Disclaimer: Não, acho que não. Se me pertencesse eu lembraria...
Sinopse: Depois de seis anos solitários nos Estados Unidos, Heero está disposto a voltar para a Europa e recomeçar. Mas algumas surpresas pelo caminho irão mudar seus planos.
N/a: Esse é o capítulo 2, esclarecendo um pouco o que aconteceu. Gosto de escrever hitórias de aventura, mas também gosto de histórias com crianças. E vai ter um bocado dessas duas coisas nessa história. Também gostaria de esclarecer que essa história não se segue aos eventos do fim do anime. Algumas coisas aconteceram nesse meio tempo, então, imaginem o Heero como um cara mais maduro, não mais um garoto, ok? Boa história.
2. DUDA
O que mais lhe preocupava não era a perspectiva que não tinha para onde fugir. Era o fato de ter sido visto no beco. Era o fato de ter levado a menina. Seria ele procurado por dois crimes agora?
O metrô foi lentamente diminuindo a velocidade e Heero já estava achando que fora uma péssima idéia ao tentar descer do veículo com a garota adormecida em seu colo. As pessoas empurravam, apressadas. Ele desembarcou em um bairro que sabia, era de maioria hispânica, não muito famoso na cidade. Achou que talvez ali fosse mais fácil conseguir alguém que fizesse documentos falsos. Mas, antes de tudo, precisava de um lugar para ficar.
Pensou que não seria tão mal engolir um pouco de seu orgulho masculino e pedir informação. Havia um grupo de mulheres conversando à frente de uma loja, e ele parou próximo a elas.
-Com licença, sabem de um hotel ou pensão barata por aqui?
As mulheres olharam para o homem de óculos escuros que lhes dirigia a palavra. E então, para a garotinha adormecida em seu colo, e suas expressões se suavizaram.
-Minha vizinha aluga alguns quartos. – disse uma delas, de cabelos muito escuros. – Ela não cobra muito não, e se pagar um extra ainda tem refeições.
-É longe daqui? – perguntou ele, os braços adormecidos e a mão ferida ardendo.
-Não muito, venha comigo.
Heero seguiu a mulher por algumas quadras, passando por predinhos de tijolo à vista, e pequenas residências geminadas.
-Quantos anos tem sua menina? - perguntou ela com um sorriso.
Heero teve que pensar na pergunta para entender a que ela se referia. Não tinha a mínima idéia de quantos anos tinha a garota...
-Quatro. – falou rápido, para não levantar suspeitas.
-Ela é grande para a idade. Meu filho do meio tem seis, e deve ser mais ou menos do tamanho dela.
Eles chegaram a um edifício de três andares, com uma escadaria de degraus muito gastos, e Heero comemorou internamente. Não saberia o que falar se a mulher continuasse a conversar sobre crianças, não entendia nada a respeito disso.
-Só um pouquinho que vou chamá-la. – disse a mulher, entrando no hall sem reserva nenhuma. Então parou e virou-se. – Desculpe, não perguntei seu nome.
-Carter, Joseph Carter. – nisso, ao menos, ele já havia pensado.
Logo uma mulher muito rechonchuda surgiu no hall, com um vestido que parecia uma cortina florida adaptada. Ela deu um grande sorriso.
-Boa tarde. Parece que o senhor precisa de um quarto, não?
-Tem algum disponível?
-No momento está um pouco lotado, mas vamos ver o que posso fazer. É so você e a menina?
Heero concordou com um meneio e a mulher se aproximou.
-Ah, e que linda garotinha! O senhor não sabe como adoro crianças! A propósito, sou Augusta, mas todo mundo me chama por aqui de Tia Guta!
Heero mal teve tempo de falar o nome, a mulher já virara-se e recomeçara a falar.
-Mas venha por aqui, vamos dar uma olhada no que tenho disponível! Se a imprestável da Helen tiver feito seu serviço direito, devo ter um quarto razoavelmente limpo.
-Joseph? – a mulher que inicialmente havia trazido Heero ali se adiantou - Boa sorte com a Tia Guta, preciso ir. Se precisar de mim, pergunte pela Tonya, que mora perto do açougue.
Ela foi embora e Heero seguiu a senhora, que continuava a falar, pela estreita escada. Haviam várias portas no primeiro andar, mas ela não parou, subindo mais um lance de escadas. No segundo andar, ela foi até a última das portas escuras.
-Aqui, aqui. Este quarto tem uma ótima vista, acho que sua menina vai gostar. Há um banheiro no final do corredor, se tiver muitos insetos você pode mandar chamar a Helen que ela dá um jeito. Sirvo as três refeições lá embaixo, é fácil de achar a copa.
Heero colocou a menina adormecida em uma das camas, e levou a mão ao bolso tirando algumas notas.
-Acho que isso dá por hora, não pretendo ficar mais que uma semana, e o resto acerto depois.
A mulher abriu mais o sorriso, se era possível e soltou um 'bom dia, querido' antes de sair. Herro mirou o que sobrara de dinheiro, e calculou que aquilo teria que dar para mais umas três semanas, o seu limite de tempo para conseguir os documentos, ou não teria dinheiro para deixar o país.
Ele tirou a mala das costas e sentou na única cadeira do quarto. O ambiente não era de todo mal, as paredes estavam pintadas em um tom de azul há muito desbotado e o armário era desparelhado com as camas e a cadeira, mas era limpo e aconchegante, diferente de muita coisa na qual o homem já fora obrigado a dormir.
Ele mirou a forma adormecida na cama. Tinha mais um problema para se juntar à sua lista. Onde estava com a cabeça quando tomara aquela decisão? Não sabia nada sobre crianças, mal cuidava de si próprio, como iria cuidar de outra pessoa? Além do que, aquilo transgredia uma lei que há muito estabelecera em sua vida: evitar qualquer tipo de ligação com as pessoas.
Ele descansou a cabeça nas mãos. Agora além de fugir da polícia e tentar conseguir seus documentos falsos, teria que achar um lugar para deixar a menina. Levantou-se, teria que esperá-la acordar de qualquer forma. Fez um rápido curativo na mão ferida e então caminhou pleo quarto. Mirou a janela e constatou que havia uma boa vista da rua lá embaixo, e da esquina próxima. Também havia notado que, pela posição da porta do banheiro, ele deveria dar para os fundos, o que poderia ser uma possível rota de fuga. Teria que analisar a janela do banheiro mais tarde.
Ouviu um movimento ao seu lado, e virou-se. A garota acordara, e girava o corpo tentando observar melhor o quarto. Então notou Heero, parado próximo à janela, e encolheu-se rápido, com um olhar de medo. Ele continuou com as mãos no bolso, sem se admirar com a repentina reação dela.
-Não se lembra do que aconteceu? – perguntou ele, num tom que chegava a ser monótono. Ela continuou a mirá-lo, mas a expressão de pavor foi desaparecendo.
Heero continuou a mirar a janela, e ela relaxou o corpo. O silêncio instalou-se por alguns segundos. E então ela falou, a voz um tanto rouca.
-Onde estou?
-Num quarto de pensão. – respondeu ele, os olhos nas pessoas que passavam do outro lado da rua.
-Então, os policiais não estão vindo me pegar?
-Não.
-Então, eu não vou precisar voltar para o orfanato?
-Você quer voltar para lá? – perguntou ele, concentrando-se em um verdureiro que perseguia dois pivetes.
-Não. – respondeu ela, em um tom alto.
-Então não precisa voltar para lá.
Ela o mirou, como se ele fosse um alienígena e uma segunda cabeça pudesse crescer a qualquer momento.
-Você é o primeiro adulto que fala isso.
Como ele guardou silêncio, ela sentou-se na cama, observando o ambiente com atenção.
-Você mora aqui?
-Temporariamente.
-Não tem banheiro aqui não? – perguntou a menina, que notou que só havia uma porta.
-No fim do corredor. – Heero já estava pensando em presentear tia Guta com a menina. Ela falara que adorava crianças...
-Quanto tempo é temporariamente?
-Uma semana. – as respostas de Heero já saíam como grunhidos, mas a garota parecia não notar, balançando os pés, e olhando para cada detalhe do quarto.
-O que você faz?
-Chega de perguntas. – o tom dele era conclusivo. A menina o olhou desapontada. Ficou quieta por um tempo. Um tempo não muito grande na opinião de Heero.
-Estou com fome. – e acrescentou rápido - Não é uma pergunta!
Ele fechou os olhos, vendo que teria trabalho. Sentou na cama e a olhou. Ela tinha os cabelos compridos em tom próximo de cor de mel, com uma franja que lhe caía nos olhos. O vestido que usava estava sujo, rasgado e desbotado e os pés, que não paravam de balançar, estavam descalços.
-Minha vez de perguntar. Você não tem família?
-Não.
-Nenhuma?
-Nenhuma.
Aquilo seria mais fácil, pensou ele. Ao menos não seria acusado de seqüestrador por uma família desesperada.
-Já havia sido pega pela polícia?
-Já, da outra vez que fugi do orfanato.
-Certo, quero que ouça bem. Até encontrar um lugar pra te deixar, vai ficar comigo. Mas precisamos combinar algumas coisas, para que policiais não venham atrás de nós. Está bem?
A menina concordou, e ele achou que estava tendo algum sucesso.
"Primeiro, vamos fingir que sou seu tio, para que ninguém desconfie. Você deverá me chamar de Tio Joseph.
Segundo, nada de muitas perguntas. Apenas o necessário.
Terceiro, evitar de ficar conversando com as pessoas. Elas podem fazer muitas perguntas, e nos enrascar."
A menina concordou, achando que tinham um bom plano.
-Agora vou sair. Quero que fique quietinha aqui.
-Tio Joseph? Esse não é seu nome de verdade é?
-Não, não é.
-E qual é? – perguntou a menina, que voltara a balançar as pernas.
-Depois eu conto.
Heero já havia aberto a porta, quando ela o chamou de novo.
-Você não sabe meu nome! E se alguém perguntar?
Ele teve que admitir que a garota era esperta.
-Meu nome é Eduarda. – disse ela, frisando bem as sílabas. – Mas eu não gosto dele inteiro. Gosto mais que me chamem de Duda. Tenho 5 anos e gosto de bolinhas de gude e caçar insetos!
Heero concordou com um meneio, mesmo com vontade de rir das informações inúteis, e trancou a porta.
