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DARK SILENCES, por Sunhawk – Fanfic traduzida participante do
PROJETO PILOTOS GUNDAM WING: SEMANA WUFEI CHANG
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Autora: Sunhawk.
Tradutora: Illy-chan HimuraWakai.
Gênero: Yaoi/BL.
Casal: o principal será o trio 1+2+5... Vai ser minha primeira vez com eles; por favor, sejam gentis e generosas ^~ O 3+4 será o casal secundário.
Avisos: angústia, violência, doçura, ponto de vista de Wufei.
Retratações: sonhei que era dona deles... Alguém se importa?
Nota da Autora: agradecimentos à Christy por ter sido a Beta e a Aya, pelos comentários. Obrigada, meninas!
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DARK SILENCES
Silêncios Sombrios
Por Sunhawk
Tradução: Illy-chan HimuraWakai
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Capítulo 01
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Nossos carceireiros da Romefeller nos abandonaram durante um longo tempo em nossa cela, nos deixando com nada mais que nossa própria frustração. Dando-nos tempo suficiente para grunhir e rosnar um para o outro por causa da forma como viemos parar aqui. Deveria ter sido uma missão de infiltração, do tipo que Maxwell chamava de 'agarre e fuja'. Nosso objetivo era libertar um militar de alto escalão, um homem que reivindicava ser leal aos 'verdadeiros ideais' de Treize Khushrenada e prometera fugir trazendo todas as plantas dos novos modelos de MobilleDolls consigo. Isso seria o fim da guerra, na verdade. Infelizmente, não fora mais do que uma mentira. Um embuste. Uma armadilha audaciosa que tinha tido absoluto sucesso, coisa bastante admirável uma vez que tinha enganado três de nós. Maxwell, Winner e eu. Talvez você esteja certo ao pensar... que isto pode ser muito bem o fim da guerra, afinal. Mas não necessariamente a nosso favor.
Se vivêssemos o suficiente para fugir daqui, eu me permitiria pensar no que pretendia fazer com o vazamento de informações na frente rebelde. Esta missão havia sido elaborada, conferida e checada nos padrões máximos de segurança. Mas alguém, em algum lugar, tinha nos traído. Quando enfim terminamos a primeira parte da missão – nos infiltrarmos na base inimiga e chegar ao escritório do General Bellows – tudo o que encontramos esperando por nós fora uma granada de gás. O bom General tinha até mesmo se permitido ser drogado junto conosco para assegurar que acreditássemos na armação. Caímos como patinhos: engolimos isca, anzol e linha. E terminamos por acordar nesta cela nua, enraizada no meio de lugar algum, com dores de cabeça enlouquecedoras e nada mais para fazer, a não ser especular e pensar sobre o que estaria nos aguardando.
— Como assim uma farsa? — Winner foi rápido na defensiva. — O General foi drogado junto conosco...! O que o faz pensar que ele é um traidor?
Às vezes a ingenuidade dele é suficiente para deixar até um homem de pedra louco – e eu abri minha boca para lhe dizer exatamente isto, mas Maxwell, pela quinta vez, no mínimo, intrometeu-se em nosso bate boca.
— Bom, Quatre... — respondeu ele com aquele sorriso maníaco de um lado a outro do rosto. — Acho que o sorriso sacana estampado na cara dele foi indicação suficiente.
— Oh. — Winner desistiu da discussão e eu quis rosnar. Ele vinha discutindo sobre aquilo comigo nos últimos cinco minutos inteiros, porém Maxwell dizia uma única frase e pronto, tudo virava 'oh' ?
— Deixa para lá, cara — Maxwell o reassegurou. — Eu estava na frente; tinha uma ótima visão dele. — Sua voz soou pensativa e então ele me pegou de surpresa. — Só queria não ter demorado tanto para desconfiar que o jeito dele tinha algo de errado. Se eu tivesse conseguido avisar vocês...
— Foi tudo muito rápido, Duo — Winner lhe falou em voz baixa. — Qualquer que tenha sido o gás que usaram em nós, agiu quase instantaneamente.
— Mas Wufei estava perto da porta — insistiu. — Ele poderia ter conseguido fugir... E aí esses desgraçados não estariam com três de nós.
Tendo desistido da discussão quando Winner começou a discutir novamente comigo, e por não querer acreditar que tínhamos sido pegos daquela forma, eu tive uma chance para me acalmar um pouco. Quando corri os olhos pela cela escura, pude ver como Winner estava assustado e o quanto Maxwell estava se culpando por sua falha em identificar o perigo.
— Duvido que eu chegasse muito longe — disse-lhe duramente. — Aposto que havia um bom número de soldados armados à espera do primeiro de nós que conseguisse sair daquela sala.
Maxwell suspirou pesadamente e eu o vi tentar liberar a tensão em seus ombros.
— Mais alguém aqui com uma dor de cabeça dos infernos?
Com um gemido, Winner confirmou a sua com algum xingamento em árabe. Eu grunhi.
— Aposto que nosso querido General tem aspirina... — Maxwell começou, então ouvimos o som de passos fora da porta. Eu dei uma olhada rápida para ele e vi seus olhos adquirirem uma expressão calculada; ele parecia estar esperando apenas pelo momento certo, então começou a dizer frases desconexas em tom bastante alto: — Eles não podem descobrir que eu sei todos os locais das tropas rebeldes...! Eles... eles vão me torturar! Eu não posso... eu não vou agüentar ser torturado outra vez!
Pelo o que eu sabia, Maxwell nunca havia sido capturado antes desta malfadada missão. Mas a probabilidade – de ele ter batido a droga da cabeça em algum lugar – era algo pouquíssimo provável. Os olhos e a boca de Winner arregalaram-se ao ouvi-lo falar aquilo, mas Maxwell lhe deu um olhar fuzilante e ele fechou-a outra vez.
O ato seguinte desenrolou-se bastante depressa. A porta abriu-se. Maxwell conseguiu assumir uma pose que tornou seu rosto como uma que só poderia ser descrita como... irritante. Não aterrorizado. Não implorante. Não sofredor. Apenas... uma máscara cuidadosamente construída que fazia claramente qualquer um que olhasse para nós deduzir, sem erro, que fora ele quem havia falado aquilo. Os três homens que adentraram em nossa cela foram direto em sua direção, destrancaram suas algemas das pesadas correntes que o ligavam à parede e simplesmente o arrastaram para fora. Exatamente do jeito que ele estivera contando que o fizessem, disso eu não tinha dúvida.
Fiquei admirado com o olhar que ele lançou para nós dois. Se eu não o conhecesse, juraria que ele estava à beira de gritar por misericórdia e que tentava encobrir isto com um ar estóico mas cheio de rachaduras.
Quando a porta fechou-se atrás deles, Winner e eu encontramo-nos sentados e encarando um ao outro em lados opostos da cela, tentando não olhar o lugar vazio a meio caminho de cada um de nós.
— Por que... por que ele fez isso? — Winner sussurrou para mim e eu quis revirar meus olhos.
— Para assegurar que levariam a ele, e não um de nós — eu grunhi. — Por que mais?
— Mas... por quê? — ele persisitiu e sacudi minha cabeça. Não tinha uma resposta – e não tinha a menor vontade de falar sobre aquilo. Tudo no que eu conseguia pensar era no olhar de Maxwell enquanto era arrastado da cela. Sabia que era uma farsa... Mas ainda assim fora assustador. Eu queria saber o quão longe eles iriam neste interrogatório. Queria saber quanto tempo levaria antes de eles entenderem que droga alguma funcionava em nós e voltassem – à boa e velha – tortura. Inutilmente, puxei e puxei meus punhos para frente, tentando libertá-los da parede e fuzilei a porta com o olhar. Winner enrolou-se em uma posição fetal no chão e ficou em silêncio.
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Duas horas se passaram antes que o trouxessem de volta e jogassem seu corpo no chão, sem nem mesmo se incomodar em prendê-lo novamente à parede.
Esperamos a porta fechar e os sons de passos pelo corredor cessarem, antes de Winner chamá-lo baixinho.
— Duo... Duo, você consegue me ouvir?
A forma vestida de negro tremeu; mexeu-se, ficando de costas no chão e o ouvimos gemer de forma muito clara:
— Aaaaai…
Eu soltei a respiração que estava prendendo e chamei-o, em voz firme.
— Estado, Maxwell.
Houve um pouco de um silêncio e eu o vi tentando se avaliar; ele conseguiu até mover e dobrar as próprias mãos e braços, antes de soltar um suspiro e enfim responder.
— Diabos, Wufei... Não sei. Nada quebrado acho.
Uma onda de raiva invadiu meu peito e comecei a abrir a boca para repreendê-lo por só responder metade do que eu queria saber, mas ele rolou outra vez, ficando de bruços no chão e, apoiando-se nas mãos e joelhos, rastejou até Winner. Eu abafei a esquisita punhalada de... ciúme que me atingiu e forcei-me a acompanhar seus movimentos em silêncio. Era óbvio que estava lutando contra a dor, poupando a perna direita e trazendo o braço esquerdo para mais perto, enquanto se movia. Ele deitou-se próximo a Winner e ambos conversaram entre sussurros por alguns instantes. Algo flamejou nos olhos de Winner, uma faísca de esperança, mas esta logo foi engolida pela expressão arrasada que o tomou. Maxwell bateu de leve em sua perna para confortá-lo e então voltou-se para chegar até a mim, lentamente. Doía vê-lo lutando para se aproximar daquela forma e o observei de perto, tentando analisar a extensão dos seus ferimentos. Pareceu que ele levaria a eternidade para cruzar o espaço de pouco mais de dois metros da cela entre nós. Quando enfim me alcançou, ele literalmente desabou no chão ao meu lado, ficando de costas e sorrindo para mim.
— Diga aí, meu xapa — ele soltou uma risadinha. — Por que você tinha que ficar tão longe assim, hein?
Sua habilidade de usar a máscara de bobo da corte não importando a situação nunca deixava de me pasmar.
— Como está, Maxwell? — perguntei, permitindo que um pouco de minha brusquidão normal abandonasse minha voz.
O sorriso dele aumentou, mostrando uma emoção quase real durante um segundo, antes de se transformar em algo... um tanto quanto convencido.
— Ah... Já estive pior. O importante é que consegui o que queria.
Tudo que pude fazer foi piscar, sem entender, enquanto ele estendia as mãos algemadas para baixo e os dedos ágeis pegavam algo no cano de sua bota direita. Teve um pouco de trabalho e eu esperei, pacientemente, para ver o que fora tão importante para fazê-lo suportar deliberadamente uma surra apenas para conseguir. Admito esperar uma arma ou coisa do tipo – não o minúsculo e fino pedaço de metal que ele finalmente me mostrou com ar triunfante.
Não pude deixar de erguer uma sobrancelha.
— E como isto vai nos ajudar?
Ele sorriu maliciosamente para mim.
— Baixe seus punhos algemados para onde eu possa alcançá-los que mostro para você.
Levei meus punhos ao seu alcance e ele ajeitou-se mais perto de mim, dedicando toda sua atenção às algemas que adornavam meus pulsos. Senti um vislumbre lânguido de uma esperança brilhar em algum lugar dentro de mim.
— Consegue mesmo nos livrar delas?
— Desde que tenha tempo suficiente — confirmou ele, obviamente distraído pelo trabalho. — Minha, como direi... infância nas ruas me ensinou alguns truquezinhos úteis que não estavam no manual 101 Maneiras de se Pilotar um Gundam.
Eu o observei trabalhar durante um minuto, a testa franzida em concentração, o ligeiro tremor de suas mãos. Ele estava visivelmente sentindo dor e ignorando isso – eu queria lhe dizer que descansasse primeiro, mas sabia que não tínhamos como esperar.
— Quanto tempo acha que vai levar?
— Infelizmente... — ele murmurou. — Nossos amiguinhos parecem ter comprado o que de melhor existe no mercado para nós. Estas aqui são Kodiak, ao que parece... segredos em dobro... chaveamento chanfrado... Não são assim tão fáceis de quebrar... Tenho que ter cuidado.
Tudo que eu podia fazer era assentir em silêncio; parecia que ele estava falando outro idioma. Maxwell trabalha por mais tempo em silêncio, concentrado, o lábio inferior preso entre os dentes. De súbito, porém, deixa a cabeça cair para o lado por cima do antebraço enquanto ele solta um suspiro estrangulado.
— Maxwell? — chamei-o em voz baixa, o medo fazendo nós em meu estômago. Ele tinha se rendido? Não conseguiria ir até o fim?
— Desculpa, cara — ele murmurou. — Me dê só um minuto... Não contava que eles fossem se... empolgar tanto na primeira rodada.
Maldição. Ele estava sentindo dor demais para poder se concentrar. Examinei-o outra vez, desejando poder avaliar melhor seu estado, então testei o limite do alcance que tinha. A ponta da corrente em que as algemas estavam presas era suficientemente longa para me deixar me mover um pouco, contanto que eu não tentasse me afastar da parede. Eu me remexi, ajeitando-me e ele olhou para mim.
— Aqui — ofereci de forma áspera. — Apóie a cabeça na minha perna, assim não vai ter que ficar se sustentando sozinho. Vou posicionar os braços para as algemas ficarem na sua frente.
Eu esperava alguma piadinha impertinente, ultrajante, mas uma expressão que não consegui decifrar cruzou seu rosto e quando ele se moveu para se ajeitar, foi com uma ligeira hesitação.
— Obrigado, Wufei — murmurou e se eu não conhecesse Maxwell tão bem, teria dito que estava envergonhado.
Depois que mais alguns minutos se passaram, ele começou a falar em voz baixa, explicando que tinha lutado contra seus captores, escapando de suas mãos tempo suficiente para roubar o seu tesouro e regiamente 'coroar' seus esforços. Eles pareciam saber que drogas eram inúteis e tinham ido direto para a tortura, dando-lhe a seção de espancamento a que ele tinha se referido antes.
— Eu os deixei se divertirem por tempo suficiente... — ele me falou. — Então parei de resistir e comecei a falar um monte de merdas, respondendo tudo o que queriam. Não vão levar a vida inteira para checar tudo, logo estarão de volta.
Subitamente, a algema ao redor do meu punho direito soltou-se e ouvi bem baixinho, uma exclamação triunfante de Maxwell. Tinha levado quase uma hora, provavelmente. Eu só podia torcer que ficasse mais rápido. Ele tomou a algema solta nas próprias mãos algemadas e deu uma boa olhada nela, agora aberta, antes de olhar para mim quase me pedindo desculpas.
— Você não pode ser visto sem ela — me avisou. — Esmaguei o mecanismo, então ela não vai mais fechar direito... Mas você precisa continuar usando-a.
— Lógico — respondi e estremeci ao tom de superioridade em minha própria voz. Ele só sorriu de volta. Então, num átino de lembrança, ele se voltou em direção a Winner e levantou os dedos, fazendo um número com uma das mãos e erguendo o polegar para cima com a outra. Nosso parceiro devolveu-lhe o sorriso, perdendo um pouco da aparência ansiosa.
Maxwell voltou-se novamente para mim, deixando a nuca descansar cuidadosamente em minha coxa.
— Ok... Agora a número dois. — Obediente, levei meu punho com a algema restante para seu alcance. Ele trabalhou de forma estóica durante vários minutos antes de olhar para mim com um olhar esquisitamente pensativo. — Uhmm... — começou. — Você sabe que nem no inferno posso ser visto do lado de vocês dois quando eles voltarem, não sabe?
Não respondi, só baixei o olhar para ele e fiquei surpreso ao vê-lo ficando ligeiramente vermelho.
— Eu sei que posso contar com você para não agir de forma precipitada — ele me confessou, olhando-me nos olhos. — Quero dizer... é por isso que estou trabalhando para soltar você primeiro, não Quatre.
Ele estava contando que eu permanecesse sentado, com as mãos livres e sem fazer nada enquanto nossos carcereiros o espancassem. Ouvi-lo dizer aquilo fez meu estômago se retorcer, mas sabia que ele tinha razão. Eu não soube o que dizer e só continuei encarando-o, olhos nos olhos. Estava me sentindo rasgado ao meio por dois sentimentos. Ficava satisfeito por ele confiar tanto em meu controle, confiar em mim para fazer o que tinha que ser feito. Mas, ao mesmo tempo... me angustiava o fato de ele acreditar que eu poderia simplesmente ficar sentado aqui, totalmente impassível diante de sua dor.
— Posso contar com você, não posso? — incitou ele, parecendo nervoso. — A menos que Heero e Trowa venham salvar nossos traseiros... esta é a nossa única chance. Mas nós três temos que estar livres antes de tentarmos fugir, ou não vai dar certo.
— Eu sei — digo a ele e mesmo que eu tenha querido responder da forma mais curta possível, minha voz sai um pouco... aflita.
Ele piscou e então sorriu suavemente.
— Não olhe, então — zombou.
Heero e Trowa. Se os dois tivessem um modo, por menor que fosse, de saber como esta missão tinha dado errado, com certeza ambos viriam em nosso socorro, explodindo tudo o que vissem pela frente. Ou pelo menos um deles viria primeiro que o outro. Embora fosse muito difícil manter a discrição, todos nós sabíamos que Barton e Winner estavam... envolvidos. E ainda que ele não fosse admitir nem em frente a um pelotão de fuzilamento, eu suspeitava que Yuy fosse mais do que ligeiramente apaixonado por Maxwell. Mas não era esperado que nos reportássemos por mais alguns dias ainda. O plano era resgatar o General e nos esconder num esconderijo previamente já escolhido até que as buscas diminuíssem na área e pudéssemos seguir para outro refúgio. Nossos parceiros não começariam a se preocupar antes de, pelo menos, dois dias. Nós três poderíamos estar mortos até lá.
Maxwell continuou trabalhando, entretanto as mãos dele estavam tremendo ainda mais forte do que antes, e eu conseguia ver sua frustração transparecendo em seus olhos.
— Chega. — sussurrei depois do assisti-lo lutar durante quase outra hora e parecendo não fazer progresso algum. — Descanse um minuto. Você está ficando impaciente.
Ele grunhiu, mas deixou as mãos caírem no chão entre nós.
— Não que eu tenha uma tonelada de paciência, para começar.
Era minha vez de grunhir para ele.
— Você está indo bem. Mas pare um minuto... seus braços estão cansados e você, tremendo que nem uma folha. Continuar assim não vai tornar as coisas mais fáceis.
Ele suspirou e eu o senti verdadeiramente relaxar de encontro a mim.
— Você tem razão... toda razão... mas... só um minuto.
— Só um minuto — confirmei, mas estava considerando deixar que tirasse um cochilo; ele estava mostrando todos os sinais de sono causado por exaustão se aproximando. Eu teria coragem?
Como se lesse meu pensamento, ele murmurou:
— Não me deixe dormir. Eles não podem me ver aqui... eles poderiam usar você contra mim... — as palavras estavam inarticuladas pela fadiga, e eu o encarei logo mais abaixo, surpreso.
— Wufei! — Quatre sussurrou subitamente para mim. — Eles estão voltando!
Maxwell ouviu, e dei por mim com os dedos dele empurrando o pequeno pedaço de metal em minhas mãos para mantê-lo a salvo. Então rolou no chão, afastando-se, conseguindo se forçar a levantar e ir cambaleando até o lugar onde o tinham jogado antes. Chegando lá, jogou-se no chão com um gemido contido de dor um segundo antes da porta se abrir.
O primeiro homem a entrar na cela inclinou-se para a frente e agarrou Maxwell pelo colarinho, puxando-o para cima.
— Não foi muito esperto, Menino Gundam — rosnou. — Mentir para o General deste jeito... Você realmente o deixou maluco de raiva.
Maxwell murmurou algo que eu não pude ouvir e o imbecil que o tinha oscilando pela mão corpulenta caiu na gargalhada.
— Você é corajoso, hein... Isso eu tenho que admitir. — Então seu tom de voz tornou-se sombrio: — Mas o chefe odeia corajosos.
Então eles o arrastaram da cela, e a porta foi fechada com um som sinistro.
Eu comprimi o instrumento dentro do cós de minha calça e sentei por um momento, sentindo o lugar em minha coxa onde Maxwell estivera descansando o rosto meros segundos atrás esfriar rapidamente. Eu estava... muito assustado. E não apenas porque ele era a única esperança que nós tínhamos no momento, apesar de mínima.
— Wufei? — Winner se arriscou no silêncio e o medo era algo palpável na voz dele.
Eu não queria discutir coisas daquele nível tendo que falar em voz alta para ouvirmos um ao outro na cela. Não acreditava que estávamos sendo monitorados, mas nunca se sabe.
— Confie nele. — Foi tudo o que eu disse e ele baixou o rosto com um ar infeliz. Agradeci por terem levado Maxwell para longe daqui para interrogá-lo. Não saberia dizer como Winner reagiria... se inventassem de torturá-lo na nossa frente. Por causa de sua empatia, sua natureza bondosa era... extremamente sensível. Seria um inferno enfrentar uma situação como aquela.
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Demoraram três horas. Três longas, infinitas, miseráveis horas antes de o devolverem. Novamente, só o largaram no chão e saíram da cela, sem uma palavra ou mesmo um olhar para trás. Winner mal pode esperar a porta fechar antes de chamá-lo com voz trêmula.
— Duo? Oh Alá... Duo, como você está?
Não houve resposta e Winner fez um som estrangulado.
— Pare com isto! — gritei com ele antes que entrasse em estado de pânico. — Ele está respirando, posso ver daqui. Acalme-se, maldição!
Achei que ficaria com raiva de mim, que fosse discutir sobre minha falta de sentimentos, mas apenas respirou fundo e perguntou:
— Ele está respirando? Tem certeza?
— Está — confirmei. — É difícil dizer com esta maldita roupa preta, não consigo ver o quanto ele está sangrando.
Ele passou a desfiar uma fileira de palavrões, algo como 'bárbaros' e 'desumanos'. Eu deixei de escutar, meus olhos focalizados na forma imóvel de Maxwell, no chão. Depois de alguns minutos, pensei ter visto o tremor que acompanha movimento involuntário e eu o chamei, num sussurro.
— Maxwell? Consegue me ouvir? Você precisa acordar. Qual é seu estado?
Eu vi suas mãos abrirem e fecharem, num espasmo; vi um braço se contrair. Quando a voz dele soou, enfim, era áspera e rouca.
— Eu morri?
— Não ainda, Deus da Morte! — Exclamei, o coração na garganta. — Você pode fazer melhor do que isso!
Ele deu uma risada amarga e virou-se bem devagar por cima de seu estômago, estremecendo ao fazer isto. Eu o assisti tentar se colocar sobre as mãos e joelhos... E o vi não conseguir.
— Duo? — sussurrei e o vi encontrar dentro de si um fiapo de determinação. Ele acabou por se arrastar pelo chão com os cotovelos.
— Você... se incomoda? — ele respirou fundo quando deitou ao meu lado, inclinando a cabeça na direção de meu colo.
— Claro que não! — rosnei, a frustração levando a melhor sobre meu gênio.
Ele deitou apoiado contra mim com um suspiro suave que me fez tremer.
— Quão ruim você está, droga? — murmurei e não pude manter o medo de longe de minha voz.
Ele sorriu e estendeu a mão em busca de sua pequena ferramenta.
— Não sei, cara, juro. Eu lido com os golpes o melhor que posso... mas desta vez eles me seguraram o tempo todo. Tenho duas costelas rachadas, no mínimo. Eu só tentei me certificar que eles não inventassem de querer quebrar minhas mãos.
Eu pesquei o pequeno pino de metal e entreguei a ele, não sem antes de apertar seus dedos durante um segundo.
— Tente proteger essa sua cabeça oca também, certo? — Eu resmunguei repentinamente envergonhado.
O sorriso falhou por um segundo – e me deixou ver seu medo e sua dor... e mais um outro sentimento escondido no fundo daqueles olhos luminosos que não pude nomear. Seus dedos envolveram os meus justo quando eu os afastava, e ele permitiu-se segurá-los fortemente por um minuto inteiro, antes de desviar o olhar e começar a trabalhar.
— O Bellows é um sádico — me informou ele, após alguns momentos mexendo no fecho de minha algema em silêncio. — Foi por um triz, desta vez... No fim, ele sequer estava me perguntando mais nada. Acho que só queria que me espancassem até me matar, mas tinha outro cara do alto escalão lá que mudou de ideia e o mandou parar.
Uma espiral gelada de medo percorreu minhas entranhas e eu quis lhe implorar para que se apressasse, mas sabia o quanto seria prejudicial aplicar aquele tipo de pressão. Eu quase fundi meu cérebro tentando pensar em algum tipo de informação que pudéssemos passar para eles para mantê-los ocupados por um tempo mais longo que as poucas horas que Maxwell estava nos conseguindo.
— Se houvesse mais alguma informação que você pudesse lhes contar, isso os faria demorar mais tempo verificando — ponderei em voz alta e ele bufou, descrente.
— Nem tenho mais certeza se isso se trata de obter informações ou não — suspirou. — Acho que simplesmente ativei o estado de ódio natural do cara.
— Maxwell? — baixei o olhar para ele. — O que foi que você fez?
Ele olhou para mim, cenho franzido.
— O filho da puta quer me ouvir gritar e eu não vou lhe dar o gostinho, nem fodendo. — A expressão em seu rosto me disse que não haveria discussão a respeito. Era uma... vitória insignificante, mas era uma que eu podia entender. Não sei dizer por que, mas eu me sentia... esquisitamente orgulhoso dele.
Eu temera que ele tivesse que começar tudo de novo com a fechadura da algema, mas algumas de suas manipulações anteriores pareciam ter produzido efeito e depois de uns quinze ou vinte minutos quase infinitos, a maldita coisa finalmente estalou, abrindo-se.
— É isso aí! — ele assobiou, vitorioso, e levou a algema novamente a meu pulso, tomando o mesmo cuidado que tivera com a primeira, assim a fechadura não tornaria a se fechar.
Rapidamente, porém, fui arrancando ambas dos meus pulsos e ele olhou para mim, olhos violetas arregalados.
— Que... que porra é essa que você está fazendo? — disparou.
— Me arriscando — o avisei, sem dar-lhe tempo para contestar. — Não vou ficar vendo você se arrastar por este chão imundo outra vez!
Ele me estende uma mão e tenta se sentar, pensando que pretendo ajudá-lo a ficar de pé.
— Idiota — eu murmuro e me agacho ao seu lado para deslizar meus braços por baixo dele, erguendo-o o mais cuidadosamente possível. Ele ofega de dor e eu hesito. — Machucando? — Mas ele só sacode a cabeça, negando.
Eu o levo rapidamente pela cela e o deito ao lado de Winner, enquanto mostro ao loiro como se sentar de forma que Duo possa usar uma perna dele para apoiar a cabeça. Após me certificar que ele estava com o pino de metal firmemente seguro na mão, fiz menção de voltar para meu lugar na cela, mas Duo me parou com um olhar.
— Me escutem, vocês dois — ele disse com firmeza. — Não importa o que aconteça... não conseguiremos fugir até nós três estarmos completamente livres. — Tentou diminuir o peso do que dizia com um sorriso minúsculo. — Se agirmos de forma precipitada, estaremos jogando todo meu sacrifício no lixo. — Ele havia dito 'vocês dois', mas de algum modo eu sabia que suas falas eram voltadas em especial para Winner.
Voltando-me para ele, apoiei sua fala:
— Isso é óbvio, Maxwell. Você me toma por um idiota?
Ele me deu um sorriso luminoso e uma piscadela; me pegou de surpresa ver a mensagem privada em seu gesto e poder lê-la tão claramente. A garantia de que ele sabia que eu estava reforçando seu recado para Winner e não irritado de fato, com ele. Precisei dar o meu melhor para não devolver o sorriso. Grunhi e voltei rápido para minha corrente, sentindo-me estranhamente perturbado.
Depois disso, pude apenas observá-los à distância, incapaz de ouvir a conversa sussurrada dos dois. Eu sentia como se fosse explodir de frustração. Comecei a sentir um pouco mais de simpatia por Winner, que tinha ficado ali sozinho o tempo todo, resistindo.
Mesmo à distância, podia ver Duo lutando contra a exaustão, podia ver a expressão preocupada de Winner. Podia sentir o tempo correndo entre nossos dedos como se fosse uma coisa física. Eu queria gritar com ele para que fosse mais rápido, inferno! Levou quase uma hora para que a primeira algema do braço de Winner pulasse de seu pulso. Vi que tinha dado certo quando o rosto do loiro iluminou-se com um imenso sorriso – e os braços de Duo desabaram no chão. Eu tive um momento de pânico, pensando que ele tinha desmaiado com o trabalho ainda pela metade, mas Winner inclinou-se mais para baixo e falou em voz baixa com ele e vi Duo erguer os braços para ajustar a algema em seu pulso sem fechá-la de verdade. Ele mal terminou de fazer isso antes de ouvirmos passos pesados no corredor.
Pânico apertou meu tórax. Eu vi o pino de metal trocar de mãos e Duo, com suas últimas reservas de força, se jogar do colo de Winner, conseguindo mover-se alguns centímetros pelo chão antes de a porta abrir-se.
Tive o pressentimento de que as coisas seriam ainda piores desta vez quando notei que o tal general Bellows em pessoa viera acompanhando os soldados. Olhei para Duo e vi uma verdadeira aflição estampada nos olhos dele. Ele tinha... medo daquele homem. Eu quis urrar de raiva; apenas uma maldita algema impedia nossa liberdade. Eram somente Bellows e três homens; conseguiríamos dominá-los facilmente... se estivéssemos livres.
Houve um longo momento, quase tão eterno quanto a morte, enquanto Duo encarava Bellows, eu encarava Bellows, Quatre encarava Bellows, e Bellows... era o dono da maldita situação.
— Tragam aquele ali — ordenou, apontando para Winner.
O sangue virou gelo em minhas veias. Se eles descobrissem a algema quebrada seríamos, os três, mortos ali mesmo. Pensei em fazer algo, mas não ousava chamar atenção para minha pessoa. Foi então que o inconcebível aconteceu.
Duo sorriu em seu melhor estilo provocante e soltou, sarcástico:
— Bellows, amorzinho! Não acredito, meu coração está sangrando. Está desistindo tão fácil assim de mim?
O rosto do general contorceu-se com a mais pura raiva, mas foi rapidamente controlado. No curto espaço de horas em que Duo havia ficado na companhia deste homem, ele tinha aprendido todos os botões que deveria empurrar – e os estava pressionando com determinação suicida.
Eu quis fechar meus olhos, eu verdadeiramente quis, mas me pareceu uma coisa covarde de se fazer. Se Duo podia suportar o que ia acontecer para salvar nossa mísera chance de fuga, como eu poderia não agüentar testemunhar sua coragem? Suspeitei que Duo tinha dado a Winner o mesmo conselho 'é só não olhar' que ele também havia me dado antes, porque vi, de onde eu estava sentado, nosso parceiro loiro fechar os olhos fortemente, o rosto tão branco quanto giz.
Bellows recuou e chutou Duo violentamente com um pé calçado em bota pesada. Pensei que estava prestes a vê-lo morrer. Duo realmente sabia como se esquivar e amortecer os golpes, porque, não fosse isso, Bellows teria afundado um lado de sua cabeça, tenho certeza.
Meus músculos estavam tensos como as cordas de um arco, querendo pular de onde estava e estrangular aquele homem. Mas... Duo tinha razão. Sozinho contra homens armados eu não teria chance alguma e continuaríamos presos, porém sem o pino de metal que ele conseguira com seu próprio sangue. Continuar sentado ali, sabendo que minhas mãos estavam livres e também sabendo que não poderia fazer nada... era a coisa mais difícil que já fiz em minha vida.
O general continuou a distribuir pontapés no corpo de Duo, que se retorcia, de alguns conseguindo se esquivar, de outros não. Dentro de um minuto, o homem estava suando em bicas e xingando como um estivador. Mas não se ouvira ainda um único gemido vindo de Duo, o que pareceu deixar Bellows insano.
— Eu vou ouvir você gritar, seu merdinha! — rosnou ele, esmurrando Duo pelas costas, o que me fez morder minha própria língua para me impedir de gritar para que parasse. Dei uma olhada rápida em Winner e fiquei mole de alívio ao vê-lo com os olhos ainda firmemente fechados; pelo menos ele conhecia seus próprios limites. Aí notei outra coisa: os próprios homens de Bellows começavam a mostrar-se incomodados com as ações do oficial. Senti um pouco de esperança quando os dois mais próximos da porta trocaram algumas palavras sussurradas. Duo estava debilitando rapidamente, suas táticas evasivas trabalhando cada vez menos; Bellows parou por um momento, imóvel no centro da cela, arquejando como um corredor de maratona, parecendo estar se preparando para uma rodada definitiva, quando um dos seus subalternos abriu a boca.
— General! — O soldado chamou-o, hesitante. — Smith disse que o Comandante Stark está vindo procurando o senhor!
Bellows deixou escapar um palavrão em voz alta, mas abandonou rapidamente seu brinquedinho, com toda certeza não querendo ser pego aqui. Não tive dúvidas de que esse tal de Stark fora o mesmo oficial de alto escalão que impedira Bellows de continuar sua sessão de tortura anterior.
Forcei-me a ficar onde estava até minha contagem mental chegar a vinte, depois que a porta foi fechada – então arranquei as malditas algemas e atravessei a cela num só movimento. Eu podia ouvir o som abafado de um choro e isto quase me rasgou por dentro, mas quando me ajoelhei ao lado de Duo, percebi que o som não estava vindo de onde pensava. De imediato voltei a atenção a Winner, mas ele ainda permanecia com os olhos fechados.
— Controle-se! — ordenei-lhe. — Eles já foram!
— Oh Alá... ele o matou, não foi? — ele sussurrou e eu não sabia se ria ou chorava. Talvez minha decisão de assistir tenha sido melhor; ficar apenas ouvindo tinha tornado tudo ainda pior.
— Não. — Contestei-o firmemente. — Não o mataram. — Devagar, virei Duo e me surpreendi ao ver aqueles vívidos olhos violetas abertos e procurando por mim. Eu me senti compelido a lhe sorrir. — Ele está muito vivo... Mas sinceramente, duvido que esteja feliz com isso no momento.
O comentário sarcástico me fez ganhar um deslumbrante, ainda que inseguro, sorriso. Fui impelido a acariciar os fios de cabelo colados em seu rosto e ele me deu novamente aquele olhar que não pude decifrar antes.
— Por Cristo, Maxwell — eu o repreendi. — Grite só uma vez... Só uma, e aquele desgraçado te deixará em paz.
Sua expressão ficou sombria e voltou os olhos para Winner, do outro lado da cela.
— Eu... eu quase cedi. Mas agora eu tenho medo... tenho medo que ele... — Duo não completou a frase, mas não precisei que ele falasse em voz alta. Ele estava com medo de que levassem Winner. — Estou com medo de tê-lo levado ao limite... estou com medo do que ele possa fazer.
Com Winner.
Eu suspirei, mas olhei para o lugar que ele estava, entre a pedra e o chão duro.
— Posso mover você? — perguntei-lhe baixinho, mais do que atento ao tempo que fazia tique-taque, distanciando-se de nós.
— Não temos muita escolha, temos? — ele sorriu e nem mesmo pôde levantar o braço direito para me ajudar a erguê-lo. Tive que ajustar meu aperto três vezes antes de poder envolvê-lo sem que ele estremecesse de dor. — Me levante logo! — urgiu finalmente e eu o fiz.
Demos nosso melhor para deixá-lo confortável quando o deitei no chão ao lado de Winner e de imediato ele começou a trabalhar; entretanto suas mãos tremiam tanto, que achei impossível que ele pudesse terminar o serviço. Relutante, o deixei lá e voltei para meu próprio canto, sentindo-me isolado e desamparado. Eu o queria desesperadamente num lugar onde pudesse receber cuidados médicos, mas só podia permanecer sentado e imaginar o estrago que aqueles inúmeros pontapés teriam feito nele. Se possuía costelas fraturadas antes, não restava dúvida de que elas estavam quebradas agora. E seríamos os caras mais sortudos do universo se este fosse todo o dano que aquelas sessões de espancamento tivessem lhe feito. Jurei que se me visse na mesma sala com o general Bellows e uma arma, atiraria bem no meio dos olhos daquele demente. Toda vez que eu me permitia relembrar a cena em minha mente, uma onda de raiva gelada consumia um pouco mais de meu coração. Como aquela cria do demônio ousava botar as mãos em cima de Duo? Sim, eu o mataria – e só seria uma morte rápida porque não teria tempo suficiente para aproveitar do prazer que uma demorada me daria.
— Wufei? — O tom inseguro, quase tímido da voz de Winner me arrancou do meu devaneio. — Ele desmaiou.
— Puta merda! — Eu rosnei, medo gelado explodindo dentro de mim com outra explosão de adrenalina não estavam me fazendo bem nenhum. — Consegue acordá-lo?
— Não... Ele apagou mesmo — respondeu.
— Continue tentando — ordenei, temeroso de sair do meu lugar. Pelo tempo que já se passara, nossos carcereiros estariam de volta a qualquer momento. Ainda assim... meu coração não queria nada a não ser correr até ele.
Vi Winner sussurrar em tom de urgência para o corpo desmaiado ao seu lado. Eu o vi acariciar, com dedos hesitantes, uma face machucada. Eu o vi sacudir, inutilmente, um ombro.
Aqueles olhos esverdeados, arregalados, ergueram-se para encontrar com os meus outra vez; seu dono parecia completamente abalado. Sem Duo... sem suas habilidades, estaríamos, como ele próprio diria... 'fudidos'.
Eu me achei encarando a figura repentinamente frágil no chão como se eu pudesse fazê-lo ouvir meus pensamentos... 'Não desista, meu bravo. Eu sei que você tem a força para fazer isto... Sei que você pode fazer isto. Acorde... Volte para nós. Não deixe que aquele desgraçado ganhe!'.
Minha resposta foi o som de passos no corredor.
Vi, com certa quantidade de alívio, Winner pegar o pino de metal e empurrá-lo em um bolso. Mas não havia o que fazer quanto a Duo ser visto ao seu lado.
A porta abriu-se de sopetão e eu tentei adotar uma expressão desinteressada, esperando não parecer tão apavorado por fora quanto me sentia por dentro.
Era, claro, Bellows novamente, com três dos seus asseclas. O soldado que tinha mentido mais cedo sobre a chegada iminente do tal Comandante Stark não estava mais entre eles.
Acompanhei Bellows se aproximar do quadro formado por um Duo desmaiado, vulnerável, com a cabeça deitada no colo de Winner e estremeci. O desgraçado... sorriu. Uma expressão que significava sadismo puro.
Ele gesticulou para seu novo capanga e o soldado aproximou-se para puxar Duo para cima pela camisa, fazendo-o oscilar como uma boneca de pano. Ele o ergueu de vez e o jogou aos pés de Bellows, como qualquer cão bem treinado faria. Intuí que não haveria ajuda alguma daquele miserável e só poderia rezar e esperar que os outros dois fossem tão escrupulosos quanto o colega subtraído da equipe o fora.
Examinei-os atentamente de novo, mas quatro contra um me garantia uma chance mínima e eu estava longe demais. Eles me crivariam de balas antes mesmo que eu conseguisse chegar perto de Bellows o suficiente para matá-lo. E isso deixaria Duo sem minha ajuda. Embora Duo não fosse um rapaz tão alto assim, ele ainda era mais alto que Winner – e eu duvidava que nosso parceiro árabe conseguisse levá-lo sozinho dali. Sim, eu já havia entendido há um bom tempo que Duo não sairia de lá andando pelas próprias pernas.
Bellows cutucou o corpo inerte de Duo quase suavemente, com uma das botas, seu sorriso aumentando quando ele adquiriu um estremecimento como resposta. Ele cutucou novamente e esperou por aquele momento preciso do despertar, aquele segundo exato antes de você registrar onde você está, enquanto ainda está tentando se lembrar do que diabos lhe aconteceu. Então ele simplesmente recuou e chutou Duo violentamente no quadril. O único som ouvido foi o som foi o ar sendo exalado. Vi o sorriso no rosto do General tornar-se um esgar de fúria.
Ele se agachou e agarrou um punhado da trança parcialmente desfeita de Duo, quase arrancando-lhe a cabeça ao erguê-la para cima, em sua direção.
— Acorde, seu rato de esgoto! — rosnou ele, a voz baixa e ameaçadora, antes de soltá-lo. Duo desabou no chão, mas fez um esforço hercúleo para se sentar.
— Onde estão as piadinhas infames, hã, piloto Gundam? — a especificação soava como um palavrão na boca do infeliz. — Aquele palerma coração mole do Stark saiu do complexo... ele não vai aparecer para salvar sua pele desta vez!
Ele deu um passo para longe de Duo e aproximou-se de Winner. Gelamos, olhando o homem, tentando adivinhar o que aquele demônio ia fazer agora. Eu não tinha dúvidas de que Winner não agüentaria o que Duo havia suportado. Ele não conhecia as manhas, os movimentos do corpo que ajudavam a minimizar os golpes. Eu resistiria muito mais, por causa do treinamento em artes marciais. Duo provavelmente conhecia mais truques do que eu, afinal era um sobrevivente de uma vida nas ruas. Mas Winner... o forte dele eram táticas, logística para movimentos de tropas em grande escala, distribuição de equipamento e materiais de apoio. Ele não tinha treinamento de combate ou defesa pessoal. Especialmente... não neste nível.
Mas, como Duo temera, encontrar os dois juntos tinha oferecido ao inimigo a arma perfeita para Bellows minar o controle de Duo.
— Você está tão resolvido a não gritar... — Bellows analizou, a voz soando como veludo. — Pois muito bem. Acha que consegue aguentar, não é? — Ele puxou sua arma e apontou-a diretamente à cabeça de Winner. — Um som. Um som, seu escrotinho de uma figa, e o seu... amiguinho aqui leva uma bala no meio dos olhos. Um grito. Um gemido. O mais leve som.
Aquele General era realmente era um sádico! Quis saber o que nos passara pela cabeça para em algum momento termos pensado que ele pudesse ter algo a ver com os ideais da Facção de Treize. Treize cuspiria neste homem.
Duo não pôde conter um súbito tremor percorrer-lhe o corpo de forma incontrolável e o General sorriu malignamente para ele, parecendo muito uma pessoa que se deleita com algo extremamente desejado.
Meus olhos buscaram Winner e eu segurei seu olhar, dando o meu melhor para sustentar a coragem dele. Não havia cor alguma em seu rosto e do nada me cruzou a mente o pensamento de que talvez aquele momento não fosse uma hora tão ruim para ele desmaiar.
Então Bellows fez um aceno curto para o novo soldado – e o espancamento recomeçou. Este homem, pelo menos, parecia estar um pequeno mais familiarizado com o quão facilmente uma pessoa poderia quebrar como um brinquedo. Seus socos golpeavam causando mais dor do que ferimentos, diferente dos golpes cruéis, insanos, usados para quebrar uma pessoa de Bellows.
Poucos minutos após a sessão começar, Quatre fechou os olhos outra vez e eu fiquei livre para voltar minha atenção a Duo. O que não necessariamente era uma coisa boa. Eu estava tremendo com a necessidade de acabar com aquilo. Eu poderia ter vendido meu próprio Gundam para comprar alguns momentos de repouso para Duo. Mordi fortemente meus lábios para me impedir de gritar todos os palavrões que desfiavam sem controle em meu cérebro, minha mente racional sabendo que aquilo não seria nada bom, mas a bile estava revirando meu estômago.
O espancador de Duo o ergueu e deu-lhe uma série de socos no rosto antes de fazê-lo cair de novo. Pelos poucos e preciosos segundos que ele permaneceu deitado imóvel no chão enquanto seu atacante se aproximava do seu corpo desamparado, os olhos dele buscaram o meus. Buscaram desesperadamente pelos meus.
Nossos olhares fecharam um no outro no espaço de uma batida de coração.
'Não olhe', ele me implorou.
'Não vou abandonar você', prometo-lhe de volta, chocado ao me dar conta que a visão dele frente a mim oscila.
Ele me retribuiu com um sorriso efêmero até o próximo murro desmanchá-lo.
Estava acreditado que nunca terminaria. Os tapas, os murros, os pontapés; pareciam não ter fim. Bellows ia ficando cada vez mais furioso e continou a escarnecer de Duo, ainda apontando a arma para a cabeça de Winner. Desafiava-o até mesmo a respirar mais alto.
— Cedo ou tarde você vai quebrar, seu miserável e quando isso acontecer... Seu amigo aqui levará um tiro! Um som, apenas um, é o que me fará apertar o gatilho! Chore... gema... grite! Quanto tempo mais vai agüentar? A vida dele depende de seu silêncio!
Houveram mais, muito mais. Insultos, zombarias, ironias constantes. Eu estava a ponto de enlouquecer só de ouvir.
Aquela era uma situação sem vencedores: se Duo cedesse, dando àquele louco o que ele tanto queria... ele prometera matar Winner. E eu sabia que ele levaria a cabo a promessa. Mas o fato de Duo não lhe dar o que queria, apesar do homem estar fazendo de tudo para reduzir-lhe o controle à pó... estava deixando Bellows num frenesi por sangue.
Olhei de relance para os outros dois guardas e fiquei surpreso ao ver apenas um deles lá. Reavaliei nossas vantagens, mas com uma arma apontada para a cabeça de Winner, eu continuava tão imobilizado quanto antes.
Então Bellows soltou uma série de palavrões e tirou algo do bolso.
— Vejamos se você agüenta isto, seu miserável! — rosnou ele e jogou o que revelou-se uma arma de choque para seu assassino disfarçado de soldado.
Os olhos violetas arregalados e horrorizados de Duo, dardejaram ao redor, vindo a focar-se nos meus por baixo dos fios encharcados de suor do seu cabelo. Sua expressão era implorante e por um momento, não pude dizer se implorava por minha ajuda, ou se para que eu continuasse quieto.
'Aguente firme, eu estou aqui'. Era um conforto tênue, porém era tudo que eu tinha para lhe dar.
Mas pareceu confortá-lo; seus olhos endureceram um segundo antes de ele os fechar, preparando-se para o que viria.
Eu sabia que a próxima meia hora seria o inferno na terra. Eu nunca tivera que mostrar tanto autocontrole em minha vida inteira. Se alguém tivesse me dado uma arma e dito que tudo aquilo parararia se eu explodisse meu cérebro, eu não teria hesitado. Qualquer coisa... qualquer coisa; eles poderiam ter minha vida, se parassem aquela loucura brutal. Se mandassem Bellows para o inferno.
— Tudo você tem que fazer para fazer isto parar é gritar, seu escrotinho. Só isso... Grite... Implore, e eu paro! — Ele ria cruelmente, colando o cano da arma contra a testa de Winner. — Mas claro... Que isso significa que seu amiguinho morre na hora... mas nós pararemos! — Winner vacilou quando a arma o tocou, mas permaneceu ferrenhamente calado.
Eu não desviava o olhar, assistindo fixamente, de forma que conseguia fazer contato visual com os olhos de Duo sempre que possível. Ele fez isto acontecer mais de uma vez – aquele olhar – às custas de levar golpes que poderia ter evitado. Fez meu coração se apertar em meu tórax, perceber o quanto ele estava confiando em algo que via em meus olhos, para se submeter àquilo.
A primeira onda de choque foi... devastadora. O corpo inteiro dele arqueou e saltou, seus músculos descontrolando-se em contorções dolorosas. O portador da arma foi... inventivo. Juro por todos meus antepassados... pensei que eu desistiria e começaria a chorar.
Mas, apesar de tudo, Duo impediu-se de gritar. Manteve seu silêncio. Manteve-se agarrado àquele pedaço mínimo de dignidade com tudo o que tinha. Comprou a vida de Winner com sua resistência ferrenha. Eu senti aquela emoção estranha, entrelaçada com orgulho espalhar-se novamente por mim. Mas santo Deus... o que aquilo estava lhe custando? Como ele estava conseguindo?
Estava tão focalizado em Duo, que perdi quando o terceiro homem voltou à posição de guarda, na porta. Ele simplesmente reaparecera em seu lugar outra vez, parecendo vagamente enjoado. Bellows sequer notara que ele tinha sumido dali. O recém-chegado trocou um olhar de relance com o outro soldado, que mostrava-se tão enojado quanto ele. Eu quis gritar com eles para acabarem com aquela loucura. Aquilo não era mais nada a não ser barbaridade doente! Era uma vingança, um ataque pessoal a Duo, simplesmente porque ele tinha desafiado este homem.
A arma de choque o atingiu uma segunda vez e mais uma outra, mas nem mesmo um gemido escapou da mandíbula cerrada de Duo. Mas então aconteceu de eu olhar para Bellows – apenas para testemunhar uma expressão verdadeiramente maligna cruzar seu rosto. Num átimo de segundo, eu o vi engatilhar a arma e disparar, à queima roupa, um pouco abaixo da orelha de Winner. Eu tinha visto sua intenção, mas não tinha tido tempo suficiente para adverti-los. Winner, com o corpo tão tenso quanto possível, deixou escapar um grito. Pedaços de concreto voaram como metralha e cortaram seu rosto. Não pude acreditar que aquele animal tinha realmente atirado dentro de uma estrutura revestida de metal como nossa cela...! Era um milagre que a bala, ao ricochetear, não tivesse atingido nenhum deles.
O objetivo de Bellows fora o de enganar Duo, fazendo-o pensar que havia atirado em Winner. Então quando Duo enfim gritasse, o filho da puta atiraria de verdade em Quatre e aí então poderia se regozijar na frente de Duo, de que ele tinha quebrado... e causado a morte do parceiro. Eu me senti doente ao ver que conseguia adivinhar o pensamento daquele demônio.
Mas Duo não caiu na armadilha; seu corpo estremeceu como se ele próprio tivesse levado aquele tiro, mas não houve um som... nem mesmo um abençoado som. Este último... fracasso levou Bellows para além de todos os limites. Seus olhos perderam todo o rastro de sanidade, o rosto contorceu-se em uma máscara sádica, uma simples paródia de algo ainda humano. Ele ia... Ele ia matar Duo; eu podia sentir isto no ar como uma corrente elétrica. Eu senti meus próprios músculos tensionando e enrijecendo, sabia que eu não agüentaria mais continuar sentado aqui e assistir mais daquela atrocidade. Não conseguiria salvá-lo; eles descarregariam os pentes de suas armas em mim antes que eu pudesse cruzar a maldita cela... mas àquela altura, eu não me importava mais. Preferia morrer com Duo do que sobreviver alguns dias sem ele, sabendo que eu havia permanecido sentado e simplesmente assistido, sem fazer nada. Tinha consciência que ele me amaldiçoaria, quando nos encontrássemos... Mas eu não me importava.
— Bellows! Sentido! — uma nova voz ordenou, de súbito. — O que diabos está acontecendo aqui?
A cena inteira congelou, e todos nós fazíamos um ótimo quadro, tenho certeza. O General, segurando e apontando uma arma com cano fumegante à cabeça de Winner. Winner, olhos firmemente fechados e tremendo a olhos vistos. Duo largado no chão, seu corpo inteiro ainda se contraindo violentamente. O assecla de Bellows parado, imóvel em pé acima dele, a arma de choque oscilando em seus dedos e um olhar de culpado no rosto como uma criança pega com a mão dentro do jarro de biscoitos. Os dois guardas à porta, parecendo plenamente agradecidos e tentando desesperadamente se esconder. E eu... tenho certeza de que eu parecia tão insano quanto todos eles. Aparentemente algemado e preso à parede com correntes, mas retorcido para frente, preparando-me para pular e trucidar o demônio com todas as forças que tinha.
Só podia ser o famoso Stark. O nêmesis de Bellows e o espinho de seu sapato. Eu poderia ter beijado o homem. Poderia ter gritado de alegria. Era difícil lembrar que o Comandante era nosso inimigo, também. Ele estava muito mais para o cavaleiro no cavalo branco, naquele momento. O desgosto pelo o que via a sua frente era visível em seu rosto.
— Ponha sua arma no coldre, General! — Stark gritou a ordem para um Bellows que permanecia onde estava, de pé, e eu me vi com medo de respirar, enquanto esperava para ver se ele acataria o comando.
Stark apenas agiu como se soubesse que Bellows o obedeceria de imediato e voltou a atenção ao soldado que vinha fazendo o... interrogatório.
— Bross! Você está a ferros! — ele latiu. — Apresente-se imediatamente à sua Unidade e eu espero vê-lo em meu escritório às sete horas da manhã!
O soldado, Bross, visivelmente humilhado, murmurou um 'sim, senhor', e dirigiu-se à porta. O Comandante fez um gesto autoritário para Bellows e eu enfim me lembrei de respirar quando ele finalmente entregou sua arma.
Stark dispensou-o com um olhar gélido, dizendo apenas 'Fora!' e o nosso bom General abandonou a cela.
Os dois guardas restantes relaxaram visivelmente assim que ele desapareceu, tanto de suas vistas quanto do alcance de suas vozes.
— Bom trabalho, Pierce — elogiou Stark, quando não havia dúvida de que os outros dois estavam longe o suficiente. — Isto deve ser o suficiente para apresentarmos acusações formais ao Tribunal.
— Sim, Senhor! — Pierce disse com submissão, um toque de satisfação tingindo sua voz.
O Comandante aproximou-se mais de Duo e ali ficou de pé, olhando para baixo durante um minuto, suspirando irritado e sacudindo a cabeça. Um pouco do meu sentimento pelo 'cavaleiro branco' desfez-se ali.
— Levem-no para a enfermaria e façam com que seja tratado — ordenou bruscamente, sua mente já se fixando na próxima fase do seu caso contra Bellows. — Certifiquem-se de que todos os ferimentos sejam documentados.
Eu estava fervendo de fúria, mas só pude voltar a sentar-me, silencioso, para disfarçar minhas algemas destrancadas e assistir, impotente, enquanto levavam Duo embora pela terceira vez.
Eu olhei para Winner e o achei balançando suavemente para frente e para trás, os olhos azuis esverdeados fitando de forma fixa um ponto à sua frente, mas não enxergando nada, na verdade.
— Winner? — chamei-o em voz baixa e não adquiri resposta. Eu estava com medo de arriscar, de retirar as algemas naquele momento. Havia a possibilidade de eles voltarem a qualquer instante. Nós ainda teríamos uma chance, ínfima, se devolvessem Duo à cela. Se ele ainda estivesse em condições de usar as mãos, poderia tentar livrá-lo da segunda algema. Ainda possuíamos uma chance de fugir, principalmente agora que Bellows não estaria à nossa espreita. Poderíamos ter realmente mais de uma hora para poder nos tirar daqui. Olhei atentamente para a porta, querendo descobrir algo sobre a fechadura, querendo saber se Duo poderia abri-la também, se tivesse tempo.
— Quatre? — chamei-o outra vez, mas os olhos dele pareciam simplesmente estar fixos no chão à sua frente, o exato lugar onde Duo tinha permanecido.
— Pelos deuses... reporte-se! — dei-lhe a ordem e finalmente fui recompensado finalmente com um movimento de seus olhos em minha direção.
— Aquele animal está morto — ele jurou, em uma voz que enviou calafrios por minha espinha. — Eu cuidarei disto.
Não pude contar uma gargalhada sombria.
— Fique na fila — eu lhe falei e o olhar dele enfim reconheceu e focalizou-se no meu. Ele me deu um aceno, assentindo.
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