Capítulo 2- Contato

O dia estava sendo mais cansativo do que ela imaginara. Todos pareciam ansiosos para compartilharem as novidades, deixá-la a par de tudo que acontecera.

Na realidade, Kagome encontrou tudo como achou que estaria- exceto pela quantidade de filhos de Sango e Miroku, e a presença constante de Rin. Kaede lhe contou que a garota estava morando ali, e que Sesshoumaru a visitava com freqüência.

Kagome gastou muitas horas daquele dia brincando com as gêmeas, observando os detalhes no rosto das garotas que reacendia nela a esperança- houveram momentos em que ela chegou a pensar que poderiam ter um final não tão feliz. Mas Miroku e Sango estavam ali, felizes, criando uma família.

Kagome passou algum tempo na casa deles, enquanto escutava as intermináveis lamentações de Sango.

- Não pensei realmente que fosse ser assim- Sango a olhou com ar cansado.- Duas de uma vez só...

- Mas elas já estão crescidas! E com certeza lhe ajudaram com o mais novo, Sango...

- Espero que sim- a garota sorriu sinceramente para Kagome.- Parece que faz tanto tempo que você nos deixou, Kagome...

Kagome engoliu em seco, tentando pensar em algo inteligente para dizer.

- Você sabe que se eu tivesse opção jamais teria ficado tanto tempo longe...

- Eu sei- Sango ficou séria de repente.- Isso não me preocupava. Sabia o que se passava na sua cabeça. Porém...

Kagome moveu-se para perto dela.

- Porém?

- Inuyasha nos deixou preocupados...ficou grande parte do tempo sozinho...depois de um tempo não quis mais ficar na nossa casa...dizendo que precisava de um lugar para ele.

Kagome tentou se concentrar. A pessoa que menos requisitara sua atenção desde que chegara fora InuYasha. Ela sabia, por exemplo, que ele estava sentado do lado de fora, provavelmente tentando escutar tudo que falavam.

- Ele parece se dar bem com as gêmeas.- Kagome mudou o assunto rapidamente, quando sentiu o rosto corar. Precisava conversar com InuYasha, saber que o tempo que haviam passado separados não havia sido em vão.

Para sua surpresa, Sango riu alto.

- As gêmeas o adoram.- ela suspirou.- Ás vezes acho que elas conseguem o tirar do sério.

Sango terminou de guardar as pequenas vasilhas que restavam e olhou para Kagome, o cansaço mais visível ainda.

- Estou atrapalhando você...você deveria aproveitar esse tempo para descansar.- Kagome inclinou o rosto para o lado, observando a amiga bocejar.

- Você passa três anos longe e acha que as pessoas não irão querer saber as novidades?- Sango ajeitou alguns lençóis que estavam jogados e se sentou no chão, próxima a Kagome.

- Não tenho novidade alguma- ela sentiu o rosto corar. Será que InuYasha estava escutando?- Só pensava constantemente em voltar...não conseguia viver inteiramente todos os momentos...

Sango a observou longamente. Kagome tentou desviar o olhar- havia tanta maturidade naquela mulher que repentinamente já era mãe de três crianças- ela se sentiu exposta como se fosse uma de suas filhas; e um livro aberto para a interpretação de Sango.

- Fico realmente feliz de ver a família que você construiu com Miroku...- ela falou baixo.

- Obrigada.- Sango acenou com a cabeça, respeitosamente.

Kagome olhou para fora, incapaz de disfarçar sua ansiedade.

- Eu sei que não me diz respeito, mas...- Sango ajeitou-se no lugar, arriscando um olhar para o bebê que dormia pacificamente a apenas alguns metros de distância.- você já conversou com InuYasha...

Kagome negou com a cabeça, e baixou ainda mais o tom de voz.

- Você não acha que já ficaram tempo demais longe um do outro?

(...)

- Obrigada, Rin!- Kaede elevava o tom de voz, enquanto a menina se afastava rapidamente.- Não saia de perto de Kohaku!

- Sim!- com aquela resposta que mais parecia um grito de alegria, a garota sumiu de seu campo de visão.

Kagome curvou-se rapidamente para ajudar Kaede com os legumes que Rin acabara de depositar aos seus pés, em pequenas cestas.

- Ah, obrigada Kagome.- a voz cansada da senhora fez a empatia de Kagome aumentar.

- Já que estou aqui não custa ajudar...

As duas carregaram os legumes até a pequena casa de Kaede, onde Kagome a imitou, colocando as cestas no chão. Seus olhos instintivamente procurando o hanyou de cabelos prateados, mas ele não estava em lugar algum.

- Procurando pelo InuYasha?- a voz de Kaede a surpreendeu.

Kagome corou, mas afirmou com a cabeça.

- Imagino que ele tenha ido até sua casa.- a voz rouca da velha parecia irônica.

- Casa?- Kagome a olhou rapidamente.

- Pelo visto vocês não tiveram chance de conversar apropriadamente.

Kagome silenciou, e ficou observando a senhora colocar os legumes em outros recipientes, enquanto os lavava com a água de um balde.

- Se você seguir naquela direção- a velha apontou uma pequena montanha com o dedo.- o encontrará.

Kagome não sabia o que deveria fazer. Mal falara com ele desde que chegara, e ao mesmo tempo ele era o motivo dela ter voltado. Se importava com todas as pessoas que estavam lá, mas sabia que Inuyasha era o verdadeiro motivo para que seu coração estivesse pulando no peito.

- Ah, Kagome- a velha a chamou, percebendo que a atenção da garota já estava longe.- Fico feliz de saber que está de volta. Sinceramente. E saiba que minha casa está de portas abertas para você. Shippou ficará feliz em dividir o quarto.

- Obrigada- foi apenas o que ela conseguiu responder. Tamanho carinho, por mais simples que fosse, faziam com que ela sentisse que era realmente ali que deveria estar.

Antes que pudesse perceber, seus pés já faziam o caminho indicado anteriormente por Kaede.

Conforme se afastava da vila, não conseguiu conter seus pés, e quando percebeu estava correndo, a euforia parecia não caber em seu peito. Será que Miroku e Shippou também estavam lá?

Ela tentava imaginar como seria a casa de Inuyasha, mas a única visão que tinha era de uma árvore apropriadamente grande o suficiente para que ele se apoiasse em um de seus galhos e dormisse, sentado. Ela sacudiu a cabeça- Kaede não teria falado aquilo de modo irônico.

Conforme ela percebia que a distância era menor do que esperava, seu coração dava pulos fora de ritmo, o que em nada ajudava sua ansiedade. Finalmente, quando passou por uma árvore incrivelmente grande, a estrada se tornou uma íngreme subida. Quando ela achou que iria cansar, seus pés pisaram um chão plano, e sua visão foi completamente ofuscada por um homem parado na ponta de um penhasco, sua veste vermelha perdendo-se no movimento do vento, seus lindos e longos cabelos prateados acompanhando a dança.

Ela tentou engolir, mas sua boca parecia seca. Ainda não olhara atentamente para ele desde que chegara. Havia sido apenas a surpresa da chegada, algumas trocas de olhares, poucos minutos. Agora, ela tinha horas pela frente, e já estava pretendendo ficar parada ali até que o sol sumisse.

- Pretende ficar para aí?- a voz dele ecoou no vento, e a cabeça do hanyou se inclinou em direção a ela.

Ela culpou-se mentalmente por ter sido tão ingênua. Ele conhecia seu cheiro perfeitamente bem, provavelmente sabia que ela se aproximara desde que ela pusera o primeiro pé para fora da vila.

Ela precisou pensar para caminhar, mexendo suas pernas lentamente. Parecia que estava pisando em algum lugar perigoso, seu corpo inteiro estava descoordenado.

- Desculpe, InuYasha...- ela sussurrou, quando o alcançou.

Ele não respondeu, mas ela pôde dizer pela sua expressão que ele entendia o que ela queria dizer.

- Sei que passei grande parte do dia longe de você...- ela continuou.

Ele pareceu se irritar com algo que ela dissera. Um sorriso estranho curvou seus lábios.

- Eu queria-

- Kagome- ele falou daquele jeito debochado.- Você não precisa se desculpar!

Ele a olhou. Ela tremeu ao sentir aqueles olhos sobre si.

- M-mas eu- ela começou.

- Todos estavam ansiosos para falar com você...foi uma verdadeira surpresa você aparecer aqui de repente...- o semblante dele pareceu mudar.- Eu não teria por que ficar chateado com isso.

Mas ele parecia frustrado com algo. Ela deixou que ele continuasse.

- Você conversou com Sango? Miroku? E Shippou?

- Sim- ela afirmou com a cabeça.- Falei rapidamente com cada um deles. Estava na casa de Sango até agora há pouco. Ela estava muito atarefada...

InuYasha se aproximou dela. Ela prendeu a respiração, incapaz de encará-lo nos olhos agora que estavam perto.

- K-Kaede falou d-da sua casa...- aparentemente, tanto tempo longe dele fizera com que ela desaprendesse a se controlar na sua presença.

- Falou...?- ele sorriu, e virou o rosto para frente, ficando na mesma posição que ela o encontrara anteriormente.

Ela acompanhou seu olhar e mirou o horizonte. Aquilo lhe deu uma sensação de paz. Porém, com o passar do tempo, os minutos pareceram se alongar e o silêncio de InuYasha estava a deixando nervosa.

Ele queria falar algo? Ele estava com raiva dela? Ou na verdade, sentira tanta saudade quanto ela durante todo aquele tempo, somente não conseguia admitir?

Ela tentou controlar a respiração, enquanto seus olhos pareciam desesperados buscando algo interessante para que ela pudesse fingir que não estava tão alterada. A paisagem era tão linda, incontáveis árvores e pássaros pareciam não conseguir manter sua atenção.

Ela sabia que isso aconteceria...que ficariam a sós logo...que os outros dariam espaço para que pudessem conversar. Apenas não planejara todas aquelas reações por parte do seu corpo.

- Kagome...- a voz de InuYasha parecia mais um suspiro.

Ela virou o rosto lentamente para ele, ficando surpresa ao encontrar em seus olhos um brilho tão intenso.

- Hum...?- ela tentou arquitetar uma resposta mais complexa, mas parecia incapaz.

Ele sorriu, e ela pôde observar aquele rosto que tanto amava curvar-se de uma maneira encantadora. Ela não pôde conter um olhar curioso para os caninos que terminavam em presas, e também não foi capaz de afugentar o rubor que tomou sua face ao se dar conta de que estava encarando não o rosto de InuYasha, mas sim a sua boca. Tentou afastar todos as lembranças que a tomaram...dos beijos que havia recebido.

Ela abaixou o rosto, sabendo que ficara muito claro que estava envergonhada com algo. Seus lábios haviam se encontrado mínimas vezes: a iniciativa, claro, partira dela, tentando fazê-lo voltar a si, em um momento crítico em que a face youkai de InuYasha quase fizera sua parte humana desaparecer. Ela lembrou-se, sentindo um frio na barriga gostoso no estômago, de que ele a beijara delicadamente quando voltara a si, como que a agradecendo. Mas aquele momento não tinha nem comparação com o beijo que haviam compartilhado no dia de sua despedida, quando ainda não sabiam o que aconteceria...

Porém, por mais que o contato quente da boca de InuYasha com a sua tivesse lhe causado sensações inimagináveis, ela jamais pudera compartilhar algo maior com ele. Haviam sido apenas alguns segundos...parecia ter terminado em um piscar de olhos...e a única coisa que restara fora uma sensação estranha em seu rosto e um calor reconfortante em seus lábios.

- O que você achou?- ele desviou sua atenção. Os olhos do hanyou ainda eram apenas para ela.

- Ahm...- ela tentou se concentrar.- A paisagem é linda...

- Tenho passado muito tempo por aqui...desde que- ele parou de falar, desviando o olhar.

Ela aproveitou o momento de distração dele, e aproximou-se apenas alguns centímetros.

- Como você tem passado?- ele mudou completamente o assunto. Ela ficou feliz sabendo que finalmente iriam falar sobre o tempo em que haviam ficado separados.

Ela precisou conter uma risada. Seria uma completa falta de educação deixar sua euforia a tomar.

- Sobrevivendo...- ela cruzou os braços atrás do próprio corpo, tentando manter o pensamento sobre controle.- Ocupada com os preparativos da formatura...

Ela observou com o canto do olho as orelhas no alto da cabeça de InuYasha acenarem três vezes ao escutar o que ela acabara de falar. Ele a olhou novamente, o rosto sério dessa vez.

- Formatura...?- ele franziu o cenho.

- Sim...finalmente terminei o colégio...Achei por um tempo que isso não fosse acontecer...

Ela sorriu e InuYasha a acompanhou. Quando ela olhou para frente, ele permaneceu a olhando. Ela sentiu o rosto queimar, sentindo-se desconfortável sendo observada tão de perto.

- Isso quer dizer que você não precisa mais enfrentar aqueles...testes...?- a voz dele parecia cautelosa.

- Acho que sim- ela sentiu o rosto corar. Faculdade não estava nos seus planos...na verdade, não pensara em nada além de voltar para o lado de InuYasha...mas não se sentia capaz de revelar isso à ele.

Ambos ficaram em silêncio. Ela sentiu-se mais confortável ao ver que os olhos de InuYasha haviam se perdido no horizonte novamente.

Ela olhou para baixo, e aproveitou a distração dele para observá-lo mais atentamente. O vento ainda balançava levemente a veste vermelha que ele sempre usava...aquela que a havia protegido muitas vezes, quando ele a despira para que Kagome pudesse ficar segura.

- E você vai...- ele engoliu em seco, ainda sem olhar para ela.-...ficar?

Ela sentiu a dificuldade arranhando a voz de InuYasha. Ela olhou para o rosto do hanyou, muito vermelho e mantendo-se sério.

- Kaede pareceu animada com a idéia...- ela observou novamente as orelhas dele agitarem-se.- Acredito que ela esteja mesmo precisando de alguém para ajudá-la com as tarefas...e com a Rin por perto-

O rosto de InuYasha virou-se tão rapidamente para ela, que ela não conteve uma exclamação de susto. Ela inclinou o corpo para trás na defensiva, uma mão entendida à frente.

- V-você...- ele a encarou nos olhos.- Planeja ficar aqui?

Ela se arrependeu de sua resposta anterior. Havia deixado claro o que pretendia. O que ele queria dizer com aquilo? Por que aquele tom estranho na voz?

- Por quê?- ela alfinetou, antes que pudesse se conter. Ela deslizou os olhos dos punhos de InuYasha que repentinamente haviam se fechado, e questionou antes que pudesse pensar duas vezes.- Isso incomoda você, InuYasha?

Por um momento, ela achou que ele fosse rir- dar uma daquelas gargalhadas escandalosas dele, debochando, até que ela precisasse gritar para ele sentar. E então, ela o observaria se esborrachar no chão. Mas ele permaneceu naquela posição de ataque, parecia preparado para pular em cima de um inimigo que estivesse à espreita.

- Por que você acha que me incomoda?- a voz dele estava baixa novamente. Ela esperou ansiosa, que ele saísse daquela posição, então ela poderia endireitar o corpo.

Ela fechou a boca rapidamente, respirando fundo e falando antes que ele a interrompesse.

- Por que você me pareceu bastante surpreso ao saber da minha decisão.

Não era lógico que ela queria ficar ali, perto dele? Ele havia esquecido tudo que tinham vivido? Por isso que havia mantido aquela distância horrível dela durante o dia inteiro? Simplesmente sumindo sem dar notícia?

Ela não entendia por que ele a tratara tão bem quando voltara. Naquele momento, parecia capaz de gritar com ela, mandando que ela voltasse para sua casa.

- Sua mãe...seu avô...sabem disso?- ele continuou cauteloso, desviando o olhar.

- Sim- ela falou abruptamente cerrando os punhos e ainda o encarando, querendo que ele a olhasse.

Ela já estava abrindo a boca para falar, tomando fôlego, mas ele foi mais rápido.

- Durante esses três anos- ele falou, olhando para o nada. O vento batendo em seus longos cabelos, fez com que Kagome ficasse hipnotizada, incapaz de interrompê-lo. - diversas cenas passaram na minha mente...

Ela finalmente relaxou o corpo. Incapaz de controlar os pequenos tremores que a tomavam, cruzou os braços defensivamente sobre o peito.

- E eu imaginava quando você iria voltar...

O coração dela acelerou de tal maneira, que ela precisou cravar as unhas nas laterais dos braços para que ele não percebesse.

- E mesmo depois de tudo que eu passei...- ele olhava para o céu, parecia falar mais para si do que para ela.- Eu nunca havia me sentido tão solitário...

- InuY- ela começou, mas a voz dele aumentou o volume.

-E esperei dia após dia...ás vezes parecia um sonho...cheguei a imaginar como seria o momento que você apareceria...

Finalmente tudo foi ficando claro. Ela sabia que eles deveriam ficar um ao lado do outro. Por que duvidara dos sentimentos dele? Ele estava realmente nervoso de estar falando tudo aquilo.

Ela queria esticar o braço para tocá-lo, mas sabia que aquilo iria o sobressaltar. Ela escutou, pacientemente, mesmo sabendo que momentos como aquele eram raros: InuYasha dificilmente falava sobre seus sentimentos.

- Hoje quando eu senti seu cheiro...parecia tão forte...tão presente- ela percebeu que o rosto dele estava vermelho, mas ele parecia disposto a continuar.- Eu só pude correr...sabia que deveria partir de você o desejo de voltar...

O vento antes que parecia tão gelado, perante aquela situação era incapaz de afastar o calor que se apoderara do corpo dela.

- Não me surpreende que você ache que eu fiquei surpreso com sua decisão...- ele suspirou e fechou os olhos.- Durante todo esse tempo eu errei muitas vezes, Kagome...

Ela precisou se concentrar para respirar, quando ele falava seu nome daquele jeito, ela sentia-se flutuar dois palmos acima do chão.

- Tive todo o tempo do mundo ao seu lado...e ao mesmo tempo-

Ele parou de falar, olhando para o chão.

Ela finalmente achou forças e descansou a mão no ombro de InuYasha.

- InuYasha...- ela sussurrou.

Ele alcançou a mão dela. Ela teve a nítida sensação de que faíscas vinham do lugar que suas peles se tocavam. Ele se virou bruscamente para ela, obrigando que ela o olhasse.

- Fiquei com medo de que todos os meus erros pesassem e você...achasse melhor...

- Do que você está falando?- ela riu, nervosa.- Era óbvio que eu queria voltar!

Ele demorou o olhar nas bochechas vermelhas de Kagome, e um sorriso tímido brincou em seus lábios. Era esse o medo dele então...

Ele aproximou seus rostos apenas alguns centímetros, Kagome parecia sentir-se forçada a continuar.

- Eu queria ver você...eu precisava ver você...- ela sussurrou, entrelaçando seus dedos nos dele.

- Kagome...

- Foi por você que eu voltei, InuYasha...- ela piscou os olhos lentamente, precisando fazer força para voltar a abri-los. O olhar de InuYasha era tão intenso que ela parecia incapaz de respirar ou fazer qualquer outra coisa.

Ele inclinou-se sobre ela e tocou seus lábios por breves segundos. Ela sentiu sua respiração ficar presa nos pulmões, enquanto ele se afastava. Algo dentro dela pulou, parecendo protestar- ela ficara três anos longe dele, o amara durante todo aquele tempo, e ganharia apenas aquilo? O cavalheirismo de InuYasha estava passando dos limites.

Ele parecia ter um medo constante de agir impulsivamente com ela. Depois de tantos erros, a tratava como se ela fosse algo delicado prestes a quebrar. Mas o coração dela batia tão rápido, seu sangue pulsava fortemente, implorando para que eles não ficassem nem um centímetro sequer separados.

Seus olhos se encontraram- ela leu claramente a expressão no rosto do hanyou. Ele estava cauteloso, agia com prudência. E a última coisa que ela queria naquele momento, era ter calma.

Eles já haviam controlado todos os seus sentimentos durante todo aquele tempo. Nunca haviam tido essa oportunidade de viver intensamente o que sentiam.

O que ele acharia dela se ela o beijasse? Por que ela não estava conseguindo controlar aqueles impulsos?

Ele pareceu ver que havia algo diferente no olhar da garota. Ela não sabia dizer se ele estava assustado, surpreso, ou se continuava incrédulo com tudo que estava acontecendo.

Eles estavam juntos! E ficariam juntos para sempre, se dependesse dela.

Ele tentou compreender o olhar de Kagome. Era quase como se ela implorasse silenciosamente para que ele fizesse algo. Mas ele não podia cruzar aquela linha, podia?

Seria completamente mal-educado fazer o que ele realmente queria fazer naquele momento. Tomá-la nos braços, apertando-a contra si e beijar seus lábios por longos minutos. Ele jamais se sentira daquele jeito...demorara muito tempo para beijá-la a primeira vez...e agora que tinham todo o tempo do mundo, ele iria pular etapas? Imaginava que na época de Kagome não deveria ser tão diferente da dele...as garotas não saíam beijando os rapazes quando queriam...ou será que...?

O olhar de Kagome ainda sustentava o dele, suas bochechas coradas eram convidativas- parecia que seu rosto se inclinava em direção à ela sem que ela percebesse. Ele não sentira nada disso com Kikyou- e ele a beijara diversas vezes, a abraçara demoradamente, repousara sua mão na delicada pele exposta de seu pescoço... Mas apenas pensar em fazer aquilo com Kagome, fazia com que ele se sentisse culpado.

Ele jamais conseguiria...ele não podia se descontrolar...ela era preciosa para ele...delicada...o que eles haviam construído até então era raro.

Mas o olhar dela continuava ali. Ele sentiu seu corpo tremer- não enxergava mais nada. Ainda tinha a garota levemente aconchegada em seus braços, o pequeno contato de seus corpos não parecia suficiente para ela.

Ele sentia seus lábios quentes, implorando para que ele terminasse com aquela distância novamente. Kagome também não parecia querer que o momento terminasse daquele jeito, e não afastara seus rostos completamente depois que ele se afastara.

Sentindo como se ela exercesse um papel de ímã sobre ele, ele aproximou seus rostos pela segunda vez naquele dia, contendo a respiração por um instante, tentando manter os olhos abertos o máximo de tempo que a euforia do momento permitiu.

Quando ele viu os cílios de Kagome abaixando-se, não conseguiu impedir o que estava por vir- o rosto da garota permaneceu inclinado para cima, esperando ansiosamente pelo segundo beijo. Ele apenas mirou rapidamente os lábios entreabertos da garota, e antes que pudesse controlar seus instintos, já colara seus lábios novamente.

Ela exerceu uma pressão diferente sobre seus lábios naquele segundo toque, sua mão tímida alcançando o rosto de InuYasha. Ele tremeu, enquanto tentava controlar seu corpo, seu braço direito completando o caminho pelas costas da garota até enlaçar completamente a sua cintura e puxá-la para si, enquanto ele tentava manter-se delicado.

Kagome parecia completamente diferente naquele momento, ele não soube explicar. Parecia que ela estava na ponta dos pés- era difícil dizer. Ela pressionou o corpo fortemente contra o dele, implorando que ele não se afastasse novamente.

A cabeça do hanyou parecia girar. Se aquilo era um teste para avaliar o seu auto-controle, ele certamente iria fracassar. Odiou e ao mesmo tempo adorou os pensamentos que tomaram sua mente, enquanto ele prestava atenção à forma como o corpo de Kagome conseguia alcançar o seu, naquele simples contato.

Ele não foi mais capaz de agir com razão- a apertou fortemente contra si, ouvindo uma exclamação contida por parte de Kagome. O cheiro dela o tomava fortemente, a proximidade o impedia de raciocinar. Ele queria ela tão fortemente...não queria largá-la...tantos anos...tanto tempo...tanta distância...

Ele deslizou os lábios de um modo mais brusco do que planejara, buscando o interior da boca da garota. Ela não reagiu do modo que ele esperava- não pareceu assustada, pelo contrário, permitiu que ele aprofundasse o beijo enquanto suas línguas se procuravam pela primeira vez.

Ele continuava a apertando, enquanto sua mão esquerda achava o caminho pelas costas da garota, subindo até se encaixar em sua nuca. Kagome respondeu à altura- enlaçando os dois braços em seu pescoço.

Ele continuou a beijando do mesmo jeito intenso, tentando manter sua respiração sob controle. Ele deliciou-se com a sensação de ter Kagome daquele jeito- completamente entregue ao beijo. Nunca havia a beijado assim...tocar seus lábios era maravilhoso, mas poder senti-la daquela maneira não tinha comparação com nada que ele já tivesse experimentado.

A garota parecia tímida, mas buscara beijá-lo da mesma maneira. Ele se deixou dominar durante alguns segundos, respondendo aos movimentos incansáveis da língua de Kagome à procura da sua. Ele não pôde conter uma mão de buscar as costas de Kagome novamente, descansando na cintura da garota. Em resposta, Kagome empurrou o corpo mais para frente, pressionando seus seios contra o peito de InuYasha. Ele sentiu seu coração batendo descompassado, enquanto sua mão apertou a lateral do corpo da garota. Kagome gemeu baixinho, beijando-o da mesma forma intensa.

Ele precisava reunir forças para afastar o rosto dela...não podia acreditar que estava sentindo tudo aquilo...não era real...ele não podia fazer aquilo...mas o único pensamento que tomava a sua mente era deslizar a mão sobre a pele nua de Kagome, livrar-se daquelas roupas pesadas que por algum motivo ainda estavam ali atrapalhando, e continuar aquilo de forma apropriada.

Ele afastou seus lábios brevemente, mas antes que pudesse pegar ar, Kagome passara a língua sobre o canto de sua boca e o beijara novamente. Como ele podia resistir àquilo? O que ela pretendia, deixá-lo louco?

- Ka-Kagome- ele se afastou novamente, colando suas testas.

A garota não pareceu surpresa ao ver a situação em que estavam, seus corpos completamente abraçados, as mãos perdidas em caminhos infinitos, os cabelos despenteados e os rostos muito vermelhos. Ela parecia imensamente interessada em continuar o que haviam começado.

Ele tentou não olhar para ela. Seu corpo todo doía, seus músculos estavam todos contraídos, tentando ao máximo evitar que aquilo perdesse o único controle que ainda restava. Por que as coisas haviam ficado tão intensas repentinamente?

Ele não queria lembrar, mas sabia que algo sempre os impedira de poderem realmente vivenciar aquilo, em momentos anteriores. Ele olhou os lábios muito vermelhos de Kagome, adorando saber que ele causara aquilo. Algumas pequenas saliências vermelhas estavam ali, em posições alternadas, provavelmente onde seus caninos descontrolados haviam passado- ele se tranqüilizou ao ver que não a machucara realmente. Porém, não podia continuar pensando que havia se controlado. Não houve controle algum nos últimos minutos. Afinal, quando tempo havia se passado?

- InuYasha...- a voz dela era quase uma súplica.

Ele culpou-se mentalmente por nunca ter feito nada em relação à garota, talvez se ele tivesse criado menos expectativas ela agora não seria aquela tentação completada parada diante dele, tentando aproximar seus rostos novamente.

Ele segurou o rosto dela, impedindo que ela o beijasse novamente- fazer aquilo quase doía fisicamente.

- Kagome- ele sustentou o tom de voz.- Eu machuquei você...

Ele passou a ponta do dedo cuidadosamente pelas marcas vermelhas na borda dos lábios dela. Teve todo o cuidado para que suas garras não fizessem um novo machucado.

- Não estou sentindo dor.- ela não sorria, mas ele sabia que era verdade.

Uma das mãos da garota já estava em seu ombro, e as pontas dos dedos deslizavam delicadamente sobre a musculatura, e ele pôde perceber o quanto estava tenso.

- E-eu...não queria...eu- ele tentou se justificar, sabendo que ela mal escutava.

O rosto da garota tingiu-se de vermelho.

- E-está tudo bem...- ela disse simplesmente.

- Desculpe por isso...- ele aproximou-se cautelosamente dela, sabendo que finalmente quebrara a tensão. Beijou delicadamente o canto de seus lábios, observando eles se curvarem em um sorriso.

Quando ele se afastou, ela tinha os olhos fechados. A mão que ela mantivera em seu ombro subiu pelo seu pescoço, lentamente. Ele fechou os olhos, arrepiando-se com o toque.

- Eu esperei tanto tempo...- ela falou baixinho.- para poder ficar com você...assim...

- Eu também...- ele sussurrou, sentindo toda a sua pele ardendo novamente.

Ela não podia continuar fazendo aquilo, não podia. Ele sabia que não era proposital. Era um simples toque- a mão dela em contato com a pele dele. Então por que ele perdia o controle tão facilmente?

Era quase surreal imaginar quanto tempo haviam ficado próximos sem poder compartilhar um momento como aquele.

- E então...-ela falou tão suavemente, que ele precisou se concentrar o dobro para que o toque gentil dela não roubasse sua atenção.- Achei que você iria me falar mais do que tem feito aqui...

Ele aproveitou o momento e olhou para trás, sabendo que a garota não notara o que havia ali.

Kagome seguiu seu olhar, e ele observou ela analisar a pequena casa, um sorriso sendo ensaiado no canto de seus lábios.

- Aqui é a casa que Kaede falou?

Satisfeito de ver que finalmente haviam se acalmado, ele a guiou pela mão para que fossem até lá. Kagome parou na porta e esperou que ele a puxasse para dentro.

Ele adorou a naturalidade com que andaram de mãos dadas, prestou atenção mais do que deveria à maneira com que seus corpos se moviam em conjunto, os passos sincronizados.

Kagome segurou o braço dele com a outra mão que estava livre, assim que teve a primeira visão do interior da casa.

Ela largou a mão dele, e InuYasha ficou observando enquanto ela caminhou até a pequena cozinha, mexendo em algumas poucas coisas pelo caminho, já que não havia muito que chamasse a atenção.

- Nunca imaginei você vivendo em um lugar assim...- ela sussurrou, enquanto descansava os olhos sobre a esteira no canto, que InuYasha usara para dormir.

Ao observar aquilo, ele se sentiu mais solitário do que nunca. Aquela casa parecia querer lembrá-lo dos últimos anos em que passara ali. Ele recordou, envergonhado, dos momentos em que algumas lágrimas teimosas haviam escapado de seus olhos, nas noites frias onde apenas o vento fazia algum tipo de ruído na casa.

Kagome pareceu perceber o desconforto dele, e apontou para algumas portas fechadas, questionando o que eram.

- Aquela é outra pequena sala...deixei alguns brinquedos de Shippou perdidos por ali...e a outra é apenas um quarto desativado...

Ele engoliu em seco com a mentira. Certamente, ela saberia tudo que acontecera dentro de sua cabeça mais tarde. Kagome não parecia estar mais prestando atenção naquilo. Recostou seu corpo contra o dele, e InuYasha passou o braço ao redor de sua cintura, sentindo o rosto corar.

- É tão bom estar de volta...- Kagome sussurrou.

Ele aspirou o perfume no alto de sua cabeça, e depositou um beijo tímido em seus cabelos.

- Sabe- ela se afastou apenas alguns centímetros.- Estive pensando...quero começar a estudar ervas terapêuticas...aprender algo com Kaede...

- Se você acha que ela tem algo a ensinar- InuYasha debochou abertamente, não soltando o braço que ainda prendia Kagome de encontro a si.

- InuYasha!- ela o repreendeu. Ele chegou a se encolher, mas sabia que ela não o xingaria.

Ao invés disso, ela abraçou seu corpo e descansou a cabeça em seu peito. Seus dedos se perderam no colar no pescoço de InuYasha, enquanto ele sentia o calor subindo novamente, até que suas orelhas também ficassem vermelhas.

- Ok, entendi seu argumento...- ele falou, a contra-gosto.

- O que foi?- ela se virou para olhá-lo.- Eu não ia dizer para você sen...-

- Não!- ele quase gritou, jogando os braços para cima, defensivamente.

Kagome tentou conter a risada, mas em segundos, aquilo se transformou em uma gargalhada.

- Não se preocupe, InuYasha...- ela o abraçou delicadamente.- Eu sei que não preciso mais desse colar para ter você ao meu lado...

Ele sabia daquilo também. Por mais que o colar o obrigasse a obedecer Kagome, ele tinha consciência de que aquilo não era mais preciso. Se ela continuasse agindo daquele jeito, ele certamente iria adorar fazer qualquer coisa por ela. Permanecer ao seu lado, cuidar para que se sentisse segura, ajudá-la com os estudos do que quer que ela quisesse aprender com Kaede. A única coisa que tinha certeza, era de que não queria perder aquele calor do abraço de Kagome. Faria de tudo para permanecer ao lado dela para sempre.

Juntos, eles caminharam abraçados para fora da casa, indo em direção à vila. InuYasha afirmava que Kagome ainda precisava saber muitas novidades, inclusive sobre o treinamento de Kohaku. Ele sentiu-se orgulhoso ao conter aquilo para ela, quase como se tivesse responsabilidade na escolha do garoto.

Nunca imaginou que se sentiria tão completo cercado de humanos. Ele sentia-se mais humano e menos youkai toda vez que pensava que tinha uma vida pela frente, ao lado de Kagome.

Foi diferente percorrer o caminho de volta de mãos dadas, ao invés de estar nas costas de InuYasha como costumavam fazer. Kagome parecia muito contente, narrando para InuYasha as poucas aventuras que tivera com suas colegas, as matérias do colégio e o desafio quase diário de auxiliar sua mãe e seu avó com os trabalhos no templo. InuYasha caminhou lentamente ao lado dela, escutando feliz enquanto ela dividia com ele tudo aquilo que havia acontecido nos últimos anos.

Não falaram mais do sentimento que nutriam um pelo outro. Parecia que haviam chegado a uma etapa que palavras não eram estritamente necessárias. Aquele simples toque, os dedos entrelaçados, davam a certeza de que não precisavam de mais nada, se tivessem um ao outro.

Continua...