CAPÍTULO 03
Agom não perdeu tempo pulando na água, mas nunca o fazia. Atuou com uma rapidez brutal, porque sem sua camisa até a coxa, as mangas largas e os metros de tartán ao redor do corpo a modo de kilt e capa, o chamado feile-breacan, parecia exatamente o que era: uma mulher esbelta. Saiu correndo da água para esconder-se detrás de uma árvore e o esperou.
Esteve a ponto de não chegar a tempo e o desgosto dele ao encontrá-la fora da água foi evidente.
—Agom, moço. Se tiver que te perseguir...
Calou-se ao ver o montão de roupa Higurashi na borda. Agom viu que a jogava à água de um chute, como se fosse muito asquerosa para tocá-la. Fechou os olhos para não ver a profanação, antes correr pela borda do bosque para segui-la, observando como o fardo negro empapado se afastava com a corrente.
—Tirou-lhe todo o suco, moço. Não deve te entristecer por esse farrapo.
Agom viu como gritava por cima do ombro e soube que esse era o momento. Era tão boa como Inuyasha trocando de posição. Também era uma excelente nadadora. Algo que pudesse levar a cabo um moço, ela podia fazê-lo melhor. Estava sob a água e mergulhava para onde a roupa Higurashi se afundou antes de que ele dissesse uma só palavra.
—...servirão-lhe melhor minhas cores. Não precisará ocultá-los. Tem mais razões para levá-las com alegria.
Agom lhe ouviu emergir à superfície. Não sabia que mais havia dito. Tinha uma visão clara de onde estava Inuyasha, ainda falando por cima do ombro, enquanto nadava para um ponto da borda mais abaixo de onde estava ele. Estaria à vista um momento, mas não se podia evitar. Rezou uma rápida prece para que continuasse ignorante de sua posição antes de arriscar-se a sair.
—Mais de uma moça se desvaneceu ao ver os quadrados Taisho. É uma cor muito formosa, vibrante e cheia de vida. Não como esse cinza escuro e feio dos HIgurashis. Além disso, a malha é mais suave, o fio mais denso e o trançado está feito por mãos mais habilidosas. Não pode perder, entendido?
Agom saiu da água e se escondeu detrás da cortina de matagais enquanto ele seguia falando. Ajoelhou-se para escorrer o kilt perto do chão, impedindo que as gotas fizessem ruído. Franziu o cenho ao dar-se conta do evidente. Não poderia levá-lo com ela. Ao menos não tudo.
Pela primeira vez em oito anos, não poderia levar as cores de seu clã. A certeza a fez tremer. Reprimiu o tremor. Talvez se visse obrigada a levar as cores do inimigo por fora, mas conservaria um pedaço de tecido Higurashi perto de seu coração. Fingiria que era um deles. Disse a si mesma que desfilaria com pele de leopardo e joias se com isso obtinha a justiça que procurava. Depois mandaria tecer outro traje Higurashi. Seus antepassados teriam que conformar-se com isso.
Agom passou os dedos pela borda do tecido procurando um ponto especialmente frouxo. Desejava ter uma de suas adagas. A água havia tornado o tecido resistente a rasgar. Encontrou um ponto desfiado e lhe fincou os dentes.
—Além disso, com essa roupa te etiquetaria como simpatizante dos Higurashis. Nenhum homem vivo deseja esse título. Estigmatizaria-lhe como um covarde.
Agom mordeu com força o tecido para que não lhe escapasse um grito de ódio e de raiva. Nesse momento desejava ter uma adaga por uma razão diferente. Não erraria o ponto vital. O som do rasgo foi mínimo, mas viu que ele voltava à cabeça em sua direção. Parecia ter um ouvido excelente. Teria que recordar-se. Guardou o pedaço de tecido cortado na mão e se colocou em cócoras. Não era muito, mas serviria. Utilizou a folhagem para avançar pela borda, aproximando-se de onde estava ele.
—Sai de seu esconderijo, moço. Isto é uma tolice. Tem um traje Taisho que pôr e um amo ao que servir.
Agom lhe tirou a língua.
—Por que se esconde, se pode saber? Não te castigarei mais. Não há necessidade.
—Não estou escondido — respondeu por fim, de um ponto atrás dele.
Viu que ele não parecia surpreso de ouvi-la nessa posição.
—Está escondido no bosque, né?
—Necessito intimidade, e você o chama esconder-se — disse ela ao ar como se fosse seu público. Sabia que isso explicaria não só sua ausência, mas também seu sigilo. Viu como o assimilava.
Riu.
—É tímido?
—Às vezes — respondeu ela — Esta vez é uma delas.
—Bem, se me tivessem concedido um corpo tão esquálido como o que te deu o Senhor, também me esconderia. As garotas devem correr ao ver seu traseiro branco.
—Não sei. Nunca o provei.
—Busca uma moça gorda. São mais fáceis de apanhar.
Ria de sua própria brincadeira enquanto se sentava para tirar as botas. Agom se voltou. Não se arriscaria a que a visse até que estivesse na água e ainda tinha que desfazer a trança e comprovar os danos. Tinha visto muitos varões quase nus para que o que ele pudesse mostrar não lhe interessasse, além de permitir calibrar a seu competidor.
Desfez a trança, recolheu um punhado de cabelos tosquiados da nuca e voltou a trançá-lo antes de lhe ouvir chapinhar. Olhou-o. Com uma olhada viu que se inundou na água. Agom se arriscou, agarrou a pilha menor e voltou para o abrigo das árvores para vestir-se.
—Onde aprendeu a lançar facas, moço? —gritou ele por cima do ombro.
—Aprender o que? —respondeu ela — Falhei.
Estava escorrendo a roupa interior com a mesma fúria que tinha no gesto da boca. Não podia ficar molhada, assim que a atou com um nó ao joelho para que se secasse melhor. Assegurou o quadrado de tecido Higurashi debaixo. Depois se incorporou e levantou a túnica interior de linho fino que tinha pegado. A passou pela cabeça, afastou a trança e desfrutou da sensação instantânea do suave tecido finamente tecido contra sua pele nua pela primeira vez em sua vida. Agom passou um dedo pela prega, que lhe chegava até o meio da coxa. Inclusive ali, notou os pontos perfeitamente costurados. «Dá esta roupa a um servente?», maravilhou-se, abrindo muito os olhos.
—Tem a melhor pontaria que vi em minha vida. Falhou, diz. Falhou. Tenho uma adaga fincada em todas as minhas empunhaduras e as bordas das meias três-quarto cortados. Falhou.
Agom reprimiu um sorriso antes que Taisho inundasse a cabeça sob a água outra vez para molhar os cabelos, e então o fez. Ele não tinha mostrado nem um pingo de respeito antes. Devia dar-se conta de que era comédia. O homem podia tê-la pequena, mas não lhe faltava valor, decidiu. Provocar a alguém para que lançasse facas até que não ficasse nenhum exigia mais valor de que acreditava possuir ela. Essa foi outra informação interessante que guardou em sua memória.
Colocou a camisa que lhe tinha dado, a abotoou até o queixo e ao fazê-lo reconheceu que era feita de um tecido fino. Além disso, ficava bem e lhe tampava até a virília, enquanto um comprimento equivalente de tecido caía por trás lhe cobrindo as nádegas. Agom passou as mãos pelas bordas das mangas, as dobrando.
—O que? Onde aprendeu? —perguntou.
Ela o olhou. O calor da água tinha criado uma neblina opaca no ambiente que planava justo por cima deles, e lhe viu a cabeça como se não tivesse corpo. Depois viu um braço, outro braço e finalmente ambos enquanto se lavava.
—Pode ser que aprendesse sozinho e pode ser que não — respondeu à figura fantasmal que via.
—Como é com o arco?
O kilt que lhe tinha dado era do tecido mais agradável e bem tecido que jamais tinha visto, e Agom o acariciou com as mãos. Era feito de uns fios de lã tão finamente cardados que podia apertá-la toda na mão e era mais fina que sua trança.
—Por quê? —perguntou.
—Eu gosto de conhecer minha gente. Tem talento. Quero saber até que ponto. Pode me ser útil no futuro.
Foi uma boa coisa que ela não pudesse ver onde tinha ido enquanto dizia isso. «Que arrogância!», pensou. Então se lembrou. Era um Taisho. Sua arrogância era legendária: o mundo existia para que o pisassem e tomassem. Tragou a rápida réplica. Até que recuperasse suas adagas ou qualquer arma, em realidade teria que morder a língua. Não gostava de seu uso da força bruta.
—Não sirvo para o arco — respondeu.
—Lástima — foi à resposta.
Agom pegou o cinturão que lhe tinha deixado. Embora estivesse muito escuro para sabê-lo com segurança, por sua grossura sentia que estava feito com um couro caro. Acariciou-o com os dedos em toda sua longitude, tocando os tensos pontos. Não tinha pontos frouxos, a diferença do dela, de couro cru trançado. O prendeu à cintura, sacudindo a cabeça ao deixá-lo cair sobre o quadril. Provavelmente era melhor assim. Uma cintura como a sua não era de moço.
—Que tal com a tocha? —perguntou ele.
—Apenas as toquei — respondeu ela.
—Não me surpreende. Essas armas não eram legais até muito recentemente, e isso graças a nosso novo rei. De onde tirou suas adagas?
—Encarreguei-os e os paguei com uma troca — disse.
—Com coisas que roubou aos mortos?
—Ganhei com minha habilidade, não roubando.
—Não os roubou aos mortos?
—Que escocês morto teria uma arma? Não acaba de me dizer que não eram legais até muito recentemente?
—Tem uma língua muito afiada, moço. Responde com claridade. Esse campo de batalha provavelmente estava repleto de armas escocesas, legais ou não. Se não, para que ia comandar a um grupo de moços naquele lugar?
Agom tragou saliva, surpreendida. Era mais esperto do que tinha suposto, muito mais esperto. Levantou as meias três-quartos longas até a panturrilha que lhe tinha dado e as pôs, e depois se sentou para colocar as botas que havia lhe trazido. Estranhou ver que estavam quase perfeitas. Nunca lhe tinha ocorrido isso. As botas que podia permitir-se sempre estavam cheias de buracos, gastas, sem forma, e sempre lhe vinham apertadas. Seu anterior escudeiro devia ser um moço grande. Olhou os pés, separou os dedos e fez o que pôde para não mostrar sua alegria.
—Deu-te conta? —perguntou, finalmente.
—Tinham-me dado na cabeça. Mas meus olhos viam perfeitamente.
—Então deve ter visto que não roubei nada. Não roubo a ninguém, nem vivo nem morto.
Isso deteve seu interrogatório um momento e Agom esperou em vão uma resposta. Quão único ouviu foi o gorgolejo da água do arroio onde ele estava metido.
—Suponho que isso poderia ser certo — disse.
Agom ficou tensa e teve que morder a língua. Estava aguentando todas as ofensas que um Higurashi podia suportar sem vingar-se. O fato de que as fizesse um Taisho o fazia mais difícil de tragar e esquecer.
—É verdade. Que razão teria para mentir?
—A mesma que te serve para me mentir sobre seus outros talentos.
Agom tentou penetrar na névoa atrás da que se escondia ele. Depois se encolheu de ombros.
—Tampouco menti sobre isso.
—A minha aljava1 falta só uma flecha e a lebre que se está assando não a recebeu. Além disso, não seria suficiente nem para seu esquálido estômago. Sabia e foi por uma caça maior. Só levou uma flecha para fazê-lo porque não necessitava mais. Diga-me que me equivoco.
«Não era só esperto. Era muito esperto», pensou. Devia tentar não esquecê-lo, por cima de tudo. Esclareceu a garganta e lançou um insulto para trocar de tema.
—Pensa ficar aí metido até que te enrugue como uma passa? Embora pequena que deve tê-la, não te custará muito.
—Está insinuando algo com isso? —perguntou ele em um tom de voz mais baixo que antes.
Ela sorriu.
—Sim — respondeu — E não sem causa. Apontei bem e com precisão com minha última faca. Não deu em nada. Será que não tem nada.
Ouviu-se uma gargalhada, um chapinho e Agom esperou.
—Pensa o que queira, moço. As empregadas não têm nenhuma queixa.
Agom levantou os olhos ao céu. Era um Taisho. Claro que não tinham queixa ao meter-se na cama com um prêmio tão valioso! Teria que retirar o que tinha pensado antes, que era um tipo esperto.
—Então talvez devesse levar empregadas mais experientes à cama. Não seriam tão fáceis de agradar, acredito.
—Por que teria que fazer tamanha estupidez? Quando coloco uma empregada em minha cama, é para que aprenda. Não quero que a incompetência de outro homem me danifique a diversão. Eu gosto de educar as minhas mulheres. Dê-me uma donzela a cada dia e te devolverei uma cortesã.
—Com tantos requisitos deve ter problemas para encontrar e manter criadas que lhe esquentem a cama - respondeu ela com desprezo.
—Não. Meu leito lhes parece acolhedor e agradável. Nunca ouvi uma queixa. Tenho-as até que já não me são úteis. Ou até que parem um bastardo.
—Engendra bastardos? —perguntou ela, com voz atônita.
—Ainda não. Sou cuidadoso com minha semente.
Agom não tinha uma resposta que pudesse dizer em voz alta. Nem sequer sabia do que estava falando, embora imaginasse com bastante precisão.
—Não se preocupe moço, o mundo está cheio de empregadas. Também haverá para ti, embora não terá muito êxito até que te mude a voz e te saia um pouco de pelo nesse torso tão esquálido.
Agom estava engasgando, mas graças a Deus não emitiu nenhum som.
—Já está bem. Esta conversa me provoca uma resposta e não há mulher a mão com quem usá-la. Melhor que saiba, moço. Não tenho muita paciência, perdi quase todo meu uísque, tenho a cabeça como se quisesse afastar-se de meu pescoço e pontas agudas que terá que arrancar. Deseja manter ocultos seus talentos? Você verá. Descobri-los-ei cedo ou tarde, embora, se fosse você, não voltaria a me pôr a prova.
O corpo fantasmal não parecia ter substância e menos ainda a voz ameaçadora que utilizava. Agom tragou saliva.
—Não estava lhe pondo a prova — respondeu em um tom tenso que não parecia o dela. Estendeu a capa e procurou um ponto para começar a colocar-lhe na cintura. A capa se dobrou e a envolveu tão ricamente como tinha suspeitado. Agom a atou à cintura, dobrando o tecido por diante até a metade. Depois, juntou-a formando pregas nas costas, antes de voltar a levá-la para diante para passar o extremo longo por debaixo do cinturão. Sobrava-lhe bastante para passar-lhe pelo ombro esquerdo, assegurá-la pela parte traseira do cinturão e deixar uma capa curta caída por cima das pernas. Girou a cabeça para comprovar a longitude e notou com satisfação que lhe roçava as panturrilhas, exatamente como devia ser.
—Não me estava pondo a prova, estava se exibindo. Por força. Se não, teria me matado. Passe-me uma toalha.
Ela franziu o cenho, pensando primeiro em quão certas eram suas palavras e depois na facilidade com que lhe dava ordens. Depois levantou a cabeça. Abriu-lhe a boca de assombro. O assombro foi o que a deixou imóvel lhe vendo avançar para ela entre a névoa e a folhagem, não se parecia com nenhum varão dos que tinha visto em sua vida.
Inuyasha Taisho era viril, são, harmônico, musculoso e enorme. Por toda parte. Inclusive saindo de um riacho de água gelada ao ar frio estava impressionante, e não era pequeno absolutamente. Agom se esqueceu de tragar a umidade que se formou instantaneamente em sua boca e esteve a ponto de engasgar-se antes de fechar a boca e depois os olhos.
—Vá, terá que ver... — disse ele —, vestido com o traje Taisho e a ponto de fazer pulsar o coração de um bom número de donzelas com sua elegância. Suas pernas necessitam algo mais de músculo e seus braços parecem raminhos, mas seu rosto tem bons traços. De menino, mas ao mesmo tempo viris. As empregadas se voltarão loucas por você. Gostam dos homens noviços.
Deu-lhe um empurrão e ela se afastou dois passos com o impulso antes de abrir os olhos e olhá-lo.
—Parece o bastante preparado para ser meu escudeiro e vejo que leva o tartán adequado. Uma melhora notável.
—Como pude falhar? —sussurrou, sem pensar.
Desta vez sua gargalhada não estava envolta na névoa e Agom sentiu um calor inesperado que sabia que era rubor, e ela nunca se ruborizava. Nunca. Ruborizar-se era para as jovenzinhas, para as donzelas virgens, não para ela, e é obvio não era a resposta ao homem que tinha diante.
—Levo uma tanga — respondeu ele — Ponho isso primeiro... ou porei, quando estiver seco.
—Uma... o que? —Não podia seguir falando com ele enquanto se mostrasse tão informal com sua nudez, e ela era consciente de todas as partes de seu próprio corpo. O sol não estava bastante baixo para esconder nada disso.
—Me traga a toalha. Traz também minha roupa. Mostrarei o que é uma tanga. Um bom escudeiro se adianta às necessidades de seu amo e não necessita que o apressem — disse amavelmente.
—Não aceitei ser seu escudeiro — repetiu ela.
—Gostaria de outro banho?
Ela sacudiu a cabeça.
—Então estamos de acordo em que será meu escudeiro.
—Não te jurarei lealdade — respondeu ela, levantando o queixo, embora não o olhava aos olhos. Parecia mais seguro concentrar-se nas bétulas de trás.
—Agora talvez não, mas chegará um dia em que o fará.
—Nunca. — Agom apertou os dentes e se moveu para olhá-lo. Resultou-lhe muito difícil, e não se atreveu a perguntar o por que. Quão único sabia era que tremia do esforço que supunha lhe sustentar o olhar.
Ele suspirou.
—Começaremos sua formação com alguns costumes básicos. Servir a seu senhor. Ele te pediu a toalha, mas como lhe deixou molhado em pleno ar noturno, já não a necessita para nada. Traga-lhe sua roupa, então. Agora.
—E se me nego?
—Por que crê que te deixei conservar os cabelos? —aproximou-se um pouco mais para perguntá-lo e Agom empalideceu. Esperou que seu rubor passasse tão despercebido como antes — Segue desejando o ter amanhã, suponho.
Agom se voltou e foi até a pilha de roupa. Não sabia o que lhe ocorria. Queria conservar sua trança, sim, mas a que preço? Seu próprio respeito? Recolheu a roupa com um gesto maligno. Perguntou-se qual seria a reação dele se ela mesma se cortava a trança enquanto ele dormia, mas sabia que não o faria.
Supunha-se que devia atormentá-lo, pô-lo em perigo com suas habilidades, e estava fracassando miseravelmente. Não só não estava impressionado com sua precisão no lançamento de adagas, mas também o utilizava como pretexto contra ela. Para mais ofensa, considerava-a um moço viril! Lágrimas de raiva lhe umedeceram os olhos quando voltou com ele e atirou a roupa ao chão, a seus pés: raiva por seus próprios pensamentos. Queria que a considerasse um moço viril! Que duende dos bosques lhe estava absorvendo a vontade?
—Isto é uma tanga.
Ele tirou um tecido de linho branco e sustentou um extremo sobre seu quadril direito. Agom tentou fingir mais interesse no que lhe mostrava que no que estava exibindo para ela. Também se tinha esquentado e isso tinha tido um efeito de aumento sobre... tudo. Obrigou-se a não lhe olhar mais que as mãos e não ouviu uma só palavra de seu discurso por culpa de suas próprias pulsações.
Envolveu a cintura com o tecido, depois a deixou mais solta, passou-a por diante, entre as pernas e para trás. Continuando, levou-a para o quadril esquerdo, desceu-a pela outra perna e para trás. Acabou no quadril direito, onde atou os dois extremos. Não deixou nada ao ar que ela tivesse podido trespassar com sua folha. Agom olhou o produto terminado.
—Isto não é muito escocês — disse por fim.
—É certo. Tampouco é muito viril para alguns escoceses.
—Levam-no outros senhores?
—Não sei. Nem me importa.
—Sério?
Ele a olhou e o coração de Agom baixou ao estômago. Esteve a ponto de levar uma mão ao peito para detê-lo. Aquilo não tinha nenhum sentido. Ela não necessitava aos homens. Não lhe servia de nada ser mulher. Não descansaria enquanto aquele homem vivesse. Já o tinha jurado. Faria o que pudesse para eliminar ao senhor dos Taishos do mundo e ganhar com isso o agradecimento de todos os verdadeiros escoceses. Sem dúvida não ficaria ali quieta enquanto lhe mostrava aquela extravagante bandagem, como a que poderia levar um menino.
A ideia lhe fez soltar uma risadinha.
—Há algo que te divirta? —perguntou ele, colocando as mãos no quadril e inclinando-se só o suficiente para que, a pesar da tanga, ninguém pudesse tomá-lo por pouco viril ou mal dotado. Agom tragou saliva.
—Vi meninos que levam algo parecido, Taisho.
—Me chame Inuyasha, ou te farei me chamar senhor. Entendido?
—É obvio senhor. Como vassalo forçado, permita que te diga que vendeu sua virilidade às fadas levando essa coisa.
—Talvez. —encolheu-se de ombros.
—Talvez?
—Tranquilizarei-te, Agom. Só levo tanga quando estou longe, perto das fronteiras e passando por campos de batalha como o que deixamos ontem. Quando estou em meu vale, sou tão escocês como qualquer outro.
—Não o compreendo — respondeu ela.
—Os ingleses nos conhecem. Sabem quais são os melhores lugares para debilitar a um homem e que siga vivo para torturá-lo, como fez você. Sabem.
Agom enrugou a testa. Os Taishos estavam confabulados com os Sassenach. Sempre o tinham estado. Quase todos os clãs sobreviventes tinham jurado lealdade à coroa inglesa.
Ele esclareceu garganta.
—Agora sabe por que não deu em nada vital. Tinha-o protegido. Ajude-me com o resto. Tenho uma lebre assada para acalmar meu apetite e veado para depois.
Agom se sobressaltou.
—Sabia? —Abriu muito os olhos. Tinha-o esfolado e pendurado a uma boa distância do acampamento. Depois tinha posto para secar a pele. Não sabia que ele tinha estado fora o tempo suficiente para descobri-lo.
—Sabia.
—Não menti quando me perguntou. Perguntou-me por minha habilidade com o arco. Minha habilidade não é com o arco. É com a flecha.
Sorriu-lhe. Agom tragou saliva ao vê-lo.
—Tentarei ser mais preciso com minhas perguntas. A pele não tem marcas à vista. Onde lhe acertou?
—No olho — respondeu ela.
Ele arqueou as sobrancelhas até a raiz do cabelo.
—Tão bom é?
Ela assentiu.
—A que distância?
Agom se encolheu de ombros.
—Não sei seguro. Nunca o medi. Quando aponto acerto. A distância não tem nada a ver. Se estiver muito longe, não atiro.
Ele assobiou e lhe observou recolher a túnica, mas não a pôs.
—Começo a pensar que será um grande escudeiro ao fim, Agom, sem sobrenome nem clã. Também acredito que pode me ajudar a arrancar estes espinhos do meu flanco, estou farto de fingir que não existem.
Levantou um braço e lhe mostrou ao menos uma dúzia de pontos avermelhados onde aparecia um espinho profundamente cravado. Agom abriu ainda mais os olhos ante o que tinha que ser uma dor extremamente difícil de suportar para ele, e o olhou ao rosto.
Piscou-lhe um olho e vindo de seu atrativo rosto, isso foi ainda pior.
¹ É uma caixa ou cilindro de couro, madeira e/ou tecido utilizado pelos arqueiros para levar setas (flechas), permitindo fácil acesso e rápido
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CAPÍTULO 04
O sol ainda não tinha saído quando Agom despertou. Não foi uma experiência agradável e sabia que Inuyasha Taisho não pretendia que o fosse. Tinha-a agarrado da trança e tinha puxado dela, até que a obrigou a ficar de pé, ainda piscando e sem inteirar-se de nada.
—Não me ponha à prova com sua preguiça, escudeiro Agom.
Ela levantou as mãos para esfregar os olhos, mas a deteve a corda que tinha atada ao braço direito. Agom olhou Inuyasha entreabrindo os olhos e depois olhou ao outro extremo da corda, da que ele puxava para seu ombro. Sua postura o dizia tudo. Não lhe deixaria nem um centímetro de espaço e ela sabia por que. Deu um passo para ele para poder chegar a tocar seus olhos.
Quando acabou, voltou a retroceder. Ele tinha blasfemado e destrambelhado dela pela dor que lhe tinha infligido à véspera e lhe estava bem empregado, decidiu Agom.
—Parece muito satisfeito de ti mesmo, escudeiro.
—Eu não pedi para ser seu escudeiro, nem penso sê-lo. Disse-lhe isso ontem à noite, que eu recorde.
—Isso disse e mais que prometeu. Vai ficar. Não tem escolha.
—Não tenho escolha? — explodiu ela — Preferiria servir a uma bruxa.
—Leva o traje dos Taishos e não teve que pagá-lo. Exijo o pagamento de um traje tão elegante. Cobrar-te-ei isso com seus serviços.
Os dentes apertados de Agom não impediram que se ouvisse o som furioso que se formou em sua garganta. Sabia que era de frustração, mas não servia muito sabê-lo.
—Não ficarei e te servirei por uma roupa que me vi obrigado a pôr porque tirou a minha à força!
—Ontem não vi que ninguém te obrigou a te despir. A que se refere com essa força de que me acusa?
Desfrutava com sua impotência. Agom o via em cada respiração que tomava com os braços cruzados, obrigando-a a levantar o braço com o movimento, enquanto a olhava. Agom respirou fundo, puxou da corda e depois lhe espetou:
—Despertou-me para que te sirva ou para conversar comigo? —perguntou com os dentes apertados.
—Despertei-te porque temos que viajar um bom trecho e não temos toda a manhã. Dormiu muito mais do que eu esperaria de um bom escudeiro. Não serei tão indulgente com os castigos no futuro.
Os olhos de Agom cintilaram. Deveria ter sido mais rápida a noite anterior e ter escapado. Deveria ter visto, quando começou a lhe arrebentar as bolsas de pus que tinham formado os espinhos, que não a deixaria partir. Deveria ter idealizado um plano para escapar dele. Ele estava sofrendo, em parte graças a ela e seu uso da faca, e mesmo assim tinha sido o bastante rápido para apanhá-la. Voltou a perguntar-se como o fazia.
—Não pedi para ser seu escudeiro e não quero sê-lo.
Ele ignorou seu estalo.
—Um bom escudeiro acorda antes que seu amo e procura que tudo esteja preparado para a jornada. Terei que te ensinar quatro coisas.
—Não ficarei aprendendo nada de você nem para você.
—Ficará e pagará sua roupa. Se aceitar isto, garanto-te que te deixarei partir quando a tiver pago.
—Mas eu não a pedi — repetiu ela.
—Então, tire e vá. Não te deterei.
Ela o olhou furiosa.
—Mas se você jogou a minha ao rio... Agora já estará no mar — disse.
—É provável. Está disposto a me servir?
—Preciso estar livre para fazê-lo, não? —Grunhiu e fechou a mão em um punho.
—Tem sua liberdade. Eu olho e te vejo livre. O que quer dizer com que te falta liberdade?
—Há um metro de espaço entre você e eu.
Ele riu.
—É o mais que posso confiar em você.
—Se te der minha palavra de ficar, soltara-me?
—Não — respondeu ele, sem duvidar.
Agom apertou os dentes.
—Não? —repetiu, e depois com mais estupefação — Não?
—Não posso confiar em você, moço. Demonstre-me que posso confiar e reconsiderarei suas ataduras.
Não podia estar atada a ele até que isso ocorresse! Os olhos de Agom provavelmente delataram seu pânico. Ainda tinha que enfaixar os seios e, embora não tinha um grande seio, o frio da alvorada lhe estava dando problemas. Sem dúvida ele acabaria descobrindo. Não lhe custaria muito deduzir seu sexo. Assim que soubesse, ela sabia o que ocorreria. Era muito grande para lutar contra ele e já lhe havia dito que o que mais gostava era uma mulher que fosse donzela. Acrescentou a esse pensamento que lhe havia dito que parecia inexperiente. Violá-la-ia se continuava atada a ele e deixasse que descobrisse a verdade. Quando resistisse, forçá-la-ia. Não tinha que lhe dar muitas voltas, sabia. Era um espécime típico do clã Higurashi. Tragou saliva. Não podia seguir atada a ele!
—Ontem à noite... não te matei —respondeu, fazendo uma careta ao ouvir a vacilação de sua voz.
Ele a olhou atentamente.
—Não porque não o tentasse.
—Poderia ter atirado todas minhas adagas em uma parte vital e teria morrido sangrando — insistiu ela.
—E como isso falhou, decidiu retorcer todos os espinhos e me cortar, para ir, sobre isso estou seguro. Ainda sinto a dor de seu hábil trabalho.
Levantou a camisa e a túnica, arrancando a crosta do flanco. Agom olhou e teve a louca ideia de esperar que não lhe tivesse deixado marcas. Afastou a um lado essa insensatez. Tinha jurado lhe fazer pagar a matança e a difamação do clã Higurashi. Do que serviria a seu cadáver ter uma pele sem cicatrizes?
—Tinha veneno em todos os espinhos. Se não tivesse extraído o pus estaria sofrendo febres e delirando de dor.
—E você estaria sofrendo minha mão por me ter deixado jogado sobre a cinza todo o dia para que me infectassem.
—Já esteve a ponto de me afogar por isso.
—Não. Inundei-te por sua desobediência.
Agom apertou os lábios, levantou os ombros e o olhou. O sol tinha clareado o céu enquanto ele se divertia com as palavras de Agom. O calor estava dissipando os restos de neblina, lhe permitindo uma visão melhor. Teve que tragar sua própria resposta à vista de seu torso largo e peludo antes que se tampasse outra vez com a camisa e a colocasse debaixo do kilt.
Agom esclareceu garganta.
—Despertou-me para que te sirva amo? Está bem, qual é sua ordem? Que serviço deseja primeiro? —perguntou em um tom sarcástico.
Ele sorriu.
—Sim, preciso ser servido. Teria necessidade de um bom gole de meu uísque, se a bolsa não tivesse recebido uma adaga e ainda ficasse líquido, uma terrina de papa em meu estômago e um momento para esvaziar meus intestinos. Pode fazer isso por mim?
Ela olhou a distância de um metro com a máxima equanimidade que foi possível.
—Não sei cozinhar — respondeu finalmente — e não penso aprender.
A resposta dele foi uma gargalhada sincera. Agom se perguntou por que.
—Segue igualmente teimoso? Não dirá que não te adverti.
—Sobre o que? —perguntou.
—Se quiser que te libere de sua atadura, aprenderá o que quero que aprenda.
Agom respirou fundo, conteve a respiração e depois soltou ar lentamente. Seguia sem funcionar. Não podia superá-lo em fortaleza e, até que recuperasse suas adagas, não pensava tentá-lo.
—Muito bem, amo Inuyasha, aprenderei a cozinhar papa. Como se fazem?
Isso lhe valeu outra gargalhada.
—Em realidade não estamos longe de uma granja Nakamura. A gente dali cozinha boas panelas de papa. Não lhes parecerá desconjurado que lhes compre outro café da manhã. Trocarei-o por parte do veado que caçou.
—É meu e sou eu o que devo trocá-lo — respondeu.
—Caçou-o com meu arco e minhas flechas. Agora me serve. Sou seu amo. Tudo o que tem é meu. Tudo.
As palavras dele faziam que todas as partes do corpo de Agom se sobressaltassem. Estremeceu com essa sensação.
—O que tenho feito eu para te merecer? O que?
—Não sei moço. Suponho que ser muito pobre.
—Não desejo ser escudeiro.
—Foste-o alguma vez? —perguntou.
—Não — respondeu ela.
—Então, como sabe que não vai gostar?
—Se tratar de estar perto de ti, eu não gostarei. —respondeu ela.
Ele suspirou profundamente e o peito lhe subiu e lhe baixou. Ela o observou.
—Necessitava desesperadamente este emprego, a julgar por seu esquálido corpo, seu traje puído e as botas cheias de buracos. Tampouco tem família, ou se a tem não lhe reclamarão, e não esqueçamos que me obrigou a fazê-lo.
—Te obriguei? —Não teve que fingir confusão.
—Tentou roubar meu cadáver. Isso exige uma reação.
—Eu não roubo a ninguém, nem morto nem vivo.
—Lidera a ladrões, portanto o é.
Ela baixou a cabeça um momento, lhe outorgando uma vitória. O tinha ganhado, porque ela tinha pensado o mesmo cada vez que tinha que fazê-lo.
—Deve haver dúzias de jovens do clã Taisho onde escolher, que se sentiriam honrados de servir a este senhor. Por que eu?
—Dê uma olhada, moço. Estamos a léguas de distância das terras Taisho. Neste momento há escassez de homens em meu clã e eu não sou o senhor. Meu irmão o é.
Ela estava cambaleando e não era de surpresa. Era do desespero que se abriu frente a ela até o ponto de que já não podia vê-lo. Fechou os olhos para controlar-se. Desde os onze anos tinha jurado vingar aos Higurashis. Tinha praticado com as facas, as espadas, a atiradeira, o arco e a flecha, qualquer arma que tivesse à mão, para poder conseguir uma só coisa. Estava preparada e desejosa de morrer para consegui-lo, se era necessário.
Isso significava eliminar ao senhor dos Taishos. Acabar com ele lhe cortando o pescoço e deixando-o sangrar gota a gota em honra do clã Higurashi. Tinha tentado reunir o valor para fazê-lo e se odiou a noite anterior por não tê-lo matado quando lhe tinha apresentado a ocasião. Ainda não sabia por que não o tinha feito, embora já começasse a suspeitá-lo.
Agom tragou saliva, tentando reprimir o que fosse que lhe ocorria antes de ter que enfrentar a isso. Não estava acostumada a ser uma mulher e Inuyasha era mais homem que nenhum dos que tinha tido perto. Tinha que lutar contra uma reação de seu corpo, que era o bastante feminino para sentir, e cada momento que passava em sua companhia fazia que se intensificasse, e ainda por cima se inteirava de que nem sequer era o senhor?
Ele estava falando quando Agom abriu os olhos por fim. Ela o observou. Talvez não fosse o senhor, mas era seu meio para chegar a ele. Utilizaria Inuyasha para fazê-lo e se obrigaria a reprimir qualquer reação que lhe provocasse estar perto dele. O que significava, ao fim, que não tentaria livrar-se dele. Tentou pensar em uma maneira de convencê-lo disso.
—...devo sentir desejos de companhia e você foi o que estava mais à mão. Agora que conheço sua falta de habilidade como criado, desejaria te ter talhado a mão por roubar aos mortos e ter te deixado ali.
—Não estava roubando aos mortos. Canso-me de tanto repeti-lo e tenho muita habilidade com a faca, salvo com sua dura pele.
—Estou-me cansando de sua língua, tanto como o estou de sua preguiça. Faz suas necessidades. Vamos recolher em seguida.
E, dito isto, abriu o kilt. Agom afastou o olhar, sentiu um estalo de calor por todo o corpo e se amaldiçoou por essa reação enquanto ele esvaziava a bexiga.
—Não preciso — disse muito tensa.
Ele a olhou de soslaio e esperou até que ela o olhou.
—Tem a enfermidade?
—Não tenho febres, se isso o preocupar.
—Tem a pele avermelhada e não precisa fazer o que qualquer homem necessita. Isso são sinais de febre.
Agom baixou os olhos. Tinha notado o rubor que tinha lutado tanto por não delatar. Teria que esforçar-se para reprimi-lo e não conhecia o suficiente sobre o rubor para saber como eliminá-lo, nem sequer sabia se isso era possível.
Era uma estupidez, além disso. Precisamente ela estava acostumada a estar rodeada de moços. Tinha estado trabalhando e vivendo com eles há anos. Mas todos perdiam significado ao lado de Inuyasha Taisho, e pela primeira vez em sua vida lhe dava medo o porquê.
—Se tiver acabado de conversar, vêm. —Não o pediu, puxou a corda e Agom se moveu — Temos que recolher o cervo, comprar o café da manhã e percorrer muito caminho. Há uma feira em Kobayashi. Haverá muitos clãs representados. Suspiro por chegar ali.
—Uma feira? Levanta-se de madrugada para ir a uma feira?
—É tão boa razão como qualquer uma. Além disso, quem necessita uma razão para ir a uma feira? Apresse-te. — ficou a caminhar a um ritmo que a obrigou a correr e manteve a corda curta para tê-la perto — As moças Nakamura são brancas de pele, embora um pouco robustas para meu gosto, mas se flertar um pouco, preparam-lhe bons ovos e não os queimam muito. Também têm falta de homens. Perderam a muitos em outra escaramuça inútil entre clãs. Deveríamos pôr fim a isso. Devemos combinar nossas energias para lutar contra o inimigo real.
—Os Taishos? —perguntou ela.
Ele parou e se voltou, e ela tropeçou com ele. Já sabia quão sólido era. Agora sabia também seu rosto, porque se golpeou contra sua mandíbula. Esfregou o nariz para que não sangrasse enquanto ele a olhava com ar de surpresa e sem sinais de dor.
—Segue-me muito de perto.
Ela olhou ao céu.
—Tem-me preso — respondeu.
—Te leve bem e te desatarei.
—OH, vivo para servir — respondeu ela muito depressa.
—Se corto esta corda, farei-o por minhas próprias razões. Ponha-me a prova e você não gostará.
—Nada que tenha a ver com lhe servir eu gostarei. —respondeu.
Ele sorriu.
—Tem que aprender muito, mas é rápido. Isso o reconheço. Refreia sua língua na granja Nakamura. Um escudeiro não lança sarcasmos a seu amo.
—Se corta a corda, refrearei minha língua.
Ele tirou uma adaga e o sustentou sobre a corda trançada em seu pulso.
—Espero não ter que me arrepender, Agom, mas eu não gostaria que as empregadas Nakamura cressem que estamos unidos por outra razão.
Ela se encolheu de ombros.
—Lhes diga que sou seu prisioneiro. É a verdade.
—Um prisioneiro que leva o traje de meu clã? Deus me dê paciência!
—Não te porei a prova. —Esperou que levantasse a cabeça e lhe dedicasse outra vez um de seus sorrisos. Tinha o torso aceso de dor, de correr a um ritmo tão veloz e não ter podido fazer suas necessidades. Faria tudo o que lhe pedisse.
—Tenho sua palavra?
—Tem-na — respondeu ela.
Ele assentiu, cortou a corda do pulso dela e depois a do próprio. Ela o esfregou, tinha-o vermelho e feio, antes que ele acabasse de enrolar a corda à cintura.
—Vamos, então, e te leve bem. A tal Lacy gosta de utilizar suas mãos. Muitas vezes.
Seguiu ao mesmo passo rápido e Agom correu atrás dele até que ele parou e partiu pela metade o cervo. Estava concentrado na tarefa, embora Agom sabia que estava pendente dela. Não se afastou muito, mas sabia que a ouviria seguir a chamada da natureza. Não saberia que utilizaria o tempo para atar a parte de kilt ao coração e enfaixar-se. Ficou surpreendida de como recuperou a confiança quando teve a atadura colocada e já não lhe saltavam os seios e não tinha que suportar o roçar do material da túnica. Agom acreditava que não havia nada que gostasse de ser mulher. A sensação repressiva de sua bandagem a recordou. Tampouco queria ter nada a ver com o Inuyasha Taisho como varão. Ele só a perturbava porque não estava acostumada a ter perto um homem bonito, viril e em plena maturidade. Era só isso.
Importava-lhe um rabanete Inuyasha Taisho, só era um meio para chegar a seu senhor. Nem sequer lhe importava se lhe considerava tímido e fez o que pôde para fazer ruído com o kilt enquanto voltava com ele, embora tivesse que ignorar seu sorriso. Tinha coisas piores das que preocupar-se. «A essa Lacy gosta de utilizar as mãos? O que significa isso?», perguntou-se.
A granja não era muito grande, mas todas as moças Nakamura o eram. Inuyasha as tinha qualificado de robustas? Pareciam capazes de competir com as vacas em gordura. E eram quatro. Quatro empregadas que pesavam mais que Inuyasha. Tinham rostos agradáveis, isso sim. Nisso não tinha mentido. Pareciam cópias em competência do mesmo molde, embora a gordura de seus corpos subtraísse valor ao brilho rosado de seus rostos, a labareda vermelha de seus cabelos e o que pareciam conservar todos seus dentes. Se fosse homem, nunca as teria considerado suficientemente atrativas para uma queda, caso que lhe interessassem essas coisas.
Inuyasha provavelmente não era da mesma opinião. Ela o olhou e o viu sorrir.
—Agora vamos pagar por nosso café da manhã. Prepare-te.
—Empregadas! —A voz de Inuyasha era forte e cheia de admiração ao as chamar e lançar o pedaço de cervo frente ao alpendre — Vim pagar por sua hospitalidade e suplicar algo mais.
Agitaram-se todas, como um grupinho de gansos regozijados. Agom pestanejou. Pensava que a forma de atuar das mulheres era vergonhosa.
Alguém se adiantou e agarrou Inuyasha pelo braço.
—Por você, Inuyasha Taisho, cozinharei a melhor caçarola que tenha provado em sua vida. Vêm comigo. Tenho um bom lugar para você.
—OH, Lacy. Apenas me recuperei da última que me preparou. Não há cozinheira que possa competir contigo em muitas léguas.
Ela soltou uma risadinha e Agom sentiu que lhe passava algo da confusão. Então, Inuyasha ficava com a Lacy?
—E este quem é? A quem nos trouxe Inuyasha?
As outras três saíram das vísceras da granja e a rodearam. Os olhos de Agom se abriram muito procurando Inuyasha, mas o grande caipira já tinha desaparecido dentro.
—Como te chama? —perguntou uma.
—É muito jovem. —Uma lhe beliscou o braço e imediatamente se afastou, como se não o tivesse feito a propósito.
—Mas é bonito. Muito bonito. Falta-lhe um pouco de carne, isso sim. Como te chama, moço?
Agom deu um passo adiante quando uns dedos se afundaram em seu traseiro.
—Ag...gom —gaguejou, e então teve que resistir a um ataque frontal quando a puxaram para uns grandes seios e logo a soltaram antes que pudesse reagir.
—É um pouco fraco. Vem rapaz, estamos desejando te alimentar e te satisfazer.
—Te satisfazer de verdade — sussurrou outra.
Agom ofegou e depois se pôs a correr, e chegou antes que elas à granja. Baixou a toda pressa os três degraus e entrou. A fumaça a cegou momentaneamente e depois abriu a boca ao ver onde tinha as mãos à mulher chamada Lacy. Esta tinha mais peitos dos que tinha visto Agom em sua vida e Inuyasha estava sustentando um deles. Também desfrutava das mãos de Lacy na protuberância do kilt em seu colo.
«E ontem à noite lhe acreditei grande», foi seu primeiro pensamento. A seguir uma das garotas lhe deu um empurrão para Lacy, que a esquivou. Agom caiu nos joelhos de Inuyasha, recebendo o golpe no estômago. O impacto a fez ficar imóvel antes que pudesse reagir e saltou de pé como um saqueador pego com as mãos na massa. Depois retrocedeu até a parede, afastando a vista dele, de todos eles. Sabia que tinha o rosto em chamas.
—Te comporte, Inuyasha. Minhas irmãs estão aqui — disse Lacy com paquera.
—Sim, me perdoem empregadas. É a visão de seus bonitos rostos, junto com estes deliciosos corpos, que me voltam louco. Sou um homem débil, querida.
Estava se arrumando o kilt, esmagando o vulto ao fazê-lo, e Lacy voltou a subir o sutiã. Agom não disse nada enquanto se arrumavam a roupa. A estadia parecia cheia de moças agitadas e regozijadas, todas elas tentando chamar a atenção. Depois se ouviram sons de cachorros, e cheirou a toucinho frito e a pão negro torrando-se, e mais risadas e sussurros femininos. Agom não podia pensar, só escutava todos e cada um dos sons.
Seus olhos pousaram em Inuyasha. Ele o estava esperando e fez um gesto para as mulheres.
—Obrigado — silabou sem voz.
Agom apertou os lábios.
—É jovem, mas já crescerá — sussurrou uma das garotas bastante forte.
—Já é o bastante alto, só precisa engordar. Acredito que é um encanto.
—Deveria lhe tocar os músculos...
Agom tinha os olhos muito abertos e o pulso errático. Ela tinha músculos no estômago, de modo que Inuyasha não podia deduzir seu gênero pelo contato que tinham experimentado, mas todas suas terminações nervosas estavam alertas e fervilhantes. As empregadas Nakamura estavam falando dela?
—Vocês gostam de meu novo escudeiro, senhoras? — disse Inuyasha por cima do ombro, sem deixar de olhá-la aos olhos.
—É seu novo escudeiro? OH, por favor, não me diga que lhe vai levar.
—Chama-se Agom. Devem perdoar ao moço, é um pouco tímido. Já sabem — baixou a voz em um sussurro —... noviço.
—Noviço? Sério?
Agom ofegou de medo enquanto todos a olhavam. O aroma de papa queimada na panela da lareira as distraiu. Estava-o fazendo a propósito! Sabia por seu sorriso.
—É muito bonito, Inuyasha. De onde tirou um escudeiro tão bonito?
Ele seguia observando-a, e Agom tentou controlar suas reações. Chamavam-na bonito? Nunca tinha visto a si mesma, salvo uma espiada ocasional em um riacho. Não tinha ideia de como era. Mas bonita? Maravilhou-se.
—Desde onde sempre tiro meus escudeiros, senhoras. Do campo de batalha. Não é certo, Agom?
—Um campo de batalha? Sério? Que emocionante e que valentes.
Os olhos de Agom estavam cada vez mais abertos enquanto todos a olhavam. Sabia que estava ardendo de rubor e cheia de ódio por culpa daquele homem. De todos os modos as moças Nakamura tiveram que prestar atenção à cozinha porque a granja se encheu de fumaça.
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Obrigada a todos que começaram a acompanhar a fic.
