Capítulo Dois: Lost in your arms.
Michelle sabia que algo estava diferente. Talvez a pouca luminosidade do ambiente. Que horas seriam? Ou o fato da televisão ainda estar ligada, a tela azul refletindo no seu rosto. Ou uma sensação de calor que vinha de algum ponto embaixo dela, exatamente onde ela estava deitada. Ao levantar a cabeça e olhar para baixo, sentiu sua respiração parar.
Deitada nele. Tony. Oh Deus.
Ela pensou nas suas opções: reposicionar sua cabeça no peito dele e tentar pegar no sono. Ok, ela definitivamente não conseguiria dormir sabendo que ele era seu sofá. Talvez se ela se mexesse devagar, usando todas as suas habilidades de campo para não ser detectada, ele não perceberia e ela poderia correr para cozinha, voltando depois e acordando-o, fingindo que eles não haviam pego no sono enquanto assistiam ao filme.
De repente, sua mente divagou. Aquelas opções sumiram e a única real sensação era a do corpo dele colado ao dela. Cada parte dele... nela. Ela olhou-o da sua posição, admirando suas feições calmas e sem qualquer sinal de estresse do dia anterior. A forma como o tórax dele subia e descia em respirações ritmadas, lentas. O sorriso – de algum sonho em que ela esperava fazer parte – no canto dos lábios dele. Lábios.
Ela o beijaria, se por sorte, a coragem do dia anterior regressasse. E dessa vez, ninguém os interromperia. Michelle tinha certeza que ele ficara com tanta vontade quanto ela. A forma como ele pegou um lado do seu rosto após pararem para respirar naquele corredor, deixava claras as intenções dele de puxá-la para outro beijo. Onde ele começaria. Onde, pela segunda vez, Los Angeles não importaria.
Ela freou suas mãos quando elas quase se espalmaram no peito dele. A camisa com seus usuais dois botões abertos. Meses atrás, ela chegou à conclusão que ele fazia aquilo de propósito. Deixar aquela parte da sua pele à amostra tinha o único objetivo de enlouquecê-la. Ela sabia. Ela sabia. Quando se falavam frente a frente, com o passar do tempo cada vez mais perto um do outro, por vezes Michelle controlava seus olhos para não encararem a camisa dele aberta, ao invés do seu rosto. Seria no mínimo inapropriado. E ela sorriu com aquilo, agora certa de que ele não se incomodaria.
Por todo esse tempo, ele sentira o mesmo. Por todo esse tempo, ela não tivera a audácia de convidá-lo para sair. Fora preciso uma crise nacional e um George Mason para convencê-la de que aquela era a hora. Tudo ou nada.
A lembrança de Mason a fez mexer-se inconscientemente, a perda ainda recente demais para passar sem ser sentida. Revivida. Ela gostava de Mason. Em seu jeito burocrata e chefe de ser, ela sabia que se escondia um homem infeliz. E por isso, ela gostava dele. Seu ponto foi confirmado com o conselho que ele lhe dera. A surpreendeu, na verdade. O jeito como ele colocou um braço ao redor dos seus ombros e lhe disse palavras que vinham direto do seu coração. Um bom coração. Morto. Mais um. Ela tremeu. E desejou não tê-lo feito.
Tony abriu os olhos, encontrando os dela estudando-o apreensivos. Demorou um segundo para ele entender o cenário no qual se encontravam. Michelle Dessler – a mulher por quem ele secretamente tinha uma queda por quase um ano – deitada em cima dele. Os seus braços confortavelmente descansando nas costas dela, inconscientemente mantendo-a no lugar em um abraço apertado. Ele não deixou de notar a temperatura quente entre eles. Nem a forma como os seios dela estavam fortemente pressionados contra o seu peito. Ou como uma perna dela estava entre as dele. Muito menos como, inacreditavelmente, o corpo dela se moldava perfeitamente ao seu.
"Michelle, me desculpe, eu uh," – Ele imediatamente a segurou pelos braços, impulsionando-a para uma posição sentada.
"Está tudo bem." – Ela o garantiu, forçando-o a assumir a mesma posição de antes. Deitado.
"Você tem certeza?" – Ele tinha. Ficaria o resto da noite; não, o resto da sua vida exatamente assim. Ela em seus braços. Seus corpos como um. Tony!
"Uh-hum." – Ela o assegurou, abrindo um sorriso sonolento que ele se prometeu ser a primeira coisa que ele veria todos os dias a partir dali.
Ele sorriu e fixou seus olhos nos dela. Era assustador a intensidade dos seus sentimentos por ela. E eles nem sequer tiveram o primeiro encontro. Ele a conhecia há um ano, havia feito tudo que podia para se manter afastado, mas mesmo assim se deixara levar pelas emoções. Ele gostara de Michelle desde do primeiro dia em que a vira. Os cachos saltando de toda a sua cabeça. Seus olhos orientais. Seu sorriso, e ele podia jurar que nunca vira um sorriso mais bonito em toda a sua existência, iluminando todo o ambiente a sua volta. Ela era perfeita, e ele duvidava que a merecia. A risada dela – uma verdadeira música para os seus ouvidos, e ele não se importava do quão clichê a frase soava, não seria menos verdade por causa disso – o fez voltar para a realidade.
"Em que você está pensando?" – Ela o olhava curiosamente. Ele amava aquele olhar também. Ele a amav... Pare, Tony! Um passo de cada vez. O mesmo erro duas vezes é imperdoável. Mas ela não era Nina, e ele tinha certeza que podia mostrar seu coração a ela naquele instante que Michelle o seguraria em suas mãos e não o machucaria. Ainda assim, ele conteve seus pensamentos. Na hora certa.
"Em você." – Ele ainda assim respondeu com honestidade. Ela apreciava isso. O brilho nos seus olhos apenas confirmou esse fato.
Um tom rosado tomou conta das bochechas dela e aos olhos dele, ela nunca estivera mais adorável.
"Eu imagino o que você está pensando." – Ele franziu o cenho. Ela dificilmente sabia. – "Algo como: quem é essa mulher louca em cima de mim, com o cabelo todo desgrenhado e olheiras sob os olhos? Preciso fugir daqui!" – Ele soltou uma risada que fez os corpos dos dois vibrarem.
Quando ele a fitou, seus olhos se tornaram sérios.
"Seu cabelo está perfeito." – Quase sem perceber, e antes que ele pudesse parar, uma de suas mãos alcançou um cacho e o colocou atrás da orelha dela. – "E você não tem olheiras." – Um dedo indicador dele tracejou delicadamente o local onde supostamente estariam tais olheiras.
Ela não resistiu. Ao sentir o dedo dele tocando-a, seus olhos se fecharam, e a presença dele logo embaixo dela se tornou ainda mais evidente. Mais real. Mais quente.
"Você está bem?" – Ela reabriu os olhos ao perceber o tom de preocupação na voz dele. Claro que ela estava bem. Mais do que bem.
"Estou cansada, apenas isso."
"Eu deveria ir embora e deixar você dormir."
"Não." – Todo seu auto-controle foi usado para não gritar aquela palavra. Ele não podia partir agora... Ela deu uma rápida olhada para o seu relógio de pulso antes de voltar a falar. – "É madrugada, Tony. É perigoso para você dirigir essa hora."
Ele ponderou as palavras dela. Não sabia exatamente o que estava implícito ali.
"Então vá para o seu quarto e durma, Michelle. Você precisa." – Seu tom de voz não abria espaço para discussão. Nem que ele mesmo tivesse que botá-la para dormir. Ah... ele botaria.
"Eu estou confortável aqui." – Ela replicou, dando de ombros. Ele soltou outra risada e prendeu seus braços ao redor dela, pressionando-a contra seu corpo. Mais e mais. Tony se perguntou se ela poderia entender por esse simples gesto que ela era dele dali em diante.
"Sua coluna vai amanhecer dolorida." – Ele a explicou, vendo uma sombra de mágoa e incerteza passar pelos olhos dela. – "Eu tenho uma posição melhor." – Ele rapidamente acrescentou, sabendo que ela tinha entendido errado. Óbvio que ele não queria que ela saísse de perto dele.
Em um movimento ágil, ele tinha suas costas apoiadas na parte detrás do sofá, Michelle com suas próprias costas no peitoral dele, os dois de lado. Os braços dele automaticamente passaram pela cintura dela, mantendo-a perto. O quadril dela moldou-se ao dele e ela soltou um suspiro de satisfação.
"Melhor assim?" – Ele sussurrou direto no ouvido dela e Michelle sentiu um arrepio descer por toda sua espinha.
"Sim. Bem melhor assim." – Ela confirmou, entrando ainda mais no abraço dele. – "Boa noite, Tony." – Um sorriso bobo apareceu no seu rosto e ela ficou contente que ele não podia ver.
"Noite, Michelle." – Ele replicou, um sorriso igual nos seus lábios.
Ela estava apagada logo em seguida. Ele aproveitou para enfiar seu nariz no cabelo dela e inalar. O cheiro dela. Ela. Nos seus braços. Ele se sentia perfeito.
