CAPÍTULO 2
O sol tem calor(1.971 palavras)
Um sopro de vento úmido chicoteou o rosto de Arthur tirando-o do transe diário, um costume que estava beirando o ridículo, fazendo com que ele se sentisse não menos do que um adolescente. Agora todos os dias ficava parado, do lado oposto ao prédio da empresa, logo atrás da árvore que acobertava sua vigília, e esperava. Desde o primeiro dia que o vira, aquilo se tornou um hábito que o torturava e o deliciava ao mesmo tempo.
Há algumas semanas atrás, Arthur chegava na empresa depois de quinze dias em viagem ao País de Gales, e ao sentir seu celular vibrar dentro do casaco, teve de parar para atendê-lo, quase no fim da ligação, pelo canto do olho ele percebeu do outro lado da rua o homem de terno azul, vestindo um sobretudo preto. Ele era alto, com cabelos tão escuros quanto uma noite sem luar, e apontando para todos os lados, ainda assim ele parecia estrondosamente elegante, o andar altivo chamou a atenção de Arthur de imediato. O homem vinha longe, mas com as longas pernas, se aproximava rapidamente e Arthur se banqueteou com cada passo que ele dava, quando o homem chegou bem na porta do prédio da Camelot's Corp., ele entrou.
Nunca Arthur deixaria de notar alguém assim trabalhando na sua empresa! Ficou se perguntando quanto tempo ele esteve fora para perder esta preciosidade genuína, mergulhado nas negociações da Caerleon, ou tratando do afastamento de Agravaine, ambos casos belicosos, e que acabaram despendendo mais tempo do que Arthur gostaria. Ele ficou alguns minutos se recuperando da visão, então rumou para o prédio. O dia seria cheio e ele não teria tempo de descobrir nada sobre o esbelto e misterioso homem.
Durante a noite Arthur não pôde evitar que os pensamentos se encaminhassem para o moreno que ele nem ao menos o nome sabia, teve sonhos onde ele era arrebatado por um homem incrível com cabelos escuros e beijos enlouquecedores.
No dia seguinte, Arthur chegou no mesmo horário, ficou no mesmo lugar logo atrás da árvore, e esperou. Em poucos instantes o homem misterioso dobrou a esquina, hoje caminhando muito rapidamente, com um terno apenas, sem o sobretudo, Arthur pôde apreciar o blazer do terno bem cortado delineando os ombros. Quando chegou na porta, Arthur notou que o moreno misterioso sorria e olhava em frente, Arthur seguiu seu olhar e notou Lancelot sorrindo amigavelmente de volta.
Bem, agora ficou interessante. Arthur sorriu internamente, milhares de estratégias possíveis pipocavam em sua mente. Ele era amigo de infância de Lancelot, e não haveria dificuldade agora, se Lance conhecia o homem misterioso, Arthur também iria conhecer.
Arthur chegou em sua sala e fez contato com Lance, o convidou para almoçarem juntos, alegou que queria conversar alguns pontos sobre o afastamento de Agravaine. Lancelot prontamente aceitou, e ambos se encontraram no restaurante mais próximo. Conversaram sobre a empresa e sobre a pretenção de Arthur em assumir a Vice-Presidência, algo que já era uma certeza com a saída de Agravaine; Arthur falou sobre a compra da Caerleon, assunto que vinha sacudindo a empresa há semanas. Lancelot ouvia e opinava sempre que solicitado, e quando a conversa ficou amena e começaram a falar sobre assuntos triviais, Arthur sentiu que poderia arriscar a sorte.
- Como tem estado a empresa na minha ausência?! Será que Gwaine tem mantido a mesma secretária, ou arranjou uma nova? Espero que ele não tenha contratado ninguém com currículo duvidoso novamente... – ele riu gostosamente.
Gwaine era justo e correto, mas tinha uma sede de aventura, e com isso havia se envolvido com uma secretária, quebrou o coração dela, e a moça acabou por pedir demissão. E como se isso não fosse o bastante, Gwaine também incentivava os outros a se envolverem. Apelidou Arthur de "Princesa", uma daquelas que espera por um príncipe para salvar da solteirice, ou da mesmice, ou da solidão, tanto fazia... Ele tentou empurrar Arthur para Gwen inventando encontros "acidentais" para os dois, e quando não deu certo, ele fez algo semelhante com Mithian, o resultado foi desastroso quando Arthur, corado e furioso, disse que seria mais produtivo se Gwaine estivesse no lugar das meninas, foi então que revelou a Gwaine que era gay. Então Gwaine prometeu que iria levar Arthur a cada boate gay que pudesse encontrar no google, para que Arthur desse uma diversão para o pau embolorado que ele guardava dentro das calças. No fim não puderam sair juntos, pois Arthur sempre estava ocupado demais e cansado demais, e seu pau estava, definitivamente, embolorado...
- Ah não, Graças a todas as divindades Gwaine esteve comportado. Mas há esse cara novo, chegado recentemente da filial de Ealdor, e Gwaine já conspirou e arrastou o rapaz para todos os bares gay de Londres... - A fala de Lancelot chegou sorridente aos seus ouvidos, interrompendo seus devaneios.
- Bares gay? – Arthur disse quase sem fôlego – Eu não sabia que Gwaine tinha virado a casaca...
- Não! Cristo, não!- disse Lance rindo divertido – Ele apenas quis apresentar a cidade para o rapaz, isso é tudo! No entanto o cara parece mais amigável com Gwen e Mithian – Por um segundo Arthur pensou ter sentido uma nota de preocupação na voz de Lance.
- Gwen e Mithian? Mas, elas trabalham ainda mais do que eu... certamente não são o que Gwaine classificaria como divertimento.
- Sim, creio que sim. Eles tem saído para tomar algo nas sextas-feira, estive algumas vezes junto, para dar apoio masculino para ele, entende? – disse Lancelot, suas maçãs do rosto mostraram um rubor suave. Arthur compreendeu de imediato.
- Você ainda não conversou com Gwen, não é? O que está esperando, Lance...
- Acho que eu poderia ir amanhã à noite ao pub, gostaria de vir também? Faz algum tempo que você não sai para alguma bebida com o pessoal... – Lance interrompeu abruptamente, falando de maneira esperançosa.
Bem, isso seria muito interessante
- Tudo bem, então...estarei lá! – Ele deu uma piscadela para Lance, fingindo não se importar com o corte repentino sobre Gwen. E se Lancelot achou o convite aceito muito rapidamente, ele não falou nada.
Arthur voltou ao seu escritório e tentou não pensar em como tentaria chamar a atenção do homem misterioso... Oh, Inferno... ele não havia perguntado o nome do homem!
- X –
Caminhando rapidamente sob uma fina chuva gélida na manhã seguinte, Arthur se encaixou novamente no mesmo local, cumpriu sua rotina esperando, o frenesi no estômago borbulhando acusadoramente, tornando inegável o quanto ele ansiava por ver o moreno, a expectativa e a promessa velada para a noite fazendo os nervos dele em frangalhos.
Então interrompendo os pensamentos de Arthur, o Homem misterioso surgiu na esquina repentinamente, andando muito rápido, com a gola da capa virada para cima encobrindo o pescoço, ou qualquer centímentro de pele, ele parecia dessa vez um pouco atrapalhado, mas quem se importava? Arthur estava deleitado com a imagem do homem, à centenas de metros de distância, ele sorriu e arrastou a língua nos lábios instintivamente, quando ouviu uma voz grave e debochada vinda das suas costas.
- Oh-oh... então a princesa está na torre esperando o salvador?! E, deixe-me ver... – Gwaine espichou o pescoço para ver para onde Arthur olhava – Oh foda-se Arthur... Merlin?! Deus eu não podia esperar por isso... não, espere! Eu bem porra podia, não é?! – Gwaine girou em direção do prédio e sacudiu o cabelo, daquela maneira comercial de shampoo que em outros tempos já deixou Arthur duro só de olhar
- O que é isso, Gwaine... você não poderia esperar o que, cara? – Arthur se sentia como um cão que acaba de ser pego estraçalhando uma almofada de penas no meio da sala, seu segredo delicioso descoberto... por Gwaine, ninguém menos. Arthur gemeu abatido.
- Olha, vamos entrar, está chovendo, sim? – Gwaine falou, seu sorriso mais diabólico enfeitando os lábios carnudos, ele mirou rapidamente Arthur, com os olhos castanhos faiscantes de malícia.
- X –
O dia passou vagarosamente, em contraste com a aflição de Arthur, ele recebera alguns telefonemas de Gwaine, e sem se comprometer (como se isso fosse possível), deixou Gwaine tagarelar sobre o homem misterioso, tentando duramente fingir que não se importava. Merlin... Agora Arthur sabia o nome. Ao menos por isso valera a pena ter sido descoberto.
Ao se aproximar o fim do dia, Arthur inventou relatórios para ler, isto manteria sua ânsia sob controle, o trabalho era sempre uma fuga eficiente.
Arthur ouviu batidas na porta e levantou a cabeça, deu permissão para entrada e Lancelot cruzou a sala caindo na cadeira em frente a mesa de Arthur.
- Então, vamos tomar algo, estou liquidado! – Hoje foi um dia tenso! – Lancelot disse bufando.
- Sim, tenso demais, realmente. Deixe-me apenas... – Arthur sinalizou em direção a tela do computador e Lance meneou a cabeça de acordo.
Relatórios salvos, computador desligado, sala fechada. Arthur e Lancelot seguiram a passos certos em direção ao térreo, e de lá, a rua os saldou. Uma noite sem estrelas, fresca e um tanto úmida. Arthur se sentiu agradavelmente incrível.
Ao chegar ao pub, Arthur o viu de imediato. Merlin ria loucamente, um riso sem fôlego, os olhos quase fechados, dentes excepcionalmente brancos e retos. Arthur definitivametne gostou do que viu, muniu-se do mais exultante sorriso que tinha e marchou acompanhando Lancelot, como se estivesse indo para uma batalha muito bem planejada, onde ele tinha certeza que venceria.
Arthur estava decidido a não dar bandeira, ele precisava fazer seu próprio jogo e conhecer Merlin. Sendo assim, ao chegar a mesa cumprimentou Gwen, que ainda parecia um pouco tensa por causa da presença de Lancelot, francamente esses dois deveriam resolver essa tensão sexual pois já estava ridículo. Lancelot e sua maldita boa postura sobre não se envolver com colegas de trabalho... enfim, Arthur cumprimentou Mithian e se deparou com... Merlin...
Realmente Arthur não poderia ter esperado tanto, o homem era definitivamente formidável, as espiadas ocultas de Arthur no início das manhãs não faziam jus ao homem em frente a ele, Arthur se condenava por não ter feito algo antes. Ele se aproximou de Merlin e segurou a mão dele, o toque era quente, a pele era pálida mas um adorável rubor surgia nas maçãs do rosto afiadas, a visão da boca fez o estômago de Arthur despencar, ele cumprimentou Merlin sem ouvir o que Lance falava, apenas perdido na profundidade dos olhos azuis, ornamentados por cílios longos, agrupados naturalmente, Arthur demorou alguns instantes mais do que queria apreciando os lábios vermelhos e generosos, e por fim não deixou de notar o pescoço longo que jurou conter expectativas ocultas.
Durante algumas horas Arthur tentou se mostrar estoico, ele sempre o era, logo ninguém achou algo suspeito, e com isso ele tinha a chance de observar cada movimento de Merlin, que parecia tímido e nem um pouco o homem altivo que Arthur vira no primeiro dia... Ele definitivametne não tinha ideia sobre o quanto era fantástico. Desejável, lindo, e extravagantemente único.
E Arthur o queria, Deus, queria demais, ele nunca quis tanto alguém!
Na manhã seguinte, Arthur se deparou com uma urgência do Marketing, aparentemente Morgana precisava de números para trabalhar em um novo planejamento estratégico, e queria conversar com Arthur imediatamente. Logo ele não foi para o lugar de costume, correu para sua sala conversou com Morgana por algumas horas e concluíram que precisavam convocar uma reunião. Arthur exigiu que um representante de cada setor se dirigisse a Sala de Reuniões, chamou Gwaine e pediu que fosse pessoalmente convocar Merlin e Lancelot. O que fez a sobrancelha de Morgana subir. Arthur ignorou. Gwaine piscou perversamente.
Agora Arthur estava certo de que o destino ajudava deliberadamente. Em uma reunião crucial sobre a Vice-Presidência, Gaius definiu que nomearia Merlin para colocar Arthur a par das contas importantes da empresa.
- X –
Parado em frente ao prédio, aguardando como sempre fazia, Arthur repassava toda a estória e ansiava por dar mais passos. Ele estava cercando Merlin silenciosamente, e se Deus fosse bom, não seria apenas no trabalho.
