April estava deitada num dos quartos de plantões. O dia no hospital havia começado mais cedo do que esperava, e quando fechou os olhos pretendendo dormir por alguns minutos escutou o bipe em seu celular.

Verificou a mensagem e era um chamado na emergência.

Suspirou e se levantou, correndo para lá.

– O que temos aqui? – April perguntou ao chegar na emergência colocando suas luvas, o paciente gemia de dor e tinha uma boa parte de seu corpo queimado.

– Jason Morrison, 18 anos, estava no prédio que pegou fogo no centro da cidade.

April olhou diretamente para Kate Moss, a chefe de cirurgia. O hospital não era um centro de queimados e ali não era o lugar mais capacitado para cuidar da vida daquele rapaz.

– Jason, vai ficar tudo bem ok?! – ela disse, se aproximando do rosto do rapaz para ele ouvi-la melhor – Eu sou a Dr. Kepner e vou cuidar de você!

April indicou a enfermeira os medicamentos necessários para ministrar e puxou Kate para fora do leito.

– Não temos condições de tratá-lo aqui, ele precisa ser removido para o Grey Sloan agora! – a ruiva afirmou para Dr. Moss – Ele tem quase 50% do corpo queimado, o melhor cirurgião capacitado para cuidar dele está lá!

– Kepner, eu não tenho condições de pedir à Dra Bailey que aceite mais um paciente, só hoje foram vários transferidos para lá e...

– Eu trabalhei lá – April interrompeu – Meu... – tentou dizer, mas sua voz saiu mais baixa do que o esperado – Meu ex marido é chefe da plástica – Kate tentou disfarçar a incredulidade – Eu... Eu... – gaguejou, se perdendo ao perceber a olhada que a chefe de cirurgia deu à ela. Aquele olhar dizia "você era muito sortuda" – Se você me der autorização para transferência eu posso resolver isso!

– Você tem! – Kate assentiu e April retirou as luvas, puxando o celular do bolso do jaleco.

Discou o número de Jackson e aguardou impaciente enquanto chamava.

April? – ele atendeu, com a voz preocupada. Ela nunca ligava. Somente se fosse urgente – Está tudo bem?

– Sim, eu preciso de um favor! Estou com um paciente, Jason Morrison, quase 50% do corpo queimado... – ouviu Jackson soltar um palavrão do outro lado – Jackson, nós não temos condições de salvar a vida dele aqui! Eu preciso manda-lo para você! – ele continuou em silêncio – Jackson, por favor... – ela implorou – Ele tem 18 anos, ele... Ele começou a vida agora! – ela sabia que estava pedindo muito, provavelmente todos os hospitais de Seattle transferiram seus pacientes com queimaduras graves para lá.

April... – hesitou – Eu... Ok, tudo bem! – ele confirmou – A Bailey vai querer me matar mas... manda pra cá!

– Vou preparar a remoção!

Não esperou que ele dissesse mais nada e desligou a ligação, olhou para Kate e lhe deu um sinal positivo. April informou às enfermeiras e ao residente encarregado do caso que iriam removê-lo para outro hospital.

– Jason, vai dar tudo certo, ok?! – ela voltou a repetir ao jovem, que chorava compulsivamente – Eu vou te levar para o melhor cirurgião e ele vai cuidar de você!


Foi uma surpresa para Alex e Jo verem April chegando ao Grey Sloan vestida num uniforme cirúrgico verde esmeralda.

Era estranho.

Não um estranho ruim, mas estranho de toda forma.

Eles sentiam falta dela comandando a emergência. April era rápida e eficiente.

Owen ficava perdido sem os dotes dela ali.

– Hei, o que faz aqui? – Jo perguntou, olhando para ela que ajudava a descer o paciente da ambulância.

– 50% do corpo queimado, Jackson aceitou que eu o transferisse pra cá! – encarou Jo que arregalou os olhos – É, eu também acho que a Dr. Bailey vai ficar uma fera! – deu de ombros, e Jo se pôs a ajuda-la a levar o paciente para dentro.

– Kepner! – Alex sorriu ao vê-la – É bom te ver de novo!

– É bom te ver também, Alex! – retribuiu o sorriso.

April encontrou Jackson na emergência atendendo outro paciente e quando ele a viu, pediu que ele a esperasse. Ela assentiu, vendo como ele indicava à Vik Roy o que fazer. Ela ficou feliz de ver que o jovem havia conseguido ficar no hospital depois de alguns imprevistos no ano em que ela sofreu o acidente.

Jackson se aproximou dela em menos de dois minutos de espera.

– Como ele está? – ele perguntou examinando os ferimentos do paciente.

– Com muita dor! – ela comentou – Ministramos alguns medicamentos no hospital, mas ele parece estar do mesmo jeito!

– Vamos leva-lo ao centro de queimados!

April assentiu e ajudou Jackson a levar o paciente. A cirurgiã de trauma acenou para Owen quando passaram por ele, que sorriu ao vê-la. Ela não podia negar que também sentia falta de trabalhar com todos eles.

No elevador, ficaram em silêncio. Mas não era algo constrangedor, era pela preocupação com estado do paciente.

Ao instalar Jason no centro de queimados, Jackson examinou-o constatou que o processo seria longo e doloroso, mas que iria ficar tudo bem – para alívio do jovem e de April.

Para surpresa de Jackson, ela ficou o tempo todo com o paciente. Enquanto ele cuidava de suas queimaduras, April conversava com o rapaz para distraí-lo da dor. Ele disse que estava estudando direito e que queria ser advogado, que veio de longe para estudar e que seus pais não sabiam do acidente, ela comenta que com certeza alguém contou à eles e que eles deveriam estar chegando, disse também que quando era mais nova pensou que gostaria de ser também, mas que Deus tinha outros propósitos para ela.

Ele disse que acreditava em Deus também, e que estava rezando para Ele curá-lo.

– Ele vai curar, Jason! – April disse, sorrindo para ele – Ele ouve todas as nossas súplicas!

Foi inevitável não redirecionar o olhar para Jackson. Aquela simples frase os lembrou do acidente que ela sofrera há alguns anos.

Os fez lembrar que Jackson orou para que Deus não a levasse.

E Deus o escutou.

April se arriscava a dizer que aquela havia sido a primeira oração de Jackson em toda a sua vida. Só não fazia ideia de se havia sido a última.

Jackson terminou o que era necessário no momento e se afastou retirando as luvas e escrevendo no tablet.

– Jason, você ainda está sentindo dor? – Jackson perguntou – Eu terminei o que poderia ser feito hoje, precisamos deixar a pele descansar para voltarmos aos procedimentos depois.

– Sinto... Um pouco de dor! – ele comentou, com uma voz fraca e chorosa.

– Ok, eu vou pedir para aumentar a dosagem da medicação!

Jackson indicou para que a enfermeira aumentasse a dosagem e Jason adormeceu em poucos minutos.

– Você acha que vai ficar tudo bem? – April perguntou, se afastando do paciente e saindo do quarto junto com Jackson.

– Sim, vai levar algum tempo, mas tudo ficará bem! – comentou, fechando a porta de vidro – Talvez precise de algumas cirurgias, mas preciso averiguar melhor com o tempo.

– Entendi! – ficaram se encarando por um momento.

– Acho que nunca te vi com esse uniforme verde! – ele comentou, sorrindo e a olhando de cima em baixo.

– É... Eu também acho que não. – ela sorriu, sem jeito – Preciso voltar para o hospital! – pegou o celular, vendo que já estava ali a mais de três horas.

– Tem tempo para um café? – perguntou, não querendo deixa-la ir embora tão rápido assim. Ele gostava de tê-la por perto, de conversar com ela. Ele sentia falta disso.

– Hum... Pode ser! – deu de ombros, não havia nenhuma mensagem de emergência vinda do hospital, sinal de que tudo estava indo bem sem ela.

No caminho para o refeitório foi parada e abraçada por Bailey e Richard, ambos fizeram cara feia para o uniforme que ela usava e diziam o quanto ela fazia falta ali.

Ela sorriu, agradecida pelo carinho dos dois.

– Owen vai ficar louco se não achar um "segundo você" para a emergência! – Jackson comentou ao se sentarem com seus cafés em mãos.

– Ah, ele já devia ter se acostumado! – ela riu – Já tem mais de dois anos que eu fui embora!

– Não é fácil se acostumar sem você! – ela o encarou – Digo... Você sabe, você comandava tudo ali... – ele corrigiu – Deve ser difícil pra ele!

Ela ficou em silêncio, mirando todo o local e deixando as lembranças invadirem sua mente. A última vez que esteve ali foi como paciente, e ela não podia negar que sentira falta. Foi ali que toda sua carreira como cirurgiã de trauma começou e ela sempre seria grata à todos pelos ensinamentos.

– Eu sinto falta também! – ela confessou – Eram como minha família. – deu de ombros, bebericando o café – Nós vivemos muitas coisas juntos, o tiroteio, a morte da Lexie e do Mark, o acidente de avião... São coisas que não se apagam!

– É, são muitas coisas. – assentiu, também se pondo a pensar em tudo que envolvia aquele hospital – Nós invadimos e ficamos. – ele sorriu e ela concordou.

– Somos os invasores! – sorriu também, e foram interrompidos por Meredith que se aproximou deles.

– Hei Kepner, está de volta ao Grey Sloan? – Meredith perguntou, com um pequeno sorriso.

– Hum, não! Só trouxe um paciente para o Jackson! – sorriu, um pouco sem jeito.

– Bom, mas foi bom te ver! – sorriu – Até mais! – acenou e se afastou deles.

– Até! – ela acenou também – Você partiu o coração da irmã dela! – murmurou, vendo Meredith sair do refeitório.

– Como é? – Jackson perguntou, rindo.

– Arizona me disse que você e a Maggie terminaram.

– Hum... – revirou os olhos – Mas não teve coração partido, isso eu te garanto! – April o encarou, querendo saber detalhes mas não sabendo como perguntar – As coisas foram esfriando e acabou! Quando cheguei ao hospital na segunda feira a fofoca é que eu havia sido traído. – deu de ombros e April arregalou os olhos – Não fui, mas ela dormiu com o DeLuca no mesmo fim de semana e isso rendeu bons comentários.

– Eu sinto muito. – April disse, forçando um sorriso.

– Não sinta, eu não ligo! – ele sorriu – Estou bem assim, era o melhor a se fazer! – obviamente ele não ia comentar os detalhes do término que a envolviam.

– As pessoas desse hospital gostam mesmo de voltar com seus ex's! – murmurou, arrancando uma gargalhada de Jackson.

– É... Algumas coisas são para sempre! – encarou-a e ela desviou o olhar, sentindo um incômodo no peito.

– Arizona me ligou essa semana – mudou de assunto – Ela vem para Seattle neste fim de semana com a Callie, quer marcar um jantar. Disse que vai avisar o Alex também!

– Claro, só me avisarem! – sorriu – Só vem as duas?

– Sofia foi passar uns dias com os pais dela, elas têm o final de semana de folga então resolveram vir.

– Entendi... Posso falar com a minha mãe para ficar com a Harriet, se você precisar! – ele disse, bebendo um gole do café que já estava frio. Fez uma careta e deixou-o de lado.

– Hum, pode ser, ela vai adorar ficar com a Catherine e o Richard! E provavelmente Arizona vai querer um jantar de adultos já que a Sofia não vem. – April sorriu e Jackson concordou. O celular vibrou em seu bolso e visualizou a mensagem do hospital, que pedia que ela comparecesse o mais rápido possível – Bom, eu tenho que ir! – indicou o celular – O dever me chama!

Ambos se levantaram, Jackson a acompanhou até a saída e novamente ele viu ela ser parada por vários ex colegas de trabalho, April era uma pessoa muito querida ali e ele sempre soube disso.

– Você vai embora sem me dar um abraço? – Owen se aproximou deles, sorrindo largamente – Que saudades, Kepner! – ele a puxou para um abraço e ela sorriu também. Owen havia sido um grande mentor para ela.

– Muitas saudades! Você estava ocupado quando cheguei, não quis te atrapalhar! – ela deu de ombros, sem graça.

– Você faz muita falta aqui, viu?! Dois anos e eu ainda não me acostumei! – ele disse, feliz por vê-la, mas fazendo uma careta ao observar o uniforme cirúrgico. Ela riu, dando um tapinha em seu ombro.

– Algum dia, quem sabe! – ela piscou e o celular vibrou novamente. Ela digitou uma mensagem de texto rápida e encarou os dois cirurgiões – Eu realmente preciso ir. Foi um prazer te ver Owen, vamos marcar de levar as crianças no parque qualquer dia desses!

– Claro! – ele sorriu – Vamos sim!

– Tchau! – ela olhou diretamente para Jackson e ele sorriu – A gente se vê!

– A gente se vê! – ele concordou, sorridente e ficou observando-a sair do hospital e entrar no táxi.

– O que foi isso? – Owen perguntou, encarando-o com o cenho franzido. – Do que você está falando? – Jackson o encarou, confuso.

– "A gente se vê" – imitou-o, fazendo um gesto de cabeça engraçado.

– Hum... – Jackson coçou a cabeça, sem jeito – Foi só uma expressão, nada demais! – sorriu, ainda envergonhado.

– Vocês vão se ver como? Com o Matthew do lado? – ele ironizou.

– Bem... Quanto à isso... Ela... Eles – corrigiu – Se divorciaram há uns meses.

– Como? Sério? – ele se assustou – Eu pensei que dessa vez era sério, tipo, o famoso para sempre. Não é todo dia que se casa com um cara que você já deixou no altar, então... – Jackson o encarava franzindo o cenho e ele se repreendeu por ter dito aquilo em voz alta – Merda, isso foi grosseiro! Me desculpe.

– Tudo bem. – deu de ombros – De qualquer forma você não está errado.

– Mas isso continua estranho, você está com a Pierce, não está? – Jackson o encarou. De onde estava saindo tantas perguntas? E onde ele estava quando a fofoca de traição saiu pelo hospital?

– Hunt... Não! – negou – Você anda vivendo em que mundo? – ele ironizou, rindo da cara que Owen fazia – Ela voltou com o DeLuca.

– Meu Deus... O Léo realmente tem tomado todo o meu tempo! – respirou fundo.

– É, eu acho que sim. E Amelia também! – Jackson o cutucou com o braço e se afastou, com um pequeno sorriso nos lábios.

Enquanto ia para um quarto de plantão para descansar, se pegou pensando em April durante o caminho.

Foi bom vê-la ali, num ambiente tão familiar. Ele sentia falta de trabalhar com ela, de estar com ela todos os dias, mesmo que fosse no hospital.

As coisas mudaram drasticamente entre eles, e Jackson se perguntava onde havia errado.

Se pudesse voltar no tempo teria mudado tantas coisas, mas agora parecia tarde demais.

April havia seguido sua vida, e seria injusto da parte dele tentar consertas coisas que não podiam ser consertadas.

– Inferno. – ele murmurou se jogando na cama de solteiro, apenas de calça cirúrgica e meias.

Ele sentia falta de ter um amigo com quem pudesse conversar.

Ben estava seguindo sua carreira como bombeiro e seus horários não batiam.

Mark estava morto.

Sua amizade com April, praticamente, não existia mais.

E de toda forma, ele não podia conversar com ela sobre ela.

Antes de se virar de lado para dormir, o celular apitou e ele destravou com a digital para ver uma mensagem de Arizona.

Jantar na casa dos Karev's sábado às 19:00. NÃO FALTE! :)

Jackson digitou rapidamente uma mensagem de volta e colocou o celular no chão para poder dormir.

Não faltarei, Dr. Robbins! Pode confirmar minha presença ;)


A distância do Grey Sloan ao Northwest não era muito longa e April conseguiu chegar em seu hospital com menos de 30 minutos de trânsito.

Encontrou Kate na emergência, conversando com alguns médicos. Ao que tudo indicava, a emergência estava tranquila agora.

– Hei... – April disse, se aproximando deles – Jason está bem, Dr. Avery está cuidando dele e fazendo os procedimentos necessários. – comunicou à Kate, que sorriu.

– Ele está estável? – April assentiu – Graças à Deus! – sorriu, e April retribuiu – Kepner, a Dr. Marston está te esperando na sala de cirurgia 1, ela acabou de entrar.

– Ok, estou indo pra lá!

April correu em direção ao setor cirúrgico, onde se lavou adequadamente e entrou para auxiliar a Dr. Cheryl Marston, chefe da cirurgia geral.

A cirurgia demorou por volta de duas horas.

April voltou à emergência para checar os pacientes que havia dado entrada na parte da manhã. Todos estavam bens e estáveis, sendo assim indicou que seu residente lhe informasse se algo saísse de controle no meio da noite.

O dia havia sido extremamente cansativo. Pensou em mandar uma mensagem para Jackson pedindo informações do paciente, mas preferiu não fazê-lo. Ele com certeza lhe avisaria se algo estivesse errado.

E também, não sabia em que nível estava a intimidade entre eles para essa troca de mensagens.

Pegou Harriet na creche do hospital, e no caminho para casa ela foi tagarelando como seu dia havia sido divertido.

– O que vamos comer, mamãe? – Harriet perguntou quando entraram em casa.

– O que você quer comer? – April perguntou, entrando na cozinha.

– Hum, não sei. Macarronada? – a menina deu a ideia, sorrindo.

– Ok. – April retribuiu o sorriso – Vou colocar a água para ferver e enquanto isso você vai tomar banho. Vai subindo e tirando a roupa.

Harriet assentiu, quando April chegou no andar de cima ela já estava no banheiro pronta para o banho, ligou o chuveiro e fiscalizou a filha.

Ela nos últimos dias estava tentando tomar banho sozinha, mas April ainda ficava de olho para ver se ela estava fazendo certo.

Depois de tomado banho, elas desceram para a cozinha e Harriet ajudou (ou atrapalhou) April a fazer o macarrão.

Jantaram entre brincadeiras, e minutos depois subiram para dormir. A pequena escovou os dentes (também sendo conferidos por April depois) fez sua oração e se deitou.

– Você quer que eu cante pra você? – April perguntou, cobrindo a filha com seu edredom rosa de flores e vendo-a bocejar.

– Pode ser! – sorriu.

Harriet dormiu antes que April terminasse a música, ela sorriu orgulhosa de ver a filha tão serena.

As coisas pareciam estar se encaixando agora, e uma parte dela sentia falta de dividir aquelas noites com Jackson. Harriet estava crescendo tão rápido e, infelizmente, eles não tiveram a oportunidade de curti-la juntos.

Ela ainda acariciava os cabelos da filha, se deixando perder em pensamentos.

As coisas não deveriam ter sido assim. Tudo ficou errado depois que perderam Samuel.

Eles deveriam ter ficado juntos e criado seu menininho.

Samuel deveria ter sobrevivido.

Sentiu o coração se apertar e as lágrimas inundarem seus olhos ao pensar no filho. Há algum tempo ela não se permitia pensar nele, era uma parte dolorosa de sua vida que nunca seria possível curar.

O tempo amenizou e a forma mais fácil que ela encontrou de lidar com isso foi enterrando-o em seus pensamentos e seu coração. Se pensasse nele todos os dias e questionasse Deus por isso, ela não seria capaz de viver e nem deixa-lo descansar.

Harriet merecia uma mãe feliz e um dia, quando ela estivesse mais velha, ela saberia que teve um irmãozinho que viveu poucos minutos e que com certeza a teria amado muito, mas ela ainda era pequena demais para entender tudo, não era necessário trazer aquilo à tona.

Quando April chorava por ele, ela se perguntava se Jackson fazia o mesmo.

Eles não conversavam mais sobre Samuel.

Foi a morte do filho e a dificuldade de lidar com isso que destruiu o casamento deles e nenhum dos dois ousava tocar num assunto tão doloroso.

April enxugou as lágrimas, beijou a testa da filha e foi para seu quarto.

Tomou um banho quente e relaxante, vestiu um pijama e se deitou.

Checou o celular e havia uma mensagem de Arizona enviada há algumas horas. Dizia que o jantar seria na casa de Alex e Jo às 19:00hrs, e maiúsculas gritantes pediam que ela não faltasse.

Sorriu e respondeu.

Eu não ousaria faltar, Arizona, tenho muito amor à minha vida haha ;) Nós vemos no sábado.

Colocou o celular na mesa de cabeceira, e antes de dormir, orou à Deus e agradeceu pelo dia de hoje, pela vida de sua filha, de seus familiares e de todos que amavam. Agradeceu à Ele por ter permitido que ela e Jackson salvassem a vida daquele jovem e pediu que o protegesse de todo o mal.

Rezou o Pai Nosso, fez o sinal da cruz e finalmente dormiu.