Ponto de vista do Matthew. Boa leitura!


Droga, eu realmente preciso de pincéis novos. Os meus pincéis já estão gastos, soltando fios e não pegam tinta direito. Bem, essa tinta também não está muito boa...

— Mais verde... — Pensei alto enquanto pegava um tubinho de tinta verde.

O horário de aula já acabou, mas achei melhor ficar na sala de Artes. É claro que se os monitores me pegarem, eu vou conseguir uma bela advertência, mas preciso terminar esse quadro antes da festa cultural da escola. É daqui a três semanas, mas ainda quero pintar o mural, então tenho que me apressar.

Bem, eh, eu não acho que alguém vá realmente se interessar pelo mural, mas gosto de pintar. Feliciano faz isso muito melhor que eu, mas não ligo para isso... Pinto porque gosto. E espero que isso não mude. Se eu pintasse por vontade de ser reconhecido, venderia meus quadros, não os guardaria aqui.

Está certo, ninguém compraria, mas deu para entender.

— Ainda está pintando, bro? — Alfred parou na porta, me chamando.

— Shh, fale baixo! — Eu disse, assustado.

— Só passei pra avisar que vou dormir no quarto de outra pessoa hoje, ok?

— Está levando a camisinha, Al? — Perguntei, sem me virar. Ele riu.

— Não é uma garota. — Ele respondeu, ainda rindo. Eu me virei e ele passou a mão nos cabelos — Eu e o Artie precisamos terminar nosso trabalho de História sobre as Treze Colônias...

— Alfred, ele pelo menos sabe que você vai dormir lá? — Eu o perguntei, levantando uma sobrancelha.

— Bem... Não. Mas ele não vai se importar! Até mais, bro! — Alfred fechou a porta e saiu correndo, pelo que parecia.

Olhei para meu quadro – minha conversa com Alfred fez com que eu perdesse minha inspiração para continuar com o quadro. Respirei fundo.

— Eh... Você fica para amanhã. — Sorri e Coloquei o quadro perto da janela. Após deixar os pincéis de molho e arrumar as coisas, finalmente sai da sala.

Andando pelos corredores, percebi que estava silencioso demais. Aquilo era estranho. Alguém faria alguma besteira.

Apressei-me pra sair do corredor, mas parei no mural da escola por alguns minutos. A votação para os melhores do ano já havia começado. Era uma competição um pouco boba – todos os anos, os alunos votariam em algumas categorias, e os vencedores coordenariam a feira cultural da escola.

Aproximei-me do quadro para ver os votos. Eduard, como sempre, estava competindo com Kiku na categoria dos mais inteligentes – e era uma disputa complicada, pois ambos eram extremamente espertos. Na parte dos mais populares, eram os mesmos de sempre – Gilbert, Antonio, Francis, Al e Im Yong So. A diferença entre eu e Alfred era gritante.

E, por fim, parei na lista dos mais bonitos – sim, existia isso. Francis ganhava de lavada. Depois dele, Gilbert – não vejo atrativos nele, então suponho que ele comprou os votos. E, então, meu irmão. Procurei meu nome e vi o que já tinha se tornado normal para mim: três votos. Eu sabia que um era de Katya, a irmã do Ivan, meu parceiro de hóquei. O outro era de Im Yong Soo, que, por algum motivo, me achava a pessoa mais bonita da escola. Tomei isso como um elogio. E o último voto era um segredo. Todos os anos eu recebia o mesmo voto, mas nunca descobri de quem era. Continuo achando que é alguém que quer tirar uma comigo.

Então eu me lembrei que não tinha votado ainda. Peguei uma caneta e olhei todos os nomes. Pra terminar, votei no Francis. Ele ia ganhar mesmo, então meu voto não valeria de nada. Além do mais, ele é bonito.

Voltei a andar, indo para os dormitórios. A nossa escola é um tipo de "semi-internato": passamos a semana aqui, nos dormitórios, mas vamos para nossas casas nos finais de semana e feriados, mas apenas se quisermos ir. Alguns, como os asiáticos e os americanos, preferem ficar aqui o tempo todo e só viajar para casa durante as férias. E dá pra entender.

Sabe, eu gosto da minha escola. Não são muitos alunos – antigamente era a partir do sexto ano, mas agora é apenas o Ensino Médio – e somos bem, digamos, pacíficos. Não somos o tipo de escola que é separada por panelinhas e elas não se misturam de forma alguma. Temos panelinhas, mas todos nos damos bem. Os populares conversam com os nerds – e não é porque querem notas -, todas as meninas se dão bem... É um paraíso. Lembro-me de quando Yong contou sobre sua antiga escola – bullying era algo normal lá. Fico feliz da nossa escola ser assim. Tenho certeza que eu seria um alvo fácil, eh.

Outra coisa que também gosto são os grupos. Estou no grupo de artes e astronomia desde que entrei na escola. Ah, e também faço aulas extras de francês. Quando me formar, devo morar com meu pai, e ele mora na parte francesa do Canadá – Québec, se não me engano. Nasci lá, mas morei a maioria do tempo com minha mãe e com o Al, lá em Nova Jersey. Queria conhecer melhor meu país natal.

Outra coisa que gosto aqui é o fato de que consigo passar despercebido. Não gosto de atenção, acho que eu morreria de vergonha se chamasse muita atenção — ainda me lembro de quando Al deu uma festa lá em casa e os meninos inventaram de jogar verdade ou desafio. Eu fiquei com tanta vergonha de ter que beijar Francis...

— Alfred, o que você está fazendo aqui fora? — Bewarld, o capitão do time de futebol, me chamou.

— E-Eu não sou o Alfred... Sou o Matthew. — Respondi, passando a mão na cabeça.

E uma coisa que não gosto, mas que acontece com frequência – as pessoas me confundindo com Alfred. Eu e ele não somos tão parecidos assim...

— Ah, me desculpe, Matthew. — Ele me respondeu — Viu o Tino? Preciso entregar as bolas para ele.

— Não, me desculpe... Ele deve estar com o Sveinn. Tenho quase certeza que vi os dois na biblioteca. — Respondi, sorrindo.

— Obrigado. — Bewarld saiu andando, então vi o saco de bolas que ele segurava. Olhei para o lado do campo e pude jurar que vi mais alguém lá. Não sabia que o time de futebol estava treinando hoje.

Enfim, voltei a andar na direção dos dormitórios. Quando cheguei lá, estava tudo normal – bagunçado, como sempre. Eu devia ensinar Alfred como se dobra roupa de novo, mas acho que não vai fazer diferença, eh.

Arrumei o meu lado do quarto e me sentei na cama. Eu tinha alguns deveres para sexta-feira, mas não estava com muita vontade de fazê-los. Após tomar um banho, me deitei na cama. Virei-me para o lado e comecei a olhar para o lado de fora, admirando as estrelas.

Sabe, isso tudo é um tédio.

Eu tenho bons amigos, tenho um irmão que, apesar de ser um idiota, é outro grande amigo meu, tenho boas notas, faço coisas que gosto, estou numa escola boa, tenho uma ótima relação com meus pais e não sofro de nenhum tipo de agressão. Mas mesmo assim... Eu queria que algo acontecesse.

Já pensei em tentar arranjar uma namorada ou namorado — para mim, tanto faz —, mas não acho que alguém aqui se interessaria mesmo por mim. Bem, tem a Katya, mas ela só gosta de mim porque acha que sou como Alfred. Sei disso, Ivan me contou. Então eu penso... O que poderia fazer as coisas melhorarem? Não quero um milagre, quero uma coisa real.

Falando em coisas "reais", essa característica é outra que me torna diferente do Al. Eu não me contento com coisas rápidas. Ele vive saindo com várias garotas, está sempre trocando de namoradas... Eu acho isso tão ruim. Eu não aguentaria trocar de pessoa assim. Eu queria segurança, mas acho que não conseguiria isso com alguém da escola. As garotas são um pouco atiradas, não gosto disso. E os garotos não param com ninguém. Antonio mal terminou com Lovino e já estava dando em cima da Anri... Acho que não vou achar alguém com quem eu possa ter um relacionamento aqui.

Então eu me lembro de Francis. Nós dois no sexto ano. Acho que eu gostei daquele beijo, eh. Talvez, se ele fosse diferente dos amigos dele, eu poderia... Não, impossível. Francis não é diferente deles. E eu não acho que conseguiria chamar a atenção dele – sou tímido demais pra isso.

Acho que estou bem do jeito que estou.

—X—

— Você viu isso? — Jake perguntou para Michelle, que estava sentada na arquibancada.

— Alfred e Bewarld conversando nesse horário... Isso é estranho.

— Será que ele está traindo o Tino? — Jake perguntou para Michelle.

— Não duvido. O Tino é um pouco sem sal, convenhamos. — Ela revirou os olhos — Mas eu pegaria aquele dali, viu?

Os dois riram juntos. Michelle pegou seu celular e mandou um sms para Katya, contando das novidades sobre o irmão de seu amado.


Escrever na pele do Matt é difícil, cara, eu não consigo me acostumar. Reviews?