CAPÍTULO II
É preciso mais do que a inteligência para agir inteligentemente.
(Fiódor Dostoiévski)
- HARRY JAMES POTTER, EU EXIJO QUE VOCÊ ABRA IMEDIATAMENTE ESSA PORTA! – Hermione, que estava no lado de dentro da sala de DCAT, bradava à plenos pulmões.
- Eu já disse que não vou abrir até vocês dois se entenderem! – Disse Harry, alheio à fúria da garota.
- Que feitiço ele colocou aí? – Perguntou Rony, alto o suficiente para que Harry pudesse ouvi-lo.
- Nenhum – Harry respondeu, com um sorriso malicioso. - Foi o destino. A porta está quebrada e só abre por fora.
- Destino é o cacete, Harry! Abre já a porra dessa porta! – Rony gritou, batendo violentamente o punho na porta.
- Rony! Para de ser mal-educado! – Hermione gritou.
Gina estava num corredor próximo à sala quando ouviu a gritaria. A garota aproximou-se e parou um pouco atrás de Harry, que estava quase encostado à porta.
- Eu já disse, ou vocês se acertam ou – ele parou de falar ao notar que Gina o observava. – Oi, Gina.
Rony e Hermione, de imediato, ficaram em silêncio e Gina apenas encarou Harry, inexpressiva. Por fim, ela sorriu.
- Tentando bancar o cupido, Harry?
- Pois é... – Ele respondeu, passando a mão no cabelo e bagunçando-o involuntariamente. Tal gesto, há uma semana, teria feito Gina suspirar. Hoje, aquilo a deixava enojada.
- Boa sorte. – Sem esperar uma resposta ela começou a caminhar em direção à sala comunal, mas Harry a deteve.
-Gina, me desculpa – ele a encarou envergonhado. – Eu sei que eu te magoei terminando o nosso namoro, mas eu não podia te enganar.
- Tudo bem, Harry – disse ela, no tom mais natural que conseguiu fingir. - Eu sempre soube que você gostava da Cho. Apesar de tudo que ela te fez, você nunca deixou de gostar dela.
- Eu só quero que você saiba que eu gosto muito de você e que você continua sendo importante para mim – Harry pousou uma mão no rosto de Gina e a outra no ombro dela.
A ruiva lutou bravamente contra as lágrimas que queriam escapar naquele instante. Conseguiu contê-las, mas não conseguiu conter a pergunta que já vinha lhe incomodando há uma semana.
- Por quê, Harry? Você diz que gosta de mim, mas prefere a Cho?
- Eu gosto de você, Gina – ele disse, acariciando o rosto dela. - No começo do nosso namoro, eu realmente achei que fosse um gostar diferente, mas eu percebi que não. Você é a irmã que eu nunca tive.
Aquilo foi como um tapa no rosto dela. Gina sentiu-se invadida por um sentimento de raiva e repeliu com violência a mão de Harry, afastando-se dele.
- Percebe-se que você é filho único, Harry. Caso você não saiba, irmãos não costumam foder.
Harry fitou Gina surpreso e balbuciou algumas palavras desconexas.
- O que foi? Ficou chocado? Tudo bem, Harry, eu não estou te cobrando nada. Se eu dormi com você, foi por livre e espontânea vontade e não me arrependo disso. Só me faça um favor: guarde essa historinha de amor de irmão para alguém que realmente acredite nela. – E sem esperar resposta, Gina saiu.
Antes que ela chegasse ao fim do corredor, Draco apareceu. Os dois passaram um momento encarando um ao outro. Ele, com o habitual sorriso irônico. Ela, com uma expressão de ódio.
- Algo errado, Weasley? – Ele perguntou, ironicamente.
- Vá para o inferno, Malfoy - Gina bradou, e continuou seu caminho.
- Louca... – Draco disse para si mesmo, tentando descobrir por que a voz de Gina lhe soou tão familiar. Porém, antes que pudesse se demorar em seus pensamentos, percebeu a presença de Harry. - Ora, ora, ora, se não é a maior celebridade de Hogwarts. Deixe-me adivinhar: foi você quem deixou a Weasley daquele jeito?
- Cuide da sua vida, Malfoy – Harry respondeu e rumou na direção oposta à de Draco.
- Malfoy? - A voz de Rony se fez ouvir.
- Quem está aí? – Draco perguntou, aproximando-se da porta da sala.
- Sou eu, o Rony. Weasley.
Draco fez uma careta de nojo. – Que bom que essa porta me impede de olhar para a sua cara feia. Acabei de ver sua irmã – ele prosseguiu, apoiando-se na porta. - Se não fossem os cabelos vermelhos, eu diria que ela nem é sua parente.
- Cala a boca, Malfoy! E abre logo a droga dessa porta.
- E por que você mesmo não abre?
- Se nós pudéssemos sair daqui, já teríamos saído – foi a vez de Hermione responder.
- A Granger também está aí? – Ele perguntou, deixando escapar uma gargalhada. - Por Merlin, só de pensar no que vocês dois podiam estar fazendo, já sinto ânsia de vômito.
- Por favor, Malfoy, abre essa porta!
Draco pareceu considerar o pedido e depois de um breve minuto de suspense, abriu a porta.
- Obrigada, Malfoy – disse Hermione.
- Não me agradeça. Merlin sabe o que poderia sair do cruzamento de um Weasley com uma sangue-ruim, eu apenas fiz uma boa ação.
Rony fez menção de avançar contra Draco, mas Hermione o deteve.
- Não, Rony! É melhor irmos conversar com a Gina.
Os dois então saíram, contra a vontade de Rony, que ainda bradava xingamentos contra Draco. Ele os observou indo embora e então rumou para seu dormitório, sorrindo vitorioso. Irritar um Weasley era sempre muito divertido.
Era quase hora do jantar. Gina descansava em sua cama, fitando um ponto qualquer no teto do dormitório. "Maldito Harry", ela pensou. "Amor de irmão, amor de irmão, uma ova". Sem sucesso nas tentativas de aliviar a raiva que sentia, Gina pegou um pedaço de papel e pôs-se a escrever. Pouco tempo depois, ela colocou o papel no bolso das vestes e rumou decidida para o corujal. Dessa vez, não poderia usar sua coruja. Não para entregar um bilhete destinado à Draco Malfoy.
A sala comunal da Sonserina estava quase vazia, exceto por Blaise Zabini, que lia numa poltrona. Draco caminhou em direção ao dormitório, decidido a ignorá-lo.
- Cedo ou tarde você vai ter que falar comigo, Draco – o garoto disse, sem desviar a atenção do livro.
- Eu evito conversar com traidores, Zabini – ele repeliu, friamente.
- Eu, traidor? – Perguntou Blaise, virando-se para encará-lo. - Não fui eu quem te trocou pelo Potter.
Draco sentiu o sangue subir. O garoto fez um esforço hercúleo para não avançar contra Blaise e socar cada parte do corpo dele.
- Mas você sabia que eles estavam juntos há uma semana, e mesmo assim não me disse nada. Eu fiz papel de palhaço na frente de toda a escola!
- Eu não costumo me meter no relacionamento dos outros – disse Blaise, despreocupado. - E sinceramente, não sei pra que todo esse drama, você sempre disse que a Chang nem trepava tão bem assim. Relaxa Malfoy, você ainda tem a Parkinson.
- Imbecil – disse Draco, subindo para seu dormitório.
Chegando lá percebeu que o quarto estava mais escuro do que de costume - melhor assim, ele sempre fora mais afeito à escuridão. O loiro tirou o uniforme e jogou-se na cama. Não percebeu a sombra de alguém que o observava na cama ao lado.
- É incrível o que esse uniforme é capaz de esconder – disse a garota.
- Pansy – ele disse, sem entonação e não parecendo surpreso com a presença dela.
- Quem mais seria? – Ela se aproximou dele. - Sabe Draco, eu já estava começando a sentir sua falta. Desde que você começou a sair com a idiota da Chang, você nunca mais tem tido tempo pra mim – e dizendo isso, Pansy colocou uma perna em cada lado do quadril dele, sentando-se em seu colo.
- A Chang virou história – Draco disse, calmamente. - Agora eu tenho todo o tempo do mundo para você.
- Bom saber disso... por que eu quero compensar... cada minuto que perdemos – enquanto falava, Pansy movia os quadris sensualmente, distribuindo beijos pelo pescoço de Draco e fitando-o de forma igualmente sensual.
- Concordo plenamente – Draco puxou a garota para perto de si, beijando-a de forma agressiva. Pansy não fez objeção alguma e retribuiu o beijo.
Os dois continuaram aos beijos por alguns instantes, até que Draco, num movimento rápido, arrancou a blusa da garota. Pansy se surpreendeu, mas logo a surpresa deu lugar à uma expressão de pura malícia.
- Sentiu minha falta, Draco? - Ela perguntou, numa voz propositalmente mais baixa.
-Você nem imagina – ele respondeu enquanto acariciava os seios da garota, fazendo com que ela gemesse de forma particularmente exagerada.
Blaise, que ainda lia tranquilamente na sala comunal, ouviu os gemidos de Pansy e deixou escapar um sorriso malicioso.
- Eu disse que você ainda tinha a Parkinson - e deixando o livro em cima da poltrona, o garoto saiu da sala comunal.
- Por Merlin, Hermione, eu já disse que estou bem! – Gina dizia, enquanto caminhava em direção ao salão principal, com Rony e Hermione em seu encalço.
- Gina, é que nós ouvimos você e o Harry conversando e-
- Pois não deviam ter ouvido! Não sabem que é falta de educação escutar a conversa alheia? – Ela bradou, parando de repente.
- Não é como se nós pudéssemos ter evitado, sabe? Aquele maldito do Harry trancou a gente na sala! - Disse Rony, começando a ficar visivelmente irritado. - E não mude de assunto, mocinha. Que história foi aquela de irmãos não costumam... – O rosto de Rony agora estava quase da cor dos seus cabelos. - Não costumam... você sabe!
O pouco que restava de autocontrole em Gina evaporou-se naquele instante. Em questão de segundos, ela ficou rubra, como se todo o sangue lhe tivesse subido à cabeça.
- Ah Rony, faça-me o favor! Você por acaso achava que eu era virgem? – Gina gritou, sem se preocupar com as pessoas que começavam a se aglomerar ao redor deles. - Não, Rony, há MESES que não. E o Harry não foi o primeiro, caso você esteja se perguntando, mas eu e seu amiguinho transamos sim e eu estou pouco me lixando se você acha isso ruim ou não! Aliás, se eu não te conhecesse, maninho, diria que você está com inveja.
- Inveja? Você acha que eu quero transar com o Harry por acaso?
- Pra quem só faz sexo com a própria mão, qualquer coisa é lucro!
As pessoas ao redor soltavam risadinhas e faziam comentários. Rony estava mais zangado do que Gina jamais o vira, mas ela não se intimidou.
- Que foi, Rony? Envergonhado? Não fique, todos nós sabemos que você está se guardando pra Hermione.
Hermione, que tentava a todo custo acalmar os ânimos dos irmãos, ficou vermelha diante do comentário de Gina.
- Virgínia...Molly...Weasley... PARE com esse escândalo imediatamente! – Rony advertiu, com uma voz perigosamente baixa.
- Você começou! E não ouse se intrometer na minha vida de novo, entendeu? – Ela saiu bufando em direção ao salão principal.
Para surpresa de Hermione, a raiva no rosto de Rony dera lugar ao embaraço. O garoto parecia imensamente envergonhado diante da plateia que tinha se acumulado para assistir aquela cena.
- O que foi? Vocês nunca viram dois irmãos discutindo? – Hermione gritou, ferozmente. – Vão embora daqui antes que eu comece a tirar pontos de vocês, andem, andem!
- O que aconteceu com a Gina, Hermione? Ela nunca foi assim – disse Rony, tentando não encarar o olhar dela.
- Ah Rony, até parece que você não conhece o gênio dos Weasley! - Ela disse, brincalhona. – Vem, é melhor irmos jantar. – Ela então entrelaçou seu braço no dele e os dois foram para o salão principal.
- Vocês não vão acreditar no que perderam! – Dizia Emilia Bulstrode, uma garota alta e com feições exageradamente marcadas, sentando-se à mesa da Sonserina. – Os Weasley acabaram de protagonizar uma briga histórica no corredor!
- E qual é a novidade nisso? – Perguntou Draco, entediado. - Aquela família nunca foi conhecida por ter educação.
- Ah Draco, mas o mais interessante foi o teor da briga dos dois... – Ela disse, em tom de mistério. – A pobretona gritou pra quem quisesse ouvir que tinha ido pra cama com o Potter – os olhos de Draco acenderam em surpresa, bem como os de todos que ouviam o relato. – E que o irmãozinho dela estava com inveja porque não conseguia traçar ninguém e não tinha outra solução a não ser bater punheta! – O comentário da garota foi seguido por uma explosão de risadas dos ouvintes.
- Ela não fez isso! – Exclamou Pansy, incrédula.
- E o melhor vocês não sabem! Ela ainda disse que ele estava se guardando pra Granger! – As risadas se intensificaram ainda mais. – E a sangue-ruim estava do lado, assistindo tudo! Vocês precisavam ter visto as caras dos dois!
Draco, que ria descontroladamente, olhou em direção à mesa da Grifinória, na tentativa de avistar Gina. Logo a encontrou, conversando com Colin Creevey, e parecendo muito irritada. "Quem diria, com aquela cara de santinha...", pensou ele. Os pensamentos de Draco logo foram interrompidos por uma coruja que pousou praticamente em cima do prato dele. O loiro tirou o pedaço de papel preso à pata do animal e deu leves safanões para expulsá-lo da mesa.
Encontre-me hoje, à meia noite, na sala de DCAT. Creio que você não esqueceu do nosso primeiro encontro e tenho certeza de que não esquecerá do segundo.
Até mais tarde,
V.M.
- V.M... V.M... De quem são essas iniciais? – Ele murmurou para si mesmo.
- O que é isso, Draco? – Perguntou Pansy.
- Nada demais – ele respondeu, guardando o bilhete no bolso. A garota não insistiu e voltou a atenção ao seu prato.
Draco olhou para a mesa da Corvinal, buscando por alguém que pudesse ser a garota misteriosa. Deparou-se com Cho Chang, encarando-o de maneira indecifrável. Ele lhe lançou um olhar mortal e continuou observando as garotas às mesas, que agora incluíam Grifinórias e Lufa-lufas. Se o loiro tivesse procurado com mais cuidado, teria percebido um par de olhos castanhos que o fitavam atentamente e que pertenciam a tal garota que ele tanto procurava.
