Oi, gente!
Finalmente terminei o capítulo 2! Na verdade, eu estava muito indecisa sobre algumas coisinhas nessa história, mas já achei um caminho pra seguir!
O outro capítulo já está mentalmente pronto!! Talvez seja o último dessa fase "feliz" da fic... hahahaha Estou precisando matar alguém nessa história... Quem será que eu mato?
Uau, esse comentário deu a impressão que eu tenho uma personalidade sombria e assustadora! hahahaha Não é isso, hein!!
Boa leitura pra vocês!
Apêndices, comentários e agradecimentos... farei isso no final do capítulo!
Era por volta das nove da noite. Hyoga arrumava alguns lençóis novos em nossa cama: brancos, vermelhos, dourados. Ela já estava pronto. O sexo em Vasti é um ritual que deve, portanto, ser preparado, bem cuidado. É nesse momento que se está mais próximo de quem se ama, é o contato físico mais íntimo que existe. Pensamos que não ser pode tratado como algo banal. Hoje faríamos algo especial, algo eu não é qualquer vesta que consegue fazer. Eu sabia que o Hyoga queria isso. Só pelos colares que vestiu, os brincos, os perfumes eu já sabia...
Eu também uso roupas e adereços preciosos, passo óleo de cravo e canela na minha pele. Eu disse que era um ritual! A parte a que mais dou importância são os olhos. Gosto de pintá-los com desenhos diferentes ou pintar um só. Ou com azul, vermelho e preto. Ou de uma cor só. Essa noite, não vou colori-los. Resolvi que os contornaria de negro fazendo uma linha de pequenos círculos escuros acompanhando a base do olho direito seguindo para a minha orelha descendo pelo meu pescoço, passando curvilineamente pelo meu tórax até a linha abaixo do umbigo. Já fiz mais complexos e trabalhados, mas nessa noite, faria só isso. Coloquei uma argola de prata no único furo que eu tinha nas orelhas. Hyoga vivia me dizendo que quando furasse as do Saras, furaria a minha outra. Eu não estava querendo muito, não. Eu... assim já está ótimo! Não preciso de mais furos. Hyoga tem um monte! Mas ele é avesta. E avesta tem verdadeira mania por enfeite. É quase um vício! Três furos em uma, um na outra caminhando pra dois. E precisa? Não, mas ele quer. Não falo mais nada. Pra mim, ele é lindo até quando estou de olho fechado...
Conferi os círculos nas minhas costas, o pagamento da moça da semana passada. Até onde eu podia ver, estavam em boa condição. Se não estivessem, iam ficar assim mesmo. Não teria como eu retocá-los sozinho! Vesti um cordão de contas amarelas atravessado no corpo de modo a ornar meu peito e minhas costas ao mesmo tempo. Por último, coloquei um colar de contas vermelhas transparentes que corria até o início da minha barriga, além de dois cordões de prata de tamanhos diferentes. Não gosto de usar anel, por isso, não os visto. Mas gosto de usar braçadeira. Eu tinha apenas uma, de prata. Foi o que coloquei no braço esquerdo. Faltava o sahi. Escolhi um vermelho de seda praquela noite. Quando a luz batia nele, parecia que tinha um pouquinho de ouro grudado. Hyoga tinha me dado de aniversário e eu só o usava em ocasiões especiais. Quando me senti pronto, apaguei a luz do banheiro seguindo para o nosso quarto; Hyoga já estava lá. Do corredor, eu via os tons alaranjados com que as velas iluminavam o aposento. Me aproximei silenciosamente da porta vislumbrando tudo devidamente arrumado. Meu marido estava sentado na cama, ao lado do criado-mudo, terminando de passar óleo nos braços com as pernas abertas fartamente cobertas pelo sahi azul com prata que ele vestia. Como era de se esperar, estava mais enfeitado que eu. Cordões caíam pelo seu peito largo, todos os furos na orelhas carregavam brincos e ele usava duas braçadeiras. Além disso, fez umas linhas nos antebraços que faziam com que parecem mais grossos, como finas pulseiras pintadas na pele. Apesar do exagero que lhe era peculiar, não pude deixar de estremecer diante daquela visão; sua pele mais avermelhada que o normal por causa da luz das velas. Aquele quarto cheirava à luxúria e antecipava na minha mente o que estava prestes a acontecer, tudo que eu sentiria naquela noite quente de verão.
Atenção, pessoas do meu Brasil varonil! A partir desse momento, cenas de amor na tela do seu PC (se você é chique e tem Mac, desculpa eu, tá!). Eu sei que tem gente que não gosta de lemon e gente que adora! Por isso, coloquei o avisinho. É o meu primeiro lemon e talvez o último! Foi meio punk escrever um lemon em primeira pessoa ainda mais sendo eu fria como um cubo de gelo em uma geladeira no Ártico. Aviso quando acabar essa cena que quando acontece em filmes, temos vergonha de ver com nossos pais. Constrangedor!
Adentrei o cômodo sentindo o contato com chão gelado. Assim que percebeu minha presença, Hyoga parou o que estava fazendo vindo em minha direção. Fiquei estático esperando pelo seu próximo movimento e nos encaramos sorrindo. Os olhos dele estavam intensos, também os havia contornado de preto. Não mais que isso. Simples até demais se compararmos com o que costumava usar. Ele começou a acariciar a base da minha cabeça embrenhando sua mão no meu cabelo que, apesar de curto, é cheio. Devagar como quem toca uma flor. Sua outra mão fazia a linha na minha coluna, certamente a parte do meu corpo de que o Hyoga mais gostava. Eu não correspondia a nenhuma das carícias, apenas fiquei parado querendo ser dominado por ele. Fechei meus olhos aproveitando o calor da proximidade de nossos corpos. De repente, Hyoga entortou minha cabeça colando minha orelha à sua boca:
- Você é uma maldição de tão lindo. – Ele falou tão sóbrio que nem parecia inebriado como eu já estava. Virou-me rápido grudando minhas costas a seu peito. Os colares me pinicavam. Ele permanecia me segurando pelos cabelos lambendo e beijando meu pescoço. Segurava firme, mas não me machucava. Hyoga sabia como eu gostava de ser tocado. Seu braço envolvia minha cintura e aumentava o contato entre nós dois; a mão passeava pelo meu peito devagar, acariciando minha barriga, ultrapassando de leve o cós do meu sahi. Pousei a minha sobre a sua guiando-a pela minha pele entrelaçando depois nossos dedos em um pedido mudo para irmos para a cama. Ele virou minha cabeça me obrigando a abrir os olhos dando eu de cara com os dele, azuis, infinitos.
- Hyoga... – Gemi involuntariamente sentindo um beijo molhado e lento se iniciar tendo meus cabelos libertados. Instintivamente me agarrei ao seu pescoço enquanto nos beijávamos. Minhas pernas foram levantadas e enlacei a cintura dele com força dizendo com isso que as carícias atiçavam o meu desejo. Hyoga me carregou até a cama sentando na beirada comigo em seu colo, e o envolvia possessivamente. Puxou-me novamente pelos cabelos me forçando a olhar pro teto deixando assim meu pescoço e queixo exposto aos seus beijos, mordicadas, lambidas...
- Shun, meu desejo, minha perdição... Você me deseja, meu amor? – Sua mão forçava minha cintura pra frente, em direção ao seu corpo. Apoiei minhas mãos em seus joelhos me oferecendo ainda mais. É lógico que ele sabia a resposta, mas gostava de me provocar. Os toques se tornavam cada vez mais ousados e eu já não podia mais conter os gemidos que escapavam da minha garganta.
- Hum, me diga, Shun...– Senti ele soltar minha cabeça acariciando minhas costas e me dando beijinhos nos mamilos. Os lábios dele eram tão macios, tão quentes. Por mais sutil que fosse o toque da sua boca, eu não conseguia parar de me contorcer ainda em seu colo.
- Desejo... muito... Hyoga, me enlouquece... – Falei mais gemendo do que de forma clara. Ao ouvir minhas súplicas, deitou-me rápido na cama se colocando de pé. Minha respiração estava descompassada e eu sentia meu rosto ardendo de calor. Ele me olhava de cima com um sorriso que carregava muito mais que só carinho... Hyoga parecia a própria personificação da luxúria ali erguido, moreno, com aqueles olhos repleto de desejo... Eu o vi prestes a tirar o sahi e me levantei em segundos impedindo que ele o fizesse.
- Quer tirar com as suas próprias mãos? – Ele disse me agarrando abruptamente me obrigando a segurar o nó que prendia sua roupa.
- E existem outras autorizadas a fazer isso? – Eu alisava o seu peito brincando com os colares com a mão livre.
- Não... Assim como só as minhas podem fazer isso. – E as escorregou por dentro no meu sahi massageando minhas nádegas, apertando-as.
- Ah, amor, não pare... por favor... – Joguei minha cabeça pra trás sentindo ele me atiçar com os movimentos que forçava no meu quadril.
- Eu não quero parar. – As carícias se tornavam cada vez mais ousadas e há muito já estava preso ao seu pescoço trocando beijos nada castos. Num momento de lucidez, deslizei uma das mãos até o nó do sahi, desfazendo-o. O pano fino escorregou revelando a nudez de Hyoga enquanto os beijos se tornavam cada vez mais exigentes. Sentindo que não mais estava vestido, ele me ergueu novamente pelas pernas subindo na cama de joelhos. Caiu por cima de mim no lado oposto da cabeceira. Havia um motivo pra isso...
Beijos e mordidas eram distribuídos pelo meu corpo; eu o guiava segurando nos seus cabelos e me movimentando em sua direção. Hyoga dobrou minhas pernas e me senti um tanto vulnerável. De repente, estar diante daquele homem naquela posição era extremamente excitante...
- Eu quero me esconder entre as suas pernas... e também pretendo te tirar a razão, minha delícia... – Suas mãos passeavam pelas minhas coxas ainda por debaixo dos panos e ele me olhava extasiado.
- Me deixa fazer isso... - Hyoga era o homem mais bonito que eu já tinha visto e eu realmente duvido que exista alguém mais do que ele...
- Eu deixo... vem... pode vir... – Abri mais as minhas pernas dando-lhe passagem. Ainda hipnotizado com a sua beleza, o vi se esgueirando por entre elas beijando-me em seguida. Me erguia de leve afundando sua língua na minha. Logo, ele abandonou minha boca descendo novamente pelo meu corpo para depois embrenhar-se debaixo do sahi me impedindo de ver seus passos. Eu imaginava seu olhar, seus movimentos sentindo sua língua e seus dedos brincando no meu corpo. Eu gemia alto e em pouco tempo, não queria mais só suas mãos na minha pele.
- Hyoga... – Chamei-o. Ele saiu debaixo da minha roupa, com o rosto suado, quase tão molhado quanto eu mesmo já me encontrava. Entendendo o pedido, soltou o nó do meu sahi que deixei que ele arrancasse sem qualquer resistência.
- Você me deseja, meu amor? Hum? Deseja? - Segurou minha cintura me obrigando a fazer movimentos serpentinos.
- Desejo, venero... Vamos, Hyoga, se farte em mim... – Meus olhos reviravam antecipando o prazer. Com um braço, ele me ergueu fazendo com que ficássemos frente a frente. Acarinhei seu rosto enquanto ele fazia o mesmo no meu. Aqueles olhos... eu sentia que gravavam cada pedacinho de mim.
- Seus olhos... são lindos... – Ele sorriu me tomando em beijo lento. Levei minha boca ao seu pescoço sentindo gosto de canela na sua pele e logo ele suspendeu meu corpo me posicionando corretamente. Hyoga fazia tudo como quem ama há muito tempo, mas com o mesmo deslumbramento da nossa primeira vez...
À medida que ele ficava mais próximo de mim, minhas costas arqueavam. Hyoga me beijava tomando vagarosamente meu corpo pra si enquanto eu fazia o mesmo com o dele.
- Quantas vezes posso te dar prazer essa noite? – Ele iniciou os movimentos a que eu almejava com uma lentidão torturante, mas nem por isso ruim. Muito pelo contrário... Aquela pergunta era bastante relevante. Eu disse que faríamos uma coisa que não era pra qualquer vesta. Esse era um tipo de sexo que prolongaria a sensação de orgasmo por, pelo menos, uma hora. Não é que eu vou ter um orgasmo de uma hora! Não é isso! Meu corpo não suportaria. Era uma técnica. Uma técnica que o meu marido dominava muito bem. Ele podia me fazer gozar quantas vezes quisesse sem que eu liberasse nada. Era apenas a sensação. Os vestas acreditam que a retenção é o segredo para a longevidade. No entanto, essa noite, eu sabia que ele me faria gozar por completo. Mas não agora. Teria o momento certo.
Depois de uma hora naquela mesma posição, muitos acreditam que é possível atingir os níveis mais elevados da mente. Eu não sei exatamente o que sinto quando fazemos isso, mas se eu soubesse, provavelmente não conseguiria descrever.
- Hyoga... eu... já não agüento mais! – Gemi tão alto que se alguém estivesse passando na rua naquele momento, talvez tivesse ouvido. Eu já tinha gozado... não sei quantas vezes! Mas Hyoga, ainda não. Ele sempre fazia isso! Se guardava pro final. Mas meu corpo já havia chegado ao limite. Ele mudou o ritmo com que nos movimentávamos, se tornando mais rápido. Segurou-me novamente pelo cabelo.
- Shun, abra os olhos e não os feche. - Ele gemia e parecia já bastante esgotado, mas eu sabia que não pararíamos até chegar o final.
- O seu corpo é meu... e ele me enlouquece. Você é diabolicamente lindo...– Ele dizia enquanto me dava mordidas na curva do ombro. Eu sabia que nos olhava no espelho. Esse era motivo pelo qual nos deitamos do lado oposto da cabeceira: havia um espelho na parede pelo qual o Hyoga adorava nos ver durante... Era algo meio... pervertido, mas eu não me incomodava. Ainda me segurando pelos cabelos, virou-me para o espelho me obrigando a olhar também.
- Vê como você é lindo, minha perdição... – Ele me encarava pelo reflexo levantando o olhar, me mordiscando no ombro. – Diga que é perfeito, que desperta em mim os instintos mais contidos. Fala, meu amor! – Aquelas palavras... Eu sentia que poderia vir apenas com aquilo, mas me segurei.
- Sim, sou lindo de propósito, só pra te atiçar... - Assim que ouviu, Hyoga soltou meus cabelos e eu logo o encarei segurando o seu rosto.
- Mas você é mais... – Disse antes de beijá-lo com a devassidão que o momento exigia. Puxou minhas mãos pra trás, prendendo-as nas minhas costas tornando seus movimentos incrivelmente intensos e pausados. Ele os coordenava com o meu ritmo respiratório investindo quando eu inspirava me obrigando automaticamente a expirar. E eu sentia que meu corpo ia desfalecer tamanho era o prazer que meu marido me proporcionava. No entanto, ele sabia que se eu ficasse muito tempo naquele ritmo, poderia desmaiar de verdade. Voltando a um movimento mais compassado, guiou minhas mãos até meus glúteos me fazendo segurá-los ainda com as suas por cima das minhas.
- Não as tire daí, meu amor... – Ele me pediu lambendo o lóbulo da minha orelha. Como eu disse, Hyoga sempre falava como quem dá uma ordem, uma ordem disfarçada de pedido. Ele segurou-me pelo cabelo de novo enquanto sua outra mão me ajudava a alcançar meu último orgasmo da noite. Novamente, virou-me para o espelho. Eu estava tomado por um desejo depravado movimentando-me com as mãos onde Hyoga as havia mandado deixar. Ele nos olhava com um sorriso de satisfação me beijando na boca, mas como numa cumplicidade que só um casal que se ama há muito tempo mantém, deixamos os olhos abertos, vislumbrando-nos no reflexo... Não dava pra ser um beijo profundo, mesmo porque há muito que tudo que saía da minha boca eram longos gemidos. Mas nos olhar num espelho durante um beijo, excitou-me ainda mais.
- Viu como você fica lindo, meu desejo? Diga que adora isso... diga, meu amor... – A voz dele, ainda que sóbria, estava mais baixa por causa do desgaste que o ato causava. Juntei alguma energia para dizer que:
- Adoro... ah, Hyo...ga... eu vou... – E eu ia! Assim que ouviu o meu anúncio ele aumentou o ritmo ainda mais, usando suas últimas forças e sussurrou ao meu ouvido, "Prenda a respiração". Senti uma onda de prazer se espalhar pelo meu corpo e apertei instintivamente minhas nádegas. A respiração suspensa intensificava muito a sensação e nesse momento, achei que ia mesmo desfalecer. Hyoga pegou-me pelo tronco, me movimentando querendo atingir ele também o orgasmo. O único que teria. Eu ainda estava gozando quando ele fez isso e, como se fosse, possível, senti-me ainda melhor. Retomando o ar, segurei-me nos seus braços e arrumei um pouco de fôlego para incentivá-lo.
- Vamos, meu a... mor... se farte em mim. – Minha voz falhava, mas eu tinha certeza que ele ouvira. Ele me baixou por completo me prendendo com força no berço das suas pernas e suspendeu a respiração me fazendo sentir toda a sua essência me invadir num calor que nada poderia abrandar.
Estávamos exaustos. Mortos de cansaço. Encostei minha testa na dele, molhadas de suor. Eu queria deitar, só pensava nisso. Mas eu já não tinha forças pra falar. Ele começou a retirar os enfeites, os colares ainda comigo nas suas pernas. Tirou os meus também para que pudéssemos dormir mais confortavelmente. Logo me colocou sobre o travesseiro, deitando-se depois de frente pra mim, me puxando pra perto em um beijo simples. Consegui ainda ouvir um "eu te amo". Pousei uma de minhas pernas entre as suas e dormi. Quase que instantaneamente...
Acabou a safadeza, tá?
Ainda não tinha amanhecido, mas o sol já ensaiava aparecer. Uma moleza gostosa dominava o meu corpo. Sentia a respiração do Hyoga na minha nuca e seu braço direito me envolvia pela barriga. Uma de suas pernas repousava no meio das minhas. Pela janela eu podia ver a paisagem lá fora, a floresta que ainda resistia atrás da nossa casa, na outra margem daquele riozinho. Tínhamos uma figueira bem grande na ribanceira que cobria quase todo quintal com a sua copa; nessa época ficava com parte das raízes coberta de água. Eu via sua copa balançando com a brisa leve e morna, anunciando mais um dia calorento. Choveria. Talvez depois do almoço. O céu começava a mudar de cor e as cigarras cantavam sem parar. Os sons do ambiente me faziam querer dormir de novo: Hyoga ressoando baixinho no meu ouvido, o rio correndo, as árvores farfalhando. Estava quase pegando no sono quando senti a boca do meu marido encostando na minha nuca enquanto seu braço diminuía ainda mais a distância entre nós dois. Certamente, ele gostaria de dormir mais, mas logo tinha que levantar pra fazer as obrigações do nascer do dia. Dei um beijo em sua mão, virando-me pra ele me escondendo em seu peito querendo mesmo descansar um pouco mais. Ainda era cedo e eu estava exausto. Ele puxou uma de minhas pernas até a altura de seu quadril, deixando-a ali enquanto acariciava meus cabelos, ainda meio sonolento. Ficamos nessa posição um tempo apenas soltando muxoxos, numa preguiça modorrenta.
- Dorme, meu menino, dorme
Que o mundo vai se acabar...
Mandaram foices e fogo
Vieram do lado de lá...
Vagana acabou-se no incêndio
Só restam cinzas no ar...
Era uma antiga canção de ninar. Às vezes, acontecem guerras, ou uma tristeza que assola um país inteiro. Nesses momentos, as pessoas arrumam formas estranhas de dizerem que passam por uma desgraça... Essa música era um exemplo. Vagana era o antigo nome de Vasti, quando ainda era um reino. Há muito, muito tempo. Essa canção mórbida relatava o que tinha acontecido. Talvez fosse a forma mais branda de dizer a uma criança que nem tudo é perfeito...
Hyoga cantava essa música pro Saras desde que ele tinha nascido. Acho que ele próprio deve ter ouvido quando criança, assim como seu pai. Sua voz estava meio fraca porque tinha acabado de acordar, mas conseguia cantar afinado. Escondi um sorriso no seu peito ao ouvi-lo. Ele sempre me tratava como uma criança, como se não quisesse que eu passasse pelas mazelas da vida. Mas não tinha jeito, era meu destino passar por elas. É destino de todos. Mesmo assim, sempre gostei do modo como o Hyoga cuidava de mim, mostrando que estaria lá sempre que eu o procurasse.
- Dormiu bem? – Perguntou o meu marido e levantei o rosto vendo o dele ainda com marcas de cansaço, os olhos ainda fechados.
- Eu sempre durmo bem quando você está na cama... – Acariciei os lábios dele arrancando-lhes um sorriso.
- E eu, alguma vez, não estive aqui? – Aqueles olhos azuis se abriram me vendo de cima. Sua mão passeava nos meus cabelos me fazendo um dengo que eu adorava receber. Apenas sorri de volta escondendo de novo meu rosto em seu peito.
- Está muito cansado? – Minha voz foi abafada pela posição em que eu estava, mas Hyoga respondeu.
- Um pouco. E você?
- Exausto... preciso dormir um bocadinho mais... – Beijou-me na testa dizendo que tinha que ir, retirando seu braço de baixo da minha cabeça delicadamente.
- Descanse mais, meu amor... – E se sentou na beirada da cama espreguiçando longamente revelando a sua nudez ao se levantar. Não pude deixar de admirá-lo porque, como eu não canso afirmar, Hyoga era lindo. Ele começou a recolher as coisas pelo quarto: os pratos que guardavam as velas já consumidas, os sahis jogados no chão. Depois abriu mais a janela deixando aquele ar gostoso da manhã entrar.
- Hyoga, deixa que eu arrumo isso depois... – Falei sonolento. Eu o vi indo em direção ao corredor voltando de mãos vazias, ainda sem roupas. Recolheu os adornos que tínhamos usado na noite passada levando-os para o armário e arrumando-os ali.
- Amor... pára de enrolar e vai fazer suas coisas! –Arremessei um travesseiro nas suas costas rindo da minha brincadeira.
- E você pára de me enganar e trata de fechar os olhos pra dormir! – Ele já tinha subido na cama me fazendo cócegas na barriga. Nos beijamos rapidamente ainda rindo um pouco. Deitei de novo com ele por cima, me olhando como na primeira vez em que nos vimos...
- Não vai fazer suas obrigações? – Eu disse fazendo uma última carícia em seu rosto. Ele me deu um selinho se levantando rápido dizendo que era pra eu dormir! Finalmente, deixei que o cansaço que ainda sentia tomasse de vez o meu corpo...
- Raio de sol? Acorde... – Era meu marido que alisava meu braço, me despertando devagar. Raio de sol. Hyoga dizia que quando eu não estava em casa, ela virava um "escuro deserto". Exagerado como sempre.
- Hum... eu poderia passar o dia todo aqui. – Abri os olhos me espreguiçando demoradamente. Hyoga se inclinava sobre mim, em pé, sorrindo leve, todo arrumado. Sahi, colares, brincos, até o cabelo ele tinha feito! Uma vez avesta, sempre avesta.
- Podemos dormir um pouco mais depois do almoço... Estava pensando de comermos no templo hoje. – Sentou na cama no pequeno espaço que havia entre mim e a beirada e eu aproveitei pra deitar minha cabeça em suas coxas.
- Eu acho ótimo. – O Vestismo acredita que todo ser humano precisa de 3 coisas básicas para viver: comer, meditar e dormir. Os templos vestas fornecem, então, todas as refeições, quartos além de serem um lugar pra meditação. Não era preciso dar nada em troca.
- Deixa eu te limpar, meu amor. Vamos. – Hyoga estava novamente de pé pronto para me pegar no colo. Estiquei meus braços como uma criança e logo fui suspendo. O lençol escorregou e agora, eu que me via nu. Sempre que fazíamos sexo, meu marido me limpava no dia seguinte. Ele dizia que era o mínimo que podia fazer por eu deixá-lo me ter do jeito que ele me tinha. Eu deixaria ele me ter daquele jeito mesmo que eu tivesse que acordar sozinho na cama no depois...
Estávamos no banheiro; eu devidamente acomodado dentro da banheira cheia de água fresca, e Hyoga na bancada da pia escolhendo um aroma.
- A temperatura está boa? – A água começou a se tingir de rosa dos sais que ele havia escolhido. Alfazema... Eu adoro. Mexi minhas mãos fazendo a espuma subir rapidamente.
- Está perfeito, meu amor... – Eu respondi assim que ele começou a esfregar o meu corpo com uma esponja. Sem pressa. Um silêncio gostoso se fez e tudo que eu podia ouvir era o barulho das mãos do Hyoga entrando e saindo da água. Já estava quase cochilando de novo quando...
- Ô, Shun...
- Oi. – Hyoga tinha começado a cantar. Eu já sabia que música que era. Ele mesmo tinha inventado essa.
- Arranjei um amor no Venon... – Venon é um rio secundário do Sudra, o principal aqui de Vasti. Ele também é muito freqüentado, mas seu movimento nem se compara ao do Sudra.
- Sério?
- Que pele macia, que corpo moreno, que amor de pequeno... amar é tão bom...
- É, maravilhoso. – Eu tinha mesmo era vontade de rir com essa música. O Hyoga também!
- Shun,... ele tem o nariz levantado...
- É metido então?
- Não! Haha. Os olhos verdinhos e amendoados, cabelos curtinhos... e uma pinta do lado. – Essa última frase foi dita no meu ouvido me fazendo cócegas.
- Hum, parece uma perdição... – Falei em um tom engraçado fazendo Hyoga soltar um risinho baixinho.
- E é... Ele é meu amor lá do rio...
- Se você tem, eu quero um também...
- Vai ter quer procurar... – Hyoga ainda limpava minhas pernas e fez uma expressão de "pois é" – ...O verão passou todo comigo...
- O inverno com esse mesmo alguém... – E ele fez uma cara de "é óbvio" se sentindo o homem mais irresistível do mundo.
- Então vamos, nosso amor desse rio levar. Dar beijos ao sol, à luz do luar... – Essa parte era pra ser cantada por nós dois. Hyoga parou seus movimentos com a esponja apoiando-se na borda da banheira me mirando enquanto cantávamos.
- Seu amor lá do rio... – Falei acariciando seu rosto com minhas mãos molhadas.
- Não tinha ninguém...
- Acabou se arrumando... – Encostamos nossas testas e eu ainda o segurava.
- Adivinha com quem?... – Rimos juntos com a conclusão da canção e dei-lhe um beijo estalado da boca.
- Gosta dessa música, não é? – Hyoga tinha puxado o tampo do ralo fazendo a água descer rapidinho pelo cano revelando aos poucos o meu corpo recém-lavado.
- Você inventa cada coisa... Corpo moreno? Sou quase da cor do arroz! – Peguei alguns fios do cabelo dele que caíam daquele penteado doido que ele tinha inventado na cabeça rindo um pouco.
- Mas naquela época, você era mais bronzeado. É a nossa história de amor, Shun! Eu nunca esquecerei aquele dia... – A água já tinha decido e ele olhava carinhosamente pro meu corpo dentro da banheira.
- Nem eu... – Levantei seu rosto fazendo com que a minha face virasse o alvo de sua admiração.
- Era dia de teste físico no rio, lembra? – Hyoga adorava recordar essa história.
- Claro... Eu estava muito nervoso porque tinha vencer a minha marca anterior. – Sou davesta, lembra? Meu treino levava em consideração que eu seria também um soldado, um defensor de Vasti, ao contrário do Hyoga. Ele podia até nadar sapinho no rio que ia bem na avaliação. Eu não poderia fazer isso! Tinha que ser um modelo de corpo, de físico! Tudo bem, eu sou um exemplar da minha casta que deixa a desejar. Sou meio... desengonçado. Nesse dia, todos os aprendizes da região foram "convidados" ao rio pelo governo para realizar os testes físicos.
- Você parecia uma criança assustada, com medo do escuro... Eu lembro que eu estava terminando a minha prova e te vi na fila dos davestas. Aquelas perninhas tortas... – Hyoga me acarinhava devagar emocionado com a lembrança.
- De tudo que eu tinha pra ser olhado, você foi reparar nas minhas pernas tortas?! – Falei enfezado fazendo-o soltar uma risada dizendo que depois de vê-las é que apreciou mais o restante. Esse meu marido é um pervertido! E elas nem são tão tortas assim! Felizmente, por causa desse defeito, sou ótimo nadador!
- Você parecia tão indefeso... Esfregando essas mãozinhas lindas uma na outra. Eu te quis naquele instante. – Hyoga nunca tinha me dito isso...
- Foi? – Falei meio atônito.
- Claro que foi.
- Eu achei que você tivesse gostado de mim na hora em que nossos olhares se cruzaram... - Em um dado momento, nesse dia, olhei pros lados procurando pelo meu irmão, querendo buscar nele algum apoio. Eu estava tremendo de medo! Nesse instante, cruzei meu olhar com o do Hyoga, que estava de pé já me mirando, nos degraus mais próximos ao rio, cercado por avestas magrelos e fracotes. Como costumam ser! Hyoga é exceção total à regra! Nós nos olhamos por muito tempo, inexpressivamente, até que ele sorriu e eu sorri de volta. Eu senti uma força cálida me tomar com aquele gesto e por um momento, tomei mais coragem.
- Quando nossos olhares se cruzaram eu já estava com a certeza de que te teria como esposo, Shun. – Ele falou sério olhando-me profundamente.
- Estava? Como você é tarado, Hyoga! Eu tinha só 15 anos!
- Tarado? Como pode achar que meu amor por você é taradice? Eu tinha 18, e daí? – Ríamos com nossos comentários lembrando de como, a partir daquele dia, a vontade de ficar perto um do outro aumentara gradativamente a ponto de se tornar um vício, um vício que não teria cura. Não é permitido qualquer tipo de relacionamento amoroso durante os estudos fora o de mestre e discípulo. Mas o Hyoga costumava... burlar essa regra indo sempre pra frente da casa do meu mestre para me observar. Moramos com nossos mestres enquanto estamos na fase de estudo e somos obrigados a fazer tudo que eles querem. Meu marido tinha mais sorte porque seu mestre era seu próprio pai. O meu era meio surdo, meio molenga (isso explica o meu fracasso como davesta, né?) por isso, quase nunca reparava quando o Hyoga chegava ao final da tarde pra trocar algumas poucas palavras comigo. Não fazíamos mais do que isso com medo das conseqüências... Mas ele vinha todos os dias e todo o dia eu o esperava ansiosamente. Quando fez 20 anos, como todo vesta, teve que se casar. Eu me lembro que ele veio uma última vez na minha casa me dizendo que...
- "Pode me esperar, meu amor. Eu vou te pedir em casamento pro seu irmão e nós finalmente poderemos ficar juntos." Lembra disso, Shun?
- Como eu poderia esquecer? Três semanas depois eu recebi o comunicado do Ikki sendo liberado dos estudos pra nos casarmos...
- É uma das minhas lembranças mais preciosas... – E nos beijamos castamente, como nos beijamos da primeira vez... Hyoga já estava casado com a Kunti quando pediu minha "mão". Como eu já disse, tinha que fazer isso... Desfizemos o beijo sorridentes. Ele estava animado essa manhã! Tinha que estar, né. Depois de uma noite como aquela... Hyoga me ergueu pelo tronco me fazendo ficar de pé na banheira pra depois pegar um balde de água que estava ali ao lado me pedindo pra não me mexer enquanto isso.
- Segura nos meus ombros, Shun. Tenho medo que você escorregue. – Assim eu fiz sentindo o excesso de sabão ser levado pela água.
- Amor, você está ficando todo molhado!
- Ah, não tem problema. Com esse calor, logo logo seca... – Ele jogou o balde vazio no chão fazendo um barulhão.
- Vem, saia daí, mas com cuidado! – Foi só ele falar pra eu levar um escorregão ao colocar minha perna na borda da banheira. Sorte de que ele já estava segurando um dos meus braços e conseguiu evitar que minha bunda encontrasse mais uma vez o chão. Ou talvez eu tivesse caído dentro da banheira. Ou ainda segurado no Hyoga de forma a derrubá-lo também. Impossível dizer todos os tipos de tombo que eu poderia ter levado.
- Shun, cuidado! Ai, Deus. Quer me matar de susto? – Hyoga estava visivelmente preocupado. Cair no banheiro não é exatamente como cair na rua. É muito mais perigoso! Bate-se a cabeça na privada e pronto! Adeus, mundo cruel!
- Desculpe, eu não...
- Tudo bem. Você se machucou? – Hyoga me abraçava pela cintura lançando um olhar sério. Eu apenas fiz que "não" com a cabeça mostrando o olhar mais infantil que consegui exibir encolhendo meus braços no seu peito.
- Shun, se te acontecesse alguma coisa, eu não me perdoaria. Nunca! Entendeu? – Ele estava sério mesmo. Mantive meu olhar infantil prestando atenção redobrada naquela bronca disfarçada que eu levava.
- Eu te amo muito... Sem você e o Saras, prefiro morrer.
- Mas estamos bem aqui... – Falei baixo deitando minha cabeça em seu ombro. Desde que a sua esposa morrera, Hyoga tinha um medo muito grande de nos perder sem aviso também.
- Ouça bem, Shun. – Levantei meu olhar dando de cara com uma expressão de dar pena: ele quase chorava. – Enquanto eu viver, eu vou te amar, te guardar, te seguir, te ver dormir pra ter certeza de que nada vai te acontecer.
- Hyoga, calma... Estou aqui. Não aconteceu nada. Por favor, não chore. Eu também te amo muito... Por favor, me dói saber que sou a causa do seu choro. – Ele ainda não tinha chorado de verdade, mas estava prestes a. Dei-lhe um beijo na bochecha sentindo seus braços me envolverem apertando-me possessivamente. Passado um tempo, ele pegou a toalha que havia caído no chão e passou pelas minhas costas começando a me secar delicadamente.
- Hyoga, você está brabo comigo? – Ele estava ajoelhado no chão terminando de secar as minhas pernas. Logo se levantou enrolando a toalha na minha cintura. Seu silêncio começava a me incomodar. Já ia repetir a pergunta quando...
- Não, meu amor. Não estou. Eu nem poderia. – Ele me suspendeu pela cintura fazendo com que ficássemos cara a cara. Sua expressão séria se desfez em um sorriso discreto. Sorri de volta aceitando o beijo que ele acabava de iniciar e voltamos ao quarto onde Hyoga me sentou na cama.
- Eu vou terminar o café-da-manhã. Não demore muito, está bem? – Me fez um carinho nos cabelos saindo do quarto. Eu entendia o que se passava. Se eu tivesse realmente caído ou algo assim, ele se sentiria culpado. Assim como se sente culpado pela morte da Kunti até hoje. Hyoga é como um vulcão que se pensa instinto, mas que ainda está ativo. Suas memórias daquele dia o perturbam diariamente, mesmo que ele se esforce muito pra esquecê-las... Por isso, ao menor sinal de risco, ele libera suas preocupações... Hyoga tentava se convencer de que tinha sido obra do destino com base na corrente de pensamento mais popular do Vestimo: tudo acontece por algum motivo, não existem nós cegos na teia que se forma pelo entrelaçamento das vidas humanas. Se ela morreu naquele dia, naquela situação, foi por um motivo. Mas Hyoga falava que o destino tinha sido sádico fazendo com que ela morresse nas mãos dele. Eu sempre lhe dizia que se por um lado o destino o castigou dessa forma, por outro, o premiou. Afinal, naquele mesmo dia, nasceu o Saras. O nosso filho. Não foi de todo mal, não acha?
Fui ao armário procurando algo para vestir. Escolhi um sahi verde claro e coloquei uma argola naquele meu único furo olhando no espelho que havia na porta do armário. A pintura da noite passada estava bem nítida ainda, demoraria umas duas semanas pra se apagar por completo. Meus cabelos sempre foram meio rebeldes, o que facilitava a minha vida. Eu não precisava de pente!
A cama estava uma verdadeira bagunça! E se tem uma coisa que eu acho horrível é cama bagunçada. Comecei a dobrar os lençóis substituindo-os por limpos, brancos e amarelos.
- Lavar lençol... que chato... – Odeio lavar roupa! Mas temos que lavar... Fazer o quê! Assim que me agachei pra pegar os panos que estavam no chão, comecei a sentir um cheirinho bom de... dosha! Dosha é um pão que se faz com farinha de arroz e leite de coco. É uma das coisas que eu mais amo comer! Será que o Hyoga estava assando alguns? Abri a porta que dava pros fundos pra ventilar o quarto (sim, temos uma janela e uma porta do lado oposto do quarto que dão para o quintal) seguindo direto por dentro de casa para a cozinha com aquela trouxa nas mãos.
- Hyoga, não me diga que você fez dosha?? – Perguntei alto sendo praticamente dominado pelo meu nariz que procurava o local exato da origem do cheiro.
- Não. Dosha? Não. Por que eu faria isso? Esse troço que você adora tanto comer? - Ele logo apareceu pela porta da cozinha que vinha do quintal com uma pilha generosa daqueles pães fininhos em um prato. Nossa cozinha tem duas portas: uma que dá na sala de casa e outra que dá no quintal. Era uma necessidade, afinal ali fora era a "área de serviço". Pra fazer dosha, é preciso um forno especial que não dá pra se ter dentro de casa. Na verdade, é mais simples do que parece. Basta um buraco no chão com as paredes revestidas de barro queimado. Joga-se um pouco de carvão lá e pronto! Um forno pra doshas! Elas assam em segundos, encosta-se a massa nas paredes quentes e elas cozinham instantaneamente.
Hyoga deu a volta pela cozinha colocando aquele prato de pães quentinhos em cima da mesa. Eu, quase que hipnotizado por aquele aroma, deixei os lençóis caírem sentando-me logo na mesa.
- Shun, olha os modos! Tem que esperar todo mundo se sentar à mesa pra começar a comer. – Hyoga me deu uma bronquinha divertida vendo que do jeito que eu estava, as doshas morreriam sem nem sentir! Ele passou por mim pegando os panos que eu deixara cair, levando-os lá pra fora na maior lentidão.
- Hyoga, pára de me torturar!! Senta logo! – Gritei impaciente vendo-o voltar rindo da minha ansiedade. Ele sentou-se na mesa me servindo um com as mãos e pegando um pra si. Hyoga fazia de tudo pra me agradar. Além de todos as obrigações que tem que cumprir de manhã, ele ainda arrumou tempo pra preparar essa massa...
- Veja se está bom. Faz tanto tempo que não faço isso... – E me olhava carinhosamente. Peguei a geléia de gengibre espalhando por cima ritualisticamente e enrolei. É desse jeito que se come! Assim que mordi, senti aquilo se derretendo dentro da minha boca enquanto eu mastigava lentamente. É um pão extremamente branco e um tanto esfarelento. Se não souber fazer, fica duro ou quebradiço demais.
- Então? – Hyoga servia chá pra mim e pra ele.
- Isso está divino... divino! Me dá mais um, por favor. – Pedi quase cuspindo o que eu comia.
- Falando de boca cheia! Imagine se o Saras estivesse aqui. Que mau exemplo. – Hyoga se divertia com o meu vício em doshas e me serviu mais um como eu havia pedido.
- Quando eu como doshas, esqueço a etiqueta, Hyoga. Esqueço! – Enquanto eu falava, já pegava mais do prato.
- Não seja tão esfomeado! Deixe-me tirar umas pra levar pro Ikki e pra June. – Fiz uma cara revoltada com as bochechas cheias de pão e mais um na minha mão. Hyoga ria da minha expressão dizendo pra eu me controlar que ainda sobraria bastante. Assim, ele pegou uma boa quantidade separando ao seu lado.
- Pode ficar com esses todos, viu. – Mostrou-me a pilha considerável que ainda estava no prato. Ele mesmo só tinha comido um até agora. Engoli o que estava na minha boca passando geléia no próximo e colocando no prato dele.
- Hyoga, você comeu muito pouco. Toma esse aqui, vai. – Ele agradeceu pegando o que eu tinha preparado dando pequenas mordidas. O café prosseguiu calmamente e o Hyoga comeu apenas 3 doshas! Uma lástima! Ainda restavam mais duas no prato e eu já estava mais que satisfeito... Decidi que guardaria aqueles dois pro Saras.
- Guarda essas pro Saras, amor. – Hyoga levantou levando-o consigo dizendo que faria uma trouxa com os pães que separara pra ir buscar nosso filho. Eram dez horas.
- Seu irmão deve estar querendo um pouco de privacidade, não acha? – Pedi que ele mandasse lembranças ao Ikki e a June, e me pus a recolher a louça suja.
- Volta logo. – Eu disse recebendo um beijo na bochecha. Como se a casa do meu irmão fosse a léguas da nossa!
Gostaram no capítulo meloso que se fez? Eu me considero gélida, mas eu achei que ficou cálido. hahahaha
Primeiramente, agradecendo às meninas que deixaram reviews!! Apesar de eu saber que tem gente que lê, gosta, mas não escreve review. Eu sei! Eu sou esse tipo de pessoa! hahahaha Obrigada aos anônimos!!
NathDragonessa: Muito obrigada pelos elogios!! Acha que escrevo bem? Isso, acredite, é muito importante pra mim! Thank you!! Você riu? Do capítulo anterior? Sério? Isso é ótimo!! Fazer os outros rirem é uma das coisas de que mais gosto! Continue lendo, comentando please!
graziele: Você comentou em outras fics minhas e eu fiquei extremamente happy!! Muito thank you pra você!! Espero esteja gostando dessa aqui! Ela está se tornando minha obra prima! (falou a Sra. Shakespeare, né)
Mellow Candie: Virou minha fã número um! Caraca, me senti a própria Xuxa agora! hahahaha Poxa, muitíssimo obrigada!! Infelizmente, não tenho planos de continuar a "Sala de Espera" por falta de tempo... Quem sabe em um futuro distante... Sorry... Mas essa aqui eu vou terminar! Tenha certeza! hahaha Eu também adoro a cena do banho! (metida, elogiando a mim mesma!) O Saras é mesmo uma criança adorável! Eu me divirto inventando minúcias das vidas deles, manias. Que bom que gostou!
Hyoga é um romântico mor nessa história. Eu sempre o achei muito mais coração de manteiga do que o próprio Shun. Aliás, o Shun está um tanto frio nessa fic (ele fica meio frio em todas as minhas fics) porque acaba sendo uma extensão da minha personalidade. Eu gosto dele assim! Acho que equilibra com o Hyoguinha.
Curiosidades
- A música que o Hyoga canta pro Shun na cama existe de verdade. Eu modifiquei a letra um pouquinho só pra encaixar na história. É uma música chamada "Dorme, meu menino, dorme". Infelizmente, não consta no youtube, mas existe pra baixar por aí. Aconselho muito a ouvirem!
- A outra música, que eles cantam no banheiro, existe também! Eu acho que esse Hyoga cantante é muito bom! É como se ele se expressasse mais nitidamente quando canta pro Shun. Essa música se chama "Tereza da Praia", tem no youtube e eu acho meio necessário ouvi-la praquela cena ficar mais bonitinha. A versão com o Dick Farney cantando é a melhor! Ui, já cumpri meu dever de fazer uma homenagem aos 50 anos de bossa!
- Ah, eu imagino que esse lance de enfeites, cabelo soe meio estranho, mas quando eu escrevo o Hyoga exagerado assim eu penso no Ney Matogrosso. Não tem nada a ver com a atitude do Ney, mas sim com alguns de seus figurinos que denotam a personalidade forte dele. Eu acho que o Hyoga, mesmo sendo inconstante emocionalmente, tem uma personalidade muito definida, sóbria, ele sempre tem certeza do que quer. Acho que o Ney passa idéia também. Mas outra inspiração (e essa é mais ainda) é um outro músico chamado Devendra Banhart. Eu o vi uma vez na TV e fiquei com aquela imagem gravada. Ele mais minha inspiração do que o Ney! Prende o cabelo de formas estranhas sometimes e eu não pude deixar de colocar no Hyoga. hahahaha Coloquem lá no google images que vocês verão! Ele se pinta também.
- Só um último comentário, dosha existe de verdade também. Quase tudo que uso nessa fic existe de verdade, só que eu dou uma mudadinha. Dosha é uma palavra da medicina (indiana) ayurvédica e indica uma espécie de arquétipo pessoal. Explicando grosseiramente! Mas eu usei pra designar o pão no qual o Shun é viciado! Esse pão também existe e se chama Naan, mas o meu "naan" não é o "naan" do mundo real. Eu inventei esse aí que usa farinha de arroz e leite de coco, duas coisas muito indianas. Vasti é uma Índia que eu reinventei. Quando eu o descrevo, penso nela, ainda que de forma meio rasa...
Até o próximo capítulo! Obrigada de novo a todos! Fiquei emocionada, lisonjeada e mais alguns "adas".
