Capítulo 02
Ela se mudou uma semana depois.
O trabalho era fácil. Inu não era relaxado e, embora fosse claramente acostumado a viver com dinheiro, não exigia refeições sofisticadas. Ela tinha tempo suficiente para estudar e cuidar das tarefas domésticas. Além disso, ele fazia com que se sentisse em casa.
Tudo o que tinha que fazer era executar bem suas tarefas. Mas ele não exigia que trabalhasse o tempo todo que estivesse em casa. Era como o sistema do lar adotivo, em que ela logo percebeu que se trabalhasse direito e se fizesse indispensável, sempre teria um lar.
O único problema de seu acordo perfeito com Inu foi que ela se apaixonara perdidamente por ele. E ele deixou claro que não queria mais que amizade...
As namoradas dele eram lindas, sofisticadas e faziam com que Kagome se sentisse menos que comum. Todas elas realçavam uma verdade que ela não podia negar: mesmo que não trabalhasse para ele, Inu Ouji jamais a consideraria outra coisa que não uma amiga.
No meio do último ano dele na faculdade, ele terminou com a última namorada. Em vez de namorar outra mulher de beleza estonteante, preferiu a companhia de Kagome... Para jantar, ir ao cinema, a eventos esportivos ou até mesmo a festas.
Os sentimentos que viveu naquele mês ainda eram vividos seis anos depois.
Era uma cruz entre o inferno e o paraíso. Ela adorava o tempo que passavam juntos e seu coração suscetível se deleitou com toda a atenção dele. Mas ela nunca esquecera o aviso de que perderia o emprego se tentasse algo além de amizade. Não que fosse fazê-lo. Ela não era tola de pensar que a mudança nos padrões de namorada dele significariam alguma coisa para ela.
Entretanto, certa noite tudo mudou.
Ela estava aconchegada no sofá de veludo da sala de estar, estudando para a prova, quando ele chegou.
Muito atraente em uma calça jeans e um suéter Ralph Lauren sobre uma camiseta azul-marinho, ele fez com que ela tivesse sensações capazes de mudar seus ideais de virgindade.
Só esperava que seu desejo não estivesse estampado no rosto.
— Oi. Vai jantar hoje?
— Podíamos sair.
— Bem que eu queria — ela respondeu sinceramente. — Mas tenho que estudar.
— Você trabalha muito. Precisa de uma folga.
— Não, não preciso. — a vida nunca fora fácil para ela. — Você é que é mimado.
— E é você que me mima. — ele se aproximou, e seu cheiro masculino tentador atiçava os sentidos dela. — Deixe-me mimá-la e levá-la para jantar.
— Não posso. De verdade, Inu. Tenho três testes amanhã.
Ele sacudiu a cabeça em tom de desaprovação.
— Você não teria tantas provas se não tivesse aulas extras.
— Eu pego o máximo que a bolsa permite. Quero acabar logo o curso. É melhor para mim, pois posso começar a trabalhar mais cedo.
— Se você me deixasse pagar suas despesas pessoais até o fim da faculdade, não teria com que se preocupar.
— Não precisa. Você já faz o suficiente. Às vezes você faz coisas demais.
— Você é muito teimosa. E não faço nada que não mereça.
— Bem, como não vai morar aqui no ano que vem, não poderá dizer que estou fazendo por merecer, certo?
— Pode considerar outra bolsa de estudos.
Ela não era a única teimosa.
— Não.
— O que vai fazer ano que vem?
— Arrumar um emprego ou dois e procurar um apartamento. Acho que uma das meninas da faculdade quer dividir o aluguel. — ela detestava falar sobre o ano seguinte, quando Inu partiria.
Doía saber que ele sairia de sua vida tão de repente quanto entrou. Ela tinha uma terrível suspeita de que sentiria saudades dele para sempre.
— Não há razão para não ficar aqui.
— Há várias razões. Essa casa não é minha.
— É minha, e preciso de alguém que cuide dela.
— Não, não precisa. Você quer fazer caridade e não aceito. Por favor, pare de insistir. — ela detestava discutir com ele tanto quanto detestava a idéia de não vê-lo mais.
Ele riu e sua expressão oscilava entre a de um macho dominador e a de um homem confiante.
— Sou muito bom em fazer as coisas do meu jeito.
— Já percebi. Moro com você há algum tempo.
Ele tomou o livro da mão dela e o jogou no sofá, agarrando seus pulsos e levantando-a.
— Então, você deve aceitar que, se eu quero sair para jantar com você hoje, essa será a situação mais provável para a nossa noite.
Ela aplicou um golpe no corpo firme dele e lutou o máximo possível para se soltar, embora ele não estivesse machucando.
— Preciso estudar.
— Você precisa comer. No que isso pode ser prejudicial?
— Vamos demorar. Você nunca vai a qualquer lugar só para comer.
— Então, de repente, pode haver um filme interessante em cartaz... Você precisa descansar. Eu já falei.
— E, porque você falou, devo considerar isso como verdade?
— Sim, como inteira verdade.
Ela virou os olhos.
— Você é muito arrogante para quem ainda nem fez 25 anos.
— Fui criado assim.
— Creio que sim. — ela nunca perguntou sobre a história dele, mas não era necessário muito esforço para perceber que ele vinha de uma família rica.
— Por que não convida uma de suas amigas para ir ao cinema?
— Estou convidando. Você.
— Sou sua governanta.
— E minha amiga.
Talvez... Mas, de alguma forma, ela não os via trocando telefones e cartões de natal depois que ele fosse embora. E isso era decisivo para ela. Seu tempo na vida de Inu Ouji era curto. Tinha de tirar proveito disso.
— Certo. Estudarei quando voltarmos. Vamos a uma sessão cedo.
— Seu desejo é uma ordem, querida Kagome. — ele selou a promessa com um beijo.
Nos lábios dela.
Ele nunca fizera isso.
A parte racional do cérebro dela dizia que aquele tipo de saudação era comum para ele, mesmo que ela sempre tivesse evitado qualquer contato físico entre eles.
Mas seu corpo tinha outras idéias, e os lábios que haviam beijado apenas outro rapaz antes ficaram instantaneamente macios contra os dele, abrindo-se em um convite inequívoco. Sendo o predador natural que era, ele aceitou a profundidade do beijo com voracidade.
A língua dele escorregou por entre os lábios dela e deslizou por sua língua. Ela sonhara com o gosto dele, mas nenhum sonho era comparável ao sabor daquela boca. Os lábios e a língua dele exploravam-na com tanta experiência que ela gemia de prazer. Ele emitiu um som gutural em sua garganta que provocou arrepios no corpo dela. Em seguida, ele a puxou para mais perto pelos quadris.
Os dedos dela se remexiam pelo suéter dele, agarrando tão forte que a roupa teria rasgado, se não fosse de qualidade.
Ele passou as mãos ao redor dela, trazendo-a para o contato íntimo com a parte inferior do seu corpo. Ela sentiu a rigidez dele contra a sua barriga, mas não pôde pensar no que aquilo significava. Estava muito ocupada sendo devorada por um beijoqueiro experiente. E adorando.
Uma pequena parte de sua sanidade e a fraca voz da razão perguntaram o que ela pensava que estava fazendo, mas ela não tinha respostas. Uma voz ainda mais estridente, a de um amor irrequieto, dizia a ela que não teria uma chance como aquela novamente. Ela tinha urgência de experimentar o máximo possível com ele.
Seu coração e seu corpo clamavam para que obedecesse a essa voz.
Inu fez algo com a mão nas costas dela e seus joelhos envergaram.
De repente, ela estava tombando para trás, e ele vinha junto. Ela caiu com parte do quadril fora do sofá e não conseguiu se equilibrar, e os dois foram parar no chão. Ela caiu sobre ele, mas felizmente ele manteve os lábios dos dois unidos. Ele gemia e a apertava sobre seu corpo, acomodando a coxa musculosa entre as pernas dela. Ela ficou totalmente imóvel, com sensações percorrendo todas as suas terminações nervosas, fazendo com que tremesse e afastasse a cabeça da dele.
Aquilo já era demais.
Ela tentou segurar nos lábios um pequeno choramingo, mas ele escapou.
Ele olhou para ela, os ângulos de seu rosto tomados por uma emoção que ela não reconhecia.
— Eu a machuquei?
Ela sacudiu a cabeça, incapaz de falar.
— Você choramingou.
Ela olhou para ele, muda, abrindo ligeiramente as pernas em um gesto involuntário que tentou imediatamente retificar, sem sucesso. Ele se acomodou mais firmemente entre as pernas dela, e o efeito foi um abraço mais forte da sua coxa contra as pernas dela.
Ela gemeu e fechou os olhos para não ver o desgosto que haveria nos olhos dele. Ela prometera nunca fazer isso, mas era como se seu cérebro tivesse perdido o controle do corpo e tivesse assumido vontade própria.
O fato de sua razão seguir seu coração não ajudava seu autocontrole.
— Abra os olhos, Kagome — ele pediu em um tom que ela duvidava que alguém fosse capaz de desobedecer. — Olhe para mim.
Ela se fortaleceu para lutar contra a raiva dele e abriu os olhos.
— Desculpe — ela conseguiu sussurrar.
Longe de terem raiva, os olhos dele estavam emoldurados por um olhar que ele nunca dedicara a ela.
— Por quê?
Antes de olhar para os olhos dele novamente, ela fitou seus lábios.
— Por ter beijado você.
— Eu beijei você.
Mas ela provocou mais. Foi ela que abriu a boca.
Ela simplesmente sacudiu a cabeça, sem conseguir pronunciar suas palavras.
— Você me deseja. — ele soava como se nunca tivesse pensado nisso, mas, ainda assim, não parecia irritado com o fato dela ter quebrado o pacto. — Desde quando?
Ela virou a cabeça, orgulhosa demais para responder. O sofá estava tão próximo que ela conseguia ver os detalhes do couro, mas isso não servia para distraí-la da presença dele.
Ele tocou o queixo dela com dedos implacáveis até que ela o olhasse novamente.
— Eu a desejo também.
— Deseja? — ela perguntou, impressionada. — Não é possível.
Ele riu e moveu-se contra ela para que percebesse as outras partes rígidas do seu corpo.
— Eu diria que é muito possível.
Quando ela percebeu as conseqüências do que falou, ficou corada.
Ele riu novamente e baixou a boca até a de Kagome. Dessa vez, foi a língua dele que pediu para entrar nos lábios dela. O beijo foi incendiário, transformando o senso de realidade dela em cinzas.
Tudo o que conseguia fazer era sentir. Todos os toques eram novos para ela, todas as carícias eram um passo para um mundo desconhecido, mas surpreendente. Um mundo em que a paixão ditava as regras e o desejo era uma presença tangível a seu redor.
Ele traçou as curvas do rosto dela e do pescoço com a pontinha dos dedos. Mas, quando ele atingiu os seios, seu toque mudou, ficando mais insistente, e ele apalpou suas curvas suaves possessivamente através do tecido da camisa de flanela que ela usava. Foi tão íntimo que ela estremeceu diante do impacto, enquanto ele resmungava em aprovação por ela estar sem sutiã.
Ele começou a apertá-la com uma astúcia experiente, fazendo com que sentisse ardor em sua parte mais íntima.
Ela precisava tocá-lo também, queria sentir a pele dele sem que houvesse obstáculos entre os dois. Ela tirou a camiseta dele de dentro da calça para que pudesse passar a mão por baixo do suéter. A pele dele estava mais quente do que ela esperava, emanando um calor que queimava deliciosamente os seus dedos.
E os pêlos do seu peito eram sedosos. Ela tocou todos os locais que conseguia alcançar, explorando o corpo musculoso dele com uma voraz inocência. Quando ela encontrou seus mamilos enrijecidos, parou e os circulou com um dos polegares, depois os roçou, sentindo um imenso prazer com a resposta passional dele.
Ela estava vagamente ciente de que ele desabotoava a camisa dela e a retirava.
Porém, somente se deu conta disso quando a mão dele tocou seu corpo nu. Toda a percepção dela foi consumida com a sensação das mãos dele em sua carne nua, quando os bicos dos seus seios endureceram quase dolorosamente e ela estremecia ligeiramente.
Ele a beijou pelo queixo e pelo pescoço.
— Você tem a pele tão macia, Kagome, tão gostosa.
A única resposta dela foi outro choramingo apaixonado, quando a boca de Inu encontrou o seio dela e, depois, um gemido, quando ele começou a sugar o bico. Ela deixou as mãos caírem ao seu lado, agarrando o tapete. Kagome jogava a cabeça para trás e para frente, e um som abafado que ela mal reconhecia saía de sua garganta.
E então ela deixou soltar palavras que não planejava em uma ofegante cascata.
— Oh! Eu sabia que seria maravilhoso, mas isso supera tudo. Estou sentindo tanto prazer, como se todo meu corpo estivesse formigando por uma picada de abelha.
Ele riu, tirando a boca do mamilo dela.
— Terei prazer em picar suas pétalas e beber de seu néctar com a minha língua.
As palavras eróticas provocaram-lhe arrepios e ela gemeu.
Ele sorriu obscuramente, voltando a sugar o corpo macio dela. Ela tentou arquear o corpo no chão, mas o corpo dele a impediu.
— Inu... Isso é tão bom... Tão bom... — a palavra saiu em um longo gemido que ela não tentou ocultar.
Ela não tinha certeza sobre como aquilo acontecera, mas ele estava sem a camiseta e o suéter e ela sentiu seu corpo nu contra o dele. Era maravilhoso e aconteciam coisas dentro dela que ela nunca imaginara-se capaz de sentir... A sensação de uma tensão crescente com a qual ela não sabia lidar. Simplesmente ficava mais forte e mais forte, e então ele abriu o zíper da calça dela, deslizando a mão para dentro.
Os dedos dele ultrapassaram a parte superior da calcinha e passaram entre os lábios excitados para pararem em seu local mais encantador. Algo aconteceu dentro dela. Era como um foguete explodindo, e ela gemia enquanto seu corpo curvava de tanto prazer.
— Isso, bella. Deixe-me sentir o seu prazer.
Ela olhava para ele, seu corpo estremecia enquanto os dedos dele continuavam com aquela brincadeira. Quem era Bella? Seus pensamentos dividiam-se quando um dedo quase escorregava para dentro dela e ele pressionava a palma da mão contra seu clitóris, prolongando o prazer.
Ele pressionou um pouco mais e ela sentiu uma dolorosa penetração, quando ele falou:
— Kagome! — a voz dele abafou-se com atordoante descrédito. — Você é virgem? — perguntou, tirando a mão do corpo ainda com sinais de sua intimidade.
— Sim.
Algo diferente lampejou diante de seus olhos e ele começou a sussurrar em uma língua que ela não entendia, beijando-a com vigor no rosto e no pescoço. Tomada de sensações, ela não entendeu o que estava acontecendo, até que ele começou a retirar a calça dela.
— Inu?
— O que, bella?
O uso do nome de outra mulher de novo fez com que ela bruscamente recobrasse o controle de si mesma. É claro que ele estava pensando que ela era outra mulher. Ele não iria desejá-la se fosse de outra forma, mas ela não podia entregar sua virgindade assim. Poderia?
— O que você está fazendo? — perguntou ela estupidamente.
Ele riu, sua risada era rouca e ofegante.
— Fazendo amor com você.
Mas não era amor. Era sexo e ela não sabia se poderia passar por aquilo.
— Eu sou virgem.
— Eu sei.
— Eu quis dizer que não tomo pílula, ou qualquer outra coisa.
Ele já tinha abaixado a calça dela até os joelhos, puxando-a agora até os calcanhares.
— Eu tenho camisinha.
— Mas... — ela abaixou a mão para proteger-se, mesmo vestindo apenas calcinha. — Por favor, Inu. Espere.
Ele parou e olhou para ela, o olhar era aterrorizante em razão de sua intensidade.
— Você não quer fazer tudo?
— Você me chamou de Bella.
Uma vergonha constrangedora brilhou no fundo dos olhos dourados dele, confirmando o receio de ela ser uma substituta para outra mulher.
— Bem... Sim, mas você quer que eu explique?
— Não! — só de pensar em escutar o nome de outra mulher que ele já havia amado no momento em que ela estava deitada praticamente nua sob ele era repugnante. — De maneira alguma.
Agora, ele parecia confuso.
— Então, qual é o problema?
Será que ele era tão tolo assim?
— Eu não quero fazer amor com você enquanto pensa em uma de suas namoradas.
— Eu nunca faria uma coisa dessas — disse ele. Seu corpo todo se retesou de forma afrontadora.
Ela desejava realmente acreditar nele, mas o que havia feito senão aquilo?
Levada pelo receio de estar fazendo papel da outra e pensando no legado físico definitivo que o ato de fazer amor deixaria em seu corpo, ela declarou com toda honestidade:
— Não estou preparada.
— Eu acho que você está.
— Você me disse que me demitiria se eu alguma vez tentasse seduzi-lo. O que aconteceria se fizéssemos sexo agora? — perguntou ela.
A feição dele ficou soturna, a decepção estampada em seus olhos dourados.
— Sem dúvida alguma, arruinaríamos uma grande amizade — disse ele cinicamente.
Apesar dos protestos, não era isso que ela queria ter ouvido. A dor a invadiu.
— Eu acho que você está certo. Seria tolice fazer amor. Eu não posso me dar ao luxo de perder meu emprego por uma única noite de luxúria.
Ela odiou proferir estas palavras, por mais verdadeiras que fossem.
Ele fez uma guinada para afastar-se dela, como se estivesse totalmente desprovido de emoções.
— Eu não vou pressioná-la a fazer algo que pensa que possa prejudicá-la — disse ele rispidamente.
— Eu sei disso.
Ele não respondeu, mas moveu-se e sentou no sofá. Ela não pôde ver a expressão dele, pois sua cabeça estava abaixada e seu corpo forte estremecia-se entre uma respiração profunda e outra.
Sem a paixão de entregar-se, ela ficou envergonhada e rapidamente se vestiu. Kagome levantou-se um pouco constrangida e sem saber o que falar.
Após alguns segundos, até mesmo a respiração dele já estava controlada. Quando ele olhou para ela, não havia nada em seu olhar fixo que pudesse revelar que ele pensava. Ele simplesmente ficou sentado em silêncio, com as mãos balançando entre as pernas já vestidas.
— Inu, eu...
— Se eu a encontrasse nua em minha cama, não a demitiria.
Isso foi tudo que ele falou e então se levantou e foi embora da sala sem falar mais nada.
Um segundo depois, a porta da casa havia sido aberta e fechada, e ela estava completamente sozinha numa casa que parecia ecoar tudo o que não fora dito.
Será que ele realmente a desejava?
Quem era Bella?
Ela foi para o seu canto do sofá, lágrimas queimavam seus olhos. Será que ela tinha evitado um enorme erro ou havia cometido o maior equívoco da sua vida?
Essas questões e as palavras dele remoeram na cabeça de Kagome durante toda a semana seguinte.
As palavras surgiam em sua consciência assim que ela acordava e a atormentavam durante todo o dia. Por fim, passaram a causar insônia todas as noites. Quando ela dormia, sonhava com ele e o prazer que ele lhe havia proporcionado.
Ela acordava com dores entre as pernas e sonhando com ele. Seus desejos por ele cresciam absurdamente. Dois fatores a impediam de pular na cama dele: a lembrança dele chamando-a pelo nome de outra mulher e o fato dele raramente estar por perto. Sendo honesta consigo mesmo, tinha de admitir que, se o presente não era o caso, o passado não faria diferença.
Ele não tinha namorado nenhuma Bella que ela conhecesse, mas, quando Kagome tomou conta da casa no verão anterior, ele foi para casa. Poderia ter namorado qualquer uma naquela época. Será que ele havia se apaixonado pela Bella e ela o abandonara?
Isso explicaria o fato de ele não estar concentrado em seus relacionamentos com outras mulheres este ano, porque tivera apenas uma namorada e ela havia terminado com ele quando decidiu tornar as coisas mais sérias. Kagome odiava o pensamento de ser a substituta para outra mulher. De qualquer maneira o desejo de tentar conquistar o afeto dele por meio da paixão tornou-se mais irresistível a cada dia. Particularmente quando Inu ia se afastando e passando menos e menos tempo com ela.
Ele a queria e havia praticamente a convidado para a sua cama. Não podia simplesmente abandonar esses pensamentos.
Finalmente, o medo de perder o pouco que tinha dele foi decisivo. Passava das onze horas e Inu não estava em casa. Ele havia ligado dizendo para ela não se preocupar com o jantar, porque ele tinha uma reunião do grupo de estudo naquela noite. Numa sexta-feira à noite. Como se alguma vez tivesse ido a uma dessas reuniões. Ele a estava evitando e ela não podia mais aturar essa situação.
Ela sabia que seria difícil vê-lo ir embora ao final da primavera, mas não sabia que seria impossível viver na mesma casa e perder o pouco que tinha dele. Certo ou errado, dormiria com ele e esperava que isso trouxesse de volta a proximidade que eles haviam compartilhado antes do encontro na sala de estar. Valia a pena qualquer risco para ter um futuro com o homem que ela amava... Mesmo sabendo que poderia ser um futuro extremamente breve.
Ela vestiu sua camisola, longe de ter atrevimento suficiente para ir nua para a cama dele, e apagou as luzes da casa, exceto uma do hall. Depois, entrou no quarto dele, escuro e vazio. Seu coração batia aceleradamente. Ela não sabia como faria isso se ele realmente estivesse em casa.
A perspectiva de Inu encontrá-la na cama era muito menos desanimadora do que ela ter que explicar o que queria. Ele era esperto. Entenderia.
Mesmo assim, ela entrou cuidadosamente debaixo das cobertas, sentindo-se como uma ladra ou algo similar. Mas ele dissera que não a demitiria caso a encontrasse nua em sua cama. Ela pensava nisso enquanto aconchegava-se entre os travesseiros dele, respirando seu perfume. Eles ficariam íntimos naquela noite e então aquele horrível vazio em seu peito iria embora.
Enquanto ela estava ali, deitada esperando por ele, suas noites de insônia daquela semana se juntaram e seus olhos ficaram inacreditavelmente pesados. Sua última lembrança foi ter olhado para o relógio digital e ver que já passara da meia-noite.
Ela acordou com vozes sussurrantes do outro lado da cama. O colchão afundou ao mesmo tempo em que a lâmpada do abajur do outro lado da cama acendeu e ela ficou ofegante com o que lhe foi revelado.
Inu estava com a mão no ombro de uma mulher. Uma morena linda com impressionantes olhos castanhos. Sua blusa desabotoada revelava curvas perfeitas dentro de um espartilho preto.
— Kagome, o que você está fazendo aqui? — perguntou Inu, com seus olhos dourados arregalados em choque. Seus cabelos estavam obviamente desalinhados, conseqüência do que fazia antes de entrar no quarto.
— Dormindo — ela balbuciou, perplexa.
Uma explicação para os motivos de sua presença ali estava totalmente fora do seu alcance, e o coração de Kagome estilhaçava-se enquanto a linda morena olhava para ela como se Kagome fosse um inseto asqueroso.
O brilho da compreensão surgiu no olhar fixo dos olhos dourados de Inu e, junto com ele, um pouco de vergonha e desconforto que machucavam tanto quanto o olhar de escárnio da nova namorada dele.
— Kagome, eu... — pela primeira vez em 18 meses, ela via Inu Ouji perder a fala, mas a sua namorada, não.
— Por que a sua governanta está dormindo na sua cama? — perguntou a Inu, desconfiada.
— Esqueci de avisá-la que eu dormiria em casa esta noite. Hoje é dia de lavanderia. Ela não deve ter roupa de cama para usar. — como as desculpas saíam de sua cabeça sem sinal de hesitação, pareciam perfeitas.
Entretanto, saber que ele não queria que a outra mulher pensasse que poderia haver outra razão para Kagome estar em sua cama fez a cabeça dela queimar como ácido.
Os lábios da linda mulher enrugaram-se em tom de desaprovação.
— Ela deveria dormir no sofá, então.
— Sim. Eu deveria. — disse Kagome respeitosamente. Ela olhou para Inu, seus olhos a denunciavam. — Foi um grande erro ter entrado aqui.
— O momento não foi apropriado — disse ele em tom verdadeiro.
— Muito inadequado — concordou a morena. — Entretanto, o problema pode ser solucionado agora, não pode?
— Mas é claro. — Kagome saiu da cama, satisfeita por estar vestindo sua camisola branca de algodão.
Se ela estivesse nua, não suportaria a humilhação. Daquela forma, ela sentia raiva e humilhação, lágrimas queimavam sua garganta. Fora uma idiota em não perceber que o fato de um homem como Inu Ouji desejá-la não seria mais do que uma causalidade.
Recusando-se a justificar-se e claramente incapaz de pronunciar qualquer outra palavra, Kagome girou e saiu rapidamente do quarto. Ela correu pelo hall para seu próprio quarto e entrou apressadamente, batendo a porta e trancando-se antes de desmoronar no chão, entregando-se à dor que se espalhava rapidamente pelo seu corpo.
Fora muito estúpida em pensar que ele realmente a desejava. Ela achava que ele a evitava por não aceitar o fato de ter dito não, quando, na verdade, ele simplesmente havia encontrado outra mulher e estava passando seu tempo ao lado dela. Seus sonhos tolos estavam zombando dela com penosas acusações.
Mas ele não se deu ao trabalho de lhe dizer que havia encontrado outra pessoa. Provavelmente porque, para ele, não era outra pessoa, mas sim mais uma pessoa. O que ele lhe dissera não significava nada além de tranqüilizá-la a respeito do trabalho dela, após o embaraçoso desastre da semana anterior. Seu comentário não era, de modo algum, um convite. Não poderia ter sido, não com ele saindo com outra mulher logo em seguida.
Fora produto de sua mente fértil. Nada mais. Mas ele não deveria ter dito, se não queria dizer. Não era justo. Kagome pensou que iria vomitar, mas conseguiu engolir sua bílis. Em vez disso, pela primeira vez em anos, deixou cair suas lágrimas silenciosas.
Naquele momento, ela odiou Inu Ouji tanto quanto o amou.
