Capítulo II

Com uma expressão determinada, Pansy entrou na bem mobiliada sala de estar da imponente mansão de Barton. O espaçoso aposento raramente era usado, exceto em ocasiões especiais, como aquela. Decorado ao estilo francês que estivera em voga trinta anos antes, possuía estofados e cadeiras recobertos com pesados brocados rosa e cinza e mesas pintadas com uma profusão de detalhes dourados. Inúmeras vezes, as irmãs de lorde Malfoy se empenharam na tarefa de persuadi-lo a modernizar o salão, mas o nobre sempre se recusara pelo simples motivo de que fora sua amada esposa Narcisa quem escolhera a mobilia e os tecidos.

Compadecida dos sentimentos do tutor, Pansy valorizava o refinamento do antiquado mobiliário... Embora, naquele momento, pensasse que não podia haver contraste maior com seu enlameado traje de montaria.

Ao cruzar as portas, deparou-se com o clã da família Malfoy, todos vestidos em trajes sombrios, em tons de preto e cinza. Percebendo suas expressões chocadas, desejou ter subido primeiro aos seus aposentos e escovado os cabelos. Pôde ouvir com nitidez um sonoro suspiro de desapontamento que lady Black não conseguiu conter.

Ai tia Bella, pensou Pansy. Nunca iria se esquecer do empenho daquela pobre criatura em tentar incessantemente transformar Pansy em uma dama, embora ela própria fosse uma figura muito estranha. Depois que ela ficara viúva, dez anos atrás, passara a usar vestes espalhafatosas e de extremo mau gosto, como a que trajava naquele momento.

- Eu estava cavalgando... - sentiu-se na obrigação de explicar. - Estava previsto para o Sr. Jennings chegar às quatro horas. Não era minha intenção fazê-los esperar tanto tempo.

Não havia nada mais que pudesse dizer ou fazer, então puxou uma cadeira e acomodou-se ao lado da Juliela, de onde podia ver a chuva que continuava caindo inclemente. A maior parte do que seria lido no testamento referia-se a Draco, embora, de acordo com o Sr. Jennings, houvesse várias passagens específicas a seu respeito, motivo pelo qual fora solicitada a sua presença.

Após ouvir dois ou três itens, contendo informações que nada tinham a ver com ela, deixou de escutar e conduziu os pensamentos em outra direção.

Passou os olhos lentamente ao redor da sala. Conhecia bem todos os parentes de Draco mas tinha seus favoritos. Lady Julie e lady Ludmila sempre a trataram com muita consideração. Por outro lado, lady Eleanor não passava de uma tirana. Lady Cons tance e lady Jane eram duas mulheres bastante críticas, embora geralmente civilizadas. Porém, quando seu olhar pousou em Tom Riddle, sentiu um certo desconforto. Não podia imaginar por que o sr. Jennings o chamara para assistir à leitura do testamento.

Observou-o por um longo momento. Parecia um pouco com ela. Os cabelos eram uma cascata de mechas negras muitíssimo bem penteadas e fixadas de tal modo que nem pareciam reais. Os olhos eram de um negro profundo e a pele era alva como leite, o que lhe conferiam uma aparência estranhamente angelical. Só que Tom não era nenhum anjo. Em geral, vivia endividado e era conhecido como assíduo freqüentador das mesas de jogos. Nunca sentira nenhuma satisfação em vê-lo e até certo ponto se ressentia de sua presença ali. O sujeito jamais mostrara o menor interesse ou consideração com o homem que tantas vezes o livrara das dívidas.

Desviou o olhar para a chuva que ainda escorria abundante pela vidraça e para a visão enevoada das Colinas que se delineavam a leste da mansão de Barton. Deixou sua mente vagar e, subitamente, visualizou a imagem de uma vastidão de mar, um céu claro e um vento forte que empurrava todas as velas do seu navio Indiaman, fazendo com que ele se deslocasse rapidamente para... Qual destino dessa vez? China. Fechou os olhos. Como desejava conhecer o mundo! Todos os portos famosos sobre os quais havia lido nos livros.

Talvez precisasse cortar os cabelos e vestir roupas de homem. E depois de alguns meses no mar, quando estivesse bronzeada, ninguém a reconheceria. Poderia até mesmo mudar de nome, e ninguém mais a encontraria. Esse pensamento a fez lembrar da srta. Mink, a antiga governanta, que agora morava em Boston. Não gostaria de perder o contato com ela. A srta. Mink era uma pessoa encantadora, que jamais deixara de se corresponder com ela durante os últimos seis anos, desde que deixara Barton para se casar e ter seus três filhos.

Tinha muito carinho pela srta. Mink. Ela a inspirara muito, sempre aprovara suas idéias de se lançar no mundo, numa vida de aventuras. Houve um tempo em que cogitou a possibilidade de convidá-la para ir junto. Mas então, Peter Marshall, um cientista de um certo mérito, conquistou seu afeto e tudo mudou. Barton perdera a graça para Pansy durante o ano seguinte à mudança da srta. Mink, em 1811, até Pansy aprender a preencher sua vida sem a companhia da adorada governanta.

Embora lorde Malfoy tivesse a saúde muito debilitada, fizera muita companhia a Pansy, principalmente depois que a governanta fora embora. Tinha imenso prazer em acompanhá-la durante os meses de verão nas longas viagens que ela realizava até a Escócia e a Lakeland, onde o velho nobre se refrescava nas águas claras dos lagos e ela caminhava em volta, explorando tudo, até onde suas botas a pudessem levar. A noite, passavam as horas jogando cartas. Ocasionalmente, executava sonatas no piano a pedido de lorde Malfoy, que amava música. Considerava-se uma artista audaciosa. Sabia que precisava praticar mais, porém, os estábulos a atraíam mais do que a sala de música.

Um breve momento de pausa na leitura do testamento trouxe-a de volta ao presente. A maioria dos presentes parecia desinteressada. O que estava sendo tratado ali fora estabelecido havia muito tempo. A fortuna inteira pertencia a Draco, como mandava a lei. Porém, não pôde deixar de notar que até o herdeiro em questão parecia bastante enfadado. Sentado ao lado de lady Black, com as pernas cruzadas, tamborilava os dedos no braço da cadeira.

Uma rajada de vento mais forte arremessou a chuva de encontro às vidraças. Ela se imaginou de volta ao navio e de repente Draco apareceu em um magnífico uniforme de almirante. Isso acontecia com freqüência. Quase sem perceber, incluía ele no meio dos seus devaneios e sempre em uma posição de poder. Por um momento, permitiu que a imagem tomasse conta de sua mente. Então, deixou escapar um profundo suspiro, não sabendo precisamente por quê. Ele era, sem dúvida, o homem mais bonito que Pansy conhecia, mais até que o fazendeiro Cullen, que era o rapaz mais cobiçado pelas moças solteiras da aldeia.

Dirigiu o olhar para Draco, tentando afastar uma mecha rebelde que lhe obstruía a visão. O nobre possuía um rosto bem delineado, com feições afinadas e marcantes, as sobrancelhas espessas e as linhas firmes do maxilar conferiam-lhe uma aura de poder. Não era de ad mirar que povoasse seus devaneios e, para ser franca, até mesmo seus sonhos, durante a noite. É claro que mantinha isso tudo em segredo. Com freqüência, sonhava que o beijava, entretanto não entendia por que isso acontecia. Não era como lady Aimeé Waldorf, que desejava ser a condessa Malfoy mais do que qualquer outra coisa no mundo.

De alguma maneira, suspeitava que a moça não tinha outro interesse em Draco, além de seu título e fortuna. Bem, mas aquilo não era da sua conta e o lorde já era crescido o suficiente para cuidar dos próprios interesses.

Quando Draco a fitou de repente, se deu conta do fato de o estar encarando e sem que pudesse evitar, corou e desviou o olhar. Mas quando tornou a olhá-lo e viu a expressão peculiar no rosto dele, com ares de quem a desaprovava, sentiu-se aliviada, respirou fundo e deixou a fantasia correr solta mais uma vez...

Draco estava entediado. Seu olhar vagueava sobre as vestes de Pansy, constatando que havia um quilo de lama na calça que ela usava. Suas botas, ou melhor as dele, estavam imundas e generosos pedaços de barro seco se desprendiam do couro, formando uma trilha ao redor de Pansy. Ela parecia um trapo humano e, por mais que se esforçasse, não conseguia entender aquela mulher, assim como metade do linguajar jurídico que Jennings estava lendo com sua voz monótona.

Como não estava prestando atenção, sobrou-lhe tempo para ponderar sobre vários assuntos. Não estava contente em saber que Pansy pretendia se lançar no mundo no momento em que recebesse sua herança. Era uma mulher de temperamento difícil, mas haviam crescido juntos e desejava o melhor para ela. Considerou a possibilidade de tentar persuadi-la a fazer viagens curtas, antes de se aventurar em uma viagem marítima a bordo do navio que tencionava comprar. Mas a obstinada criatura não lhe daria ouvi dos. Nem em mil anos.

Houve outra pausa na leitura. Lady Black aproximou-se do sobrinho e sussurrou:

- O que vai ser dela? Reparei que você a está olhando e fazendo caretas. O que vai acontecer com nossa querida Pansy?

- Suponho que viajará pelos oceanos, como sempre desejou.

- Não vai permitir, não é?

Draco encolheu os ombros.

- No dia trinta e um de Janeiro ela completará vinte e dois anos e tomará posse de sua herança. Não vai precisar mais dos conselhos de um tutor.

- É estranho pensar que você agora é o tutor dela.

- Apenas por alguns meses. Além disso, não pretendo interferir em seus negócios. Ela é uma mulher adulta, sabe o que quer e, embora eu não aprove suas idéias malucas, não farei nada que a impeça de as pôr em prática.

- Ela vai morrer em um furacão ao largo da costa. Tenho certeza. Oh, sinto que vou desfalecer! Ele não pôde esconder o riso.

- Sabe, tia, sua imaginação é a sua pior inimiga. Suas predições fantásticas e devaneios acabam por afetar seus nervos.

- Acho que você tem razão. Bem, suponho que não há nada que se possa fazer por Pansy. Mas eu culpo seu pai, ele a es tragou. Foi ele quem encheu a cabecinha dela com todas essas idéias tolas e não fez nada para a persuadir.

- Tem todo o direito de pensar assim, mas sei que meu pai tentou convencê-la a arrumar um marido.

- É mesmo? Eu não sabia.

- Chegou a cogitar a possibilidade de eu me casar com ela.

Lady Black, de imediato, cobriu a boca com um lenço preto a fim de conter uma risada e sussurrou:

- Isso é uma crueldade, Draco, fazer-me rir em uma ocasião tão solene.

Ele sorriu, mas sentiu uma pontada de tristeza no fundo do coração.

- Era o tipo de coisa que papai teria aprovado.

- É verdade... Meu irmão era uma pessoa muito alegre, até mesmo nos piores momentos. Mas ele pensou mesmo na hipótese de casá-lo com Pansy?

- Não tenho dúvida de que se tratava apenas de uma tentativa desesperada de vê-la bem encaminhada na vida.

- Não sei como ele pôde imaginar unir vocês dois... É como querer misturar água e óleo.

Nesse instante, ambos olharam para Pansy. Outro pedaço de lama seca caiu no chão junto aos seus pés. A velha senhora permaneceu calada por um momento, então acrescentou:

- Draco, as botas que ela está usando são as suas?

- Sim.

O sr. Jennings recomeçou a ler.

A chuva cessou, dando lugar ao sol que começava a se infiltrar pelo vidro da Janela. Pansy deu um suspiro de alívio que chamou novamente a atenção de Draco. Ele ficou um pouco chocado ao reparar o perfil de linhas perfeitas e harmônicas banhado pelos raios de luz.

Nunca antes tinha a achado bonita... Aquela constatação o fez pensar que poderia fazer algo por ela. Mas, ao ver outro bocado de lama cair sobre o tapete, seu entusiasmo esmoreceu.

Não seria possível. Uma vez que tomasse posse de sua fortuna, ela compraria o tão desejado Indiaman e ele logo arrumaria uma esposa. O tempo passara e era hora de ambos abraçarem seus futuros, ela iria atrás de seus sonhos e ele arcaria com suas obrigações como o sétimo conde de Malfoy.

Draco sentiu uma profunda tristeza e desejou que esse dia jamais tivesse chegado.

Depois de algum tempo, os raios de sol incidiram sobre a face de Pansy, fazendo-a afastar-se da Janela. Embora não estivesse prestando atenção à leitura do testamento, percebeu que algo de extraordinário estava acontecendo. Todas as tias de Draco exibiam fisionomias de extrema surpresa e duas delas estavam batendo palmas, rindo e olhando para ela. Mas foi Draco quem atraiu sua atenção. Estava vermelho como uma beterraba, mas não era de embaraço. Algo de mais sério o deixara irado.

- O quê? - bradou ele, erguendo-se e dirigindo-se ao sr. Jennings.

Todos os olhares agora se fixaram no advogado. Pansy lamentou o fato de não estar prestando atenção. Era óbvio que algo desfavorável e inesperado havia acontecido. Draco teria sido deserdado? Mas isso era impossível. Ele era o herdeiro legítimo de lorde Malfoy. Nada poderia alterar essa realidade. O que seria, então?

Outro olhar pela sala e seus olhos se fixaram em Tom. O rapaz exibia um largo sorriso. Mas por quê?

- Explique-me melhor! - gritou Draco novamente.

-Sim, milorde. Tentei persuadir seu pai a lhe contar isso antes, mas ele não concordou. Disse que seria melhor que você soubesse no dia da leitura do testamento e nem um minuto antes. Sei que isso não lhe parece justo...

- Justo! Isso é um absurdo! Ridículo! Completamente descabido! Como espera que eu encontre um marido para ela?

Ele apontou o indicador na direção de Pansy. Todos os olhares se voltaram para ela. Pansy ergueu-se e o fitou.

- O que está acontecendo, Draco? Por que está apontando para mim e falando de maridos? Sabe que não tenho a menor intenção de me casar.

- Você não ouviu, Pansy?

- Não... – Ela admitiu envergonhada - Estava distraída e... sei que o testamento se refere à sua herança e não à minha.

- Bem, mas agora é diferente.

- De que modo... e por que suas tias estão rindo... e por que todos estão olhando para mim como se eu fosse um cavalo em uma exposição?

Draco expeliu o ar com força.

- Ainda não consigo acreditar que isso seja verdade. Jennings, você tem certeza?

O advogado sustentou uma folha de papel.

- Está tudo aqui.

- Mas o que tem tudo isso a ver comigo? - Pansy perguntou. - Alguém pode fazer o favor de me dizer?

- Meu pai impôs condições sobre as nossas heranças. A minha depende da sua.

- Que condições?

- Que você se case antes do dia primeiro de fevereiro!

- O quê?! - gritou ela, sentindo um rubor subir-lhe às faces - Eu, me casar? Mas isso é absurdo! É por isso que está rindo, Tom?

- Recuso-me a responder a tal pergunta - replicou ele, ajeitando as mechas negras.

Pansy estreitou os olhos.

- E o que Tom tem a ver com tudo isto? Diga-me, Draco!

- Se não se casar até o dia primeiro de fevereiro deste ano, sua fortuna inteira passará para as mãos do sr. Riddle – informou Draco.

Pansy sentiu suas pernas fraquejarem. Alcançou lady Black e apoiou-se em seu braço.

- Agüente firme, minha querida - disse Bella. - O que está fazendo? Tenha cuidado ou eu vou... Oh, querida! Santo Deus!

Pansy desabou no chão.

- Casar? - murmurou ela, olhando para as faces que formavam um círculo perfeito acima de sua cabeça. - Não posso me casar...

- Com essas palavras, empalideceu e perdeu a consciência.