.II.
I'll be fine
If you give me a minute
A man's got a limit.
Lésbicas.
Poderia matá-las – se uma delas não fosse mãe do seu filho. Porém, já que o mesmo não poderia ser dito da outra metade da laranja em questão, ainda lhe restavam opções. Até lembrar-se de que a outra metade era mãe da filha do seu melhor amigo.
Maldição.
Tinha certeza de que, em algum lugar, alguma entidade superior estava rindo às suas custas.
Não que, naquele momento, fizesse qualquer diferença. Fechando os olhos, Brian se permitiu um momento de fraqueza, apoiando a cabeça no volante do carro. Estava tão cansado que dificilmente teria forças sequer para uma partida de sarcasmo com Melanie, que dirá para praticar qualquer método de tortura nas pombinhas apaixonadas.
Afinal, quem saía em uma segunda lua-de-mel hoje em dia? Lésbicas, obviamente.
Bufou, ligeiramente frustrado. Não estava irritado com o pedido repentino, não realmente. Afinal, não era sempre que tinha a oportunidade de passar quatro dias inteiros com Gus sob sua responsabilidade, sem intervenções de Lindsay a cada dez minutos para saber 'como estavam as coisas'. Ok, ainda recebia as ligações diárias, mas os custos das chamadas interurbanas haviam-na obrigado a diminuir sua freqüência de quatro vezes ao dia para apenas uma.
Ainda assim, o fato de Lindsay e Melanie o terem favorecido, mesmo diante das ofertas generosas de Debbie e Michael, com quem Jenny Rebecca ficara, dava-lhe uma sensação boa. Era uma óbvia demonstração da confiança crescente que as duas mulheres – ou, ao menos, Lindsay, já que Melanie se recusava a admitir qualquer envolvimento – vinham depositando nele para cuidar do próprio filho. Era reconfortante ter a oportunidade de ficar com Gus sem ter de vê-lo ir embora ao final do dia, de poder fazer qualquer programa com o filho sem a eterna supervisão de Lindsay sobre os mínimos detalhes, ainda que entendesse a preocupação natural de mãe que a amiga possuía.
O que o irritava era o fato de a chance ter surgido justo quando Kinnetic parecia prestes a explodir, tamanha a tensão que tomara conta dos seus funcionários. Leo Brown, dono de uma de suas contas mais importantes, estava ameaçando abandoná-lo às vésperas do lançamento da campanha nacional em que Brian vinha trabalhando há dois malditos meses, e tudo porque, pela mais pura coincidência, cruzara caminhos com ninguém menos que Gardner Vance em Nova York, que, muito convenientemente, trazia consigo um material exclusivo que, aparentemente, colocaria a Brown Athletics no topo das vendas pelos próximos seis meses.
Claro, Brian bufou, irônico.
Agora, Kinnetic tinha um prazo de duas semanas para reelaborar todo um plano em que vinha trabalhando exaustivamente há dois meses, ou então Ted teria de começar a calcular de que maneira cobririam um possível buraco negro no balanço de final do ano da empresa.
Tudo graças à arrogância de Vance e à sua óbvia necessidade de ver o circo pegar fogo. Brian respirou fundo. Bem, ele certamente estava prestes a conseguir um incêndio.
O toque de seu celular o trouxe de volta à situação atual. Carro. Estacionamento. Escurecendo. Certo.
"O que é agora, Schmidt?", rosnou, depois de checar o identificador de chamadas.
"Er… Brian, nós temos um… pequeno probleminha", a já conhecida gagueira de Ted soou do outro lado da linha.
Com medo. Ótimo.
"Ted, diga-me uma coisa: há quanto tempo eu saí daí?", Brian perguntou, com uma calma forçada.
"Hm… meia hora."
Brian piscou. Olhando para o próprio relógio de pulso, ergueu uma sobrancelha. Mesmo assim, não deixou a surpresa transparecer.
"E você lembra o que eu disse quando saí daí?"
Silêncio.
"Eu estou esperando, Ted." Sabia exatamente quais botões apertar para deixá-lo nervoso. Bom e velho Ted, sempre tão previsível.
"Que você não deveria ser importunado a não ser que fosse um caso de vida ou morte", a voz do contador quase não podia ser ouvida do outro lado da linha.
"Agora me diga: o seu probleminha é um caso de vida ou morte?", Brian manteve o tom de voz condescendente. E claro que sabia que era exatamente aquilo que estava deixando o homem ainda mais nervoso.
"…"
"…"
"Acho… acho que não."
"Você acha ou você tem certeza?", Brian insistiu, ríspido.
"Não- digo, sim, tenho… tenho certeza", o contador gaguejou.
"Ótimo, presumo que vocês podem se virar sozinhos, então. Afinal, eu estou pagando a todos vocês no final do mês por um motivo. E tenha certeza de que realmente existe uma emergência antes de ligar para esse número novamente", rosnou antes de fechar o celular, sem dar tempo para respostas.
Respirando fundo, Brian jogou o celular no banco passageiro e finalmente ligou o motor do carro. Já tinha perdido tempo demais ali e, afinal, tinha saído mais cedo do trabalho, com ameaças de demissão a quem quer que se atrevesse a interrompê-lo pelo restante do dia (obviamente, estava precisando melhorar sua performance, se Ted fora o primeiro a desobedecer suas ordens), por um motivo. Ou dois, lembrando-se de quem estava com Gus com um meio-sorriso.
Ainda que soubesse que apenas estava levando o trabalho para casa. O pensamento amargou sua expressão novamente.
Quando já estava deixando o estacionamento, notas desconhecidas preencheram o interior do Corvette. Franziu a testa e lançou um rápido olhar ao redor, procurando a origem, até parar no aparelho ainda sobre o banco passageiro - no exato momento em que as notas deram lugar a um refrão que lhe era bem familiar.
'Don't go wasting your emotion… lay all your love on me…'
Brian não conseguiu evitar a gargalhada, mesmo sabendo que deveria estar irritado com a idéia de seu celular ter sido manipulado sem sua permissão.
"Você se acha tão esperto, não é, Sunshine?", foi a primeira coisa que disse ao atender o celular, cortando a melodia grudenta.
"Eu tenho meus momentos", foi a resposta espirituosa. Era óbvio que Justin já estava rindo antes mesmo de Brian atender, provavelmente imaginando qual seria a reação do parceiro à sua surpresa.
"O que não pode ser dito sobre o seu gosto musical", Brian observou com um sorriso afetado, ainda que não pudesse ser visto. "Acho que nem Emmett ouve ABBA hoje em dia, Sunshine."
"Hey! A culpa é toda sua!"
As duas sobrancelhas de Brian ergueram-se.
"E de onde você tirou essa idéia, garotinho?", questionou, usando o apelido propositalmente. O curto resfôlego indignado do outro lado da linha deixou claro que sua tática ainda funcionava. Aproveitando o sinal fechado, encostou a cabeça no banco, o meio-sorriso ainda no rosto. Quase podia ver o loiro revirando os olhos antes de continuar.
"Se lembro bem, foi você quem iniciou a tradição, garanhão."
Brian franziu a testa por alguns segundos, até que a memória lhe veio à mente. Imediatamente, um gemido deixou sua garganta.
"Eu sabia que tinha uma razão para não fazer aquele tipo de coisa. Por que eu não me surpreendo que você se lembre delas depois de tanto tempo, Sunshine?", comentou distraidamente enquanto checava se a via realmente estava livre antes de acelerar novamente.
"Cinco anos não é tanto tempo assim, Brian." Pelo tom de voz, era óbvio que ele acreditava naquilo tanto quanto Brian. "E eu não quero esquecer mais uma dança."
Brian o conhecia o suficiente para saber que, no silêncio que preencheu a linha em seguida, Justin estava se torturando por ter deixado aquele pequeno comentário escapar. Preferiu ignorar a leve pontada na região do estômago que as lembranças trazidas por aquelas palavras causaram, porém, antes que pudesse colocar alguma tática de distração em prática, Justin voltou a falar.
"Bem, podia ser pior… eu poderia ter colocado 'Chiquitita' para tocar. Eu adoraria ver você explicando essa para os seus funcionários."
"Eu sou o chefe, Sunshine. Eu não preciso me explicar." Sorriu distraidamente ao ouvir o muxoxo do outro lado da linha, atento ao movimento dos carros na avenida em que tinha acabado de entrar. "Aliás, não pense que você vai se safar. Quando eu chegar, você vai me pagar por essa surpresinha. Você sabe, compartilhar a minha devoção."
A gargalhada límpida que obteve em resposta fez a citação melosa valer a pena.
"Mal posso esperar", foi a resposta, o tom de voz provocante.
Antes que pudesse responder, Brian teve de frear bruscamente quando, sem esperar, um carro saiu da faixa ao lado e cruzou à sua frente sem sinalizar. Imediatamente, Brian começou a buzinar e xingar, esquecendo-se momentaneamente da conversa. Só depois de mudar de faixa e se acalmar um pouco voltou ao celular.
"Brian?", Justin. Preocupado. Merda.
"Está tudo bem, Sunshine. Foi só um imbecil que comprou a carteira que acabou de cruzar o meu caminho."
"Ok." A hesitação antes de responder não passou despercebida por Brian. "Onde você está?"
"Devo chegar à interestadual em dois ou três minutos." De repente, Brian ouviu uma gargalhada infantil do outro lado da linha. Sem perceber, um sorriso suave já havia tomado conta de sua expressão. "Gus?"
Ouviu os sons abafados de Justin rindo e trocando algumas palavras com o garoto antes de voltar ao celular.
"Ele está ameaçando destruir a cozinha se você não chegar logo", Justin voltou à linha, rindo de forma carinhosa das peripécias que, naquele momento, só ele podia ver.
Brian desejou ainda mais não ter saído de casa naquela manhã. Gus chegara na noite anterior, mas o cansaço da viagem do Canadá até West Virginia só lhe permitira esperar que as mães lhe dessem boa noite e fossem embora antes de adormecer no seu colo. Naquela manhã, saíra cedo demais, o garotinho ainda estivera dormindo, então Brian ainda não tivera a chance de curtir a presença do filho em casa.
"Diga a ele para esperar por mim", disse, ainda sorrindo.
"Ok. Dirija com cuidado." Uma pausa. Hesitação, de novo, mas Brian já sabia o que viria em seguida. "Amo você."
"Você também. Até."
"Até."
O sorriso não deixou seus lábios em momento algum.
N/A: Música de Oasis, The Importance of Being Idle.
Três observações:
a) Alguns talvez notem que eu mantive certas expressões no original, em inglês, como diner e sunshine. Espero que ninguém se incomode, mas é pura questão de praticidade - e também costume, já que eu assisti a todo o seriado em inglês. Às vezes, é difícil tentar traduzir certas expressões para o português - elas acabam perdendo um pouco do sentido original. Quaisquer dúvidas, sabem por onde tirá-las.
b) O trecho citado no meio da história é da música Lay All Your Love On Me, do ABBA. Chiquitita foi a música, também do ABBA, que tocou ao final do episódio 2.04.
c) Vai haver uma continuação para essa parte, que vai ser retomada na parte IX.
Até.
