PELOS PÁTIOS PARTIDOS EM FESTA
Saint Seiya é marca registrada de Masami Kurumada e da TOEI/BANDAI, portanto não me pertencem. Mas Lunna Monami é minha e ninguém tasca! HIHIHIHIHEHEHEHEHEHAHAHAHAHA HA! *risada maligna*
CAPÍTULO 02: Aioros.
Milo logo contou a Lunna sobre a "Sexta-Feira das Escapadas", o dia em que, quase semanalmente, burlavam a vigilância do Santuário e desciam até os vilarejos vizinhos para se divertir, namorar e aprontar. Lunna ria desses seus amigos que apesar de terem ideais e obrigações tão elevadas, ainda não passavam de meninos. Ainda bem. Fatalmente, ela mesma começou a fazer parte das escapadas, para desespero de Mu e Shaka que sentiam que haviam perdido a "oportunidade de salvar uma alma", como dizia Aldebaram.
Nos vilarejos, eles realmente aprontavam. Alguns tinham namorada em cada um deles, outros paqueravam quem aparecia. Lá também, quando Shura ou Aldebaram iam, compravam ou trocavam objetos por bebidas se fazendo passar por adultos e saiam pro meio do mato para beber escondidos. Apesar de Saga sempre freqüentar as escapadas, ele não era dado a favores ou ajudava os menores, preferindo andar sozinho. Afrodite, sabe Zeus como, descobria lugares "interessantes", geralmente com jogo, prostitutas e strip-tease. Lunna não gostava muito, com razão, mas acabava acompanhando os outros por curiosidade e por não querer ser deixada para trás. Gostava quando Shura, Aiolia ou Aldebaram iam, pois assim podia ter umas conversas mais construtivas, além do que, o capricorniano dividia seus cigarros com a garota. Era proibido fumarem, mas essa e várias outras regras eram constantemente burladas. Milo era legal, mas às vezes muito infantil. Afrodite nem se fala em termos de conteúdo e Carlo...bem ela não gostava muito de Carlo e achava que nem ele dela. Kamus, Mu e Shaka nunca iam, o que era uma pena. Milo ficava triste de Kamyu jamais querer vir. E ver Milo triste deixava a menina triste também.
Havia outro motivo, que não apenas pura diversão, que fazia a garota participar das "Sexta-Feiras das Escapadas" e outras caminhadas pelo Santuário. Ela tinha esperança de esbarrar com Aioros nas andanças e esquecê-lo nas escapadas, paquerando com alguns meninos e bebendo o que existia em abundância: vinho. Os garotos com os quais dividia o alojamento já estavam acostumados com Lunna sempre aproveitar uma brecha, uma folga, para perambular por aí. Inclusive, aproximava-se de Aiolia só para ter mais oportunidades de ver aquele homem que tanto a impressionara.
Aioros ficava geralmente na Casa de Sagitário e Lunna chegou a, umas duas ou três vezes, inventar algum assunto, alguma coisa para perguntar a Shion só para poder passar pela casa. Sempre que ela o vislumbrava ao longe começava a cantar baixinho: (1)
"Tu trazias pássaros entre os dedos,
Tu regias o fogo fantástico da constelação,
Tu brincavas com dez sóis, desafinando os eclipses,
Das almas alheias
Das almas alheias..."
Como é que podia ser aquilo? Lunna sonhava em poder ficar olhando bem dentro daqueles olhos azuis, cheios de bondade e ternura. Cheios de confiança e fé. Ah sim, Aioros tinha uma determinação e fé inabalável em relação à Deusa Athena, ou Αθηνά. E essas características só o deixavam mais belo. A gentileza e delicadeza de Aioros era impressionante. Ele nunca levantava a voz para ninguém e mesmo os assuntos mais sérios, resolvia-os com um sorriso.
Não demorou muito para a jovem reparar nas características físicas do rapaz. Ele era alto, quase da altura de Saga, apesar de ser mais novo que o mesmo. Tinha braços fortes devido principalmente ao manuseio do arco e flecha. Seu cabelo ficava completamente loiro ao sol, chamando a atenção para a faixa que sempre usava na testa. Ela ia vê-lo treinar com o arco e ele acenava para ela ao longe. O rosto e o corpo suado debaixo do sol.
"Pelos pátios partidos em festaa
Em festa
Pelos pátios partidos em festaa
Em festa..."
Mas a menina corava e tentava afastar da sua mente qualquer pensamento "indigno" em relação à Aioros. Aioros era uma tela a óleo ainda úmida que não devia ser tocada. Aioros era quase um santo, um ser abençoado. Lunna se sentia impura, maligna, algo que devia ser trancafiado e o cavaleiro era um templo sagrado o qual não poderia jamais entrar. Esse sentimento que tinha em relação a si mesma só aumentava quando ela pensava naquele homem, como a luz muito forte que realça as sombras mais escuras da noite. E assim, alargava ainda mais o abismo que existia entre eles. Ela apenas observava ao longe, conformada e resignada. E estava feliz com o jeito que as coisas caminhavam; não deixava de ser uma maravilha.
"Tu cantavas docemente no meio do vento,
E todo momento é
Uma maravilha
Ééé uma maravilhaaaa..."
E assim ela passava por ele, cabeça baixa para não faltar ar, coração doído, todavia leve. Pois aquela terra tinha o dom de purificar e oferecer paz a todas as almas.
Para Aiolia, era uma satisfação ter Lunna grudada nele. Sempre que tinha dúvidas era a ele que ela recorria. Milo, que geralmente era possessivo em relação ao "seu bichinho de estimação", invariavelmente trocava a menina por Kamyu. E quando isso acontecia, Lunna vinha para perto de Aiolia. A não ser que ele não estivesse por perto, ela se achegava a Aldebaram e Mu.
Aiolia abria o sorriso por desfilar pelo Santuário com uma garota ao lado. Em parte, sentia-se orgulhoso por saber que estava cumprindo veementemente as determinações do irmão de tomar conta da novata. E ter a aprovação do irmão, deixava-o de peito estufado. Por outro lado, seu ego inflava por ter sempre a companhia de uma garota bonita e que não usava máscara como as amazonas. (Já as amazonas não ficavam nada contentes com a moça: tomavam o ato de não usar máscara como uma afronta a elas. E isso rendia a Lunna comentários maldosos sobre que tipo de treino ela costumava fazer com os demais cavaleiros.) Além disso, Aiolia percebia que Lunna admirava também seu irmão mais velho e muito de suas conversas eram relacionadas ao seu caráter e suas realizações.
- Você sabia que Aioros é candidato à Grande Mestre?
- Ah é? E como se escolhe isso?
- Além das habilidades de luta, é pelo caráter, senso de justiça, essas coisas.
- Ah, humanidade e bondade ele tem de sobra.
- Ô fã-clube de Sagitário. Vocês não estão se esquecendo que Saga está no páreo também não? – Carlo estava andando próximo e não pôde deixar de escutar a conversa.
- Saga?! – Lunna não conseguia pensar como poderia existir alguém mais qualificado que o irmão mais velho de Aiolia.
- Saga é mais forte que Aioros.
- Não é não! – retrucou Aiolia impulsivamente.
Lunna tinha que concordar com o italiano. Saga era realmente poderoso. Mas mesmo assim, para ela, Aioros era o ideal para o cargo.
- Aiolia, seu irmão é um bravo guerreiro. Mas o mundo é dos mais fortes e a bondade de Aioros faz ele ser mais fraco que Saga.
Aiolia já estava para partir pra cima do canceriano, quando Shura, que estava passando na hora, interveio:
- Que papo mais de mafioso é esse, ô siciliano! Vamos, que o mestre tá chamando a gente pra treinar. – E saiu puxando Carlo pelo braço, enquanto Lunna se levantava e fazia o mesmo com Aiolia.
Lunna formou dupla com o leonino e continuaram a conversa baixinho para o mestre não escutar.
- Dia 30 é aniversário do meu irmão. Tava pensando em fazer algo para dar para ele. Quer bolar alguma coisa comigo?
- Claro!
Os dois pensaram o resto da noite sobre o que fazer para presentear Aioros. Acabaram por decidir lhe fazer um arco novo para treino. Lunna sonhou aquela madrugada com o sorriso de Sagitário ao receber aquele presente. Na manhã seguinte, procuraram por amazonas e outros cavaleiros que o ensinassem a produzir um arco. Depois, foram atrás do material necessário: madeira e corda. Tiveram muito trabalho para escolher a madeira certa e talha-la no formato do arco. Tiveram que refazer o trabalho algumas vezes também.
O dia havia chegado e o arco ainda não estava terminado. Por sorte, dia 30 caíra num dia sem treinos e obrigações. Aiolia deixou Lunna sozinha terminando de colocar a corda, enquanto ia atrás do irmão distraí-lo. Era uma surpresa e a garota estava nervosa, pensando no que o cavaleiro ia achar de tudo aquilo. Num descuido, cortou os dedos e acabou por manchar com sangue uma das pontas da corda.
- Ai! Agora vou ter que entregar assim... - choramingou por achar que não estava perfeito e muito menos a altura daquele homem.
Era final da tarde quando Lunna subiu até a casa de Sagitário. Reparou com um misto de orgulho e ciúme a quantidade de flores e outras oferendas deixadas na porta por servas, servos, cavaleiros e outros admiradores de Aioros. Aiolia devia estar lá dentro detendo o cavaleiro na casa até Lunna chegar. A menina respirou fundo e pediu permissão parar adentrar a casa de Sagitário, assim como Shion havia feito no dia da sua chegada. Lembrou-se daquela ocasião com ternura, pois tinha sido também a vez que conhecera Aioros. Aioros e seus cabelos claros. Aioros e seus olhos azuis.
Aioros surgiu com Aiolia. Lunna engoliu em seco. Segurava o arco enfeitado com uma fita verde nas costas, mas era impossível escondê-lo.
- Veja irmão! Fizemos um presente para você! – Aiolia correu ao encontro da garota.
A jovem, tremendo, mostrou o arco para Aioros. Definitivamente não era o arco mais belo. Estava mal talhado, com imperfeições na superfície, a corda estava escura numa das extremidades do arco vermelho. Aioros então notou o corte nos dedos indicador e médio de Lunna e relacionou imediatamente com o vermelho da corda.
O cavaleiro tomou o arco nas mãos e falou com aquele sorriso bondoso:
- É o arco mais bonito que já ganhei.
Lunna enrubesceu e o rosto de Aiolia se iluminou de satisfação e orgulho. Aioros segurou a mão cortada da menina, alisando-lhes os dedos machucados:
- Eu agradeço muito o seu esforço. Obrigado.
A novata paralisou com a ternura do cavaleiro e o seu toque. Primeiro entrou em pânico, pois o ser puro acabara de tocar o mal. Depois, como Aioros parecia continuar o mesmo, acalmou-se. Observou com paixão as mãos de seu objeto de adoração, os calos, os dedos firmes e precisos, as linhas que marcavam as dobras, os pequenos ossos que emergiam. Era uma mão de base quadrada, dedos compridos. A pele era áspera pelos excessivos treinos e tinha marcas, pequenas cicatrizes. Teve vontade de tomar aquela mão nas suas, alisá-las, lê-las. Sim...um dia leria aquelas mãos. Um dia, lhe diria o que o destino lhe reservava. Mas não naquele dia.
Saíram de lá depois que Aioros ofereceu-lhes um lanche. No caminho de volta, Aiolia falava sem parar, empolgadíssimo por tudo ter dado certo, da reação favorável do irmão dentre outras coisas. Entretanto Lunna estava absorta em seus pensamentos. Passou as mãos nos braços, sentindo o frio que era se afastar de Sagitário. Acreditou piamente que o inverno seria rigoroso na Grécia naquele ano e quase não pregou os olhos pensando nas mãos de Aioros.
(1): Esse trecho é uma referência à música "Pelos Pátios Partidos em Festa" da banda piauiense Validuaté. A letra dela segue abaixo:
"Eu tenho pra mim que aquele amor
Não era só pra dizer - era nada
- eu tenho pra mim que aquele amor
Não era só pra dizer - não tem nem rumo.
Tu trazias pássaros entre os dedos
Tu regias o fogo fantástico da constelação
Tu brincavas com dez sóis desafinando
Os eclipses das almas alheias
Tu abrias o sonho louco do querer em excesso
Tu puxavas um armário aberto balançando um lençol azul
Tu cantavas docemente no meio do vento e
Todo momento é uma maravilha
Tu sopravas a vida pulsando belamente
Tu andavas pela cidade e nós amantes éramos
Um filme de cores antigas e fortes
Tu erguias a gambiarra acústica do coração
Pelos pátios partidos em festa"
