I
tell your mum what to expect
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Sete anos antes, no fatídico primeiro dia de setembro, ouvi o último apito do Expresso de Hogwarts e me despedi dos meus pais e de Regulus. Naquele momento, eu ainda não imaginava que aquela era, de fato, a última vez que eu os via, pois nos anos seguintes nossas vidas mudariam tanto que eu sentiria que só podiam ser outras pessoas.
Minha mãe se abaixou dignamente para me dar um beijo na testa, e Regulus saiu detrás da sua saia para me dizer "tchau" e me fazer prometer, de modo que apenas nós dois ouvíssemos, que eu escreveria para ele assim que chegasse à escola.
Meu pai se limitou a me dar um tapinha nas costas e dizer para que me cuidasse. Como qualquer garoto de onze anos que se preze, eu não prestava tanta atenção quanto deveria ao que eles falavam; estava ansioso demais para isso.
E não era por menos: ao entrar no trem, eu não sabia escolher entre o fascínio e o medo. Bom, era, sim, uma espécie de medo. Afinal, todos os anos em casa não haviam me preparado para encontrar tantas pessoas assim, ao mesmo tempo.
Mas ninguém precisava saber disso, claro.
Eu achava que ao menos Narcissa, minha única prima que ainda estava na escola, me ajudaria a encontrar uma cabine – mesmo que eu não precisasse de ajuda para isso -, mas percebi que já a tinha perdido de vista. Resolvi então que deveria fazer alguma coisa, qualquer coisa, para não ficar parado no meio do corredor do trem com cara de idiota.
Afinal, Sirius Black não deveria, em momento algum, ter cara de idiota.
Não precisei andar muito até achar uma cabine onde houvesse apenas duas pessoas: um garoto colocando seu malão no compartimento da bagagem e uma garota encolhida perto da janela, em quem eu mal reparei.
Arrumei minhas coisas e me sentei de frente para o garoto, que deveria ter a minha idade. Ele sorriu em cumprimento, e eu sorri de volta, incerto se deveria falar ou não. Minha experiência em amizades se restringia às minhas primas e seus namoradinhos engomados. Agora sei que, naquela época, o que me deixava mais inseguro perto de James – cujo nome eu ainda nem sabia – era a simpatia que ele irradiava sem o menor esforço.
Eu poderia apostar que, na casa dele, as janelas ficavam abertas para o sol entrar, e que ele tomava sorvete com os pais no Beco Diagonal. Com os pais!
Mais dois garotos entraram na cabine onde estávamos e começaram a conversar. O garoto de cabelos despenteados à minha frente ria ocasionalmente de alguma coisa que pescava da conversa e, por alguns momentos, pareceu curioso – com aquela genuína curiosidade das crianças inquietas – para saber se a menina da janela estava chorando.
Foi quando mais um garoto da nossa idade, já com as vestes da escola, chegou e foi falar com ela. Ele era tão desinteressante que nem fiz questão de ouvir o que diziam. Até o outro garoto se envolver.
- Slytherin? Quem quer ir para a Slytherin? Acho que eu desistiria da escola, você não?
Ele se dirigiu diretamente a mim, ansioso para que eu também tomasse o fato de alguém querer ir para a Slytherin como uma ofensa pessoal.
Não foi bem assim, no entanto.
- Toda a minha família foi da Slytherin – respondi, entre orgulhoso e surpreso que ele ainda não tivesse percebido.
- Caramba! E eu que pensei que você fosse legal!
Eu ri, porque ele tinha o dom de tornar qualquer coisa engraçada. Eu disse a ele que poderia quebrar a tradição, mais para puxar assunto do que por achar realmente, e perguntei para qual Casa ele queria ir.
O garoto-ainda-sem-nome ergueu uma espada imaginária e respondeu Gryffindor! Com um orgulho que havia sido claramente passado por gerações.
Assim como o meu.
Discutimos com o garoto ensebado por menos de três minutos até que ele e a garotinha ruiva resolveram sair, ofendidos. Meu novo quase colega ainda arrematou a antipatia com o outro tentando fazê-lo tropeçar na saída.
- A gente se vê, Snivellus!
Rimos tudo o que crianças podem rir pela desgraça alheia e, por algum motivo, ele quis andar pelo trem e me chamou. Eu fui, é claro, seduzido pelas piadinhas infames e pela respeitável inconsequência dele.
Entramos em uma cabine qualquer, gargalhando alto. Um garoto encolhido contra a janela – Deus, como gostam de fazer isso! – se virou brevemente para nos olhar, mas logo voltou à sua posição inicial. Sem dar mais atenção a ele, nos sentamos e recobramos o fôlego.
- Carinha estranho, não é? O Snivellus - ele comentou, ainda ofegante.
- É, sim - eu concordei. Eu ainda não tinha muita certeza de que fizera a melhor opção ao conversar com o estranho simpático. Numa tentativa quase inconsciente de desviar a atenção dele, observei melhor a cabine, e meus olhos toparam com o garoto da janela. Com um aceno de cabeça, indiquei ao garoto o que tinha visto, e, como previa, ele se empolgou com a possibilidade de conhecer mais alguém.
- Oi! - ele praticamente gritou, assustando um pouco o menino, que voltou a se separar da janela. - Primeiro ano?
O menino fez que sim, com um sorrisinho mínimo. Eu notei que ele parecia ser extremamente tímido e que as mangas de suas vestes estavam gastas. Isso era algo que somente algum tempo depois pude expurgar da minha criação: o terrível hábito de olhar primeiro para as roupas.
- Legal - James continuou. Sua empolgação me fazia rir, mesmo que contra a minha vontade. - Eu sou James Potter.
- Remus Lupin – o outro garoto disse baixinho, em resposta.
- Eu nem te disse meu nome, não foi? - James percebeu, se dirigindo a mim. - Bom, agora você já sabe. E o seu, qual é?
- Sirius Black - eu falei, quase tão baixo quanto Remus.
James Potter franziu a testa ao ouvir o sobrenome, como se estivesse se lembrando de alguma coisa.
- Acho que já ouvi falar - ele comentou. - Algo a ver com os Malfoy ou coisa assim.
- É - foi o que me limitei a dizer.
Há cerca de dois meses começaram os boatos de que Narcissa se casaria com Lucius Malfoy, que provinha de outra digníssima família pura.
Por sua vez, Remus Lupin, o garoto que estava tão entretido em apreciar a paisagem pela janela do trem, ouvia com um cara não muito feliz a nossa conversa sobre famílias.
- Não conheço o seu nome - comentei, quase displicentemente. - Lupin.
Eu realmente não pretendia que meu tom parecesse uma ofensa, mas essa era mais uma das coisas que eu não conseguia evitar. Foi com uma pontada de desapontamento comigo mesmo que vi o garoto se encolher mais em seu canto ao ouvir meu comentário.
- E também - emendei, tentando consertar o estrago. - eu nunca tinha ouvido falar dos Potter.
James, que estivera examinando atentamente uma formiga que passava pela cabine, levantou os olhos para mim, seu também novo quase amigo. Um ar de riso brincava em seus lábios. Ele tinha percebido o que eu tentara fazer. Afinal, sua família era de sangue tão puro quanto o dos Malfoy ou Black, e talvez até bem mais antiga, apesar de ter tradições consideravelmente diferentes. Gryffindor que o diga.
Sendo assim, ele deve ter concluído que eu estava tentando consertar o tom arrogante com que dissera "Lupin", fingindo que não conhecia uma família importante como os Potter. Naquele momento, trocamos o primeiro olhar de entendimento. O primeiro de muitos.
Remus também tinha percebido levemente o que acontecera. Ainda um pouco envergonhado, se rendeu a mais um sorriso tímido.
James resolveu mudar um pouco de assunto.
- Você acha que vai para que Casa, Remus?
- Não sei. Minha mãe era Ravenclaw.
- Deve ser bom ser Ravenclaw - James falou, pensativo. - Ainda que a Gryffindor seja muito mais legal, claro. E eu espero que você não entre para a Slytherin, cara - ele completou, olhando para mim, que ri da sua exagerada cara de pena.
- Farei o possível.
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- Gryffindor!
Andei até a mesa da Casa um tanto hesitante, pensando se talvez não tivesse ouvido errado. Podia ser uma alucinação coletiva, e isso então explicaria o fato de toda a mesa da Gryffindor ter ouvido o que eu ouvi. Mas algo me dizia que essa teoria estava errada. Eu era um deles agora.
E não sabia como explicar isso na carta que escreveria para Regulus mais tarde.
Ao me sentar, distingui entre os calouros que ainda estavam na fila um James Potter vibrante, que me acenava. A garota ruiva do trem, que agora eu sabia que se chamava Lily Evans, também foi selecionada para Gryffindor e, num acesso de simpatia, me afastei para dar lugar a ela, que passou direto por mim. Lily Evans, então, foi oficialmente a primeira garota que me esnobou.
Remus também foi para a Gryffindor. Com um olhar um tanto desesperado, ele buscou algum lugar mais isolado na mesa, mas finalmente se conformou de que não havia um e se sentou ao meu lado. Quando chegou a vez de James, eu poderia jurar que o Chapéu havia gritado Gryffindor ainda a um metro da sua cabeça. Ainda hoje acho isso bem possível.
Aos poucos, fui percebendo que os aplausos e tapinhas que eu havia recebido eram apenas cordiais se comparados com os oferecidos aos outros calouros. Esses sim eram calorosos. Essa percepção fez a mesa rapidamente se tornar um lugar mais frio.
- E aí? – perguntou James, se jogando no lugar ao meu outro lado. – Não é incrível? Estamos todos aqui.
- É – respondi, arranhando a mesa com a unha.
- Você não fala muito, não é? Que chato – James comentou, pesaroso. – Ei, olha só. O cara estranho foi mesmo para a Slytherin.
Eu olhei. O garoto de cabelo oleoso parecia bastante satisfeito consigo mesmo. Por um momento fugaz, imaginei que tipo de recepção eu teria na Slytherin.
Algum tempo depois do banquete, perfeitamente saciados e sonolentos, os calouros foram conduzidos aos seus dormitórios. A sala comunal da Gryffindor, vermelha, quente e vibrante, me fascinou. No quarto, as malas estavam devidamente postadas ao pé de cada cama. E, mais uma vez, James, Remus e eu nos vimos reunidos.
- Peter Pettigrew. – se apresentou o quarto ocupante do dormitório; um garoto baixo que parecia um tanto nervoso.
Afinal, quem não estava?
Enquanto arrumávamos nossas coisas e nos preparávamos para dormir, James mergulhou num fluxo interminável de palavras sobre como aquilo tudo estava sendo incrível. Peter o ouvia atentamente, concordando com a maior parte das frases. Meu olhar procurou Remus e, quando o encontrei, ele observava com um sorriso os outros dois garotos conversando. Em um certo momento, porém, teve sérias dificuldades em desgrudar uma meia de um pergaminho onde tinta havia caído e secado. Contrariado, Remus os jogou na cama e se concentrou em outra coisa. Fui até ele. Ainda sentia um pouco de culpa pelo incidente do trem e queria ajudar.
- Obrigado – Remus agradeceu, quando devolvi a meia e o pergaminho devidamente separados.
- De nada – respondi e, por não ter mais nada a dizer, disse qualquer coisa. – Parece que ele não vai parar hoje, não é?
- Não mesmo – ele sorriu, agora que James entrava no maravilhoso assunto das vassouras. – Não gosto de voar.
- Não gosto nem desgosto – comentei, dando de ombros. – É útil. Meu irmão é que fica se gabando de já saber montar razoavelmente bem.
Quando dei por mim, já estava sentado na ponta da cama dele, que ainda separava alguns livros usados. Eu estava feliz por estar conversando e, possivelmente, arranjando um amigo.
A palavra "irmão" nos levou ao assunto "família".
- Eles vão ficar furiosos porque eu estou aqui. Na Gryffindor.
- E você? – Remus perguntou, finalmente terminando sua organização e sentando na cama também.
- Eu o quê?
- Queria estar aqui?
- Eu queria estar em Hogwarts. Não pensei muito em Casas. Quero dizer, se toda a sua família é da Slytherin, porque você pensaria em outra coisa?
- Faz sentido.
- Sim. Mas não é ruim estar aqui. É que... Talvez eu me sinta meio deslocado, e só.
Remus sorriu mais uma vez, compreensivo.
- Eu entendo.
E eu ainda não sabia, mas sentia que era verdade.
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Na primeira aula de voo, tive de engolir o riso ao ver a cara de Remus. Ele parecia estar enfrentando uma grande dor de barriga, e achei que ele não hesitaria em ter mesmo uma para poder se livrar da tortura que deveria estar sendo montar naquela vassoura.
- Meu pai tem razão – Remus falou, emburrado, depois da aula. – Vassouras servem para varrer. Só.
Ri alto, minha voz soando rouca. Regulus dizia que eu era o único Black que tinha uma risada assim. James, por sua vez, fez uma imitação ligeiramente exagerada do desempenho de Remus, que cedeu à tentação de rir.
Eu continuava a lançar alguns olhares discretos à mesa da Slytherin na hora das refeições. Às vezes simplesmente procurando por Narcissa, e às vezes para entender as diferenças entre o modo como aquela Casa funcionava e a Gryffindor. Comparada com esta última, constatei depois de alguns dias, a Slytherin não tinha muita animação. Logo, talvez não fosse mesmo um bom lugar para se viver.
É exatamente esse o motivo pelo qual alguns trouxas dizem preferir o inferno ao céu.
Enquanto isso, eu aguardava com um misto de medo e curiosidade a reação da família Black ao saber da notícia da seleção. Eu não tinha certeza se Narcissa teria contado, mas disse tudo a Regulus na carta que enviei a ele. Imaginava se chegaria vivo ao próximo ano letivo, e ainda estava pensando nisso quando a coruja empertigada do meu pai pousou à minha frente e estendeu o pé.
- Notícias de casa? – James perguntou animado, enquanto eu desprendia a pesada carta e a abria.
No imenso rolo de pergaminho, entre muitas citações da história da família, minha mãe manifestava seu desagrado e a vergonha que sentia por saber que seu primogênito havia quebrado a puríssima tradição dos Black. Ela ainda dizia, talvez com um último fio de esperança em meio à raiva, que podia ter havido algum engano, e que eu deveria falar com o diretor para consertar esse erro terrível que colocava em risco a reputação de séculos de dignidade e sangue Slytherin.
- Aconteceu alguma coisa ruim? – James perguntou, preocupado, provavelmente vendo que a minha testa se franzia mais a cada linha lida.
- Bom, não. Mais ou menos. – respondi lentamente, enquanto absorvia o fato de que minha mãe parecia ter exagerado um pouco. – Não estão felizes, porque eu quebrei a tradição – expliquei, enrolando a carta e iniciando uma risada que eu pretendia que soasse despreocupada. A coisa toda parecia uma piada, afinal. De mau gosto.
Aproveitando o fim do jantar, subi rapidamente para a torre, e finalmente ao dormitório. Reli a carta. Sim, ela estava exagerando. Era só uma Casa idiota. Não fazia muita diferença agora, fazia? Os Gryffindor – ou pelo menos a maioria deles - não pareciam nada com o que lhes pintavam nas histórias que eu ouvia. Principalmente agora que eu era um deles, ainda que ligeiramente hostilizado por ser um Black. Na verdade, talvez até isso fosse coisa da minha imaginação.
O que aconteceria quando eu voltasse para casa no verão?
A porta do dormitório foi aberta e Remus entrou, se aproximando, apreensivo.
- Sirius... tudo bem?
Eu disse que sim, brevemente, enquanto enxugava as lágrimas causadas pelo riso, mas não convenci Remus, que insistiu.
- Tem certeza?
Fiz que sim mais uma vez, e ele se sentou à minha frente na cama, ainda preocupado. Depois de um ou dois olhares lançados à carta, ele estendeu a mão como um pedido, e eu, sem saber exatamente o porquê de estar fazendo isso, lhe entreguei o pergaminho.
Remus leu rápido, com a testa tão franzida quanto a minha tinha ficado. Por fim, devolveu a carta e soltou um suspiro e um sorriso pesados.
- Acho que as coisas vão ser difíceis nas férias – comentei, encarando fixamente o meu pé.
- Quando você conversar com eles, talvez entendam... – Remus tentou. – Não é culpa sua. Aliás, nem é como se tivesse algo para se culpar.
Preferi não desiludi-lo falando que a possibilidade de entendimento com uma conversa era remota. Afinal, ele só estava tentando ajudar.
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Eu podia não ter mais nenhuma esperança em ser o orgulho da família, mas esse não era o meu maior problema. Acho que, no fundo, eu estava até feliz por ter feito algo diferente. Algo que finalmente fosse notado.
E, na qualidade de filho irresponsável e estudante dedicado – ou quase isso – resolvi que minhas preocupações deveriam se resumir à escola e nada mais. Seria uma maneira de não pensar nas férias e, de qualquer modo, James me garantiu que eu poderia pedir asilo na casa dos Potter a qualquer momento.
Entre cartas de mães desgostosas com seus primogênitos, piadinhas infames sobre Severus Snape e sua cortina oleosa de cabelos, completa desatenção aos irritantes seres do sexo oposto e, de vez em quando, alguma preocupação com deveres difíceis de Transfiguração, nosso primeiro mês passou como se nunca tivesse existido.
E então começaram as ausências de Remus.
- O que aconteceu? – perguntei, ao entrar no dormitório e me deparar com ele arrumando uma mala pequena em cima da cama.
Ele olhou para mim, alarmado, por alguns instantes antes de responder. Parecia que tinha sido pego em flagrante.
- Minha mãe – Remus respondeu, voltando o olhar para a camisa que estava dobrando antes da minha chegada. – Ela está doente e eu vou passar alguns dias em casa.
- Não vi nenhuma coruja chegando – falei, incapaz de resistir à observação. Remus me lançou mais um olhar alarmado e meteu algumas meias na mala.
- Claro que não – ele falou, forçando um sorriso. – Eu estava sozinho, ora.
Aceitei o argumento e dei de ombros, sentando na cama e observando Remus, que ainda parecia nervoso.
- Você não ia dizer pra gente, não é? – constatei.
- Claro que ia, Sirius.
- E a sua mãe está muito mal?
- Mais ou menos – ele respondeu depois de algum tempo. – Ela... adoeceu no verão. E piorou agora. Mas vai ficar boa.
Concordei, apesar de Remus não poder ver o gesto, já que insistia em olhar apenas para a mala.
- Espero que ela melhore logo – eu falei.
Remus sorriu, agradecido. A sinceridade dos bons votos de uma criança, porém, pode ser um tanto falha. Eu não estava exatamente preocupado com a mãe dele. Só queria que ela melhorasse porque assim meu amigo voltaria logo.
Pensar assim sem culpa... Bons tempos.
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Remus voltou mais ou menos uma semana depois. Se a aparência dele já não era das melhores antes de ir, agora ele parecia definitivamente doente. Minha primeira teoria foi a de que ele havia pegado a doença da mãe e, por alguns momentos de mórbido prazer infantil em experimentar a tristeza, imaginei o seu enterro. Porém, depois de perceber que ele estava machucado também, eu e James elaboramos a teoria definitiva em que acreditaríamos nos próximos dois anos.
Segundo esta nova teoria, o pai de Remus era agressivo e intratável, e por isso a esposa teria ficado doente. Remus, sempre em defesa da mãe, teria sofrido também.
Daria um bom livro trouxa, o pequeno drama familiar que inventamos.
Apesar dessas fantasias todas, nós nos preocupávamos sinceramente com ele. E enquanto Remus ficava cada vez mais esquisito, ficávamos cada vez mais curiosos para saber se a teoria do Pai Agressivo estava realmente certa.
Enquanto isso, eu aprendia a ter amigos. Assim, sem perceber, acabei formando uma pequena nova família.
James já não me deixava mais inseguro com sua assustadora simpatia natural. Eu havia aprendido que ele era um grande contador de histórias, ainda que às vezes elas fossem meio absurdas, e ainda que ele às vezes se perdesse no meio do caminho. James tinha também um coração do tamanho de um ovo de dragão; ele ajudava a quem pudesse ajudar e, claro, quem ele achasse que merecia, ainda que do seu jeito.
Assim, pouco a pouco, fomos formando a parceria que duraria, literalmente, até a morte. Ou até mesmo além dela. Ele me contava suas ensolaradas histórias de filho único, enquanto dividíamos em quatro os doces enviados pela Sra. Potter. De casa, eu só recebia acusações de desonra.
Peter, que no início não parecia muito entusiasmado, já não saía mais de perto de nós. Ele era bom em complementar as histórias de James com fatos mais absurdos ainda, e foi o responsável por colocar nas nossas mentes já não muito angelicais a sementinha do mal.
- Ainda não acredito que temos que esperar até o terceiro ano para ir a Hogsmeade – ele suspirou, em um certo dia, com absoluta inocência.
James foi o primeiro a perceber o potencial daquela frase. Ele levantou os olhos do entediante dever de Poções e eu, que concordava com Peter que era uma pena esperar tanto, imaginei o que ele estava pensando.
Mais tarde naquela noite, eu fiquei sabendo. James esgueirou-se para baixo das minhas cobertas sorrateiramente, enquanto Remus e Peter dormiam. Com a varinha iluminando seu rosto, ele me cutucou.
- Sirius... Sirius!
Acordei, resmungando e não acreditando que já era manhã. Bom, não era. Ainda estava escuro lá fora.
- O que foi? – perguntei, de mau humor, reparando que ele tinha trazido um pequeno embrulho.
- Eu vou te mostrar uma coisa, e amanhã mostramos a Remus e Peter, ok?
- Vá em frente – falei, entre curioso e sonolento.
Ele me entregou a varinha e desfez o embrulho, tirando de lá uma capa que oscilava entre a opacidade e o brilho.
Mas, droga, ele tinha me acordado por causa de uma capa?
Transformei meu pensamento em palavras e ele riu.
- Não é apenas uma capa. É a Capa. Foi do meu pai, e antes dele, do meu avô e, antes dele, do meu bisavô e...
- Tudo bem, eu entendi como funciona.
- Tá. Olha só isso.
James pôs a capa sobre os ombros e se cobriu. No piscar de olhos seguinte, já não estava mais lá.
- James? – chamei, com os olhos do tamanho de dois limões.
Ele reapareceu, rindo baixinho e me entregando a Capa para que eu também visse como funcionava. Ela era tão macia quanto parecia ser.
- Lembra do que o Peter falou? – ele perguntou, enquanto eu me divertia fazendo minha mão desaparecer e perdia completamente o sono.
- Sobre Hogsmeade?
- Sim.
- No que está pensando?
Era a pergunta certa.
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No dia seguinte, contamos aos outros os resultados das nossas confabulações. Peter gostou da ideia de andar pelo castelo e conhecê-lo melhor, e Remus ficou com um pé atrás. Na verdade, o nosso objetivo inicial era dar um uso à Capa, fosse ele qual fosse, para, em um futuro não tão distante, colocar em prática as mal formadas ideias de usos mais dignos.
Estávamos começando a perceber que as regras se tornam bastante irritantes quando não nos favorecem. Por exemplo, o caso de Hogsmeade: nós, legítimas crianças bruxas, não podíamos nos divertir lá até o terceiro ano. Não podíamos também sair da torre da Gryffindor de madrugada – um completo absurdo! – ou entrar no time de Quadribol – no qual Remus não estava nem um pouco interessado.
- Não acho que isso seja muito seguro. Malfoy já vive no nosso pé – reclamou Remus, indeciso.
- Bom, se ele nos pegar, significa que também está infringindo algumas regras - contrapôs Peter.
- E os professores...
- Remus, olha pra isso! – apelei, brandindo a Capa. – Somos invencíveis!
A nota de exagero na minha voz os fez rir. Remus, então, deu de ombros, como que concordando. James e Peter bateram palmas, felizes.
Foi naquele pequeno momento de entusiasmo que nasceram os Marotos.
N.A.: Amores, fiquei suuuuuper feliz com as reviews linda no prólogo *_* Então aqui está o capítulo pra vocês ^^ O próximo deve levar - mais ou menos - uma semana para chegar. Não temam e digam o que acharam :)
