Paris – Março de 1828
— Não. Não pode ser – sussurrou Sir Bertram Granger, consternado. Com os olhos castanhos arregalados pelo horror, ele pressionou a testa contra a janela que dava vista para a Rue de Provence.
— Acredito que seja, senhor – disse o criado Withers.
Sir Bertram passou as mãos pelos cachos castanhos e desgrenhados. Eram duas horas da tarde e ele havia acabado de se trocar, dispensando o robe de banho.
— Genevieve – disse ele, com a voz rouca. – Oh, meu Deus, é ela.
— É sua avó, Lady Pembury, sem dúvida. E sua irmã, a Srta. Hermione, vem com ela. – Withers conteve um sorriso.
Estava reprimindo muitas coisas naquele momento. Como o desejo louco de dançar pelo quarto, gritando "aleluia", por exemplo."Estavam salvos" pensou ele. "Com a Srta. Hermione aqui, os problemas logo seriam resolvidos." Ele havia se arriscado bastante quando decidiu escrever para ela, mas era algo que tinha que ser feito. Pelo bem da família. Sir Bertram andara com companhias malignas. Os mais malévolos companheiros em toda a Cristandade, na opinião de Withers: um bando de arruaceiros degenerados comandado por aquele monstro, o quarto marquês Potter.
Mas a Srta. Hermione logo daria um fim naquilo, assegurou o criado idoso a si mesmo enquanto rapidamente atava os nós do lenço que sua senhoria usava no pescoço. A irmã de Sir Bertram, que já contava 27 anos, havia herdado a aparência encantadora da avó viúva: cabelos castanhos sedosos, olhos amendoados, feições de alabastro e uma figura graciosa – características que, no caso de Lady Pembury, mostraram-se imunes aos efeitos do tempo.
Mais importante, segundo o pragmático Withers, a Srta. Hermione herdara o raciocínio, a agilidade física e a coragem do falecido pai. Sabia cavalgar, tinha talento para a esgrima e atirava com tal precisão que se equiparava à dos melhores. Na realidade, no caso das pistolas, ela tinha a melhor pontaria de toda a família, e isso era digno de respeito. Durante dois breves casamentos, sua avó tivera quatro filhos com o primeiro marido, Sir Edmund Granger, e outros dois com o segundo, o visconde de Pembury. Tanto suas filhas quanto seus filhos geraram meninos em abundância. Mesmo assim, nenhum daqueles portentosos cavalheiros conseguia atirar melhor que a Srta. Hermione. Ela era capaz de arrancar a rolha de uma garrafa de vinho a vinte passos de distância – e o próprio Withers a vira fazer isso. O criado não se incomodaria em vê-la arrancar a cigarreira das mãos de lorde Potter com um tiro.
O brutamontes era uma abominação, uma desgraça para seu país, um patife desocupado cuja consciência não era maior que a de uma barata. Ele havia atraído Sir Bertram – que, lamentavelmente, não era o mais esperto dos homens – para seu círculo nefasto e pela estrada íngreme que o levaria à ruína. Mais alguns meses com lorde Potter, e Sir Bertram iria à falência – se as infindáveis noites de devassidão não o matassem antes. Mas não haveria "mais alguns meses", refletiu Withers, confiante, enquanto conduzia sua senhoria relutante até a porta. A Srta. Hermione daria um jeito em tudo. Ela sempre conseguia.
Bertie conseguiu fingir um misto de alegria e surpresa quando viu as duas. No instante em que a avó se retirou para repousar em seus aposentos, entretanto, ele puxou Hermione até o que parecia ser a sala de visitas do estreito – e dispendioso, ela refletiu irritada – appartement.
— Que o diabo a carregue, Mione. O que significa isso? – ele exigiu saber. Hermione pegou os jornais de esportes empilhados numa poltrona ao lado da lareira, jogou-os por sobre a grade e deixou o corpo cair com um suspiro na maciez das almofadas. O trajeto percorrido de Calais até Paris tinha sido longo, empoeirado e cheio de solavancos. Achava que, graças às condições abomináveis das estradas francesas, seu traseiro já devia estar cheio de hematomas. Ela desejava aplicar uma bela sova no traseiro do irmão. Infelizmente, embora fosse dois anos mais novo, ele era mais alto e mais forte. Os dias em que ela o espetava com um galho, obrigando-o a colocar a cabeça no lugar, já faziam parte de um passado distante.
— É um presente de aniversário – disse ela. As feições pálidas e de aparência doentia de Bertie se iluminaram por um momento, e seu sorriso idiota, familiar e afável apareceu.
— Eu agradeço, Mione, é muito gentil... – E então o sorriso se desfez e ele franziu o cenho. – Mas meu aniversário é em julho. Não vá me dizer que você pretende ficar até...
— Estou me referindo ao aniversário de Genevieve – esclareceu ela. Uma das muitas excentricidades de Lady Pembury era sua insistência para que seus filhos e netos se dirigissem e se referissem a ela pelo primeiro nome. "Sou uma mulher", rebatia ela aos que protestavam que essa terminologia era desrespeitosa. "Tenho um nome. Mamãe, vovó...", dizia ela, estremecendo delicadamente, "é tão anônimo." A expressão de Bertie se tornou mais desconfiada.
— E quando será isso?
— O aniversário dela, como você devia lembrar, é depois de amanhã. – Hermione descalçou as botas de pelica cinza, puxou a banqueta e colocou os pés sobre ela. – Queria que ela se divertisse um pouco. Faz muito tempo que não vem a Paris, e as coisas não vão muito bem em casa. Algumas tias andaram comentando a ideia de trancá-la num manicômio. Não que eu me surpreenda. Elas nunca a entenderam. Sabia que ela recebeu três propostas de casamento só no mês passado? Acredito que o Número Três tenha sido a gota d'água. Lorde Fangiers tem 34 anos. A família acha isso constrangedor.
— Bem, não é exatamente digno na idade dela.
— Ela não está morta, Bertie. Por que deve se comportar como se estivesse? Se ela quiser se casar com o garçom da taberna, isso é problema dela. – Hermione lançou um olhar perscrutador na direção do irmão. – Claro, seu novo marido tomaria o controle do patrimônio dela. Ouso dizer que isso preocupa a todos.
Bertie ficou ruborizado.
— Não precisa me olhar desse jeito.
— Não? Você parece estar bem preocupado. Talvez pensasse que ela o livraria das suas dificuldades.
Ele deu um puxão no lenço.
— Não estou em dificuldades.
— Ah, então acho que eu é que estou. De acordo com seu administrador, quitar as suas dívidas vai me deixar com exatamente 47 libras, 6 xelins e 3 pence para passar o resto do ano. Ou seja, terei que voltar a viver com meus tios e tias... ou trabalhar. Por dez anos fui babá dos filhos deles sem qualquer compensação. Não pretendo fazer isso nem por mais dez segundos. Sobra o trabalho.
Os olhos azuis e pálidos de Bertie se arregalaram.
— Trabalho? Você quer dizer... ganhar um salário?
— Não vejo alternativa aceitável – assentiu ela.
— Ficou louca, Mione? Você é uma garota. Encontre um marido. Alguém com os bolsos gordos. Como Genevieve fez. Duas vezes. Você é bonita como ela. Se não fosse tão exigente...
— Mas sou – disse ela. – Felizmente, posso me dar ao luxo de ser assim.
Hermione e Bertie ficaram órfãos muito jovens e foram criados por tias, tios e primos que mal conseguiam sustentar suas próprias proles. A família poderia ter tido uma vida confortável se não houvesse tanta gente. Mas Genevieve vinha de uma linhagem de reprodutores prolíficos, especialmente em relação a ter filhos varões – e seus próprios filhos e netos herdaram o talento. Essa era uma das razões pelas quais Hermione recebia tantas propostas de casamento – cerca de seis por ano, mesmo agora, quando já devia estar resguardada, usando a touca de solteirona. Mas ela preferia ser enforcada a se casar e se transformar na égua reprodutora de um pateta rico e cheio de títulos – ou a usar uma touca cafona como aquela.
Tinha talento para encontrar tesouros em leilões e antiquários e para vendê-los com um lucro considerável. Embora não ganhasse uma fortuna, nos últimos cinco anos Hermione conseguiu comprar as roupas e os acessórios elegantes que usava, em vez de vestir as peças descartadas pelos parentes. Era uma forma modesta de independência. E queria mais. Passara o ano anterior inteiro planejando o que faria para ganhar mais. Hermione finalmente havia economizado o bastante para alugar a própria loja e começar a enchê-la de mercadorias. Seria elegante e exclusiva, dedicada a uma clientela de elite. Depois de muito tempo lidando com a alta sociedade, ela passara a compreender a natureza dos ricos e indolentes – não somente o que gostavam, mas também os métodos mais eficientes de atraí-los. Pretendia colocar o plano em prática quando conseguisse arrancar seu irmão da confusão em que havia se metido. Em seguida, garantiria que os problemas dele nunca mais perturbassem a vida regrada e ordenada que Hermione tinha. Bertie era um palerma irresponsável, um desmiolado indigno de confiança. Ela estremecia ao imaginar o que o futuro lhe reservava se continuasse a depender dele para qualquer coisa.
— Você sabe muito bem que eu não preciso me casar por dinheiro – disse ela. – Apenas preciso abrir a loja. Já escolhi o lugar e economizei o bastante para...
— Aquela ideia maluca de montar uma loja de quinquilharias? – gritou ele.
— Não é uma loja de quinquilharias – disse ela, calmamente. – Como já lhe expliquei uma dúzia de vezes...
— Não vou deixar que você abra uma loja. – Bertie se levantou. – Nenhuma irmã minha vai entrar no comércio.
— Eu adoraria saber o que você vai fazer para me impedir – respondeu ela. Ele contorceu o rosto em uma careta ameaçadora. Hermione se recostou na cadeira e o observou com um olhar contemplativo. — Ora, Bertie, você parece um porco, apertando os olhos desse jeito. De fato, você engordou como um desde a última vez que o vi. Pelo menos 12 quilos. Talvez uns 15 ou mais. – Ela baixou o olhar. – E está tudo na sua barriga, pelo que parece. Você me faz lembrar o rei.
— Aquela baleia?! – gritou ele. – Não, nada disso. Retire o que disse, Jess.
— Ou o quê? Vai se sentar em cima de mim? – Ela riu. Bertie deu as costas para ela e jogou-se no sofá. — Se eu fosse você – disse ela –, me preocuparia menos com o que minha irmã diz e faz e pensaria no meu próprio futuro. Sei cuidar de mim mesma, Bertie. Mas você... Bem, acho que você é que devia se casar com alguém com os bolsos gordos.
— O casamento é para covardes, tolos e mulheres – respondeu ele. Ela sorriu.
— Isso parece o tipo de coisa que um imbecil bêbado anunciaria para outros logo antes de cair de cara na vasilha de ponche, em meio às costumeiras galhofas masculinas sobre fornicação e processos excretórios. Hermione não esperou que Bertie revirasse o cérebro tentando encontrar as definições daquelas palavras. — Eu sei muito bem o que os homens acham engraçado – disse ela. – Já morei com você e ajudei a criar dez primos homens. Bêbados ou sóbrios, eles gostam de piadas sobre o que fazem, ou o que têm vontade de fazer, com as mulheres, e possuem verdadeira fascinação por atos como soltar gases, mijar e...
—Mulheres não têm senso de humor – disse Bertie. – Não precisam disso. O Todo-Poderoso as criou como um gracejo para os homens. Daí é possível deduzir logicamente que o Todo-Poderoso é uma mulher.
Ele pronunciou as palavras de maneira lenta e cuidadosa, refletindo o esforço que precisou fazer para memorizá-las.
— De onde veio esse pendor para a profundidade filosófica, Bertie?
— Como é?
— Quem lhe falou tudo isso?
— Não foi um imbecil bêbado, Srta. Irônica Zombeteira – disse ele, amuado. – Posso não ter o melhor cérebro do mundo, mas acho que ainda consigo identificar um imbecil. E não é o caso de Potter.
— Com certeza, não. Parece um homem muito esperto. O que mais ele tem a dizer, querido?
Houve uma longa pausa enquanto Bertie tentava decidir se a irmã estava sendo irônica ou não. Como sempre, ele errou em seu julgamento.
— Bem, ele é inteligente, Mione. Eu devia ter imaginado que você reconheceria isso. O que ele diz... Ora, o cérebro dele está sempre funcionando, a quilômetros por hora. Não sei como ele consegue. Ele não come muito peixe, então não pode ser por isso.
— Imagino que ele use gim como combustível – resmungou Jessica.
— Como é?
— Eu disse que suponho que o cérebro dele seja imbatível.
— Deve ser – disse Bertie. – E não digo isso só por dizer. Ele tem um cérebro focado no dinheiro, também. Sabe fazer a Bolsa de Valores dançar conforme a música dele, é o que dizem por aí. Mas a única música que Harry toca é o barulho das moedas. E estou falando de um barulhão, Mione.
Ela não tinha por que duvidar. Pelo que sabia, o marquês Potter era um dos homens mais ricos da Inglaterra. Podia desfrutar de qualquer extravagância irresponsável. E o pobre Bertie, que não tinha condições de bancar nem as modestas, estava tomado por um desejo incontrolável de imitar o ídolo. Pois certamente se tratava de idolatria, como Withers tinha afirmado de maneira quase incoerente na carta que enviara. O fato de Bertie ter forçado suas parcas faculdades mentais a ponto de memorizar o que o Lorde dizia era uma prova inabalável de que o criado não havia exagerado. Lorde Potter tinha se tornado o senhor do universo de Bertie... e o estava levando direto para o inferno.
Lorde Potter não ergueu os olhos quando a sineta do balcão da loja tocou. Não se importava com quem seria o novo cliente, e Champtois, seu fornecedor de antiguidades e curiosidades artísticas, não deveria se importar também, porque o cliente mais importante de Paris já havia entrado em sua loja. Como era o mais importante, Harry esperava e recebia a atenção exclusiva do proprietário. Champtois não somente não olhou para a porta, como também não fez qualquer menção de ver, ouvir ou pensar em qualquer coisa que não estivesse relacionada ao marquês.
Ser indiferente, infelizmente, não é o mesmo que ser surdo. A sineta ainda não havia parado de retinir quando Harry ouviu uma voz masculina familiar resmungando com sotaque inglês e uma feminina que não conhecia murmurando em resposta. Não conseguiu identificar as palavras. Pelo menos uma vez Bertie Granger conseguiu manter a voz abaixo do seu suposto "sussurro" – que podia ser ouvido do outro lado de um campo de futebol.
Ainda assim, era Bertie Granger, o maior bobalhão do planeta, o que significava que Harry precisaria adiar sua própria transação. Não tinha qualquer intenção de conduzir uma negociação enquanto Granger estivesse por perto, dizendo, fazendo e observando tudo o que era calculado para elevar o preço enquanto delirava sob a impressão de que estava ajudando a baixá-lo.
— E eu digo que... – veio a voz grave. – Aquele ali não é... Ora, por Júpiter, é, sim.
Tum. Tum. Tum. Passos pesados se aproximavam. Lorde Potter reprimiu um suspiro, virou-se e olhou duramente para aquele que o infortunava. Granger parou onde estava.
— Bem, não quis interromper, especialmente quando um companheiro está regateando com Champtois – disse ele, fazendo um movimento com a cabeça na direção do proprietário. – Como eu estava contando a Mione há pouco: deve-se manter a cabeça fria e cuidar para que não ofereça mais da metade do que está disposto a pagar. E não se deve esquecer do que significa "metade" e "dobro" quando tudo está em francos e soldos, ou seja lá como se chamam essas moedas francesas, e multiplicar e dividir outra vez para encontrar o valor em libras, xelins e pence. Não entendo por que não fazem logo as coisas de forma apropriada, exceto talvez por quererem exasperar um homem.
— Acho que já falei antes, Granger: você poderia se exasperar menos se não perturbasse o equilíbrio da sua delicada constituição exercendo o ato de calcular – disse Harry. Ele ouviu um farfalhar e um som abafado em algum lugar acima à esquerda. Desviou o olhar até lá. A mulher que murmurava estava curvada sobre o mostruário de joias. A loja era incrivelmente mal iluminada – o que era proposital, a fim de que os clientes tivessem dificuldade de avaliar as mercadorias.
Tudo o que Harry conseguiu perceber era que a mulher usava sobrecasaca azul e uma daquelas horríveis toucas com aba decorada que estavam na moda.
— Eu recomendo – prosseguiu ele, com os olhos na mulher – que você resista à tentação de fazer contas se estiver interessado em um presente para sua chère amie. As mulheres vivem num mundo matemático superior ao dos homens, especialmente quando se trata de presentes.
— Isso acontece, Bertie, porque o cérebro feminino alcançou um estado mais avançado de desenvolvimento – respondeu a mulher, sem erguer os olhos. – As mulheres reconhecem que a escolha de um presente requer o equilíbrio entre uma equação moral, psicológica, estética e sentimental que é extremamente complicada. Eu não recomendaria que um reles homem tentasse se envolver no delicado processo de balancear essa equação, especialmente pelo método primitivo de calcular.
Por um momento desconcertante, lorde Potter teve a impressão de que alguém havia acabado de enfiar sua cabeça na latrina. Seu coração começou a bater mais forte e sua pele ficou arrepiada, levemente suada, como ocorrera naquele dia inesquecível em Eton, 25 anos antes. Ele disse a si mesmo que seu café da manhã não devia ter lhe feito bem. Talvez a manteiga estivesse rançosa. Era impensável que aquela desprezível réplica feminina o tivesse afetado. Não havia a menor possibilidade de ele se sentir desconcertado por essa mulher de língua afiada que devia ser, como presumiu inicialmente, uma vagabunda desmazelada com quem Bertie estivera na noite anterior. O sotaque dela denunciava que era uma dama. Pior ainda – se fosse possível haver espécie pior de ser humano –, ela era, pelo que parecia, uma intelectual.
Em toda a sua vida, lorde Potter nunca encontrara uma mulher que soubesse o que era uma equação, e menos ainda uma que soubesse que equações eram passíveis de balanço. Bertie se aproximou e, com seu sussurro espalhafatoso, perguntou:
– Faz alguma ideia do que ela disse, Potter?
— Sim.
— E o que foi?
— Homens são brutos e ignorantes.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Bertie soltou um suspiro e olhou para a mulher, que continuava fascinada pelo conteúdo do mostruário. — Você prometeu que não insultaria meus amigos, Mione.
— Não imagino como possa ter feito isso, já que não encontrei nenhum.
Ela parecia estar tramando algo. A touca que ela usava, com todos aqueles laços e flores que a decoravam, inclinou-se de um lado para outro enquanto ela estudava o objeto de seu interesse, observando-o a partir de vários ângulos.
— Bem, quer conhecer um deles? – perguntou Trent, impaciente. – Ou vai ficar aí olhando esse monte de porcarias o dia todo?
Ela endireitou a postura, mas não se virou. Bertie pigarreou.
— Hermione – disse ele, com determinação. – Potter. Potter... Que diabos, Mione. Não consegue tirar os olhos desse lixo por um minuto? Ela se virou. — Potter. Esta é minha irmã.
Quando Hermione ergueu os olhos, um calor feroz, lépido, varreu o corpo de lorde Potter, do alto da sua cabeça à ponta das suas botas lustradas com champanhe. O calor imediatamente deu lugar a um suor frio.
— Meu senhor – disse ela, com um breve aceno de cabeça.
— Srta. Granger – respondeu ele. E não conseguiria mais proferir uma única sílaba, mesmo que sua vida dependesse disso. Sob a aba daquela touca horrorosa havia uma oval perfeita de porcelana branca e feições impecáveis. Cílios grossos emolduravam olhos castanhos, levemente inclinados para cima harmonizando com as linhas das maçãs do rosto. Seu nariz era reto e delicadamente esguio, a boca suave e rosada, um pouco mais carnuda do que ele gostaria. Hermione Granger não possuía a beleza clássica inglesa, mas era perfeita e, como não era cego nem ignorante, lorde Potter reconhecia qualidade quando a encontrava.
Se ela fosse uma peça de porcelana de Sèvres, uma pintura a óleo ou uma tapeçaria, ele a compraria imediatamente, sem reclamar do preço. Por um instante insano, enquanto contemplava a ideia de lambê-la da testa de alabastro até as pontas dos dedos dos pés, ele imaginou qual seria o preço daquela mulher. Mas, pelo canto do olho, viu seu próprio reflexo no vidro. Seu rosto sombrio era severo e duro, a própria face de Belzebu. No caso de Harry, o livro podia muito bem ser julgado pela capa, pois ele também era severo e duro por dentro. Tinha a alma típica de Dartmoor, onde o vento soprava com força e a chuva castigava as rochas cinzentas e impiedosas, enquanto o belo gramado se revelava poços de areia movediça capazes de engolir um boi por inteiro. Qualquer idiota era capaz de enxergar as placas de advertência: "ABANDONAI TODA A ESPERANÇA VÓS QUE AQUI ENTRAIS", ou, indo direto ao ponto, "PERIGO. AREIA MOVEDIÇA".
Da mesma forma, a criatura diante dele era uma dama e nenhuma placa avisava que se devia manter distância. "Damas", no Dicionário de Harry, estavam listadas sob os verbetes "Praga", "Peste" e "Fome". Quando recobrou a razão, descobriu que devia ter fixado o olhar nela durante algum tempo, porque Bertie – evidentemente entediado – se virara para observar um conjunto de soldadinhos de madeira.
Harry logo se recompôs.
— Não é sua vez de falar, Srta. Granger? – perguntou ele num tom de deboche. – Não ia fazer um comentário sobre o tempo? Acredito que seja a maneira apropriada de se iniciar uma conversa.
— Seus olhos – disse ela, com o olhar firme – são muito verdes. São lindos...
Houve uma rápida sensação de ser apunhalado perto do diafragma ou na barriga, ele não conseguiu saber onde. Sua compostura não vacilou nem um milímetro. Tinha aprendido a mantê-la mesmo nas piores situações.
— A conversa avançou para o lado pessoal com uma rapidez impressionante – argumentou ele. – Você está fascinada pelos meus olhos.
— Não consigo evitar – respondeu ela. – São extraordinários. Mas não queria que se sentisse desconfortável.
Com um sorriso sutil, ela voltou a observar o mostruário de joias. Harry não tinha certeza do que era exatamente, mas não duvidava de que havia mesmo algo de errado com ela. Ele era Belzebu em pessoa, não era? Ela devia ter desmaiado ou recuado horrorizada, pelo menos. Mas ela o olhara com uma altivez sólida como o bronze, e pareceu, por um momento, que aquela criatura na verdade estava flertando com ele.
Ele decidiu ir embora.
Poderia refletir sobre aquela incoerência longe dali. Estava indo em direção à porta quando Bertie se virou e veio rapidamente em seu encalço.
— Você conseguiu se livrar com facilidade – sussurrou Trent alto o bastante para que suas palavras fossem ouvidas em Notre Dame. – Eu tinha certeza de que ela o rasgaria ao meio, e é isso que ela vai fazer se deixar, sem se importar com quem você é. Não que você não consiga lidar com ela, mas Hermione é capaz de dar dor de cabeça a um homem, e se você estava pensando em sair para beber...
—Champtois acabou de receber um autômato que você vai achar bem intrigante – interrompeu Harry. – Por que não pede que ele dê corda no boneco para ver o que ele faz?
O rosto quadrado de Bertie se iluminou de alegria.
—Um daqueles... Como é que se chama mesmo? Sério? O que ele faz?
— Por que não vai lá olhar? – sugeriu Harry.
Bertie trotou até o dono da loja e começou a tagarelar com um sotaque que qualquer parisiense consideraria uma justificativa plausível para cometer um homicídio. Após distrair Bertie da sua aparente intenção de segui-lo, lorde Potter precisava apenas de mais alguns passos para sair. Mas seu olhar foi atraído novamente pela Srta. Granger, que mais uma vez mostrava-se encantada por algo no mostruário de joias. Mordido pela curiosidade, ele hesitou.
Heii gente, bem rapidinho essa atualização, hein? Quanto mais reviews tiver, mais rápido o capítulo sai!
Muito muito muito obrigada a todos que estão lendo!
LMidnight: adorei sua review! Muito obrigada pelas boas vindas! Na verdade, passei um bom tempo sem ideia de que livro adaptar (Tradução dá mil vezes mais trabalho que adaptação e como meu tempo está bem mais limitado...), até que eu li esse, me apaixonei, e a vontade louca voltou de novo. Acho que uma pergunta sua já foi respondida, certo? E em relação ao Harry feio... Vê, quanto eu li o livro, eu simplesmente não consegui ver o personagem principal como feio, já que a única pessoa que fala isso dele (quando ele cresce) é o próprio personagem. Sou meio enrolada para explicar as coisas e espero que tenha conseguido explicar. E espero, sinceramente, que tenha gostado da atualização e muito obrigada por ler e comentar (A primeira a comentar uhuhuuhuuh!) Bjoos!
Witchysha: kkkkkkk Meu Deus, quanta pressão para se ter um Harry bonito! kkkkkk menina, passei um tempão sem ideia de como atualizar a minha página, até que li esse livro maravilhoso e me apaixonei! Aí não consegui resistir e decidir voltar para meu casal favorito! Sim, e em relação a "aparência diferente" do Harry... vê, eu simplesmente não consigo ver ele feio, na medida que eu fui lendo a história, fui percebendo que a única pessoa que o via como feio, era ele mesmo e mais pelas algumas atitudes dele, que é claro Hermione vai conseguir controlar direitinho. Espero que tenha gostado, até a próxima, querida! Bjoos!
