Rin acordou como na maioria dos dias o fazia, toda descabelada, com frio e assustada. Trepidante por que, por mais que o tempo passasse e ela soubesse que a escuridão sempre estaria ali, com um sorriso convidativo, o pavor de sentir as pálpebras abertas e não ver o sol que ardia sobre seus ombros, costas, ou rosto, apossava-se de si por minutos longos que para ela, pareciam intermináveis. Em todas as manhas em que o telefone tocava, e em apenas um levantar molengo de braço, ela o atendia. Já sabia quem era, pois ele ligava todos os dias para certificar-se que a menina estava bem. Entretanto, aquele dia em especial, a conversa prolongou-se 2 minutos a mais. Kouga explicava detalhadamente o que fizera na manha do dia passado, uma ótima desculpa para não tê-la acompanhado em seu primeiro dia – embora atrasado dia – de aula. (Não que ela se preocupasse muito com ele, claro que não. Apenas irritou-se com o fato de que ele lhe havia acabado de dizer que teria que se ausentar de seu trabalho por três semanas, pois viajaria para algum lugar a qual não se deu ao trabalho de prestar atenção á ponto de guardar o nome).
O pai batia na porta em seguida, com seus chinelos verdes musgo e roupão tão largo quanto seu próprio corpo. Ela esperava que ele se aproximasse, para ajudá-la a se vestir, arrumar-se e tudo mais que precisava para poder sair de casa. Em seu armário separado, uma fila de varetas coloridas, o pai as havia pintado com suas próprias mãos, adesivos espalhados por todos os cantos, fotos. O quarto da universitária continuava sendo violeta. Era sua cor preferida, afinal.
- Então, o que quer usar hoje, meu bem? – Ele bocejou em seguida, aproximando-se da filha e lhe ajudando a se levantar da cama e calçar os próprios chinelos roxos e que mais pareciam pom-pom's.
- Um vestido, não precisa ser muito curto. – Ela sorriu, mesmo sem saber a direção exata do pai, ela tinha certeza de que ele estava olhando para o seu sorriso.
- Você não tem vestidos curtos querida, que tipo de pai eu seria se lhe comprasse algo assim? – Ele riu. Uma risada pomposa e grossa. A voz cansada e rouca do pai não transparecia que ele havia acabado de acordar e sim, que trabalhara durante toda a noite.
- Do tipo bem liberal. – Rin o acompanhou no riso durante alguns segundos, antes de escolher a cor do vestido e ouvir com atenção a descrição do mesmo que o pai lhe dera. Vestiu-se sozinha, e como sempre o outro ajudara a maquiar-se. Na verdade, aquilo não poderia ser chamado de maquiagem, já que ela apenas passava um batom claro pelos lábios, algo que não chamasse muita atenção e um lápis envolto dos olhos chamativos.
Depois de seu café da manhã balanceado e a escolha rigorosa da cor da própria vareta, - que acabou sendo preta e branca - , eles saíram, o pai lhe deixou na entrada no metro de Kiruzumi, e rumou ao trabalho perto dali. Rin sabia muito bem se virar sozinha em uma cidade como Tóquio. Em 22 dois anos de experiências, ela conhecia cada beco repleto de neon barato, cada pedacinho de rua sem saída. Cada semáforo. Cada olhar de pena.
Sentou no banco preferencial para deficientes, Rin contava os passos até o ultimo vagão e o fazia novamente até a tal cadeira. Ela sentiu que alguns olhavam, outros apenas ignoravam por completo sua presença. Apoiou a cabeça com uma das mãos, enquanto o cotovelo se escorava na dobra de borracha da janela.
Suspirou.
Seu coração batia calmamente, e sua respiração permanecia balanceada enquanto o metrô a levava á faculdade, onde Sango a esperava na porta, já que seu tutor não a acompanharia nas próximas semanas. Os olhos abertos esganavam pessoas descuidadas.
Trinta minutos depois, a garota desceu na estação, tomando cuidado com a fresta que o metro deixava em frente à porta, pulou este espaço sorrindo, como fazia todos os dias, e rumou a rampa que daria para a avenida em que o centro de estudo situava-se.
Ele apoiou os dedos nas têmporas enquanto observava o movimento da sala começar a ficar animado de mais. O silêncio não era mais tão presente, embora ele soubesse que o mesmo não era tão necessário.
Arte vinha da maneira de ter criatividade, ele os ajudava a explorá-la.
Sesshoumaru se levantou e caminhou despercebidamente até o armário. Olhou em volta de sua sala calamitosa e sorriu tranqüilo. Fechou o armário depois de alguns segundos o observando pensativo e novamente andou todo o caminho de volta, permanecendo de pé no centro da sala.
- Pessoal... – Sua voz levemente se elevou. O bastante para que os alunos imediatamente parassem o que estavam fazendo o olhassem atentamente em direção ao professor.
Ela em especial continuava com o sorriso nos lábios, apoiando o queixo com a palma da mão, como se o admirasse de alguma maneira desconhecida, e soubesse exatamente como ele era, quem era. Sesshoumaru não conseguia desviar seus olhos da imagem da universitária. Como se o apito canino soasse, e soasse para ele. Apenas para ele. Tudo, vagarosamente mudava, e ele não reconhecia mais seus pensamentos costumeiros. Sim, parecia-se com o apito, que o hipnotizava e não o deixava sair do circulo que corria á todo momento. Lembrava-se dos dedos femininos sobre as teclas do piano de calda, e a melodia que ressaltava cada mentira, cada verdade esclerosada. Cada sorriso. O sangue que corria em suas veias esquentava e parecia cavalgar á cada vez que era obrigado a encarar seu sorriso, ou a dança delicada de seus quadris pelos corredores.
- Como pedi ontem, a roupa usada hoje não seria algo tão formal e caro, certo? – As pessoas presentes concordaram em murmúrios. – Eu não quero processo nas minhas costas depois! – Os universitários riram, alimentando o entusiasmo do professor, que, naquele dia em especial, dispôs-se á fazer uma experiência diferente com os alunos. – Tudo bem, retirem as cadeiras e materiais da sala e deitem do chão assim que terminarem no processo. – Os outros novamente concordaram, e começaram a obedecer assim que o professor saiu da sala, em direção á sala dos professores.
Cerca de trinta minutos se passaram quando Sesshoumaru retornou á sala de aula. Os alunos estavam deitados no chão, o silêncio mórbido o espantou por alguns segundos, morrendo em sua caminhada de volta ao coração, tornando-se apenas um sentimento de estranheza. Segundos depois, passou a explicar o procedimento de relaxamento que sucederia logo após ele apagar a luz.
Foi ao armário e pegou um punhado de tintas guaxe e pincéis. A calmaria tomou conta de todos os músculos de seu corpo, tomou conta de seu coração e alma. Abocanhou faminta, cada pedacinho de solidão.
Abriu cada frasco de tinta e colocou na prancheta, separando cuidadosamente as cores. Ligou o som, baixo o bastante para que entrassem em estado quase-sonho. Ficando presos á realidade apenas pelo toque das tintas. Embora sonhassem com elas de uma maneira acordada. Apagou a luz e cuidadosamente, se pôs a andar entre os corpos dos universitários deitados no chão gelado, com roupas velhas e não muito chamativas ou caras.
Uma hora se passou, em duas aulas seguidas e prolongadas, os alunos mantinham suas mentes relaxadas e suas respirações profundas, embora as mesmas fossem assim como as mentes, intocadas. Ele sorriu quando – ao chegar a um corpo esticado no chão – escutar uma gargalhada abafada, reconhecida imediatamente como sendo o riso de Rin. A calmaria correu, correu tão rápido que mal ele percebeu. Teus dedos tremeram, teu coração parou, tua respiração se injuriou, também correu; se fez de viva, mas morreu. Tua alma gritou, num apelo para que não tocasse a pele macia que transluzia além de toda a escuridão, descendo para a imensidão de avisos que diziam perigo, se afaste. Suas pupilas dilatadas se viram sem solução, os pelos de seus braços se arrepiaram, como um urso mordiscando tua vitima em êxtase e excitação. Frascos se estilhaçaram dentro do corpo masculino, frascos de cristal delicado que não poderiam quebrar. Partir, se abalar. Assim, tão facilmente, sem se quer um único olhar, seu corpo trepidou, terremoto em montanha remota, beijo de despedida, chegando á uma meia verdade que pra parede de empurra, te encosta.
Sesshoumaru hesitou, esqueceu-se de seu verdadeiro intuito e voltou, invadindo seu próprio espaço que havia se perdido, como andarilho em cidade desconhecida, mas não voltou, nem andou. Apenas continuou parado.
... Ele não precisava de informações para seguir o que sua alma ordenava.
Com o dedo indicador, o professor entre abriu os lábios de Rin, que mal se moveu. Passou os dedos por ali, trilhando um caminho de fogo que a fez suspirar profundamente. Caminho de fogo que queimou também seu dedo, irresistível manear em lábios ameaçadores e placas de perigo. A boca seca da aluna umedeceu-se quando a mesma passou a língua por ela, e pelo dedo de Sesshoumaru. Ela o provocava, na dança que o tango dançava ninguém mais poderia dançar. Eram passos de vida ou morte, onde a ruína também poderia reinar. E o fogo, por mais que indicasse luz, poderia fazer muito mais do que queimar. Pele, coração, osso, alma, peito, mão. Queimava a célula, o pensamento e a expressão. Cada feição doce que desapareceria trepidante em sua ação. Teu sangue gelado chorava em desespero. A saliva dela em contato com o dedo masculino provocava um choque elétrico de 600 volts á cada segundo. Seu coração de metal derretia... Seu coração de metal agora era simplesmente um coração que sem pernas pra correr, se arrastava. Tentava sobreviver além das estrelas brilhantes do céu. Mas não era esta a razão. A brincadeira de dizer a verdade sussurrava mentiras rente ao seu ouvido. Como se um simples tocar de lábios fosse o bastante para que o choro já estive pronto, esculpido. E tudo ficou mais escuro... Embora para ela, as cores haviam se mostrado mais nítidas.
Rin levantou a mão e apalpou por alguns segundos o rosto de Sesshoumaru. Seu dedo continuava em seus lábios, seu coração continuava perturbado e acelerado. Seus olhos permaneciam abertos, embora as cores que ele via não fizesse qualquer diferença. A aluna puxou seus cabelos até que sentisse a respiração acelerada do professor bater contra sua própria face, virou a face para tirar o dedo dele de sua boca, e então, beijou a maça do rosto masculino, demorou-se e então o afastou. O tango dançou á ponto de machucar-se. A ponto de nunca mais voltar a dançar da mesma maneira.
Ele se levantou, continuou o relaxamento e esperou que a aula acabasse apenas para olhá-la e ver que ela continuava sorrindo. Deixou que um sorriso ameno escapasse por seus lábios enquanto andava pelos corredores da faculdade. Virou rente á uma das pilastras grossas e avistou a porta de numero 329. A sala mais provável que o irmão poderia estar depois de dois dias sem se quer dar noticias. Bateu três vezes e esperou. Um silêncio comum transparecia que não havia ninguém ali. Suspirou e deu meia volta, andando em direção a sala dos professores.
- Claro, eu aviso pai! Até! – Ele virou o corpo por inteiro. Seus pensamentos pareciam ressaltar diante de toda a adrenalina que repentinamente percorreu todo o corpo masculino. Observou-a doce, andar lentamente checando onde pisava antes de adiantar o próximo passo.
Ele sorriu por saber que ela não veria aquilo, mas deixou-se pensar que era burrice, por saber mesmo que ela não veria aquilo. Era pena? Esse era o sentimento moribundo que sentia por ela? Sem atração,... Apenas... Pena? Ele detestava a idéia de sentir pena de alguém, sempre soube disso, porém, por ela o sentimento era realmente forte, algo a mais que ele não poderia explicar para alguém ou mesmo para si mesmo. Era estranho, confuso, e frio, e por algum motivo, tinha a estranha sensação de não mudaria. Nem por si, nem por pena de si.
Se assustou quando viu a menina tropeçar em algo no chão e quase cair perto de seu corpo virado e imóvel, e então como um reflexo bruto ele a segurou fortemente pelo braço, a colocando em pé novamente. A garota trepidou, olhando para os lados e procurando o cheiro de algum sentimento, mesmo que ele fosse o medo. Endireitou-se, o braço latejava como se tivesse sido preso em algum lugar. Mas na verdade a dor vinha da força desnecessária que aquele homem havia posto para pegá-la.
- Poderia ter me deixado cair. – Ele encarou seus olhos levemente vazios, sem o brilho normal que qualquer outro olhar teria. Eles não refletiam sua imagem e aquilo o incomodava.
- Não gosto de alunas reclamando de dor e pedindo pra sair na minha aula. Prefiro você lá. – Então ela recuou. Mas... Por quê? Como não havia notado que era Sesshoumaru que havia a segurado daquela maneira? Como não havia prestado atenção em seu toque quente? Tudo lhe veio à cabeça e ela a balançou levemente, na intenção de espantar pensamentos desnecessários.
Passaram alguns segundos apreciando o silêncio. O piano ecoando na cabeça do professor não o deixava pensar com sensatez. Ele apenas gostaria de sentir a liberdade de divagar sobre beijá-la por 6,7,8 segundos... Ou duas horas inteiras. Enquanto as mãos femininas escorriam por seu rosto gravando cada detalhe ou ruga de cansaço. Gostaria de acariciar seus cabelos, enquanto ela trançava os seus próprios. Gostaria de ampará-la quando se sentisse sozinha. Isso tudo ao som do piano que ela tocaria todas as noites antes ou depois do jantar que ele ajudaria a preparar. E logo depois de tocar descontraidamente, ela colocaria sua camisola e deitaria sobre o peito másculo. E ele acariciaria o vale de seus seios até que ela adormecesse, ou o beijasse convidativa o bastante para que o polegar masculino cobrisse o mamilo de Rin. Tudo isso ao som do piano que ela tocaria pela manha para os filhos depois do café...
- Eu também me prefiro lá. Mas a preocupação vem apenas da aula? Ou sente pena da pobre cega sem seu tutor? – Ela ironizou, tirando-o abruptamente de seus devaneios insanos.
- Tem razão. – Ele concordou, se aproximando. – Eu sinto pena de você... E eu detesto sentir pena. – Ela estreitou os olhos, lacrimejantes. Levantou o rosto doce e jovem e trancou dentro de um quarto cinza sem nenhum som ou sentimento.
- Seu verme. – Foi simples o bastante para fazê-lo arquear a sobrancelha... E a mão feminina, violenta o bastante para deixá-lo parado por 26 exatos minutos olhando para o nada, mesmo depois que partiu, sem paciência para escutar qualquer outra ofensa vinda do professor.
Bem, os capítulos estão realmente pequenos. Acho que assim será melhor para um bom entendimento do que ira acontecer e o que eles passaram. Principalmente Rin.
Respondendo as reviews.
Dama da Noite: Obrigada! Gostei de ouvir que sou boa na escrita sobre eles! E ainda mais a única! Há! Que honra! Obrigada querida, continua comentando. Beijões!
Deby20: Well, aqui está a continuação que eu devia fazer! Ahahahahhaha Obrigada mesmo. Espero que tenha gostado deste capitulo também. Bom, obrigada mesmo! Beijos!
.. É isso. Bem, espero reviews. Mesmo. Ahuhauahha.
Até o próximo capitulo!
