijou de novo. Mas ainda faltava muito. Ele a segurou pela mão e a puxou pelo corredor depois que o elevador chegou ao andar desejado.
James entrou com ela aos beijos no apartamento e, somente com o som da respiração acelerada dela junto ao barulho da cidade lá fora, Lily deixou que ele a guiasse para qualquer canto em que pudesse ficar deitada.
Retiraram as inúmeras camadas de roupas a caminho da cama. Sem enrolações maiores, James deitou com ela, desmanchando o lençol enquanto trocavam de posição, como se os dois se sentissem obrigados a acabarem com a distância, não só um.
Mas ainda faltava muito.
Lily pressionou seu quadril contra o de James, apreciando o contato quente e forte de suas intimidades protegidas pelas calças. Ele arrancou a dela de um modo delicado. Ela não foi tão delicada ao abrir o zíper da dele. Apertou os cabelos de James com seus dedos firmes, deixando-o abandonar sua boca para que descesse até o abdômen descontrolado pela respiração dela.
Mais um pouco para baixo, James aproveitou um suave beijo na parte interna de sua coxa, provocando nela a dose certa de frustração e tesão. Segurou o elástico de sua calcinha, descendo o tecido para fora de suas pernas. Após uma breve troca de olhares, James, posicionado entre elas, pressionou a língua em seu clitóris, provando de um gosto delicioso e nostálgico. Ele se sentiu bem-vindo ao notar que Lily, ao invés de se afastar ou recusar, chamava por ele, gemendo e apertando os lençóis, evitando qualquer espaço. Mas, mesmo recebendo um oral maravilhoso, ainda não foi o suficiente.
Ela empurrou levemente o peito dele com a palma da mão para deitá-lo. Tendo uma visão privilegiada de Lily Evans lindamente nua, James sorriu para ela. Tinha com ele, todos os dias, a lembrança de uma manhã no almoxarifado da escola. Não esquecia, porque havia sido um dos momentos mais incríveis de sua adolescência. Naquela noite, anos depois, ela fez a mesma coisa. Apenas melhor. Sempre se preocupando com seu desempenho enquanto o chupava, James fez questão de deixá-la ciente que estava perfeito.
E se eles acharam que não faltaria mais nada quando estivessem completamente encaixados, eles se enganaram. Enquanto se movia contra ela, Lily o mandou não parar, porque ainda não estava sendo o suficiente. As unhas dela roçavam seu ombro de um modo que iria deixar marcas. Ele chupou seu pescoço de um modo que também iria deixar marcas. Depois que James estivesse suado e ofegante com o esforço, Lily iria querer guiar o sexo e, quando ela o fez, foi alucinante.
Mais uma vez, não podia deixar de pensar em como aquela sensação de transar com James era como dançar. Além de querer ter um desempenho perfeito, ela não conseguia parar. Perdia o fôlego e encontrava sincronia com os movimentos dele, como música. Em um momento, é leve. Em outros, intenso. Mas o tempo todo era sentimental.
Naquele instante em que ela alcançava o orgasmo, ela teve finalmente uma breve sensação de que aquilo estava sendo o suficiente. Durou minutos, enquanto ele ainda aproveitava seu sexo dentro dela, sentindo a pulsação e o aperto úmido. Ele aguentaria mais alguns instantes, mas Lily era atenciosa demais. Lembrou-se do ponto fraco dele e provocou, gemendo perto de seu ouvido, propositalmente. Ele gozou com ela mordendo o queixo dele, abrindo um sorriso satisfeito, ofegante e apaixonado. Mas... ainda faltava muito.
Recuperando-se do esforço físico, suados e extasiados, James se posicionou atrás dela e a abraçou. Ela pensou que sempre faltaria, não importasse o que eles fizessem. O que iria depender era eles tentarem buscar completar essa falta do mesmo modo em que ela buscava a perfeição.
Conversaram sobre algo aleatório – sobre cozinharem alguma coisa, porque estavam morrendo de fome. Rindo, ele quis convidá-la para passar a noite. Despretensiosamente, sem esperar por um sim ou um não. Apenas confessou que a queria naquela noite inteira.
Ela ficou, mas dormir foi a última coisa que fizeram.
No ballet profissional, é tudo ou nada. Lily escolheu tudo, e isso significou priorizar seus esforços para se recuperar do joelho. Sessões de fisioterapia, exercícios, remédios, resultados e o tempo. Ela não iria desistir. James ajudou com que ela não desistisse.
Era a presença dele que a completava em um período em que ela sentiria um temido vazio. Juntos, conheceram o que não haviam conhecido em Nova York. James mostrou novas ruas a ela e Lily mostrou novos restaurantes a eles. Ele a fotografava a todo instante; gostava do modo natural e fácil de Lily em frente a uma câmera. Mal sabia ele que ela só se sentia assim quando era James por trás dela.
Aos poucos, enquanto avançavam para uma série de tentativas de fazerem o relacionamento, dessa vez, dar certo, James acompanhou a recuperação de Lily através do visor de sua câmera. O apoio que recebia online, os vídeos que James gravava e todos os esforços para melhorar com os exercícios da fisioterapia deram a chance de Lily perceber, após quatro meses de fisioterapia intensa, que ela conseguia apoiar os pés depois de um salto. Sem a dor que a incomodou tanto e a tirou de um espetáculo.
Ela conseguiu durante uma dança que fazia em uma rua turística de Nova York. James estava fotografando quando ela teve a coragem de testar sua recuperação. Mesmo sabendo que ainda precisava ir aos poucos, Lily não controlava a impulsividade da dança quando estava instigada. Ela fez o salto e, quando se equilibrou perfeitamente ao apoiar o pé no chão, não só foi aplaudida pelos turistas que estavam assistindo, como também correu até James para pular nele e beijá-lo apaixonadamente no meio da rua.
– Consegui, não senti dor alguma!
Ele nunca a viu tão feliz. E ele nunca esteve tão feliz por ela.
Sua total recuperação foi testada em uma apresentação individual. Ela dançou na abertura de outra exposição que James participou com sua série de fotografias intitulada "Tente". Escolheu quinze fotografias que, durante aqueles meses, tirou de Lily se recuperando. Após o sucesso que a série alcançou na internet, James e Lily foram convidados por um curador experiente e renomeado. Ele, para expor as fotos. Ela, para dançar ao vivo. Dessa vez, o corredor da galeria ficou lotado. As pessoas se apaixonaram por Lily, especialmente depois da belíssima apresentação que viram.
– Eu não conseguiria sem você – Lily disse a James quando a galeria estava esvaziando. A noite havia sido incrível. Nunca os dois estiveram tão sintonizados, certos e perfeitos juntos.
– E eu sem você – ele garantiu, beijando-a nos lábios.
Naquele instante, uma senhora alta e sofisticada, com os olhos atentos a todos os detalhes da galeria, sentiu-se um tanto sem graça por atrapalhar o momento dos jovens. Mas achou que seria necessário.
– Eu nunca vi tanta conexão. Você, querida, tirou-me o fôlego. E você, querido, tem um olhar fascinante. Meu nome é Siara...
– Alden – disse James, ligeiramente admirado, apertando a mão da mulher. – Eu sou um grande fã.
Sentiu-se pequeno perto daquela experiente fotógrafa. Tentou não parecer um idiota, aliás, foi muito profissional ao agradecer pela presença dela em sua exposição. Siara, no entanto, tinha um senso de humor fabuloso e, em poucos minutos, prendeu James em uma proposta para ele longe de Nova York.
A proposta era para Lily também. Para os dois. James percebeu que seu trabalho não seria nada sem Lily, então Siara convidou os dois para fazerem uma turnê de exposições da série "Tente", incluindo Lily dançar – porque isso dava um toque sensível e especial. Seriam vinte cidades de três países diferentes. Era tudo o que James queria. Viajar pelo mundo com Lily Evans, trabalhando na área que amava ao lado da mulher que ele amava.
Talvez esse fosse seu próximo sonho se realizando. Talvez esse fosse seu futuro. Talvez o futuro dos dois. Trabalharem juntos para viverem juntos.
Mas então Lily recebeu um e-mail naquela semana.
– Moscou?
Os dois estavam sentados no sofá do apartamento de James, um de frente para o outro. Lily havia interrompido o sexo que fariam para conversar com ele sobre aquilo.
– Sim, Moscou. Fui convidada para fazer audições. O modo como encaram o Ballet por lá é fenomenal e intimidante. É perfeit futuro que toda bailarina amaria ter. Estão esperando minha resposta.
James estava calado. Ambos sabiam o que era preciso pensar naquele momento.
– Isso é maravilhoso, Lily.
Mas por que não conseguiram ficar extasiados? De fato, Lily estava roendo sua unha com os olhos lacrimejantes. James temeu perguntar qualquer outra coisa. O que fez foi passar as mãos no rosto e arrastá-la para os cabelos. Mas se esforçou para não se precipitar e foder tudo.
Foi quando Lily disse baixinho:
– Eu não vou.
Ele não escutou direito.
– Você não pode fazer isso – ele se ouviu dizendo. O lado altruísta dele. – E as chances que você...
– Hey. – Ela pegou a mão dele, abrindo um sorriso doce e sincero. – Eu não vou, eu já decidi. Não estou desistindo, só estou fazendo uma escolha. Ficamos horas falando sobre a proposta que Siara nos deu, lembra? Nos empolgamos com a ideia de viajarmos pelo mundo tirando fotos e dançando. Eu não sou desleal.
– Você realmente quer fazer isso? Trocar essa chance para trabalharmos juntos?
– Não é uma troca. Eu já dancei no aniversário da Rainha. Fiz apresentações que marcaram minha carreira, apresentei A Bela e a Fera em toda a Europa. Eu sei que ainda tenho muitas conquistas pela frente. Mas... eu não quero ficar sozinha nas comemorações dela. Eu quero me sentir completa. E eu sinceramente acho que somos incríveis juntos. Somos completos. Você viu o sucesso que foi a exposição. Trabalharmos juntos é o único jeito de darmos certo e eu quero tentar. Além disso – ela acrescentou, sabendo que estava deixando James sem palavras com sua decisão –, sendo realista, não estou preparada para Moscou. Não ainda, especialmente depois do que ocorreu com meu joelho. Lá é realmente pesado. Eu preciso estar cem por cento.
– Você conseguiria fácil.
Ela roçou o contorno atraente do nariz dele com o indicador e depois se inclinou para beijá-lo.
– Você é fofo. E exagerado. Mas não sabe como é lá. Depois te mostro um vídeo dessa garota russa que só tem treze anos e não parece humana.
Ele riu, sentindo um alívio indescritível, e disse:
– Bem... então quando estiver preparada para Moscou, nós daremos um jeito.
– Juntos – ela enfatizou, gostando daquelas palavras dele. – Não suportaria desistir disso outra vez. Não sem antes tentar... cinquenta vezes, se for preciso.
E seria. Seria muito preciso.
Tente mais uma vez. Mas não tente demais.
Lily planejava demais; James aceitava o que estava à sua frente. Ela era meticulosa; ele, impulsivo. O sucesso era o resultado de horas de força e determinação, mas não há como evitar que as coisas aconteçam naturalmente. O sucesso não era só a perfeição, mas também o erro. Não era só planejamento, mas também impulsividade.
Ele ainda veria Lily conquistar o mundo, não olhar para trás, vencer, perder, chorar e sorrir. Eles ainda brigariam muito, mas também continuariam tentando. Separados, os dois tiveram que lidar com seus acertos e defeitos. Juntos, eles encontraram um equilíbrio, como em uma dança. E, como na dança, não foi fácil, mas conseguiam depois de muito esforço.
Ele a fazia ser mais impulsiva; ela o fazia pensar no futuro e nunca olhar para trás. Ela o ensinou a guiar uma valsa; ele ensinou a ela truques de fotografia. Ele a fotografou em momentos bons e ruins; ela dançou em momentos bons e ruins. Eles tiveram um ao outro em todos os momentos.
Não só porque se amavam.
Lily inspirava James. E James inspirava Lily.
Eu sentia muita, muita falta de entrar na cabeça de um James e uma Lily e me sentir empolgada com uma ideia. Foram 2 semanas, mas sinto que foram anos. Acho que porque coloquei um pouco de mim aí. Não só na Lily, mas no James.
Bem, eu espero que tenham gostado e apreciado a leitura :) Poderia ter dividido essa parte em 2 ou 3, mas não faria sentido para mim, porque queria dividir a fic em "começo" e "recomeço". Algumas pontas soltas ficaram no final. E eu pergunto a você "e aí, eles vão conseguir dar um jeito?" Isso fica para você concluir (e eu adoraria ler qual seria sua conclusão).
Essa fic me sugou inteira por vários dias. Foi uma reflexão minha em forma de James e Lily. Aprendi muito nos meus 4 anos de faculdade que ser perfeito é algo impossível. O legal mesmo é como as pessoas correm atrás disso :) Pensei "como seria uma fic sobre inspiração?" E eu, que me encontrava num bloqueio horrível, destravei escrevendo sobre isso. Queria poder me lembrar por que imaginei um James fotógrafo e uma Lily bailarina - talvez no meio de uma exposição que participei -, mas só sei que quando pensei me pareceu certo e, apesar de ter hesitado com a ideia à princípio, fico feliz que insisti nela. Até agradeço por ter perdido 2k da primeira versão de "Muse" e recomeçado. Não teria tido o resultado que vocês leram agora.
Se gostaram da fic, por favor, não deixem de comentar! Gostaria muito de saber a opinião de todos vocês. Mais uma vez, agradeço a Carol Lair com sua ajuda e sugestões no plot sobre a segunda parte também, a Jacke pelos edits incríveis e a Miller pela capa que vocês estão vendo da fic! Claro, não poderia deixar de agradecer a todos que comentaram, me deram apoio, apareceram no twitter me mostrando músicas e fotos que lembraram vocês da fic! Vocês todos me inspiraram!
Fica aí uma short-fic Jily UA, um presentinho meu a vocês, leitores amantes de Jily. Foi de coração.
Beijos e até uma próxima!
Pokie
