2º Capítulo: Alucinando

- Sai!– A rapariga levantou-se protegendo a cara com as mãos. O cabelo desgrenhado contrastava com a palidez espectral e o vestido branco sujo desta.

- Abigail Lawson? – Sam perguntou, levando a mão à faca que trazia escondida na parte de trás dos jeans.

- Ahhh!– O fantasma gritou e avançou para si com as mãos estendidas, numa tentativa de o estrangular.

- Sam! – Dean escancarou a porta e apontou a luz directamente no rosto do fantasma que gritou e se encolheu a um canto.

- Luz. Não!– O fantasma da rapariga voltou a encolher-se num canto.

- Espera. – Sam segurou Dean antes que este voltasse para queimar os restos mortais do fantasma. – Desliga a lanterna.

- O quê? – Dean perguntou não compreendendo. – Ela ia-te matar.

- Faz o que te digo. – Sam desligou a lanterna e caminhou sorrateiramente até ao pé do fantasma. Dean desligou a sua, contrariado com a decisão do irmão.

- Abigail Lawson? – Sam voltou a chamar.

- A luz. Forte. Por favor…- o fantasma encolhido suplicou.

- Já não há mais luz. – Sam disse. Na escuridão da casa abandonada, os candeeiros da rua davam a percepção das sombras e silhuetas.

O fantasma rodou levemente a cabeça. O seu rosto outrora ocultado pelas próprias mãos, continuava quase incógnito devido ao cabelo que o tapava, mas Sam conseguiu distinguir uns lábios roxos e olhos assustados.

- Quem são vocês? O que fizeram com a minha família?– Abigail ficou de frente para os dois irmãos. Enquanto Dean continuava receoso, Sam parecia entender que talvez aquele fantasma não fosse tão perigoso assim.

- Abigail… não te lembras do que se passou aqui há muitos anos atrás? – Sam perguntou e viu que esta os olhava assustada.

- O que é que se passou? Porque é que a minha família desapareceu? Porque é que entram estranhos na minha casa como vocês? – Abigail disse num tom de voz suplicante. – Porque não me deixam em paz na minha solidão?

- Um fantasma desmemoriado! – Dean exclamou baixo passando a mão na cara e lamentando-se pela sua folga perdida.

- Nós não te queremos fazer mal, mas apenas impedir que faças mal às outras pessoas. – Sam disse calmamente.

- Mal? – Abigail mostrou uma expressão de choque. – Eu não faço mal a ninguém. Esses miúdos é que entram aqui, destroem tudo e mexem onde não devem. Eu apenas os afasto. Não quero que os meus pais cheguem e vejam a casa destruída.

Sam olhou para Dean. Pelos vistos, Abigail não fazia a mínima ideia de que tinha morrido e de que toda a sua família já não existia.

- Isto. – Sam pegou no diário de Abigail. – Diz aqui que estavas cada vez mais fraca. Porquê?

Abigail chegou perto do diário e viu a sua letra. Esticou a mão trémula, mas logo a recolheu encostando-se de novo à parede.

- Doía. – Abigail disse. – Todo o meu corpo doía. Eu estava bem, mas depois comecei a me sentir fraca… até acabar naquela cama.– Abigail olhou dolorosamente para o seu leito.

- Estavas doente. – Sam disse. – O que se passou depois?

- Não vais perguntar a vida toda dela pois não? – Dean sussurrou para o irmão. – Porque não ficas aqui entretendo-a, enquanto eu vou fazer o serviço?

- Não. Há qualquer coisa errada Dean. Não me parece que o problema seja a Abigail. – Sam explicou e aproximou-se do fantasma.

- O médico veio-me ver. Precisava de ir para o hospital, mas os meus pais recusaram. – Abigail fixou o chão. – Numa noite, eu tossi muito sangue e decidi ir até ao jardim, sem os meus pais saberem. Depois…- Abigail arregalou os olhos e começou a chorar compulsivamente.

- Foi lá que partiste? – Sam perguntou e Abigail olhou-o horrorizada.

- Não. Eu vi-o… - Abigail deixou-se escorregar pela parede até ao chão. – Corri para dentro. Tinha de os avisar mas as minhas pernas falharam quando ia a subir. Arrastei-me gritando o máximo que pude e depois senti uma dor. Uma dor enorme no peito e tudo ficou preto.

- O que aconteceu, Abigail? – Sam tornou a perguntar.

- Eu… - os olhos sem brilho da rapariga fixaram Sam. - … morri, não foi? Era por isso que eles não me ouviam. Eu andava pela casa e chamava pela minha mãe, pelo pai e pelos meus irmãos e nenhum me respondia. Estavam à mesa, eu sentava-me e ninguém falava comigo…

Abigail fechou os olhos e tornou a chorar baixinho.

- Eu sinto muito. Tu morreste há muito tempo, mas o teu espírito nunca deixou a casa. – Sam falou.

- Mas e a minha família? – Abigail alternou o olhar entre Sam e Dean. – Com o tempo eu deixei de ver o meu irmão mais velho, depois a minha mãe e por último o meu irmão e o meu pai. Eles mudaram-se?

- Não. – Dean falou. – Eles também morreram.

Abigail entrou em choque e mordeu a própria mão. Sam levantou-se e olhou Dean. Perigoso ou não, chegara o momento de dar paz aquela alma.

- Eu fiquei aqui sozinha. – Abigail queixou-se. – Eles partiram e deixaram-me aqui. Porquê?

- Talvez eles compreendessem que tinham partido, ao contrário de ti. – Sam explicou.

- Mas porque não me vieram buscar?– Abigail revelou-se uma menina frágil, carente, que apenas queria que a deixassem em paz.

- Há uma maneira de voltares para eles. – Sam explicou. – Nós tratamos disso.

- Por favor.– Abigail pediu. Depois simplesmente eclipsou-se.

- Achas mesmo que a ladainha que ela contou é verdadeira? – Dean arqueou uma sobrancelha enquanto descia as escadas da mansão em direcção ao jardim.

- Não vejo porque não. Ela é um dos poucos casos em que a doçura que tinha em vida continuou na morte. – Sam disse.

- Mano… - Dean fez Sam parar colocando-se à sua frente. – Não me digas que te apaixonaste por um fantasma?

- Que raio de ideia, Dean! – Sam exclamou passando à frente do irmão. – Apenas fiquei com pena. Ela devia ter morrido com tuberculose. Ao permanecer na casa, de certeza transmitiu a doença aos pais e irmãos e eles acabaram morrendo tempo depois.

- E a história do assassinato e da maldição? – Dean perguntou.

- Lendas que o povo gosta de inventar. Talvez por serem uma família reservada, inventaram isso. – Sam disse, atravessando o jardim e só parando junto à campa.

Uns minutos depois…

Os dois irmãos fixavam em silêncio o brilho das labaredas enquanto consumiam o que restava da vida terrena de Abigail Lawson. Por entre o fogo, Sam pode distinguir o espectro de Abigail, enquanto esta murmurava um "obrigado".

- É, nem todas as histórias de fantasmas são arrepiantes. – Dean suspirou.

- Ainda maldisposto pela folga perdida? – Sam perguntou sorrindo.

- Ah… já estou habituado. – Dean torceu o nariz. – Sam, há uma coisa que ficou no ouvido quando a gasparzinho nos contou a história.

- O quê?

- Ela disse que antes de morrer tinha visto algo. – Dean olhou para Sam, mas este continuou com a mesma cara.

- Talvez ela tenha alucinado. – Sam disse. – Tuberculose não é uma doença fácil.

- Sei… - Dean olhou desconfiado para o ambiente em volta da mansão Lawson. O nevoeiro nocturno estava mais cerrado. – É melhor nos pirarmos. Talvez ainda dê para descansar antes de voltar ao trabalho.

- É. – Sam suspirou e olhou mais uma vez para a campa e para o fogo que se extinguia. Os casos que tratavam eram sempre tão difíceis, que muitas vezes duvidava se existiria algum caso que valeria a pena. Aquele valeu. Sentiu-se estranhamente feliz de poder dar o descanso eterno a uma rapariguinha que apenas queria proteger a sua casa. Seguiu Dean por entre as silvas daquele jardim abandonado, mas uma tontura fez com que abrandasse o passo.

- Tudo bem? – Dean olhou para trás, quando notou a demora do irmão.

- Tudo. Apenas uma ligeira quebra de tensão. – Sam disse, massajando a testa.

- Cada vez mais cinderela… - Dean assobiou e ficou decepcionado por o irmão não lhe dar o troco. – Nossa, este caso afectou-te mesmo.

Sam continuou a caminhar. Tudo lhe parecia agora uma autêntica montanha russa. A silhueta do seu irmão andava de um lado para o outro e a mansão parecia-lhe incrivelmente grande. Apoiou-se numa das colunas do alpendre e fixou o Impala. Não estava longe. Apenas alguns passos. Precisava dormir e de certeza que aquela comida rápida não lhe tinha feito bem. Além do mais, começou seriamente a preocupar-se com a reacção de Dean se vomitasse no Impala.

Ao chegar ao portão da casa arregalou os olhos. Uma vaca passava pelo meio da estrada no seu caminhar pachorrento. Vários sons começaram a polvilhar a sua cabeça.

- Cara, você está bem? – Dean perguntou e Sam olhou o irmão. Dean usava uma cartola na cabeça e Sam teve vontade de rir. Mais um bocado e diria que o seu irmão parecia Abraham Lincoln.

- Eu… sinto-me um pouco tonto. O que está a fazer vestido assim? E a vaca? – Sam perguntou, deixando Dean sem entender. Olhou em frente e viu um monte de gente passando na rua. Usavam trajes antigos e ao olhar para o Impala viu um coche no seu lugar. A visão ficou ainda mais turva e sentiu a sua cabeça esvaziar de pensamentos.

- SAM! – Dean berrou quando o irmão desabou no chão. – Você está bem? Sam! – Dean deu um leve chapa na cara de Sam mas este continuava desacordado.

Arrastou o irmão até ao carro e colocou-o no banco traseiro do Impala.

- Aguenta-te Sam. – Dean falou baixo enquanto ligava o carro e retomava a estrada. Olhou pelo retrovisor e Sam continuava desacordado. Pegou no telemóvel e procurou pelo nome conhecido. – Bobby! Sou eu o Dean. Estou indo para aí urgentemente.

- O que é que se passou? – a voz do mais velho fez-se ouvir no aparelho.

- Sam desmaiou. – Dean disse.

- E telefonas-me por isso? Andaram nos copos e…

- Não é nada disso. Tratamos do caso Lawson e quando nos vínhamos embora o Sam começou a ficar tonto e caiu redondo no chão. Acho que há qualquer coisa errada, Bobby.

- Ok. Estarei à vossa espera. – Bobby disse e Dean desligou.

Os faróis do Impala romperam pelo ferro-velho de Bobby. Dean saiu apressado, enquanto Bobby aparecia no alpendre com a sua cadeira de rodas.

Dean levou Sam em ombros para dentro de casa, deitando-o numa das camas disponíveis.

- Mas afinal o que é que se passou? – Bobby perguntou enquanto Dean tentava acordar Sam.

- Lembras-te do caso Lawson que indicas-te ao Sam? – Dean perguntou.

- Sim. Um fantasma que andava a assustar os miúdos da vila. Vocês resolveram-no?

- Sim. Fácil demais. Uma rapariga simpática que não queria matar ninguém e que nem sabia que tinha morrido. – Dean disse, buscando um copo de água e atirando um pouco à cara de Sam. – Depois de terminarmos o serviço o Sam passou-se e agora não acorda por nada.

- Isso estou eu vendo. – Bobby disse e levou a mão ao pescoço de Sam.

- Será algo a ver com esse maldito sangue de demónio? – Dean perguntou e Bobby notou um certo nervosismo na voz de Dean.

- Não parece que ele está a dormir serenamente? – Bobby olhou atentamente o rosto de Sam.

- Se ele está desmaiado é normal que esteja num estado de semi-inconsciência! – Dean exclamou, mas Bobby continuou apreensivo.

- O melhor é deixarmos ele descansar. Talvez esteja apenas esgotado. – Bobby disse.

Umas horas depois…

- Eu vou vê-lo. – Dean levantou-se cansado de esperar sentado no sofá. Bobby seguiu-o movimentando a sua cadeira de rodas.

- Sam. – Dean chamou, mas Sam continuava sereno e adormecido.

- Esquisito. – Bobby coçou a barba. – Ele parece ter entrado num sono profundo. Desmaio não dura tanto tempo assim.

- Eu acho que… - Dean sentou-se numa cadeira junto à janela. - … além das tonturas, o Sam estava a alucinar.

- Alucinar? Ele viu algo que tu não viste?

- Sim. Quer dizer, não sei. – Dean engoliu em seco. – Ele perguntou onde estava a vaca.

Dean e Bobby ficaram se olhando. Não fosse o momento inoportuno, teriam se partido a rir.

- Já viste esta marca que ele tem no pescoço? – Bobby apontou. – Parece que foi mordido por algo.

Dean analisou a ferida. Era parecido com a mordedura de um mosquito, mas havia uma substância pegajosa nele.

- Que raio é isto? – Dean olhou com repugnância para a substância pegajosa de cor azul no seu dedo.

- Alguma picada de um insecto. – Bobby disse.

- Mosquito não tem sangue azul! – Dean exclamou. – E o Sam não tinha nada disto antes de entrarmos naquela casa.

- Quer dizer que o Sam foi mordido lá dentro e que as tonturas, as alucinações e o desmaio estão ligados a um simples mosquito? – Bobby perguntou não querendo acreditar.

- Eu vou voltar àquela casa. – Dean saiu do quarto e pegou na sua arma. – Se houver um ninho dessas coisas nojentas, ele vai pelo ar hoje mesmo.

- Calma Dean. Pode não ter sido isso. – Bobby disse. – E mesmo que aja um enxame de insectos venenosos ou coisa parecida, terás de ter cuidado para não acabares igual.

- Eu tenho cuidado. – Dean falou em tom sério. – Toma conta do Sammy.

- Como se eu pudesse fazer outra coisa. – Bobby desabafou quando viu Dean entrar no carro.

Sam sentiu a escuridão desaparecer quando tentou abrir os olhos. O máximo que conseguiu ver foi o mesmo que um vidro embaciado. Sentiu o cheiro de terra molhada mesmo debaixo de si. Todo o seu corpo doía. Piscou de novo os olhos e captou o verde por baixo de si. Gemeu um pouco e virou-se, olhando o céu enevoado. Quando a sua visão ficou nítida, reparou nos ramos de árvores que atravessavam o céu.

Sentou-se a custo, olhando em volta. O nevoeiro pintava o cenário onde se encontrava. À sua frente só grandes árvores se viam. O mesmo à sua esquerda, direita e atrás de si. Sam passou a mão pela cabeça.

- Mas o que é que se passou? – Levantou-se a custo. Rodou sobre si mesmo um par de vezes. O mesmo cenário em todas as direcções.

Um piar de coruja ecoou e Sam parou. Estava habituado a ver muita coisa assustadora, mas estar ali sozinho estava a deixá-lo num autêntico par de nervos.

- DEAN? – Sam berrou mas não obteve resposta. Estava completamente só. Sentiu uma aragem fria pelo corpo e percebeu que estava completamente nu. – Isto só pode ser um pesadelo.

Nu e sozinho no meio de uma floresta medonha. Era o cúmulo. Pensou que talvez fosse um sonho ou então alucinação. Lembrava-se de sentir fortes tonturas antes de tudo escurecer. Beliscou-se um par de vezes e suspirou. Era real.

Continua…


Olá leitores! Aqui vai o segundo capítulo desta fic. Uma vez mais o meu obrigado à NaylaS2 por ter betado! E por favor: reviews precisam-se!

Espero que gostem!

Saudações Piratas! :D

JODIVISE