Escuridão.

Tap. Tap. Tap.

Os passos rápidos subiam a escada com euforia, levando Chi para perto do menino que brincava com algumas peças eletrônicas no chão.

— Minoru-kuuuuuun! —ela pulou em cima do irmão — Papai me deu um programa novo!

— O que você pode fazer agora? — seus olhos brilhavam tanto quanto os da irmã.

— Agora a Chi pode se apaixonar de verdade!

Ele fez cara de nojo.

— Isso é ruim...

— Não é! Não isso que as princesas sentem pelos príncipes nos contos de fada..?

— É.

— E eles não acabam felizes para sempre?

— Sim...

— Então! Agora a Chi pode ser feliz para sempre também! — ela deu um sorriso inocente, compatível a sua imagem de uma menina de 10 anos de idade —Vou encontrar a pessoa só para mim...

Eles ouviram um suspiro de choro, ao fundo. Observando da porta, Chitose Hibya procurava calar suas lágrimas com o lenço, mas era inevitável. Estava chegando a hora.

Chi aproximou-se da mãe devagarinho e abraçou-lhe pela cintura.

— Não chore, mamãe... por favor...

Chitose abaixou até ficar na altura de seus olhos de criança.

— Logo, logo, a Chi vai embora... vou sentir saudades...

— O que é saudade?

— Saudade... saudade é uma dor bem aqui — ela pegou a mão de Chi e a encostou no próprio peito, à altura do coração — que a gente sente quando está longe de alguém de que gosta...

— Eu não quero que doa — com muito esforço, escorreu-lhe uma lágrima fina — Não quero que a mamãe sinta dor.

— Eu também não quero que doa na Chi.

— Eu tenho que ir embora mesmo? — uma vez executado o programa, as lágrimas eram inevitáveis.

— Tem, Chi. Tem muitas pessoas malvadas aqui... você tem que ajudá-las, Chi.

Escuridão.

Pi. Pi. Pi.

Aqueles sons mostravam o esforço que o coração fazia para não parar de bater. Mas ela sabia que era em vão.

Adeus, queria dizer adeus, queria dizer que amava... mas não podia se mexer... não podia...

Alguém pegou sua mão. Sentiu as palpitações de um coração.

— Sinta, meu amor...

Piiiiiiiiii...

Luz.

Luz branca, muito forte.

Seus olhos ardiam. Consegui abri-los para ver o suficiente de todo o branco que a cercava, desde paredes e telas até cabos e fios — muitos cabos e fios. Por todo o seu corpo.

Deixou escapar um grito de desespero, e por um segundo sentiu-se forte o bastante para arrancar-se de tudo que a prendia e correr até a porta.

Caiu no meio do caminho.

O ardor dos olhos ainda era muito forte, mas eles funcionaram suficientemente bem para reconhecer o corpo negro estatelado no chão. Hideki.

"— Então, pra mim você é a Chi."

Festa, barulho, flashs seqüenciais. Persocom.

Persocom.

Persocom.

Tateou às cegas à procura de uma maçaneta a sua frente. Girou a mais próxima, e enfim encontrou-se num nível normal de claridade. Corredor, portas, muitas portas. Uma janela mais ao fundo.

Alcançou-a. E, através dela, viu tudo acontecer como num filme.

Prédios, prédios, prédios, prédios. Infinitos ao olhar, todos ultrapassando a altura das nuvens, perdendo-se no meio de uma espessa névoa cinzenta. Mas eram poucos; além deles, havia uma depressão, quase uma cratera. Terra vermelha, muito vermelha, chocando-se com o cinza de cima. E casas, todas tentando quebrar as leis da Física, empilhadas, amontoadas, caindo umas às outras, à semelhança de tocas de animais.

Persocom.

Persocom.

Pontinhos sujos arrastavam-se na terra vermelha, como formigas num formigueiro. Na parte cinzenta, as pessoas tinham mais forma: alguns tinham pressa, mal-humor, coisas a fazer; outros, orelhas engraçadas.

Persocom.

Aquela era seu mundo, sua casa. O tinha deixado para salvá-lo, e lá estava, nova e inexplicavelmente.

— Chi é uma persocom.

Tap. Tap. Tap. Novos passos daquela vez...

— Então a Chi se lembra?

Mas a voz era masculina.

Ela se virou para trás, o olhar em direção ao som. Ao lado de uma das muitas portas, estava uma menino. Seu rosto muito jovem se chocava estrondosamente com suas as roupas muito formais.

— Minoru-kun..?

O abraço foi longo, longamente forte, longamente nostálgico.

— Minoru-kun... está tão grande...

— Já se passaram sete anos desde que você foi embora. Dez anos pra você, sete pra mim. Estamos em 2097, Chi.

Ela não se deixou abalar pelo tempo. Com a mesma inocência de criança, ela sorriu, passando os finos dedos pelo rosto do irmão. Ah, era muito saber que ele estava bem... que não havia morrido de verdade... era uma pena ter uma memória tão suscetível a bloqueio de programas.

— Onde está a mamãe?

— Onde está o papai?

Uníssono, seguido de um silêncio desconfortável.

Minoru abriu um leve sorriso.

— Venha, primeiro eu vou verificar se não há erros no seu HD. Depois pomos a conversa em dia.

Ele a levou até o recinto brilhante, tomando o cuidado de diminuir a claridade antes de entrarem. Hideki agora não era mais um borrão para Chi, já formava uma figura completa, e conseguia se levantar como uma.

— Minoru-san, desculpe-me — ele fez uma reverência — Meu sistema apresentou um erro. Estou no modo de segurança.

Elegantemente o menino ajeitou seu blazer. Aquela era sua forma de desviar a atenção das pessoas para sua mão, de forma que ninguém percebesse o movimento dos seus olhos pelo canto superior. Estava ponderando cada possibilidade como se apenas estivesse interessado no botão de seu terno. Pequena tática para desconcentrar o inimigo.

Não que qualquer um dos persocons ali presentes fosse considerado inimigo. Inconcientemente, ele somente sentia um enorme desconcerto perante as novas formas da irmã.

— Chi, Hideki. Por favor, vamos até a outra sala, onde posso checar seus erros.