Alerta: AU, temas perturbadores, OOC e linguagem grosseira.

CAPÍTULO 2 – MARIPOSA DA LUA

Quando Ren estava no último ano do Ensino Médio, suas obrigações como veterano e presidente do grêmio estudantil aumentaram consideravelmente no momento em que Sho e Kyoko ingressaram no Ensino Médio.

Ele conhecia os dois de longe, já que o complexo turístico pertencente à família Fuwa se localizava no fim da rua em que ele vivia com os pais, mas nunca havia trocado uma palavra sequer com eles. Ainda assim, ouvia as maledicências, tanto no colégio quanto na vizinhança: que a mãe de Kyoko era uma vagabunda; que não sabia de quem havia engravidado; que a família Fuwa foi generosa em adotar Kyoko quando a própria mãe a abandonou; que ela também era uma vagabunda; que perseguia Sho como uma cadela no cio; que ele era muito bondoso em permitir que ela caminhasse com ele para e da escola.

Ren costumava apenas dispensar os comentários como absurdos e mudar de assunto, mas agora que os dois estavam no Ensino Médio, o burburinho havia se tornado responsabilidade dele naquele último ano letivo.

Não demorou muito para que ele compreendesse como era a dinâmica entre Kyoko e Sho: ele era estúpido e preguiçoso demais para ter notas tão boas; ela parecia concentrada demais nas aulas para ter notas tão medianas. Quando Ren a chamou para confronta-la sobre o que ela estava fazendo com a própria vida, por um segundo pensou que os olhos dela saltariam das órbitas: fazer as tarefas dele. Fazer os trabalhos para ele. Escrever apontamentos para ele. Ajuda-lo a estudar. Manter-se discretamente à margem para que todos os holofotes recaíssem sobre Sho.

"Eu não me importo", foi tudo que ela respondeu.

Daquele dia em diante, Ren decidiu que redobraria os cuidados com Kyoko, o que foi percebido por todos, especialmente por Sho.

"Ela é a minha vadia", escutou-o dizer certo dia no vestiário masculino, para deleite dos seus iguais. "Chata para caralho, mas faz um boquete sensacional".

Graças à denúncia do presidente do grêmio, Sho ganhou uma suspensão de três dias. Kyoko ganhou um corte na bochecha que não se preocupou nem em disfarçar, nem em mentir sobre.

"Eu não me importo", foi tudo que ela respondeu à indignação do aluno número um do colégio. Mas, pela primeira vez, ela sorriu para Ren.

Como fogo no palheiro, as insinuações de que Kyoko agora era a vadia de Ren tomaram todo o colégio. Não satisfeita em se pendurar em Sho, estrela em ascensão na escola, agora ela corria atrás do aluno mais condecorado.

Ren se sentiu mal por ter contribuído para o total ostracismo de Kyoko, que agora sequer tinha a companhia de Sho no trajeto de casa para a escola e vice-versa, apesar de continuar ajudando-o com as tarefas.

"Eu não me importo", ela respondeu pela terceira vez, com um sorriso mais largo ainda.

Ren se formou e foi para a faculdade, mas Kyoko ainda passaria mais dois anos na escola. Eles trocavam mensagens e telefonemas, e ele sabia que ela estava mentindo quando dizia que estava tudo bem, mas ajuda-la mais efetivamente estava fora do alcance dele.

Continuaram nesta rotina mesmo após Kyoko se formar e começar a trabalhar e eventualmente estudar, até que, um dia, ela teve um problema com o namorado. Ren foi pego totalmente de surpresa: não sabia que ela estava namorando e não contava com a ligação dela no meio da noite para perguntar se ele poderia ir busca-la.

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Kyoko não sabia muita coisa sobre a própria mãe além daquilo que as pessoas diziam. De tanto que a mãe de Sho chamava Saena de vagabunda, as pessoas ao redor começaram a se questionar o mesmo que Kyoko: figurativa ou literalmente falando? Com o tempo, a informação de que ela era filha de uma prostituta se consolidou com status de certeza absoluta, apesar de ninguém conseguir afirmar a autoria da informação.

Kyoko não se importava: a mãe dela podia ser uma heroína de guerra ou uma prostituta, que não mudaria o fato de que ela foi abandonada e não tinha uma família para chamar de sua.

Na escola, as garotas se afastavam dela quando a viam falar com familiaridade com Sho. A situação só piorou quando Sho começou a levar amigos para casa e descobriram que os dois moravam juntos e não tinham parentesco.

A pecha da mãe recaiu sobre a filha, e Sho, sendo um garoto imaturo e inseguro, jamais a defendeu.

Kyoko tinha pena de Sho, sempre tão preocupado com o que as pessoas estavam pensando sobre ele. Era como se ele fosse o atormentado na escola, e não ela. Quantas vezes ela sentiu as pernas adormecerem com o peso da cabeça dele, enquanto o rapaz reclamava a pressão que sofria dos pais, dos professores e dos colegas? Ou sobre como era cansativo manter uma imagem perfeita o tempo todo?

Às vezes Kyoko lhe acariciava os cabelos até ele finalmente se esgotar e dormir. Outras vezes, ela o recebia de bom grado em sua cama quando ele precisava provar para si mesmo que era um homem de verdade.

"Você está usando proteção, não está? Eu não quero um bastardo com sangue de puta na minha família!", foi o conselho educativo que Kyoko certa vez ouviu a mãe de Sho dar ao rapaz.

Quando entraram no Ensino Médio, a estrela do colégio a chamou para conversar no grêmio estudantil. Kyoko conhecia aqueles tipos: populares, bons nos estudos e nos esportes, favoritos dos professores etc. Como Sho, importavam-se apenas com as aparências, nada mais. Talvez ele até a pedisse para ficar de joelhos e abrir a boca, como o presidente do grêmio do colégio anterior.

Sujeito bonito, de fala macia e olhar perspicaz. Disse um monte de coisas que ela não esperava ouvir, mas para as quais ela tinha a mesma resposta: "Eu não me importo".

Kyoko também não esperava que ele fosse se auto intitular seu guardião, menos ainda que ele tomaria providências para que Sho fosse punido por falar dela por aí.

Lógico que ela sabia o que Sho fazia. O imaturo e inseguro Sho agora adicionava a covardia a sua vasta lista de imperfeições e ainda assim era aplaudido por onde andava, porque não importava quem ele era, mas quem ele fingia ser.

Sho ficou furioso por ter sido punido, furioso por Ren ter interferido e furioso por não conseguir superar o presidente em nada, por mais que tentasse. Naquela noite, procurou Kyoko para afogar as mágoas como de costume, mas encontrou a porta do quarto dela trancada. Na manhã seguinte, ouviu-a dizer que a porta não mais abriria, o que o fez explodir e estapeá-la, cortando-a na bochecha.

Ela só teve permissão de ir para a escola naquele dia porque alguém precisava fazer anotações para Sho, mas com a condição de esconder a agressão com maquiagem e um curativo e mentir sobre a origem do ferimento, caso perguntassem. E todos sabiam que somente Ren perguntaria.

No meio do caminho para a escola, ela parou em um mercado, foi ao banheiro, tirou o curativo e limpou o rosto. Ela gostaria de poder dizer que o fez para evidenciar aos fãs de Sho o tipo de pessoa que ele era, mas a verdade era que ela gostava dos olhos de Ren quando brilhavam de indignação.

Por causa dela.

Quando ele permaneceu protegendo-a, apesar de os rumores que a envolviam agora serem prejudiciais também a ele, Kyoko não pode deixar de compreender como ele e Sho eram diferentes: Ren tinha mais a perder do que Sho jamais tivera, e ainda assim ele se recusava a escorraça-la como Sho havia feito na primeira oportunidade que teve.

Era ela quem o estava prejudicando, não o contrário, mas ele pediu desculpas a ela pelo bullying que ela estava sofrendo; "eu não me importo", ela respondeu quase rindo, porque realmente não se importava.

Quando Ren se formou, a vida dela piorou como previsto. Sho se tornou o novo presidente do grêmio e deixou claro que qualquer ajuda da parte dele estaria condicionada a favores sexuais.

Kyoko apenas o ignorou, como todo o resto, o que estava mais fácil de fazer já que Ren se mantinha apoiando-a.

Certo dia, ela telefonou para o apartamento que ele havia alugado próximo ao campus, e uma mulher desconhecida atendeu e disse que ele estava tomando banho. Foi quando Kyoko percebeu que os sentimentos que ela nutria por ele haviam mudado em sua natureza e que poderiam significar problemas, já que ele nunca a veria como mais do que uma garota problemática que ele precisava ajudar.

Aos dezoito anos e formada, Kyoko começou a trabalhar. Com o primeiro salário, alugou um apartamento minúsculo de dois cômodos, mas que era dela, e pode deixar a vida de semiescravidão que levava com os Fuwa.

Nos primeiros meses após a mudança de Kyoko para o novo apartamento, Ren a visitava quase toda semana, e a cada visita ele levava o que ele chamava de "uma cortesia para a minha anfitriã". Mas uma geladeira nova não é uma maldita cortesia, é uma forma nada discreta de mobiliar o apartamento minúsculo, porém vazio da garota problemática que ele precisava ajudar.

"Você sabe que eu sei que você está mobiliando meu apartamento, não sabe?"

"Oh? Onde está o seu tradicional 'eu não me importo' quando eu preciso dele?"

Ele sabia ser irritante, quando queria.

A esta altura, Kyoko já sabia que não adiantaria discutir com o senso de obrigação dele e apenas escancarava a porta para que ele pudesse passar com o sofá, o fogão, a televisão e até um abajur. Deve haver algum manual que contenha a regra que diz que quando um homem lhe dá um maldito abajur, ele merece a chave do seu apartamento, porque foi assim que Kyoko se sentiu. Ao ponto de, no dia seguinte, fazer uma cópia e entrega-la a ele, que apenas a colocou no próprio chaveiro como se fosse a coisa mais normal do mundo.

O trabalho na loja de conveniências já estava dominado o suficiente para se tornar fácil, então Kyoko decidiu cursar a universidade comunitária no período noturno. Ren a apoiou, apesar de sempre defender que ela poderia entrar na universidade que quisesse se ela se dedicasse ao vestibular, mas Kyoko estava farta das turbulências inerentes a uma vida competitiva e de aparências e se achava mais confortável em meio às pessoas que tradicionalmente buscavam as universidades comunitárias, então ele deixou o assunto morrer e passou a se preocupar com a segurança dela na volta para casa.

Kyoko pensava que não fosse possível se apaixonar mais por ele. Não era justo.

Todos os dias Ren a buscava na faculdade e a levava em casa, o que era maravilhoso todos os dias, exceto às sextas-feiras, quando a namorada estava com ele.

"Quem é ela?", Kyoko a ouviu perguntar.

Foi a primeira vez que Kyoko percebeu que pior do que ser chamada de vadia por Sho era ser chamada de irmã por Ren.

Aquele outono de seus dezenove anos foi a última vez que Kyoko pegou carona com Ren: na manhã seguinte ela negociou com o patrão trabalhar meio período e mudou a faculdade para o turno matutino. À noite, para complementar a renda, ela começou a costurar.

Ren notou a mudança, mas achou que fosse para melhor, já que ela estaria mais segura ficando em casa à noite.

Aos vinte anos, Kyoko começou a namorar o "namorado número um", alto como Ren. Depois, veio o "namorado número dois", forte como Ren. Depois, o "namorado número três", que usava o mesmo corte de cabelo. Depois, o "namorado número quatro", que tinha uma voz parecida e usava o mesmo perfume.

Foi o "namorado número quatro" que a deixou sozinha em um bar na beira da estrada: eles haviam combinado uma viagem de carro, mas no meio do caminho ela desceu para ir ao banheiro. Ao retornar, encontrou-o entornando cervejas. Quando ela se recusou a prosseguir viagem, ele gritou com ela, terminou o namoro e seguiu sozinho, deixando-a para trás com uns tipos que davam arrepios.

Não que ela ainda quisesse o relacionamento, mas ser deixada sozinha naquela situação também não estava nos planos.

Sem alternativas, telefonou para Ren, não só a única pessoa que ela sabia que a viria buscar, como também o suporte emocional que ela precisava no momento.

E ele apareceu com a namorada.

Aos vinte e dois anos, Kyoko conheceu o sujeito que parecia perfeito. Tão perfeito, que ela até brigou com Ren, pela primeira vez, por causa dele.

"Que. Diabos. É. Isso?"

"...Uma tatuagem?"

"Puta merda, Kyoko!"

"O quê?"

"Isso é permanente!"

"Bem... sim... vovô!"

"Não banque a espertinha comigo! Desde quando você tem isso?"

"Uns dois, três meses..."

"E só me mostra agora?"

"Bem, em minha defesa, eu não mostrei: você viu por acaso, porque eu me inclinei e a minha blusa subiu"

"Caralho! Foi por causa dele, não foi?"

"Por causa dele? Você está falando do Taira?"

"Claro que é do Taira!"

"Taira, meu namorado?"

"Claro que sim! O tatuador! Foi ele quem fez isso, não foi?"

"Bem, se eu tenho um namorado tatuador e quero fazer uma tatuagem, eu vou fazer com ele, certo?"

"Caralho!"

"...Se eu tirasse 'caralho' do seu vocabulário, era capaz de você ficar mudo"

"Puta merda, essa coisa é permanente!"

"Dá para tirar com cirurgia, mas eu não quero tirar, eu gosto dela"

"Puta que pariu!"

"Ren, qual é o seu problema?"

"Estou chocado, este é o problema! Eu não imaginava que você fosse deixar alguém fazer algo assim com o seu corpo!"

"Uma mariposa da lua na parte inferior das minhas costas está longe de ser a coisa mais chocante que o Taira já fez com o meu corpo!"

"Aaaaaaahhhhhh... eu não precisava ouvir isso!"

"O quê, pensar no Taira fodendo comigo lhe traz uma desagradável imagem mental?"

"Chega"

"Em cima do sofá-cama que você comprou..."

"Já chega!"

"Em cima do tapete que você comprou..."

"Pare!"

"Em cima do maldito fogão!"

"Para com isso, Kyoko!"

"Sabe quantas vezes ele profanou sua 'irmãzinha' contra esta mesma geladeira?"

"Cacete, você não vai calar a boca?"

"Não, não vou! Não vou me calar até você entender que eu estou muito mais para a vadia que me acusavam de ser na escola do que para a frágil e indefesa irmãzinha que você apresenta para as suas namoradas! Não vou parar de falar até você ter pesadelos todas as noites com o Taira usando minhas mãos, minha boca e minha bunda em cada centímetro quadrado deste maldito apartamento!"

Eles se olharam por segundos que pareciam eternidades, chocados e resfolegantes. Até que, sem uma palavra, Ren apenas se virou e foi embora.

Meses se passaram sem qualquer comunicação de ambas as partes, Ren tentando se recuperar e Kyoko tentando se apaixonar por alguém que pudesse efetivamente retribuir seus sentimentos, até que Ren finalmente venceu o estupor e foi procura-la.

Controlou-se um segundo antes de pegar a chave do apartamento e abrir a porta, optando por bater e aguardar que ela a abrisse. Encontrou-a com a expressão perturbada e os olhos inchados, evidentemente surpresa por vê-lo ali.

Algo estava errado na postura dela, Ren podia sentir. Ela tentou dispensa-lo, alegou estar doente, agradeceu a visita e a preocupação, mas aquela não era uma boa hora.

Babaquice. Ele forçou a entrada e descobriu-a escondendo um olho roxo do tamanho de uma bola de tênis.

"Caralho!"

Kyoko riu, apesar da bizarrice.

"Você adora esta palavra, não?"

"Eu vou matar aquele filho da puta!"

E ia, mesmo. Ren estava disposto a revirar a cidade de cabeça para baixo, se fosse preciso, mas transformaria o sujeito em seu saco de pancada pessoal nem que fosse seu último ato na Terra.

"Ren, não! Não foi culpa dele, foi minha!"

"Sua? Culpa sua? Como é que uma mulher merece um soco do namorado, Kyoko?"

"Ren, você... você não entende!"

"Nisto você tem razão, eu não entendo! Eu não entendo como você aceitou as merdas do Sho, eu não entendo como você aceitou as merdas da escola, eu não entendo como está tentando aceitar as merdas deste cara, mas eu não tenho que entender, muito menos que aceitar porra nenhuma!"

Enquanto eles discutiam, nova batida na porta. Pelo pânico de Kyoko, só podia ser Taira.

Ren precipitou-se para a porta disposto a matar, mas Kyoko conseguiu se esgueirar na frente dele. Taira, vendo a porta se abrir, foi logo falando.

"Kyoko, eu..."

"Seu maldito filho da puta, eu vou acabar com você!"

"Ren, não! Já chega! Eu disse que a culpa foi minha!"

Ren estava ensandecido: de novo Kyoko com aquela história de ser a culpada. Por que ela queria proteger tanto o canalha que a agrediu?

"Você... é o Ren?"

Kyoko não conseguia penetrar a névoa de fúria que o envolvia naquele momento com suas súplicas, mas a voz atormentada de Taira foi surpreendente o bastante para fazê-lo recobrar parte da consciência.

"Sou sim, e daí?"

"Ren, já chega! Taira, vá embora!"

"Ela mandou você ir embora, rapá!"

"Ela é minha namorada"

"Você quer morrer? Você acha que eu vou deixar você chegar a menos de duzentos metros dela, depois do que você fez?"

"Ren, para com isso!"

"Você não tem opinião aqui, o meu relacionamento é com a Kyoko"

"Oh, então você quer ouvir dela? Muito bem, então! Kyoko, diga a ele"

"..."

"..."

"..."

"...Vá embora, Taira. Acabou"

Enquanto Ren proferia mais algumas ameaças a Taira, que se afastava amargurado pelo corredor do prédio, Kyoko retornava ao interior do apartamento para chorar pela enésima vez naquele dia.

Ren fechou a porta do apartamento e tentou anima-la, dizendo que um sujeito violento não merecia as lágrimas dela, mas Kyoko parecia inconsolável e só repetia "foi minha culpa", até Ren finalmente perder a paciência e pressiona-la a se explicar.

Cansada, Kyoko cedeu.

"Ele descobriu que era só um substituto"

"...Substituto?"

"Ele me amava. Ele dizia que me amava"

"Mentira!"

"Ele disse que queria casar comigo..."

"Até parece!"

"Mas eu não fui sincera com ele. Eu disse que eu o amava, sabendo que era mentira"

"Isto não dá a ele o direito de bater em você!"

"Você não entende..."

"Porra, Kyoko! De novo, isto?"

"EU O CHAMEI DE REN!"

Kyoko explodiu, e Ren não sabia dizer o que estava acontecendo nem processar a informação que ela havia dado.

"Eu o chamei de Ren... você entende?"

"...De Ren?"

"Sim"

"Bom, e daí? Você confundiu o nome dele, e isso é motivo para ele te bater?"

"Cacete, Ren. Você era mais esperto na escola!"

"Eu não vejo onde está o problema! Você devia estar pensando em mim e trocou os nomes, só isso!"

"Exatamente!"

"Viu? Uma bobagem!"

"Uma bobagem? Ren, você ainda não entendeu-"

"Não entendi o quê, inferno?"

"EU GOZEI COM ELE CHAMANDO O SEU NOME!"

"..."

"..."

"..."

"Eu... chamei o seu nome... Eu estava pensando em você... Todas as vezes, eu... eu pensei em você. Até quando eu conhecia os caras, eu procurava algo de você em cada um deles. Taira era o mais parecido, altura, porte físico, cabelos, olhos... eu até dei para ele de presente a mesma colônia que você usa..."

"..."

"Eu sou desprezível, eu sei"

"..."

"Vá embora, Ren"

Kyoko se sentia péssima. A expressão de Ren era de horror. Ela havia feito, realmente havia conseguido se tornar tudo aquilo que ela passou a vida sendo acusada de ser.

Ao menos agora, as ofensas seriam cabidas.

Dirigiu-se ao banheiro, onde tomou o banho mais deprimente da vida dela. Permitiu-se chorar a perda de Ren, já que a dor que ela provocou em Taira – e que ela sabia, nenhum olho roxo é mais dolorido do que a dor de uma traição – ela chorou inteira na noite anterior.

Ao sair do banheiro ainda enrolada na toalha, surpreendeu-se com Ren ainda parado no meio do apartamento, só que desta vez com uma expressão serena.

"Tem algum canto deste apartamento em que você não tenha fodido com Taira?"

"...Ren?"

"Tem ou não tem?"

"...Hm, é um apartamento minúsculo..."

"Vista-se depressa, estamos de mudança"

"Estamos? Para onde?"

"Para o meu apartamento"

"Para o seu apartamento?"

"Sim" E aqui, ele arrebatou com um sorriso feroz inédito para ela. "Mais cômodos e um monte de tralha, mas com superfícies perfeitas para eu foder você em cada uma delas"

N/A – Não foi um capítulo fofo, mas eu não estou me sentindo fofa hoje XD

Antes que me atirem pedras, não, o enredo e as palavras dos personagens não representam as minhas opiniões. Foi um exercício bastante difícil, até, escrever um one shot tão perturbador, com personagens tão danificados, e não seria assim se eu cedesse à minha constante vontade de adocicar tudo. Como eu disse, um exercício.