O Caso do Livro Roubado
Capítulo 2 : Minerva.
Tive uma noite horrível. A pior de todas.
Lawrence, como sempre, agiu como um gentleman. Todo sorrisos a cortesias, elogiando, abrindo portas, pagando contas, exagerando minhas qualidades até a beira do ridículo. Sei que fui meio lacônica em nossas conversas, mas é porque hoje eu não quero conversar, ao menos não com ele. Tive um dia cheio, meus pés estão doendo de tanto andar de carteira em carteira e não quero ouvir nada sobre seu trabalho no Ministério, sua terra natal, sua família... o que for.
Sei que ele é um amor de pessoa, mas simplesmente não dá. Nunca devia ter dado ouvidos à Poppy e toda essa pressão por eu estar solteira há tanto tempo. Raios, a vida é minha afinal!
E mesmo assim estraguei tudo.
Se aceitei aquele maldito convite para um drink em seu apartamento foi só porque estava me sentindo mal por ter sido tão seca com ele antes. E depois, bem, Lawrence foi tão atencioso. Não foi culpa dele. Todos aquele beijos e empolgação... É natural, ele é homem. O problema é comigo.
É claro, ele se ofendeu. Disse que o estava enrolando, o que até certo ponto é verdade; que não gostava dele, o que também já é exagero; e que me importava muito mais com Hogwarts do que com ele, fato que admito ser indiscutível. Não tive argumentos senão concordar com suas acusações, pegar minha bolsa e dizer que não iria mudar nem por ele nem por ninguém. E se ainda quisesse continuar seria assim.
Arrancar um esparadrapo de uma vez só em vez de fazê-lo aos pouquinhos, foi exatamente dessa forma que me pareceu. E, se você quer saber, de certo modo foi um alívio.
Mas agora estou olhando pro real motivo da minha vida sentimental estar esse caos que tem sido nos últimos tempos e que de repente resolveu vir aqui e bancar meu irmão mais velho. Era só o que me faltava! Albus, a última pessoa no mundo que eu queria ver agora, aparece do nada no meio da noite, todo preocupado e me enchendo de perguntas como se eu não soubesse cuidar de mim mesma sozinha. E fica me olhando todo apreensivo como se esperasse eu desabar no choro a qualquer momento.
Se ao menos tivesse chegado dez minutos antes, quando eu ainda estava minimamente apresentável! Mas não, tinha que vir justamente agora que arruinei o penteado e limpei a maquiagem. Perfeito. Não tem mais como piorar.
Ele me pergunta se eu estou bem e se não há nada que ele possa fazer por mim. Eu afirmo que sim, e que não quero incomodá-lo. Então abre aquele sorriso terno e complacente que usa nos alunos menores e nem com raiva dele eu consigo mais ficar. Filho da mãe.
Não sei onde ele quer chegar com tudo isso.
Mas eu estava errada: tem sim como a noite ficar pior. Porque nesse momento ele vira aqueles benditos olhos azuis para a poltrona vazia ao seu lado. Droga, eu sabia que tinha esquecido de alguma coisa! Por que diabos fui deixá-lo lá?
Trata-se de Sonetos de Shakespeare, um livro do Albus que eu surrupiei meses atrás num momento de fraqueza e guardei comigo. E até hoje ainda não sei porque o fiz.
Quando achei o livro esquecido na sala dos professores meu primeiro intuito foi, é claro, devolvê-lo. Porém cometi o terrível erro de abri-lo e logo na primeira página dei de cara com uma dedicatória longa e apaixonada, em letra feminina, de uma tal Brietta da qual nunca tinha ouvido falar.
E só então me dei conta de que havia muito mais de Albus do que eu conhecia, apesar de nossa longa e profunda amizade. Nunca havia me ocorrido antes que ele pudesse ter alguém. Quanta estupidez da minha parte pensar que um homem interessante assim permanecesse solteiro!
Corri mais algumas páginas e, junto com o cheiro de doce que provinha delas, notei que as beiradas estavam quase que completamente escritas em tinta roxa, na letra dele. Havia todo o tipo de coisa, desde comentários sobre o texto, anotações e citações de outras obras desse mesmo autor e de muitos outros, e até mesmo alguns lembretes como "comprar comida para Falkes" e "ser mais duro com o Cornélio, eu não devo estar à disposição de seus problemas o tempo todo". A cara do Albus destruir uma obra prima da literatura e que também deveria ser lembrança de uma mulher que o ama, com bobagens corriqueiras desse tipo.
Apenas queria ter algo dele, e esse livro acabou sendo irresistível.
– Não acredito que você o achou! – exclama, olhando admirado para a capa de seu objeto recém descoberto.
– O que? – faço-me de desentendida, apesar de ter plena certeza de que Albus é esperto demais pra cair nessa.
– Meu livro. Reconheci pelas manchas de geléia na lateral, bem aqui – ele aponta para uma marca grande e avermelhada na parte de cima das bordas das páginas, então o folheia rapidamente e com familiaridade. – O perdi há uns, não sei, seis meses atrás. Já nem tinha esperanças de reencontrá-lo, até comprei um novo para repor a minha estante.
– Sim, é. O achei na sala dos professores faz algum tempo. Então comecei a lê-lo e depois fiquei meio sem graça em devolver tanto tempo depois. Era como pegar emprestado sem pedir, ou algo do tipo.
– E qual o problema se fosse? A partir de agora toda a minha biblioteca está à sua disposição para fazer uso do modo que lhe aprouver – ele afirma contente, repentinamente mais animado com o rumo da conversa. – Mas eu pensei que você não gostasse de poesia.
– E por que pensou isso?
– Porque você me disse isso certa vez – ele brinca, rindo da minha incoerência. – Ainda tentei argumentar contigo falando que a poesia está para uma alma sensível assim como a chuva para um planta. E você me respondeu algo muito mordaz sobre ser um cactus.
Eu sei de quando está falando. Foi numa das conversas em meio ao xadrez, há muito tempo atrás. Eu queria falar de quadribol e ele de Pablo Neruda e acabei sendo meio ferina em acabar com o assunto. Mas não sei como ainda consegue se lembrar disso.
– Como sempre, tem uma memória prodigiosa.
– Eu nunca esqueço o que... Bem, de qualquer forma, fico feliz que o tenha encontrado. Mas não o tome como empréstimo e sim como presente. Agora nós dois temos um. Uma pena que você tenha ficado justamente com o manchado de geléia... E, minha nossa, como está rabiscado! – ele faz uma curta pausa para dar uma última olhada no livro antes de estendê-lo de volta pra mim. – Acredito ter uma receita de bolo muito boa logo abaixo da nota do editor.
Eu o aceito, e ele sabe que é de coração. Mas há algo que ainda quero saber, algo que vem me consumindo há pelo menos seis meses. Algo que salta incontrolavelmente para fora da minha boca.
– Obrigada. Isso não me incomoda em nada – pouso minha taça sobre a mesa e sigo falando, assim como quem não quer nada. – Sabe, há uma dedicatória nele.
– Sim, eu me lembro. Uma linda dedicatória.
– E quem é Brietta?
As sobrancelhas dele se juntam em concentração e por um momento ele parece completamente confuso com a minha pergunta. Em seguida surpreso, ainda que a responda tão logo se lembre.
– A moça do "com meu mais profundo amor"? Eu sinceramente não sei – ele afirma e é minha vez de não entender nada. – Comprei-o num sebo, já veio assim. Gosto de livros usados, parecem que assim tem personalidade própria.
– Pensei que...
– Que eu tivesse uma Brietta de caligrafia desenhada presenteando-me com sonetos? – ele completa minha frase, rindo-se de minha conclusão equivocada. – Confesso que adoraria encontrar uma mulher que compartilhasse algo desse tipo comigo, mas a fortuna sorriu-me apenas na espantosa habilidade no boliche.
Mas... ah, faz sentido. Pobre Brietta, e pensar que tantas vezes a amaldiçoei sem motivo algum! Não, Minerva, por favor não sorria agora, ele ainda está olhando.
– Não seja modesto – eu falo em tom de gracejo, buscando assim um bom motivo para rir abertamente. – Candidatas não lhe devem faltar.
– Sim, não consigo ir ao banheiro sem deixar uma bruxa apaixonada por mim no caminho. Afasto-as à pontapés – ele zomba com um muxoxo de falso despeito e eu não posso deixar de rir. Albus sabe ser engraçado quando quer.
– Então não há ninguém?
– Admito que meu coração já tenha dona, porém temo que ela só me veja como amigo – me confidencia, acabando assim com o alívio que tinha acabado me acometer. A menos que esteja falando... Não, não aconteceria. – Mas deixando minha turbulenta vida amorosa de lado, por que você mudou de idéia?
– Quanto à poesia?
– Sim.
– Eu não sei, apenas o abri e comecei a ler e... – faço uma pausa, procurando em vão por um modo de me explicar sem acabar me delatando.
– Cedeu aos encantos de William? – ele supõe erroneamente, sorrindo na direção de seu antigo livro. – É compreensível, ele é muito bom com as mulheres.
– E bastante persuasivo também, mas ainda não é isso.
– O que então?
– Não saberia precisar ao certo. Apenas me faz lembrar de alguém.
– Sim, poesia em geral é algo muito subjetivo. A gente sempre acaba associando alguma coisa, alguém, ou se identificando.
Essa foi longe, meu querido. Mas é melhor mudar logo de assunto antes que eu acabe me enrolando aqui.
– Qual o seu preferido?
– O LVII é o que primeiro me vem à mente agora – responde-me automaticamente, toma seu último gole e pousa a taça sobre a mesa. Nunca toma mais de duas.
Bom, eu realmente esperava que ele dissesse que era o XXX. Porque esse estava todo sublinhado por uma linha fina em sua tinta roxa e ladeado por pequenas estrelas como se fosse especial, além do papel de bala que provavelmente usava como marca-texto ter sido deixado justamente nessa página. Portanto, foi o que eu mais li e o qual mais me fez lembrar dele. Cheguei ao ponto de decorá-lo:
XXX
Quando invoco, em sessão da mente suave e quieta,
A memória e revejo os meus tempos vividos,
De muita coisa amada a falta me inquieta
E com velhos ais choro os meus anos perdidos.
Vêm-me aos olhos, a flux, lágrimas desusadas
Por amigos que a noite infinita da morte
Oculta, e outra vez sofro agruras já aplacadas
Que a saudade renova anuviando-me a sorte.
Sucumbo, afinal, de velha pena à afronta,
Repasso, com o amargor que em minha alma recresce,
Das queixas de outro tempo a malfadada conta
Paga de novo, enfim, como se inda a devesse.
Mas, quando penso em ti, minha cara amiga, esqueço
Minhas perdas, e já nenhuma dor padeço.
Por vezes desejei ser eu essa amiga cuja simples presença lhe tirava a tristeza do coração. Mas não, nem ao menos é esse o poema de que me fala agora. Esse eu sequer me lembro como é.
Então folheio o livro até encontrá-lo:
LVII
Vosso escravo sendo eu, que mais esperar posso,
Senão somente a vez de fazer vosso gosto?
O meu precioso tempo é só esse em que o vosso
Desejo me mantém, como escravo em meu posto.
Nem ouso reclamar contra a infindável hora
Durante a qual vos, minha soberana, espero.
Nem no imenso amargor de quando fui embora,
Certa vez despedido, hoje pensar mais quero;
Nem me atrevo a inquirir ao cioso pensamento
Onde podeis estar e quais vossos feitos.
Nada a atenção jamais desvia ao escravo atento,
Salvo o prazer que dais, sempre aos vossos eleitos.
Tão puro é o amor, que, no vosso querer,
Não me ameis, nada mau posso ver.
Ah, Albus.
– Não é o mais bonito, mas ultimamente não me sai da cabeça – ele suspira e então me olha, imediatamente ficando apreensivo. Deve ter notado como fiquei emocionada. – O que...? Ah, perdoe-me.
Ele abaixa o olhar, envergonhado. Será que eu entendi direito o que quis dizer? Ou o que não quis, mas disse mesmo assim... O caso é que espero em silêncio até que ele resolva me olhar nos olhos novamente. Leva algum tempo e ele parece hesitante, mas finalmente o faz.
– E pelo que deveria perdoá-lo?
– Você acaba de romper um relacionamento e cá estou, dizendo tolices românticas sem pensar. Eu deveria consolá-la e me compadecer da sua tristeza, e não falar de meus próprios sentimentos.
– Eu não estou triste, mas adoraria saber que sentimentos são esses.
Por um momento Albus me parece atônito, então abre um sorriso. Um diferente, que eu não conhecia. Algo tímido e corajoso ao mesmo tempo. Algo encantador. Então leva a mão destra até meu rosto e o toca suavemente. Eu fecho os olhos pra melhor registrar o modo como os nós de seus dedos roçam na minha bochecha. Logo me arrependo de tê-los fechado, porque graças à isso não o vejo se aproximando mais.
A próxima coisa que sinto é seu hálito quente sobre meus lábios e, quando finalmente abro meus olhos, os dele é que estão fechados. Me beija gentil, docemente. Sua outra mão cobre a minha, ainda sobre o livro.
Mas então, tão inesperada e carinhosamente como veio, ele se afasta. Puxa minha mão até seu peito e sinto seu coração acelerado. Grande coisa, o meu está prestes a explodir aqui.
– É assim, Minerva, que me sinto em relação a você.
Uhura: Faço tudo o que posso para responder seus desafios à altura. Ah, e você não faz ideia do quanto eu estou gostando de escrever em primeira pessoa. Confesso que de início foi complicado, mas agora é viciante, dá vontade de escrever tudo assim daqui pra frente.
Mamma Corleone: Sim, adoro deixar o Albus com ciúmes. Acho-o assim tão adorável... E a Minerva não fica muito atrás não.
NanaTorres: Não, e jamais me cansarei! Kkkkk Ao menos o cara já ganhou um beijinho pra se alegrar, hehe.
n/a: Como vocês devem ter notado, já cumpri meu desafio, inclusive chegando ao beijo exigido previamente. Poderia muito bem acabar por aí... Mas não vou! Atendendo a pedidos e também porque toda vez que penso em como terminar essa história me surge uma nova ideia, teremos mais capítulos adiante. E no próximo voltamos ao pov do Albus.
Ah, e aí está o livro, Sonetos de Shakespeare, cujo roubo deu título à fic. Mesmo que não seja um título dos melhores, hahaha. Alguém mais aí já o leu? Se não, recomendo.
De qualquer jeito, tinha uma vontade louca de inserir esse poemas em alguma coisa sobre esse casal. E espero que tenham gostado.
Obrigada por ler e, por favor, comentem.
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