Parte I
A Senhora das horas – Rejeição e descontrole.
Podia-se ouvir um barulho estranho. Como se algo estivesse girando velozmente. Ao centro, um círculo começa a se destacar e a cada segundo o som se tornava mais audível. Era uma roda com uma seta cuja cor não é importante, uma espécie de roleta feita de madeira polida. Ela girava incessantemente. Deveria ser pesada, a julgar pelo seu tamanho.
Sua velocidade estava mais fraca agora, percebem-se algumas inscrições nela. Números. 1900. 1556. 2005. 1747. Eram datas! Uma sombra surgiu ao lado da roda. Não se podia ver como a pessoa era mas parecia uma mulher. Sua capa longa e capuz suspenso, cuja cor não se pode saber, cobriam-lhe o corpo e o rosto. Ela exalava mistério.
A seta percorria as datas lentamente agora. Até que parou...
Interior da Inglaterra, novembro de 1918.
Praça dos Iluminados.
O badalar do sino era estrondoso. Mulheres e crianças se dirigiam à igreja calmamente. Ela questionava-se sobre como os outros poderiam parecer tão tranqüilos, como se nada estivesse acontecendo ao redor deles, como se ela fosse a única pessoa cujo coração estava inquieto.
Subiu as escadas da pequena igreja, típica capela de interior. Era bonita e bem arrumada. Tinha um aspecto confortante, sempre tivera. E esse era o motivo para ela estar ali. Procurava um pouco de paz.
Sentou-se no início de um dos bancos centrais. Viu a senhora Weasley e sua filha Gina – com Rony ao seu lado – logo a frente. Ela, sim, tinha sorte. Seu filho, Ronald, fora dispensado do exército. Draco também fora, mas mesmo assim se ofereceu para o serviço militar.
Molly Weasley aproximou-se com um sorriso, que a moça custou a retribuir, e sentou-se ao seu lado.
– Como está, minha querida? – perguntou carinhosa. Sempre atenciosa, como uma mãe.
– Preocupada, Srª Weasley – respondeu abatida. Molly a encarou triste.
– Tudo há de ficar bem – rebateu segurando uma de suas mãos. – Você verá! – e a encarou. Seus olhos eram cheios de esperança.
Hermione não lembrava nem mesmo do significado desse sentimento.
Suspirou. Seria a enésima vez que explicaria a ela que Draco não a amava. Não mais do que amava a liberdade. Repetiria a história completa sobre o porquê dele ter ido para a guerra. Afirmaria que ela era uma burra por amá-lo mesmo assim e por querer que ele voltasse vivo disso tudo. Que ela preferiria que ele estivesse em casa ignorando-a, em vez de nunca mais poder vê-lo. Que ele nunca compreendia tudo o que ela fazia por ele. Todas as renúncias...
– Ele é um ogro Srª Weasley – ela sussurrou, não agüentando mais ouvi-la falar bem dele. – Um ser com o coração de pedra – disse e encarou a ruiva que se calara assustada com as ofensas proferidas por Hermione.
– Mas minha querida... – começou.
– Pare Srª Weasley! – pediu séria. – Não seria de meu agrado discutir com a senhora sobre o meu relacionamento com Draco – os olhos azuis da ruiva se detiveram na jovem por mais alguns minutos até que se ouviu um burburinho vindo de fora da igreja.
Todos se viraram e viram uma mulher, com seus quarenta anos, entrar esbaforida na igreja (com as bochechas rosadas pelo esforço, o peito arfante e os cabelos negros bagunçados).
– Acabou! – gritou em êxtase. – A guerra... eles chegaram... acabou! – falou segurando a manga da roupa de um sacerdote que a acalmava.
– Draco – Hermione sussurrou levantando-se.
E, assim como ela, muitos se ergueram. E uma correria até a rua se iniciou. Mione meteu-se no meio das pessoas. Empurrava-as e pisava em alguns pés. Precisava chegar até a rua.
Quase caiu ao tropeçar em um dos degraus da igreja, mas manteve o equilíbrio ao ver o ônibus do exercito parado logo a frente. Os jovens começavam a descer, com suas sacolas a mão, e em poucos minutos criou-se um tumulto na praça. Hermione o procurava com os olhos, mas era quase impossível ver alguém naquele mar de cabeças. Torcia para que ele estivesse bem. E seu coração era espremido pelos pensamentos negativos que vagavam pela sua mente.
– Hermione? – ouviu alguém chamar.
Seu coração disparou sensivelmente nos poucos segundos que levou para virar-se. Draco parecia muito abatido, cansado, doente. Mas estava inteiro. Tinha os dois braços, as duas pernas e nenhum arranhão.
Ela correu até ele e o abraçou forte. Sentiu, por um momento, o corpo dele relaxar junto ao seu. Sua mão livre aproximou-se lentamente das costas dela. Seus dedos estavam tensos e ao encontrarem o tecido macio que cobria o corpo dela, agarram-no.
Segundos depois sentiu que ela o beijava com desespero. Foi molhado, molhado por lágrimas que escorriam incessantemente pelos olhos dela.
Afastou-a logo em seguida e a encarou.
– Não faça mais isso – disse baixinho, porém sério.
Ela ameaçou derrear a cabeça, mas conteve-se e encontrou forças.
– Continua sendo o mesmo – ela disse amargurada. – Não sei por que pensei que está guerra fosse mudá-lo – ele viu uma última lágrima descer pela sua bochecha até cair no chão.
– Parece que não me conhece, Hermione – ele rebateu tranqüilamente. Era riu irônica.
– É que, às vezes, você parece um ser humano e não um ser inanimado, incapaz de possuir algum sentimento.
A mulher encapuzada girou a roleta. E dessa vez o cenário mudou antes mesmo que a última parasse de rodar.
Londres, dezembro de 2007.
Residência dos Malfoy.
– Eu estou cansado disso tudo! – ele gritou apontando o dedo para ela. – Para mim já chega! – ela deu um tapa na mão dele, afastando seu dedo de perto dela. Ele a encarou com raiva.
– E a culpa é minha?! – ela rebateu no mesmo tom. – Apenas minha? – ela se acalmou. – Pare de me culpar por todos os nossos problemas como se eu fosse a ovelha negra da nossa relação!
Ela havia perdido o controle. Ela nunca perdia o controle. Precisava retomá-lo, precisava manter-se centrada.
– Você é a culpada por tudo isso! – ele disse entre dentes. – Você conseguiu estragar a minha vida!
Ela acertou-lhe um tapa no rosto. Draco virou com o impacto, e, tomado pela raiva, pegou um jarro de vidro que estava na estante próxima a ele e o arremessou na direção de Hermione.
Ele ouviu o vidro bater na parede e espatifar-se.
– Ai! – ela gritou.
Ao olhar para ela, viu seus braços erguidos, como se protegesse o rosto. Também pôde ver pequenos cortes ali.
Mione abaixou os braços lentamente e ele pôde ver um corte fino, de ponta a ponta, do lado esquerdo do rosto da jovem. Ela tocou levemente o local, sentia arder e sabia que sangrava superficialmente, mas nenhum sentimento era mais forte do que o ódio que tomou conta dela. Olhou para o marido que a encarava estático e chorou silenciosamente. Chorou de raiva, raiva de si mesma por ter se apaixonado por alguém como ele.
