Capítulo 01: Os irmãos Tonks
Inglaterra – agosto de 1949
Uma brisa suave de começo de noite soprava, fazendo com que os papéis empilhados sobre a mesa de vidro se espalhassem em todas as direções. A bagunça, entretanto, não parecia incomodá-lo, não quando estava tão ocupado com sua nova experiência.
Cuidadosamente, o garoto controlou o fogo sob a ampola de vidro, onde um líquido cor de sangue começava a borbulhar. Sob a bancada, uma miríade de pozinhos coloridos se confundia com instrumentos de medição, pipetas e balões de vidro vazios.
Os olhos claros dele brilharam com a dança das chamas, enquanto ele observava, deliciado, pequenas formas gosmentas aparecerem dentro de sua ampola.
- Estamos quase lá, não é verdade, Áster? Quase lá...
Ele sorriu, erguendo o rosto de modo a encarar uma pequena hamster, deitada preguiçosamente dentro do seu cercado, totalmente desinteressada dos experimentos de seu dono.
Nesse momento, batidas soaram na porta e ele imediatamente aprumou-se, totalmente ereto, escondendo o bico de gás com o corpo ao mesmo tempo em que a maçaneta girava, abrindo-se para revelar alguém.
- Sinto muito, Órion, a luva e as máscaras já denunciaram você. – um homem alto, de cabelos negros ligeiramente grisalhos e olhos claros como os do garoto, anunciou com um meio sorriso – Achei que sua mãe tinha proibido experiências no quarto. Ela não adaptou o sótão para você?
Ele deixou os ombros caírem, ao mesmo tempo em que tirava as luvas e a máscara, soltando também o cabelo, que até ali estivera preso por um dos elásticos da irmã para não cair sobre seus olhos.
- Não há espaço suficiente lá para isso, pai. – Órion respondeu, suspirando, antes de se virar para a mesa novamente – E ela também nunca me deixaria passar a noite no "laboratório" para acompanhar a evolução de um determinado experimento...
O homem meneou a cabeça, ainda sorrindo, fechando a porta atrás de si antes de se aproximar do filho.
- E o que essa belezinha faz desta vez?
- É um ácido. Ligeiramente corrosivo. Reage com pólvora. Perfeito para um exame de balística. Tio Remus estava comentando outro dia sobre a inexistência de exames químicos para determinar se há resíduos de projétil nas armas apreendidas... Eles precisam de um técnico em balística para determinar se as ranhuras de uma bala são iguais aos do cano da arma... Nunca há muita certeza nesses laudos que os técnicos fazem, na maior parte das vezes os réus conseguem se safar argumentando haver falta de provas e...
- Você achou que poderia ajudar. – o moreno completou pelo filho, meneando a cabeça – Eu não sei se devo me sentir orgulhoso ou preocupado em saber que, diferente da maior parte dos garotos da sua idade, você está preocupado com esse tipo de coisa.
Órion deu de ombros.
- É apenas um hobbie. Não muito diferente da Lyncis com a esgrima. Ou com o tiro ao alvo. A diferença é que ela prefere um pouco mais de ação do que eu...
- Às vezes eu tenho que concordar com a Susan quando ela começa a resmungar "Sirius, o que você pensa que está fazendo ensinando isso a eles?". – ele meneou a cabeça – Bem, falando na sua mãe, eu estou aqui por imposição dela.
O garoto sorriu.
- Deixe-me adivinhar... Precisamos ter uma conversa de homem para homem agora que finalmente vou sair de casa.
- Mais ou menos por aí. – Sirius piscou o olho – De qualquer forma, não é como se eu estivesse muito preocupado, mesmo porque, você terá bastante gente para ficar de olho em você. Mas confesso que estou pelo menos um pouco preocupado sim, Órion.
Sirius se sentou na beirada da cama do garoto, observando-o com cuidado.
- Você é muito diferente da sua irmã. Ela é mais expansiva, teimosa, pavio-curto. Extremamente emocional. Eu sempre sei o que esperar dela, mesmo porque, somos muito parecidos. Você, entretanto, prefere se reger pelo racional. É mais frio, mais ponderado... Mais fechado.
- Já conheço essa ladainha. Mamma sempre a tem na ponta da língua. Ela vive reclamando que eu só faço amizade com pessoas mais velhas do que eu. Que eu deveria aproveitar mais a minha idade.
Sorrindo, Sirius puxou o filho de modo fazê-lo se sentar ao seu lado.
- Ela tem razão até certo ponto, Órion. Você precisa aproveitar um pouco mais enquanto as responsabilidades da idade não caem sobre os seus ombros. Mas eu não condeno de forma alguma seu interesse por "balística" e outras coisas do tipo. Não tendo crescido no meio em que cresceu. – ele fez uma pequena careta – Sabe, esse discurso de pai responsável também não me agrada muito. Quem deveria estar fazendo isso era sua mãe.
- Eu imagino que ela tenha que ter sido bem persuasiva para convencê-lo a dizer tudo isso quando, lembrando o que a Lyn costuma dizer, o senhor prefere nos aconselhar a explodir alguma coisa...
- Ah, sim... – o homem riu, abraçando-o pelos ombros e trazendo-o mais para perto – Agora, cá entre nós... Quando chegar à Academia, não se esqueça de explodir alguma coisa por mim. Eu odiava aquele lugar na sua idade.
- Odiava? – Órion estreitou os olhos – Eu pensei...
Sirius se levantou.
- Na época, eles ainda não aceitavam garotas... – ele respondeu, sério – Bem, divirta-se, filho. E tranque a porta depois que eu sair. Vou tentar manter sua mãe ocupada esta noite para que você termine sua experiência. Tenho certeza que Remus aprovaria isso e, se ele aprova, então é perfeitamente legal.
Piscando o olho, ele voltou-se para a porta, mas parou ao ouvir a voz do filho chamando-o.
- Pai? – Órion sorriu ao encarar os olhos de Sirius – Eu prometo que vou explodir alguma coisa pelo senhor.
O outro assentiu, sorrindo.
- É assim que se fala, filho... É assim que se fala...
- Eu aposto que ele vai distorcer tudo o que eu disse... Sirius não consegue conjugar na mesma frase "comporte-se" e "cuide-se". Aposto que ele vai pedir ao seu irmão para explodir alguma coisa quando chegar na Academia...
Enquanto dobrava mais uma blusa para colocá-la dentro da mala, a moça sorriu de lado, escondendo o rosto da mãe. Mesmo tendo sido criada na Inglaterra, Susan nunca negara os vínculos italianos, a típica matriarcalidade das famiglias...
Lyncis voltou para o armário, passando pela mãe sem olhá-la. Para Susan, era como se a filha não estivesse ali – a mulher estava ocupada demais resmungando para notar o que quer que a moça estivesse colocando na mala.
Era a oportunidade perfeita... Deixando os cabelos negros caírem sobre seu rosto, de modo a encobrir o rubor que certamente subiria às suas bochechas sempre que estava perto da mãe fazendo alguma coisa errada, Lyncis tateou a gaveta dos pijamas, logo sentindo o volume de um pequeno revólver sob um tecido de seda.
Os olhos azuis brilharam enquanto ela puxava a camisola na qual a arma estava envolta. Em seguida, controlando os passos para que Susan não percebesse sua ansiedade, ela voltou-se novamente para a cama, enfiando o embrulho no fundo da mala.
Quando percebeu que conseguira driblar a vigilância da mãe, que se postara ali exatamente para impedi-la de levar qualquer coisa potencialmente perigosa para a Academia, Lyncis esboçou um sorriso, muito parecido com o do pai.
- Se a senhora acha tudo isso, por que mandou o pappa ir conversar com o Òrion? Por que não foi a senhora mesma?
Susan estreitou ligeiramente os olhos para a filha.
- Porque seu pai tem que dar algum exemplo nesta casa! E porque alguém tinha que vigiar a senhorita. Não pense que só porque entrou na faculdade este ano, que eu não esteja de olho em você, mocinha.
- Sua confiança me lisonja, mamma. – Lyncis sorriu – Bem, terminei de arrumar minhas malas. A senhora pretende conferir ainda?
A jovem forçou-se a fazer sua cara mais inocente enquanto Susan a observava pensativamente.
- Não. Tranque a mala e peça a alguém para levá-la lá para baixo. E ai de você, mocinha, se eu receber alguma reclamação do reitor acerca do seu comportamento.
- Sim, senhora! – Lyncis assentiu, passando um pequeno cadeado pela mala enquanto Susan voltava-se para porta – Ah, eu quase me esqueci... Quando nossos primos chegam dos Estados Unidos?
- Amanhã de manhã vamos pegá-los no aeroporto. – Sirius, que acabara de abrir a porta, respondeu – Malas devidamente prontas?
Lyncis sorriu.
- Com certeza.
- Bem, então só resta lhe dar boa noite. – Susan também sorriu, aproximando-se da filha, beijando-a levemente na testa – Buoni sogni, caríssima.
- Buona notte, mamma. – ela respondeu, abraçando a mãe – Boa noite, pappa.
- Boa noite, pequena. – ele sorriu, ao que ela sapecou um beijo em sua bochecha.
Lyncis observou os pais voltarem para a porta e logo se jogou para a cama, engatinhando no meio dos lençóis antes de estender-se, abraçando o travesseiro. Susan fechou cuidadosamente a maçaneta do quarto da filha e já se dirigia para o de Órion quando Sirius colocou uma mão em seu ombro.
- Ele já está dormindo. – o moreno sussurrou – Eu o coloquei na cama hoje.
Susan sorriu, mas logo seu semblante ficou sério.
- Conversou com ele?
- Claro que conversei! Você não pediu que eu conversasse com ele? Pois então? Eu sou um marido muito obediente. – o sorriso dele tornou-se ligeiramente malicioso nesse ponto enquanto ele a guiava para o quarto do casal – Não acha que eu mereço uma recompensa?
Ela meneou a cabeça.
- Eu juro que não sei qual é a criança da casa... Se você ou seus filhos... – ela revirou os olhos, no que ele lhe roubou um beijo.
- E mesmo assim, você me ama. Deve ser o instinto maternal, não? – ele perguntou, fechando a porta e puxando-a pela cintura.
- Você vai querer que eu cante uma música de ninar para você dormir também? – Susan perguntou, tentando manter-se séria, muito embora mantivesse um sorriso no canto dos lábios.
- Talvez mais tarde... – ele respondeu, pegando-a no colo – Bem mais tarde...
Lyncis apoiou o queixo na porta do carro, embaçando a vidraça com sua respiração. Ao lado dela, Órion observava as ruas de Londres passarem rapidamente diante deles, enquanto o pai dirigia.
- Lily e James já foram para o chalé. – Sirius observou para a esposa, que também observava as ruas pela vidraça – Telefonei hoje de manhã para o escritório e Tiersen disse que eles partiram ontem à noite.
- Harry já voltou da Toca? – Lyn perguntou, sem desviar o olhar da paisagem.
Susan deu um meio sorriso para Sirius, que meneou a cabeça.
- Não. Pelo que entendi, ele vai amanhã para o chalé. Mas no final de semana ele já estará lá. E vocês vão com ele para a Academia.
Finalmente, a morena voltou a atenção para o pai.
- Não sei porque temos que ir com o Harry. Eu poderia perfeitamente dirigir.
- Fale por si mesma, Lyn. – Órion cortou a irmã – Eu só andei com você de carro uma vez. E foi para nunca mais. Eu tenho amor à vida.
Ela estreitou os olhos.
- Pensei que gostasse de viver perigosamente, caçador. Não passa pela sua cabeça que eu tenha melhorado daquela época para cá? E que suas invenções e experimentos são muito mais perigosos do que sua irmã ao volante?
Órion estava pronto para responder quando Susan virou-se para eles.
- Já vão começar a brigar tão cedo? O que seus primos vão pensar?
- Que somos pessoas normais. Já viu algum irmão se dar bem com o outro? – Lyncis respondeu.
- Harry e Claire se dão muito bem. – Sirius observou, rindo.
- É... Espere até ela ter idade suficiente para ter opinião própria e o senhor verá se eles se dão bem mesmo... – Lyncis voltou-se para a vidraça mais uma vez, notando que estavam agora bem próximos do aeroporto – Será que eles já chegaram?
- Ainda faltam dez minutos. – Órion informou, olhando para o relógio no pulso – Eu imagino como eles são... Dizem que os americanos são tão diferentes... Será que eles tomam chá às cinco?
- Andrômeda certamente manteve algumas tradições. – Sirius observou, rindo – Basta ver os nomes deles... Muito embora eu ache que ela os tenha escolhido por serem os mais estranhos da carta de astronomia... Nymphadora e Achernar.
- Como se você pudesse dizer alguma coisa... Ou se esquece dos nomes dos nossos filhos? – Susan perguntou, arqueando a sobrancelha.
- Hei! Eu pelo menos tive bom gosto! E, confesse, Lyncis e Órion são muito mais interessantes que Matteo ou Silvia. Eu prefiro nomes de estrelas a nomes de santos.
Órion e Lyncis se entreolharam, meneando a cabeça.
- Vocês não vão começar essa discussão de novo, não é? – Órion perguntou, sentindo o carro parar.
Lyncis foi a primeira a pular para a calçada, observando o prédio diante de si. O Heathrow fora inaugurado em 1946. Ela se lembrava das vezes em que fora encontrar os pais ali, quando os terminais ainda eram barracas de lona, sob chuvas torrenciais, típicas da capital inglesa.
Agora o aeroporto crescera, desbancado o Croydon, até então o principal aeroporto de Londres. James e Sirius tinham ações dos dois, mas ultimamente vinham investindo pesado no Heathrow, junto com vários outros sócios, dispostos a transformar aquele lugar na "esquina do mundo".
Ela sorriu, sentindo a mão de Susan em seu ombro.
- Vamos indo?
Os quatro Black seguiram para dentro do aeroporto, parando algumas vezes para que Sirius cumprimentasse um ou dois conhecidos e Susan acenasse para algumas amigas. Sempre que estavam em ambientes públicos como aquele, Lyn se perguntava, olhando para cada um daqueles rostos ansiosos a se aproximarem de seus pais, se eles sabiam dos Valetes e se não pertenciam ao clube.
Sirius separou-se deles por alguns instantes, procurando algum balcão de informações onde pudesse saber se o vôo dos visitantes já chegara.
- Como você acha que eles são? – Órion perguntou à meia voz para a irmã.
- Não devem ter barbatanas nem usarem aquários na cabeça, se você quer saber. – ela respondeu, levemente irônica – O tal do Achernar vem estudar música na Academia. Provavelmente é um cara todo engomadinho, de óculos fundo de garrafa, que só usa blazer e adora Chopin. Quanto à Nymphadora... Bem, ela vai trabalhar na Scotland Yard. Tome o tio Remus como exemplo.
- Você falando desse jeito dá a impressão de que não gosta deles mesmo antes de conhecê-los. Na verdade, eles parecem terrivelmente tediosos pela sua descrição. – Órion observou, sem olhar para a morena.
- Não é que eu não goste deles. Mas as minhas descrições cabem perfeitamente no perfil que o pappa disse que eles têm. – ela respondeu, dando de ombros.
- Então comece a rever suas descrições. – Órion voltou-se para ela, fazendo um sinal com a cabeça enquanto Sirius voltava a se aproximar – Eu tenho a ligeira impressão de que são eles ali.
Lyncis seguiu a direção que o irmão lhe apontava e arqueou a sobrancelha. Um casal vinha se aproximando, ignorando totalmente os guardas da alfândega. A moça, que parecia ser a mais velha, chamava a atenção pela mecha cor-de-rosa que se destacava contra os cachos negros, negligentemente presos no alto da cabeça, fazendo um estranho volume sob a boina que ela usava.
Ao lado dela, o rapaz parecia quase sumir. Ele tinha a expressão cansada - provavelmente porque sua companheira deixara todas as malas para que ele carregasse - mas havia um brilho intrigante nos olhos dele; olhos azuis, herança de todos os Black.
Órion tinha razão... Eles não se pareciam muito com o que ela imaginara a princípio... Especialmente pela moça. Isso é, se aqueles eram realmente Nymphadora e Achernar Tonks.
Muita gente também observava o casal, curiosos. Os dois pararam diante de Sirius, que se adiantou para a moça.
- Sirius Black? – ela perguntou, tirando a boina, fazendo o cabelo escorrer até o ombro.
Lyn observou o pai sorrir, estendendo a mão.
- Imagino que vocês sejam Nymphadora e Achernar.
- Só Tonks, por favor. - os dois ecoaram quase ao mesmo tempo.
Sirius riu.
- É, eu concordo... Bem, Tonks... Hum... Os dois... Sejam bem vindos à Inglaterra. Esta é minha esposa, Susan e meus filhos, Lyncis e Órion.
Nymphadora sorriu, abraçando primeiro Susan, depois Lyn e Órion, enquanto Achernar largava as malas na mão para cumprimentar Sirius.
- É um prazer finalmente conhecê-los. Mamãe sempre fala muito do senhor. – Achernar estendeu a mão para o outro homem.
- Com certeza! Ela vive falando como vocês costumavam dar dor de cabeça para seus pais. – Nymphadora completou, bem mais expansiva que o irmão – Aliás, o senhor é bem mais bonito do que ela descreveu. Mesmo já estando um tanto velho. Aliás, a família toda!
Susan abaixou a cabeça, escondendo o sorriso, enquanto Sirius observava a moça com ligeiro embaraço. Órion e Lyn se entreolharam.
- Bem, vamos começar acabando com esse negócio de senhor. Podem me chamar de Sirius. Quanto ao elogio, muito obrigado. Agora, o carro está lá fora, eu imagino que vocês estejam cansados...
- Nem um pouco. – Nymphadora respondeu rapidamente.
- Muito. – Achernar bufou, revirando os olhos.
Lyn aproximou-se do primo, tomando uma das valises das mãos dele.
- Aqui.Pode deixar que eu ajudo.
- Obrigado. – ele respondeu com um sorriso, os olhos novamente brilhando – Minha irmão é meio louca, sabe. Não preste muita atenção nela...
Lyncis sorriu. Bem, ao final das contas, os primos eram pessoas normais. Como todo casal de irmãos, um achava o outro mais louco que o outro. Ela meneou a cabeça para espantar esse pensamento.
Aquele intercâmbio de famílias seria bem divertido...
