Seja Você Mesmo

Capítulo 2

Abraçada ao seu vaso sanitário eu resmunguei para Ino: "Eu não acredito que eu disse à Sasuke que ele era arrogante."

Ela rolou os olhos e acariciou as minhas costas enquanto eu vomitava mais uma vez. "Por que está tão arrependida? Disse a verdade, não disse? Ele merecia ouvir tudo o que ouviu."

"Ele nunca mais vai falar comigo," eu murmurei, sentindo os meus olhos se encherem de lágrimas. "Ele me odeia mais ainda, e tudo isso é culpa sua!" Eu a fuzilei com os olhos. "Por que me obrigou a ir essa maldita festa?"

"Eu te obriguei justamente para que falasse com Sasuke! Não era isso o que queria? Pois bem, missão cumprida!"

"Eu queria conversar com ele, não insultá-lo!"

"Melhor ainda. Você não disse nenhuma mentira para ele, Sakura, e se as drogas que ele usou tiverem deixado pelo menos um neurônio vivo na cabeça dele ele vai perceber isso."

Eu descansei a testa na borda do vaso, exausta de tanto vomitar. "Ainda hoje eu vou até a casa dele pedir desculpas."

"Ah, mas você não vai mesmo!" Ino me contrariou, colocando as mãos na cintura. "Acabará por estragar todo o nosso plano. Acredite em mim, Sakura –"

"Olhe no que deu quando acreditei em você na última vez!"

"—tudo está indo como eu esperava," ela continuou como se eu não tivesse dito nada. "Sasuke finalmente viu a mulher que existe dentro de você: linda, sensual, inteligente e que não vai mais deixar o amor da sua vida escapar."

"Ele não sabe que ele é o amor da minha vida, Ino," eu resmunguei. "E eu tenho certeza que a única coisa que ele vai se lembrar de mim será o meu estado deplorável. Oh, meu Deus, onde eu estava com a cabeça? Eu te falei que ele classificou a minha roupa de ontem como 'ridiculamente curta'?"

Ela abanou uma mão. "Ele só estava chocado de ver a sua transformação."

Eu golfei um pouco mais, tossindo quando o ácido arranhou a minha garganta. Eu torci para que o meu arrependimento e vergonha fossem junto com as minhas vísceras despejadas no vaso sanitário.

"Eu só espero que ele saiba que essa minha transformação só durou um único, mísero, fatídico e tenebroso dia," eu lamentei.

A mandíbula de Ino quase bateu no chão. "Está ficando louca? O que quer dizer com 'um dia'? Não, nem pensar! Essa sua transformação ainda vai durar muito tempo!"

"Ino, eu não tenho condições de fingir ser –"

"Você não precisará fingir nada, Sakura, minha querida, doce e tapada amiga," Ino me corrigiu, usando a sua voz de impaciência. "Você será aquela mesma garota de ontem. Não foi ela quem chamou a atenção de Sasuke e o fez te trancar em um quarto a sós?"

Meu rosto esquentou com a lembrança. Se aquela frase tivesse sido dita em outro contexto com toda a certeza o seu significado seria outro. Porém, Sasuke não tinha me levado para o quarto para... entrosarmos. Muito diferentemente disso, ele me levou até lá para apontar todas as minhas falhas e burrices que fiz naquela tarde.

"Sim, mas –"

"Então, Sakura! Continue a ser ela!" Eu começava a me irritar com o número de vezes que eu era interrompida. "Você estava deslumbrante ontem, e não foi só Sasuke quem notou. Você deu o seu telefone para Naruto, um dos garotos mais cobiçados do colégio, e eu tenho que acrescentar que um dos amigos de Shikamaru também me perguntou por você."

Eu a olhei com incredulidade. "Está falando sério?"

Ela assentiu. "A sua Sakura de ontem simplesmente arrasou."

Eu suspirei. Eu não sabia que tinha feito tanto sucesso. Entretanto, o único garoto que eu realmente queria que notasse esses meus novos atributos os chamou de "ridículos".

"Eu não quero mais usar roupas curtas e salto alto," eu reclamei, dando descarga quando senti que o meu estômago se aquietou. "Os meus pés ainda estão doendo muito."

"Sakura, toda mulher tem que usar salto alto. Está no nosso DNA. Você não terá que usá-los o tempo todo, é lógico, mas de vez em quando não fará mal algum. O que eu te peço é só que solte mais esse seu cabelo maravilhoso – agradeça a sua mãe pelos genes, porque só Deus sabe como eles ficam desse jeito sem nem uma hidratação –, aplique um pouquinho mais de maquiagem básica para realçar os seus olhos e roupas que valorizem o seu corpo. Só isso."

"Eu não sei fazer 'só isso'. Eu não sei usar maquiagem, nem tratar do meu cabelo nem escolher a roupa certa."

Ino sorriu o mesmo sorriso de quando propôs o maldito plano de me levar à festa do dia anterior. "Eu me sentiria muito feliz em te ajudar. Podemos hoje mesmo ir até o shopping e fazermos umas comprinhas – ou melhor, renovar todo o seu guarda-roupa."

"Para quê? Para Sasuke dizer que as minhas roupas estão ridículas?"

"Eu já te disse que ele só estava chocado. Ele – e todo mundo – não estava acostumado a te ver sem os mesmos suéteres feitos pela sua avó." Ela colocou a língua para fora e revirou os olhos como se estivesse com nojo.

Eu soltei um arfar em indignação e enruguei a testa. "O que há de errado com os meus suéteres?"

"Pergunte a Sasuke. Foi provavelmente por causa deles que ele nunca trocou uma palavra com você nos últimos anos."

Eu odiava admitir isso, mas Ino estava certa. Eu não acredito que tenha sido coincidência que eu tenha atraído tantos olhares em uma tarde só por ter mudado um pouco a minha aparência. Sasuke e Naruto conversando comigo no mesmo dia (sendo que o segundo me disse com todas as letras que eu era bonita) era um excelente indicativo de que algo tinha funcionado ontem.

Porém, eu não queria mudar quem eu era, não por um garoto – por mais perfeito que ele fosse.

Ino pegou a minha mão. "Sakura, eu não estou te pedindo que vire outra pessoa." Ou ela me conhecia bem demais para saber o que eu estava pensando ou adquirira novas habilidades telepáticas. "Eu só estou pedindo que dê uma turbinada nessa Sakura já maravilhosa e seja um pouco mais vaidosa. Fizemos uma enorme evolução ontem: de um Sasuke indiferente para um Sasuke abalado pela sua mudança. Ele não teria ido atrás de você nem interrompido a festa dele se algo realmente notável não tivesse acontecido, e o notável de ontem foi você se abrir mais e mostrar a ele esse seu outro lado. Eu tenho certeza que estamos no caminho certo."

Eu suspirei. "E o nosso acordo de que você nunca mais me pediria nada caso eu fosse com você à festa de ontem?"

"Eu me recordo de dizer que eu nunca mais te pediria nada se o meu plano não desse certo. A meu ver, ele deu mais do que certo."

Eu não conseguia vencer uma discussão contra Ino.

Xxxx

Como era de se esperar em um colégio movido a fofocas, a minha performance no final de semana teve uma repercussão assombrosa.

O tempo todo eu pude sentir os olhares dos alunos sobre mim e sussurros a meu respeito. Quando eu passava pelo corredor para buscar os meus materiais no escaninho, todos olharam para mim e principalmente para a minha roupa – novamente com a assinatura de Ino: uma blusa branca muito bonita, rendada, nada reveladora, mas muito estilosa, e uma calça muito mais justa do que usual que, de acordo com a minha personalstylist, favorecia o formato da minha bunda e alongava as minhas pernas. O meu cabelo estava solto como em poucas ocasiões, contrastando com a cor da blusa, e a pele do meu rosto estava perfeita após passar os produtos que Ino me recomendara.

Diferentemente de sábado, entretanto, aquelas roupas eram minhas, adquiridas após horas de compras extenuantes ao lado de Ino. Ela me fez visitar praticamente todas as lojas "descoladas" do shopping (de acordo com ela) e gastar milhares de dólares em roupas que eu nunca teria comprado por vontade própria. Nós compramos desde sapatilhas até jaquetas de couro, passando por calças, blusas de todos os tipos e cores, roupas íntimas, bolsas para todas as ocasiões, cremes e produtos para cabelo e maquiagem.

Para a minha imensa surpresa eu me senti muito bem em tudo que compramos – peças fashion que nunca me passou pela cabeça gostar. Eu me olhei no espelho e me senti bonita, poderosa, atraente, tanto que até consegui ganhar uma cantada de um atendente de uma das lojas. Ino me ajudou bastante ao escolher roupas que não fugiam muito do meu estilo (eu não queria chegar no colégio com a barriga de fora e os peitos saltando para fora do sutiã como muitas das garotas faziam). Ela apenas atualizou e diversificou o meu guarda-roupa, algo que eu não seria capaz de fazer sozinha.

E eu gostei do que vi ao me arrumar naquela manhã (com o vestuário previamente selecionado por Ino). Aparentemente grande parte do colégio compartilhava dessa minha opinião.

No primeiro dia letivo após a festa apoteótica eu era o centro das atenções do colégio pela primeira vez em toda a minha vida sem precisar vestir roupas desconfortáveis ou indiscretas.

Como dizia Ino, eu melhorei, e não mudei.

O ponto alto do dia foi durante o intervalo.

Sasuke, Naruto e os seus amigos estavam esparramados pelas cadeiras ao redor de uma mesa do refeitório, conversando e gargalhando (não Sasuke, é claro) com o exato propósito de atrair a atenção dos outros alunos para si – o que, diga-se de passagem, eles conseguiam sem fazer esforço.

Um iceberg pareceu mover pelo meu estômago ao rever o meu amigo de infância e eu congelei na porta do refeitório. Eu ainda não tinha me decidido como agir depois do mico que paguei dois dias atrás. Eu não sabia se pedia desculpas ou se fingia que nada tivesse acontecido – ou seja, voltar à normalidade em que eu era tão significante na vida de Sasuke quanto a poeira no meu sapato (novo).

Eu estava prestes a virar as costas e sair dali sem comer nada quando Ino me agarrou pelo braço e me impediu de escapar.

"Você vai pegar o seu lanche e passar por ele com a cabeça erguida, Sakura Haruno," ela sussurrou no meu ouvido enquanto me arrastava até a fila da cantina.

"Eu não sei se consigo, Ino," eu também sussurrei, voltando a sentir os olhares dos alunos sobre mim e a ouvir um burburinho que muito provavelmente começou por minha chegada.

"Sakura, é simples: pegue a sua bandeja e passe por ele sem fazer essa cara de desesperada que está fazendo agora."

"É mais fácil falar do que fazer."

"Você só não tem prática. Olhe e aprenda."

Quando terminou de depositar o seu lanche da bandeja ela me deu uma piscadela nada discreta e, como uma modelo de passarela, desfilou pelo refeitório, passando ao lado da mesa dos populares (onde Sasuke obviamente estava) atraindo o olhar todos deles para si como se fosse um imã.

Era natural para ela. Ela era linda, loira, engraçada e sabia flertar com os garotos. Eu não.

Ela se sentou na nossa mesa e me olhou como se dissesse: "ande logo!"

Eu tinha que tentar. De que adiantava me vestir daquela forma se me faltava atitude? Eu não queria apenas mostrar que tinha confiança em mim mesma, mas ter a porcaria dessa confiança de uma vez por todas.

Portanto, eu respirei fundo, aumentei o aperto dos meus dedos nas laterais da bandeja, levantei a cabeça, endireitei a minha postura, e fui, tentando ignorar a atenção que o resto do colégio agora me reservava.

Sasuke olhou para mim durante todo o meu percurso até a mesa.

Naruto acenou e sorriu para mim.

Eu o cumprimentei de volta.

Sasuke o metralhou com os olhos.

Eu quase não consegui conter o meu sorriso.

Xxxx

No mesmo dia eu me conectei ao Facebook pela primeira vez em meses – orientação de Ino. Imaginei que ele estivesse às moscas. Da última vez que o chequei eu tinha exatos trinta e dois amigos e não havia postado nada na minha página (eu nem ao menos sabia como se fazia isso). O meu perfil estava sem foto e os meus dados incompletos.

No canto superior esquerdo da minha tela havia ícones em vermelhos com números embaixo: o primeiro, Ino me explicou, indicava as solicitações de amizade – e eu tinha quinze de uma só vez; o segundo, as minhas mensagens, e o terceiro as notificações.

Cliquei no primeiro ícone. Vários dos meus colegas de colégio que eu mal conversava me adicionaram e eu aceitei todos distraidamente.

Foram os dois últimos que me surpreenderam.

Sasuke e Naruto.

Sasuke quer ser o meu amigo no Facebook.

Eu fiz uma dancinha de alegria na minha cadeira. Pelo visto ele não estava com tanta raiva de mim quanto eu imaginei. Ele não gostaria de ser o meu amigo no Facebook se estivesse ressentido pelo que eu disse na festa, certo?

Eu não demorei meio segundo para aceita-lo. Afinal, era para isso que eu tinha criado essa conta.

Xxxx

De pé na frente do espelho, eu passei uma mão pelo meu vestido branco. A sua gola contornava o meu pescoço e a sua fluidez era interrompida na altura da minha cintura, definindo a minha silhueta. O seu material rendado era frouxo, solto, tanto no busto quanto da cintura para baixo. Ele era lindo, mais uma cortesia da minha tarde de compras com Ino, e eu me sentia muito bem nele, especialmente pela sua cor destacar o meu cabelo longo.

Até que você está bonita, Srta. Sakura.

A minha mãe apareceu na porta do meu quarto e eu fingi que não estava me admirando no espelho.

"Sakura, os Uchiha já chegaram," ela anunciou e sorriu ao ver a minha roupa. "Onde arranjou essa roupa?"

Eu sorri, feliz por ela ter notado. "Compras com Ino. Gostou?"

"Está linda." E eu realmente parecia estar, porque eu nunca vi a minha mãe olhar para uma roupa minha do jeito que ela fazia naquele momento. Ela já havia tentado fazer comigo exatamente o que Ino conseguiu: aflorar a minha vaidade e o meu senso de moda, mas nunca teve o sucesso da minha amiga (talvez porque ela não tivesse tido a perspicácia de usar Sasuke como arma). Portanto, a minha mãe se contentava em me ver com os "suéteres da minha avó" (que não foram realmente feitos por ela, mas que pareciam ter sido), sem fazer nenhum comentário pejorativo tampouco positivo.

Eu fiquei ligeiramente mais feliz com a satisfação dela em me ver mais arrumada do que o costume.

Eu desci as escadas para o primeiro andar simultaneamente aprendendo a me equilibrar na sandália de salto (que não era tão alto quanto Ino gostaria, mas já era "alguma coisa", como ela tinha dito). Ouvi a voz de Itachi antes mesmo de vê-lo e um sorriso involuntário já surgia no meu rosto.

Por pouco eu não rolei o restante dos degraus abaixo ao ver quem me esperava perto da escada.

Sasuke.

Ele foi o primeiro a me ver, talvez por sua atenção estar completamente desviada da animada conversa entre os nossos pais. Com as mãos nos bolsos da calça ele se virou para mim quando eu estava na metade do meu trajeto, e os seus olhos que antes pareciam entediados se abriram discretamente ao me ver.

Ele me analisou. Eu o admirei. Ainda estagnada de susto no meio da escada. Ai, meu Deus, ele está usando terno, preto, com os botões fechados, sobre uma blusa social branca. O seu cabelo eternamente bagunçado, agora, estava arrumado, penteado.

Ele nunca pareceu tanto um modelo saído da capa de uma revista.

E eu nunca achei que a minha boca pudesse ficar tão seca, nem que o meu coração pudesse bater tão forte sem quebrar as minhas costelas, nem que as minhas mãos pudessem suar tanto em um espaço de tempo tão curto.

O que ele estava fazendo aqui? Desde que ele aplicou o embargo de não conversar comigo ele nunca fora até a minha casa, especialmente para um jantar como aquele. Era a comemoração pelo fechamento de mais um contrato da empresa do seu pai – eu não fazia ideia do que se tratava, apenas que eles fecharam um acordo muito importante e há muito desejado pela diretoria da empresa.

Eu me arrumei sem considerar a possibilidade de ele estar ali, certa de que seríamos apenas os meus pais, os pais dele e, no máximo, Itachi. Sasuke detestava se vestir tão formalmente (obviamente não fora o próprio quem me revelou essa pequena informação, mas a sua mãe quando questionei em um dos milhares jantares de negócio por que o seu filho mais velho não estar presente), e, até então, eu achava que ele me detestava também. Eu imaginei que ele fosse ficar em casa – ou sair, mesmo que fosse em plena quarta-feira – e não se arrumar como um príncipe para ir a um jantar na minha casa.

Eu não estava preparada para aquilo.

"Sakura, o que está fazendo parada aí?" A voz do meu pai interrompeu os meus devaneios que consistiam basicamente em pôr as mãos naquela espetacular forma de Sasuke. "Estávamos só te esperando para nos sentar à mesa."

Eu engoli as minhas poucas gotas de saliva e me forcei a sorrir educadamente para terminar de descer as escadas. Com pernas ainda bambas – e com Sasuke ainda a me olhar – fui até os casais de melhores amigos. Cumprimentei Mikoto e Fugaku com um cordial beijo na bochecha e quase fui derrubada no chão pelo abraço apertado de Itachi.

Quando me virei para Sasuke os meus pulmões se estreitaram ainda mais. Como eu iria cumprimenta-lo? Com beijos nas bochechas, como fiz com os seus pais? Um aperto de mão? Um aceno? Um tapinha nas costas?

Ele respondeu as minhas perguntas de um jeito que quase me fez desmaiar. Uma das suas mãos saiu do bolso da sua calça para tocar o meu ombro, e antes que eu pudesse me recuperar desse choque em particular o seu rosto veio em minha direção – foi então que as minhas pernas já tão moles quanto geleias quase desistiram de me sustentar – e me deu um beijo na bochecha.

"Sakura," ele disse quando terminou de quase me dar um ataque cardíaco.

Para qualquer outra pessoa aquele simples gesto não seria nada mais do que cordial e platônico, duas pessoas se cumprimentando normalmente. Porém, quando se tratava de Sasuke e o período que ele ficou sem conversar comigo aquilo queria dizer muita coisa. Eu fiquei sem ar, encarando-o, o meu cérebro liquefeito.

Eu suspirei em alívio quando a minha mãe convidou a todos para a sala de jantar. Eu temia entrar em combustão sob o olhar de Sasuke. De mãos dadas com Itachi – que não parou de conversar um só segundo desde que me viu, alheio ao meu desconcerto perto do seu irmão mais velho – nós nos sentamos ao redor da mesa que deveria ter uns vinte lugares.

O fôlego que eu havia recuperado foi perdido novamente quando Sasuke se sentou diretamente na minha frente (Itachi havia ocupado a cadeira ao meu lado). Eu vou ter que olhar para ele durante todo o jantar.

Foi como uma tortura para mim. Se os meus olhos ficassem sobre ele por mais de dois segundos todos os sintomas da minha paixonite por ele apareceriam, e eles não eram nada discretos. Meu coração batia mais forte, as minhas mãos tremiam e suavam, o meu fôlego era cruelmente roubado, eu não prestava atenção em uma palavra da conversa chata entre os nossos pais. Eu não consegui comer nada, temendo que o meu estômago não conseguisse segurar a comida – e sempre ficava a um passo de cuspir o meu suco quando os nossos olhares se encontravam, o que acontecia com uma frequência que não era saudável.

Quando Itachi perguntou à Mikoto se ele podia ir para o meu quarto jogar videogame comigo eu resisti ao impulso de me jogar aos seus pés, beijá-los e lhe agradecer por me livrar dessa tortura. Quase derrubei a cadeira na minha pressa sair dali e praguejei quem quer que estivesse brincando comigo Lá Em Cima quando Sasuke também se levantou, mas, para o meu alívio momentâneo, ele apenas se retirava para conversar ao celular.

Com uma garota, a minha mente azeda pensou. Peguei a mão de Itachi e sai correndo para o meu quarto, onde ficava o meu videogame e a salvação para o meu coração que parecia estar tendo um ataque epiléptico.

Eu e Itachi sentamos no chão do meu quarto para jogar Little Big Planet 2, o novo preferido de Itachi (que gritava como um louco sempre que um de nós morria, ou seja, a cada trinta segundos), e eu pude respirar novamente.

Por menos de dez minutos.

Eu não precisei de tirar os olhos da tela da TV para saber que Sasuke tinha chegado (e o meu personagem morreu assim que ele se fez presente). Eu ajeitei a minha coluna e diminui o volume dos meus gritos e risadas, e se Itachi não fosse uma criança e fosse um pouquinho mais observador perceberia o retorno do meu óbvio nervosismo.

"Sasuke, Sasuke!" o pequeno Itachi gritou ao notar o seu irmão. "Jogue com a gente! Esse jogo dá para jogar de três e Sak tem outro controle, não tem, Sak? Por favor, diz que tem diz que tem diz que tem..."

Itachi, cale a boca.

Eu poderia mentir e dizer que eu não tinha outro maldito controle ou levantar e fingir tropeçar no ar, cair no meu videogame e quebrar tudo para não existirem mais possibilidades de jogarmos, mas eu não conseguia resistir aos olhos de cachorrinho pidão que Itachi sempre fazia quando queria ganhar alguma coisa de mim. Além disso, eu era uma péssima mentirosa, e Sasuke com certeza perceberia isso se eu inventasse uma desculpa, exatamente como fez na festa de Naruto.

Portanto, com a garganta seca, eu apenas assenti e puxei da minha gaveta o meu controle extra que eu agora me arrependia amargamente de ter comprado (para que, diabos, eu precisava de três controles? Eu era filha única e nas raras vezes que os meus amigos iam até a minha casa, não era para jogar videogame).

Sasuke deu de ombros com uma indiferença totalmente oposta ao que eu estava sentindo e se sentou ao meu lado no chão.

Por que ele tem que se sentar ao meu lado? eu choraminguei mentalmente. Ele estava no meu quarto, um fato completamente inédito, e se sentou ao meu lado para jogar no meu videogame. Essa vida era muita injusta.

"Legal!" Itachi exclamou enquanto Sasuke escolhia o seu personagem. "Faz muuuuuito tempo que você não brinca comigo, Sasuke!"

A alegria de Itachi por finalmente ter um pouco da atenção do seu irmão quase compensou o descompassar do meu coração. Enquanto eu me retraía para uma Sakura calada e extremamente concentrada no jogo para não fazer besteiras na frente de Sasuke, Itachi recomeçou a gritar ainda mais alto sempre que qualquer coisa acontecia, feliz, jogando os seus braços para cima.

Eu fiquei perdida quando alcançamos uma fase em que tínhamos que usar um equipamento louco que lançava uma espécie de bolinho. Eu tentei entender sozinha os mecanismos daquela arma já que Itachi estava afobado demais para sequer notar que eu estava confusa, mas tudo o que consegui fazer foi atirar um bolinho em Sasuke e jogá-lo em um precipício.

Eu me virei para ele desesperada para pedir desculpas por tê-lo matado, mas ele falou antes que eu pudesse reunir coragem.

"Está apertando o botão errado," ele me disse tão baixo que Itachi provavelmente nem escutou. "Mova o analógico para acertar a mira."

Eu não ouvia uma palavra do que ele dizia. Como eu podia se ele estava inclinado na minha direção, apertando os botões do meu controle e falando tão perto do meu ouvido que eu podia sentir o seu hálito no meu rosto?

Eu fingi que entendi o que ele me explicou (quando ele terminou eu não me lembrava nem o nome do jogo) e continuamos as nossas aventuras virtuais. Eu matei Sasuke sem querer novamente em menos de um minuto.

E ele tentou me explicar novamente com uma voz tão monótona quanto antes.

E eu de novo não ouvi nada.

Nós não tínhamos conseguido passar de uma fase inteira (devido às milhares de vezes em que eu morri e fiz o meu personagem matar os outros – não por falta de habilidade, é claro, mas pelo meu braço roçar o tempo todo no de Sasuke) quando Mikoto aparece na porta do meu quarto.

"Itachi, querido, as sobremesas já estão sendo servidas."

"Eba!" ele gritou e jogou o meu controle no chão, saindo correndo antes que eu pudesse terminar de processar o que a mãe dele disse (o meu cérebro ainda não tinha recuperado a sua capacidade totalmente perdida desde que Sasuke se sentou ao meu lado).

Eu demorei para compreender que eu e Sasuke tínhamos ficado a sós.

No meu quarto.

Um do lado do outro.

Bem perto.

Acho que estourei uma artéria cerebral.

Sasuke detestava doces (eu sempre soube isso desde criança) e talvez fosse por isso que não acompanhou a sua mãe e irmão e ficou no meu quarto. Eu também não era a maior fã de açúcar, mas estava disposta a comer a Fábrica de Chocolates se isso me tirasse de perto de Sasuke – ou eu acabaria morrendo por falta de ar.

Eu estava prestes a me levantar e sair correndo dali tão rápido quanto Itachi quando ele quebrou o silêncio extremamente constrangedor que se instalou desde que ficamos sozinhos.

"Naruto te chamou para a festa."

Por um segundo eu me perguntei como ele sabia disso, e pensei que Sasuke provavelmente tinha visto o convite que Naruto deixou no meu mural do Facebook (que agora eu frequentava com certa assiduidade). Ou então ele tinha conversado diretamente com o seu amigo e descoberto essa informação.

O meu rosto ficou corado independente das opções.

"Hum, sim." Isso era tudo o que o meu cérebro danificado conseguiu exprimir.

Silêncio.

"Você vai?" eu perguntei quando estava quase me sufocando.

"Vou. Você?"

"Vou."

Bem, aparentemente Sasuke era o primeiro a saber que eu iria, pois, até aquele momento, a minha decisão era outra. Eu estava convicta a ficar em casa naquele final de semana para dar uma estudada e recuperar o tempo que perdi duas semanas atrás (já que gastei a tarde na festa e o dia seguinte vomitando e fazendo compras com Ino). Porém, antes que eu pudesse parar para pensar eu confirmei a minha presença que nem mesmo Naruto ou Ino sabiam.

Eu estava olhando para as minhas pernas cruzadas (jamais para Sasuke) e o ouvi se remexer no mesmo lugar.

"Por quê?" ele perguntou subitamente.

Eu enruguei a testa. "Por que o quê?"

"Por que vai a festa?"

"Q-Que tipo de pergunta é essa?" Como se ele já não fosse confuso o suficiente.

"Você não gosta dessas coisas."

Os meus olhos arregalados se encontraram com os dele.

Ele disse o que eu achava que ele tinha dito?

"E-Eu estou, hum, meio que pensando em... gostar. Dessas coisas. Eu..." eu gaguejei, torcendo a barra do meu vestido e ainda mais nervosa quando ele ergueu uma sobrancelha. "A minha amiga está me incentivando a sair um pouco mais de casa."

Ótimo, Sakura. Coloque a culpa nos outros.

"A sua amiga está te incentivando a sair de casa para se embebedar?"

"Não! Ela... não, não é isso!" Eu balancei a cabeça para clarear as minhas ideias que pareciam estar dentro de uma máquina de lavar, rodopiando. "Eu não queria ficar bêbada aquele dia!"

A sua sobrancelha voltou a se arquear. "Não sabia que tinha álcool na bebida?"

"É óbvio que eu sabia," eu disse para não parecer idiota, mas percebi tarde demais que foi exatamente assim que eu pareci. "Quero dizer, eu sabia que estava bebendo uma bebida alcóolica, mas só porque os meus pés doíam muito –"

"Você bebeu por que os seus pés doíam?" ele perguntou com um evidente tom de descrença.

"Sim! Eu estava usando salto alto e eu não estou acostumada a usar sandálias tão altas e..."

Eu me interrompi.

Por que ele estava me olhando daquela maneira, como se eu fosse uma imbecil? Foi por isso que eu fiz tudo o que fiz, para que ele passasse a me olhar – mas como uma imbecil?

Eu não era imbecil – agora, eu era uma garota confiante, bonita e que atraíra a atenção de Naruto Uzumaki, um dos garotos mais cobiçados no colégio, e era assim que eu tinha que agir com Sasuke. Não era isso o que Ino me mandara fazer um milhão de vezes? Não fora essa garota que fez com que Sasuke se sentasse ao meu lado naquele momento e me indagasse sobre a festa? Não tinha sido essa nova postura que fez com que Sasuke me olhasse passar no refeitório dias atrás? Ele não estaria ali se eu não tivesse sido um pouco mais ousada e menos trancada, e eu não podia regredir agora.

Eu ainda não me sentia plenamente confiante nessa minha nova versão criada exclusivamente para Sasuke, mas eu tinha que tentar.

Eu respirei fundo e fingi não estar prestes a desmaiar. "Quer saber? Eu não tenho..." Eu mordi o lábio. Talvez fosse melhor voltar atrás, concordar com tudo o que ele dissesse, uma voz me disse. Outra parte de mim, porém, a que ressurgiu das cinzas e começava a dominar a minha voz, me obrigou a continuar. "Eu não tenho que te dar satisfações."

Pronto. Eu disse. Expeli o que estava entalado na minha garganta.

Sakura, sua idiota! Ele vai te matar!

Ele cerrou os dentes. Ok, ele iria mesmo me matar ou brigar comigo ou me chamar de imbecil –o que eu realmente era. Não, você não é, Sakura, a memória de Ino me disse. Não é mais a garotinha de doze anos vislumbrada pelo seu amigo mais velho. Agora, você é Sakura Haruno, a garota com a auto-estima nas nuvens.

Maldita Ino.

"Eu não quero satisfações," ele finalmente disse, quase rangendo os dentes. "Estou curioso para saber o que te levou a fazer tantas merdas do tipo dar em cima de alguém como Naruto."

"Qual é o seu problema com Naruto?" a nova Sakura perguntou.

"Ele é mais velho do que você," o velho Sasuke sibilou.

"Acho que já discutimos sobre isso."

"E mesmo assim você continua a não me ouvir. Fique longe dele, Sakura. Ele não é para garotas como você."

"Garotas como eu? O que você sabe sobre garotas como eu?" eu perguntei, irritada e levemente ofendida. "Você... Você não tem o direito de me dizer o que fazer, Sasuke. Eu não sei se você se esqueceu, mas há anos não conversa comigo e me trata como uma ninguém. Você não sabe se eu gosto de festas, não sabe os motivos que me levaram a ir na passada e nem por que irei na próxima e não sabe qual é o garoto que é ou não para mim justamente por que nunca olhou para nada além do seu próprio umbigo!"

Eu ofegava quando terminei de falar – e os meus olhos estavam tão úmidos quanto as minhas mãos nervosas.

Os olhos dele se arregalaram.

Um peso enorme saiu do meu peito. Eu quase podia respirar normalmente de novo.

Assim como na festa de Naruto eu saí do aposento que apenas nós dois ocupávamos e o deixei para trás. A única diferença é que, dessa vez, eu estava sóbria o suficiente para saber o tamanho do passo que tinha dado e que aquilo talvez pudesse mudar a relação quase inexistente que tinha com Sasuke.

Fiquei o resto do jantar chorando no banheiro dos meus pais. Quando a minha mãe bateu na porta do seu banheiro para saber o que tinha acontecido, eu apenas disse estava sentindo cólicas.

Xxxx

Diferentemente da festa anterior, Sasuke já estava na casa de Naruto quando Ino e eu chegamos.

Esse evento – se é que poderia ser chamado disso – era um pouco mais privado e com menos participantes do que antes. Portanto, eu não sabia por que eu, a pessoa mais impopular do colégio, fora convidada.

Independente dos motivos de eu ter sido chamada eu lá estava, mais como uma provocação a Sasuke do que por vontade de sair. Daquela vez eu me decidi por usar uma calça jeans normal com um corpete preto que valorizava o pouco peito que eu tinha. Estava um pouco apertado demais e eu não podia respirar muito fundo com facilidade, mas eu havia aprovado o meu look no espelho, e Ino me garantira que Sasuke também aprovaria.

Mais uma vez, ela estava certa.

Com uma mão ao redor dos meus ombros Naruto nos acompanhou da porta até o porão da sua casa. O local já estava ocupado por mais ou menos umas quinze pessoas (que eu reconheci serem todas do colégio) conversando, bebendo e jogando sinuca em uma mesa no centro da sala. Todos pararam para olhar para mim quando terminei de descer as escadas, ainda envolta pelo braço de Naruto.

Todos, inclusive Sasuke.

E Karin.

O meu rosto provavelmente ficara da cor do meu cabelo diante de tamanha atenção.

Em meio a vergonha avassaladora que me deixava tonta eu pude focar no rosto de Sasuke. Ele me encarava com o rosto fechado – mais do que o normal – os lábios tensos, os olhos estreitados alternando entre Naruto e eu, como se tivéssemos cometido o maior pecado que um ser humano poderia cometer. Se as minhas memórias não me falham, era daquela mesma forma que ele nos encarou quando nos encontrou juntos na última festa, mas eu não tinha muita certeza sobre isso por estar bêbada demais.

A sua óbvia insatisfação em me ver ali ressaltava dois fatos que se concretizavam em minha mente: o primeiro era que Sasuke, não sei por quê, não gostava da minha presença nas mesmas festas que ele frequentava, e o segundo, que ele não gostava de me ver com Naruto. Ele já deixara isso mais ou menos claro quando discutimos no jantar da minha casa, mas eu estava me forçando a acreditar que era apenas um chilique momentâneo dele. Pelo visto, eu estava prestes a ser provada errada.

Porém, por mais que o incômodo de Sasuke me incomodasse, eu estava disposta a me divertir pelo menos um pouquinho – e Ino me avisou que não permitiria que eu ficasse mal-humorada por causa de Sasuke. Gostaria de não cometer os mesmos erros da última vez, é claro, mas queria fazer valer o meu tempo que poderia ser muito mais bem gasto com os estudos (agora, terrivelmente atrasados).

Tudo estava ocorrendo bem na medida do possível. Eu me abstive de ingerir bebidas alcoólicas (já que tive a brilhante ideia de não usar salto alto daquela vez), socializei com muitos dos alunos do meu colégio que eu jamais achei que me dariam qualquer tipo de atenção e consegui me desviar dos olhares gélidos que Sasuke ocasionalmente me lançava, especialmente quando eu conversava com algum Naruto.

Confesso que eu até estava me sentindo bem naquele ambiente – até o momento em que Sasuke abraçou Karin.

Eu estava sentada no sofá ao lado de Naruto batendo um papo sem maiores pretensões. Ele era um garoto legal, muito mais do que eu imaginava, fazendo-me rir o tempo todo e preocupado se eu estava sendo bem servida e se precisava de alguma outra bebida. Eu o conhecia há menos de uma semana, mas eu sentia como se ele fosse um amigo de infância – diferentemente do meu verdadeiro amigo de infância que não se dignificou a trocar uma palavra comigo desde que cheguei.

Ele me contou uma das suas piadas, e o meu riso foi interrompido quando o meu olhar se encontrou com o de Sasuke do outro lado da sala.

Ele estava escorado na parede, uma mesa de sinuca entre nós, fitando-me com o seu olhar mortífero e de braços cruzados. Estava pior do que quando ele me viu descendo as escadas. O seu ódio era tão grande que eu achei que fogo sairia dos seus olhos para me matar. Eu cheguei até mesmo a me afundar um pouquinho mais no sofá.

Com os olhos ainda pregados nos meus ele estendeu um braço e puxou Karin – que jamais saiu de perto dele desde que eu cheguei ali, fingindo conversar com as amigas enquanto lançava olhares furtivos para Sasuke –, abraçou-a pela cintura e disse algo no seu ouvido que a fez sorrir.

E foi exatamente assim que eles passaram o restante da festa.

Ele sempre estava no meu campo de visão, agarrado a Karin e sem perder a oportunidade de fazer contato visual comigo. Até houve um momento em que ele passou uma mão discretamente na bunda dela exatamente quando Naruto me deu um beijo na bochecha antes de se levantar do sofá para socializar com os seus outros convidados. Eu não tive forças para ruborizar daquela vez simplesmente porque estava preocupada demais em assassinar Sasuke mentalmente.

Por que ele não para de me olhar?

Assim que eu fiz essa pergunta a mim mesma Ino também a fez. Eu não soube responder, apenas dando de ombros.

"Ele deve estar tentando te deixar com ciúmes," era a hipótese dela.

Eu soltei uma risada sarcástica e abafada. "Por que ele faria isso?"

"Porque ele gosta de você."

Dessa vez a risada que eu soltei era verdadeira. "Já bebeu tanto assim, Ino? Em que dimensão Sasuke gostaria de mim?"

"Não seja pessimista, Testuda. Ele está dando todos os sinais. Veja: ele não para de olhar para você."

Quando virei a cabeça para conferir o que ela disse, constatei que era verdade. Ele continuava a olhar para mim.

Talvez ela tivesse razão – não da parte em que ele gosta de mim, obviamente, mas quando disse que ele tentava me deixar com ciúmes. Mesmo quando eu estava de costas para ele eu podia sentir o seu olhar em mim. Em nenhum momento ele tirou as mãos de Karin, e ele tendia a ser ainda mais grudento com ela quando eu conversava com algum garoto – na maioria das vezes Naruto.

Por mais que eu estivesse confusa quanto a essa minha súbita constatação das intenções de Sasuke, a pergunta que mais me martelava a cabeça era: por quê? Por que ele se esforçava tanto para me deixar com ciúmes? Por que fazia tanta questão que eu o visse com Karin? Ele jamais deu a mínima importância para os meus sentimentos – ele nem ao menos se dignificava a passar cinco minutos comigo para saber que eles existem! Por que provocar uma pessoa cujos sentimentos e existência ele ignorava até poucos dias atrás?

Mesmo após voltar para casa e passar algumas boas horas deitada na minha cama refletindo sobre as minhas conclusões eu não consegui encontrar nenhuma resposta satisfatória para as minhas milhares de perguntas. A única certeza que eu tinha era a de que, se ele queria realmente me deixar com raiva e com ciúmes, ele conseguiu – e como conseguiu. Eu mal consegui dormir tamanha era a fúria que eu sentia dele, de Karin e de mim mesma.

Xxxx

Durante a semana seguinte os papeis foram invertidos. Agora era eu quem o ignorava no colégio, tanto por estar irada com o que ele fez comigo na festa quanto por sentir um pedacinho do meu coração se partir sempre que eu o via e inevitavelmente me lembrava das suas mãos em Karin – outra pessoa cujo pescoço eu sonhava em quebrar.

Eu não mais procurava desesperadamente o seu olhar no meio da multidão. Quando a minha resolução enfraqueceu e eu tive o infortúnio e azar de falhar na minha missão, eu fechava a cara para ele e continuava o meu caminho, tentando acalmar as borboletas no meu estômago.

Eu não fazia ideia se essa minha nova atitude estava surtindo efeito, mas eu sentia orgulhosa de mim mesma – na verdade apenas por uns poucos minutos até o meu lado perdidamente apaixonado falar mais alto e me dar uma vontade quase incontrolável de chorar por meu amor não ser correspondido. Pelo menos eu controlava as minhas lágrimas, eu me congratulei.

Um dia, no refeitório, vi Karin se aproximar de Sasuke com um sorriso carregado de segundas intenções. Eu quase vomitei a minha comida. Entretanto, diferentemente da última vez que os vi juntos (ou seja, na festa de Naruto), ele nem ao menos levantou os olhos do seu celular para falar com ela e, pela cara com que ela saiu, ele não disse nada de bom. Enquanto ela se afastava dele pisando forte, com raiva, ela me encarou diretamente do outro lado do refeitório com uma expressão nada amistosa no rosto – aliás, ela parecia querer enfiar um garfo no meu olho ou algo tão violento quanto.

O sentimento é totalmente recíproco, querida.

Xxxxx

Eu estava distraidamente estudando no final de semana (após ignorar a enxurrada de pedidos de Ino e Naruto para que saíssemos) quando a minha melhor amiga me envia uma mensagem no celular. Era uma foto nossa tirada no colégio naquele mesmo dia – em minha defesa, nós não tínhamos nada melhor para fazer – e que ela me ordenou que postasse no Facebook.

Eu não sei por que eu fiz o que ela mandou, mas acabei fazendo. Talvez por ter gostado de como me saí na foto, talvez por eu não ter nenhuma na minha página – eu nem ao menos tinha uma no meu perfil. Usei-a como foto de identificação também para não deixar o espaço em branco.

Meia hora depois eu recebia outra mensagem de Ino: Entre no seu Facebook AGORA!

Não tão histérica quanto ela, eu terminei de estudar o capítulo de Biologia que tinha começado para depois acessar a minha conta. Ao ver as minhas notificações eu entendi o porquê de todo aquele alvoroço.

Sasuke tinha curtido a minha foto – apenas meia hora depois de eu postá-la!

Eu não sabia se ficava feliz ou se me continha por ainda estar chateada com ele.

No fim da tarde quando eu voltei a acessar o Facebook sem maiores pretensões, vi que Lee – o único garoto a me cortejar em todos esses anos de colégio até a chegada de Naruto em minha vida – comentou na minha foto: "Linda!", e tinha recebido uma curtida. Por mera curiosidade eu passei o mouse para saber quem gostou do comentário dele, e quase caí da cadeira ao ver que era Sasuke.

Xxxxx

"Sakura."

O meu nome dito naquela voz desceu pela minha espinha, causando-me arrepios visíveis. Eu olhei para Ino, sentada na minha frente, para saber se eu tinha ouvido errado ou alucinado, mas ela olhava boquiaberta e com os olhos arregalados para a pessoa atrás de mim.

Eu não precisava de mais provas para ter a certeza de que era Sasuke quem me abordava ali, no refeitório, na frente de todos os alunos do colégio.

Eu girei na cadeira ainda com o canudinho que usava para beber o meu suco ainda entre os lábios. Era ele mesmo quem pairava atrás de mim, fitando-me de cima para baixo, tão assustadoramente lindo como nunca. O meu coração parou de bater e eu temia que a qualquer momento eu desmaiasse por falta de ar.

"Preciso falar com você," ele disse calmamente, como se eu não estivesse à beira de um ataque de nervos.

O meu pânico era totalmente justificável. Quero dizer, aquela deveria ser a primeira vez que ele conversava comigo em público desde o embargo social que ele implantou entre a nossa relação. Arrisquei uma olhada rápida pelo refeitório e, como eu suspeitava, todos olhavam para mim, talvez tão confusos quanto eu.

Eles deveriam estar pensando: o que um garoto tão popular quanto Sasuke queria com uma garota como ela?

Era o que eu também me perguntava.

Ele ergueu uma sobrancelha e eu me lembrei de que ainda estava paralisada na cadeira, calada.

"C-Claro," eu gaguejei e esperei que ele dissesse o que queria para matar a minha curiosidade.

Ele apontou o polegar para a porta do refeitório. "Lá fora."

Meu Deus.

Eu não conseguia acreditar no que os meus ouvidos estavam escutando.

Sasuke Uchiha falou comigo no meio de um refeitório lotado para pedir para conversarmos do lado de fora.

Eu olhei para Ino. Ela me lançava um olhar estranho, o mesmo que ela usava para me dar ordens.

"O que você quer conversar com ela?" ela perguntou para Sasuke, ainda olhando para mim, e foi então o que eu entendi o que ela queria dizer. Você está com raiva dele, se lembra? Não pode dar o braço a torcer agora que o nosso plano está dando certo.

Ela tinha razão. Eu não tinha chegado até ali para voltar a ser uma garota submissa na primeira oportunidade.

Portanto, limpei a garganta e me virei para ele novamente. "Sim, o que quer conversar comigo?"

Muito bem, Sakura. Está soando como uma garota decidida e confiante, não a lesma de antes que ele tanto desprezava.

Se ele ficou surpreso, não demonstrou. "É sobre Itachi."

O meu coração antes congelado pela aproximação repentina de Sasuke esfriou ainda mais com a menção do seu irmão. "O que foi? Aconteceu alguma coisa?"

"Não. Os meus pais queriam que eu te perguntasse se pode ficar com ele esse final de semana."

Ah, claro. Era óbvio que ele conversaria comigo para isso, para pedir um favor. Que outra razão ele teria para fazê-lo?

Eu queria recusar, apenas pelo prazer de contrariá-lo, mas eu não tinha coragem de fazer isso com os pais e o irmão dele – que nada tinham a ver com o babaca que era Sasuke. Portanto, tudo o que fiz foi assentir. Os olhos dele perduraram sobre os meus por mais alguns segundos antes de ele se afastar e voltar para a mesa dos seus amigos.

Xxxx

A minha blusa era puxada levemente enquanto o fundo – bem fundo – da minha mente registrava um resmungo. Eu não dei muita importância.

Foi quando o resmungo, quase um choro, ficou mais alto e o aperto da minha blusa mais forte que eu finalmente percebi que havia adormecido – e que os sons provavelmente vinham de Itachi.

A primeira coisa que me ocorreu é que ele estava em perigo.

Eu não me lembro de ter me movido mais rápido quanto naquele momento, sentando-me de supetão, completamente alerta. No meio segundo que durou a minha reação milhares de cenários se passaram pela minha cabeça: desde Itachi passando mal a um seqüestro.

Porém, todo o meu desespero foi em vão. Quando visualizei o pequeno garoto na escuridão, encontrei-o nos braços do seu irmão.

Se antes eu estava totalmente acordada com a suspeita de que algo ruim pudesse ter acontecido com Itachi, agora eu estava triplamente desperta ao ver Sasuke parado ao lado do colchão estendido no chão da sala onde eu e o seu irmão adormecemos.

Oh, meu Deus.

Sasuke me viu dormindo.

Oh, céus, por favor, diga-me que eu não estava babando ou em uma posição imbecil.

"Sasuke," eu murmurei, como se para me certificar de que eu ainda não estava dormindo e que aquilo passava de um sonho. "Que horas são?"

"Quase três da manhã," ele me respondeu naquela voz grave que sempre criava borboletas no meu estômago. Vestia uma blusa preta e uma bermuda jeans. Eu não preciso dizer que estava lindo. Senti uma pequena inveja das garotas que poderiam desfrutar dele e da sua óbvia beleza – o que, com toda a certeza, aconteceu na festa de onde ele acabava de chegar. Malditas. "Vou levar Itachi para o quarto."

"Mas eu quero dormir aqui," o caçula dos Uchiha respondeu em um resmungo choroso – o mesmo que me acordou. "Quero dormir aqui na sala com Sakura."

"É melhor dormir na sua cama, Itachi," o seu irmão argumentou.

"Mas eu quero dormir aqui!"

Sasuke suspirou e me encarou. Esperava que eu tomasse uma decisão – e isso dizia muito. Que eu me lembre ele jamais se importou com a minha opinião; agora ele queria que eu decidisse onde o seu irmão dormiria. Poderia parecer algo tolo caso não fôssemos Sasuke e Sakura e tivéssemos toda uma história, mas eu considerava aquilo um grande passo – tão grande que eu tive que pensar antes de responder.

"Hum, eu não acho que seja um problema ele dormir aqui," eu disse, olhando para o rosto dele, esperando que ele se mostrasse contrariado.

O que não aconteceu.

Ele apenas deu de ombros e voltou a depositar Itachi no colchão, para a alegria do garoto. Eu sabia o quanto ele gostava de dormir na sala, especialmente com a televisão ligada. Ele se sentia como se estivesse passando a noite em outro lugar diferente que não fosse a casa dele e se divertia muito – coisas de criança.

"Sasuke, dorme aqui com a gente! Por favor por favor por favor!"

Eu gelei.

Itachi não disse isso.

Ele só podia estar brincando.

Porém, quando desviei os meus olhos arregalados para Sasuke vi que ele me olhava. Ficamos assim, nos encarando, o meu coração acelerado, até que ele se deitou ao lado do irmão.

Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Sasuke estava deitado ao meu lado – quero dizer, não tecnicamente ao meu lado, já que Itachi estava entre nós, mas no mesmo colchão que eu e próximo demais.

Eu não ia agüentar. Acabaria passando mal a qualquer momento.

"E-Eu acho que vou para casa," eu gaguejei e me levantei do colchão. Para o bem do meu pobre e judiado coração, eu tinha que sair dali. Sasuke poderia tomar conta de Itachi agora que chegou da festa aparentemente sóbrio; não precisavam mais de mim ali.

E eu também não precisava ficar ali.

"Não, Sak!" Itachi gritou e se ajoelhou no colchão. "Por favor, não vai embora! Você me prometeu que ia dormir aqui comigo para fazer chocolate quente para mim amanhã de manhã!"

Droga. Por que eu havia feito essa promessa?

"Eu volto para cá amanhã bem cedo e faço para você," eu argumentei com um sorriso, tentando amenizar a expressão desapontada no rosto da criança.

Era tudo culpa dele, afinal. Quem o mandou convidar Sasuke para dormir a um braço de distância de mim?

Ele saltou do colchão e correu em minha direção para abraçar forte a minha cintura. "Não! Eu quero que você durma aqui! Você prometeu!"

"Eu sei, Itachi, mas eu tenho que voltar para casa."

"Por quê?"

"Porque..." Eu vasculhei a minha mente em busca de uma desculpa plausível, mas nada veio – em grande parte por sentir o olhar de Sasuke sobre mim. "Porque eu tenho que arrumar umas coisas lá."

"Que coisas?"

"Coisas, Itachi." Eu afaguei o cabelo dele na esperança de que isso fosse acalmá-lo e me deixar ir. "Escute, eu juro volto para cá antes mesmo de você acordar e faço o melhor chocolate quente do mundo todo só para você."

"Sakura."

A voz de Sasuke pareceu penetrar em todas as minhas células e fazê-las dançar um mambo. O fato de eu estar com raiva dele – ou tentando – não mudava isso.

"Durma aqui. Não estou a fim de te levar para casa a essa hora."

Eu pisquei. Eu não sabia o que era mais chocante: ele querer que eu dormisse na casa dele ou ter considerado me levar em casa.

Eu respirei fundo para não gaguejar de novo. "Não precisa me levar, Sasuke. A minha casa é aqui do lado –"

"Você não vai sair sozinha a essa hora da noite."

Eu franzi o cenho. "Por que não? Não é como se eu pudesse ser assaltada. Moramos em um condomínio fechado. Não há perigo nenhum aqui."

"Não importa. Não vai sair sozinha."

"E-Eu tenho que ir! Tenho muitas coisas para fazer –"

"Sakura," ele falou o meu nome quando viu que eu continuaria a falar. "Pare de discutir e durma."

Eu não iria ganhar essa discussão. Droga, Itachi, por que foi abrir a boca? E por que Sasuke de repente insistia tanto para que eu ficasse ali?

Parecia que a medida que eu voltava a conversar com ele, mais confusa eu ficava. Parecia até que era uma especialidade dele: bagunçar os meus pensamentos.

Derrotada, eu apenas suspirei e me sentei no colchão com as costas escoradas no sofá com Itachi gritando de alegria. Assim que tivesse oportunidade eu subiria para o quarto de hóspedes e dormiria lá – bem longe de Sasuke.

Xxxxx

Dessa vez eu acordei com o toque do meu celular. Zonza, eu tateei ao meu lado, onde eu sempre o depositava todas as noites. Encontrei-o no chão, tão perto que eu nem precisei estender muito o meu braço para alcançá-lo. Era apenas uma mensagem da minha mãe dizendo que estava tudo bem com os meus pais e os Uchiha na viagem de negócio – onde, obviamente, os homens trabalhavam e as mulheres apenas faziam compras. Eu não me importava. Não era a maior fã de aviões nem de compras.

Depois de checar a hora (passava das nove da manhã), recoloquei o celular no seu lugar e puxei o cobertor para mais perto de mim. Este tinha um cheiro diferente, mas ao mesmo tempo familiar, muito agradável, que me fez me sentir ainda mais confortável. Parecia até mesmo o cheiro de...

Eu arregalei os olhos.

Era o cheiro de Sasuke. Eu tinha certeza.

Olhei para baixo e vi que, de fato, aquele cobertor azul marinho era de Sasuke. Eu estava enrolada nele (de onde ele surgiu, pelo amor de Deus?) e uma mão descansava na minha cintura.

Apenas pelo tamanho eu deduzi que era de Sasuke.

Oh, meu Deus, não era possível que isso estava realmente acontecendo. Eu havia sabotado o meu próprio plano de subir para o quarto de hóspedes assim que pudesse e acabei acordando ao lado de Sasuke com uma das suas mãos na minha cintura, o seu braço passando por cima do espremido Itachi entre nós.

Uma mistura de mortificação, alegria, susto e desespero me paralisaram enquanto eu observava o rosto dormente de Sasuke. Se é que isso é possível, ele parecia ainda mais bonito assim, de olhos fechados, os músculos faciais relaxados, o cabelo caindo em parte do seu rosto. Ele não parecia o garoto que durante anos fingia que eu não existia e que aprontava tudo e mais um pouco todos os finais de semana. Ele parecia... comum, acessível.

Eu resisti ao impulso de tocá-lo.

E, para completar a imagem, Itachi estava aninhado em seu peito, ambos enrolados em outro cobertor, como se ali ele se sentisse protegido – o que era verdade. Sasuke podia ter os seus milhões de defeitos, mais de uma coisa eu tinha certeza: ele amava o seu irmão acima de tudo.

Eu devo ter ficado admirando a cena na minha frente por quase um minuto antes de me lembrar de que eu não deveria estar ali – e agradeci mentalmente por nenhum dos dois ter acordado ainda.

Lentamente eu afastei o cobertor das minhas pernas e saí do colchão, não sem antes olhar por cima do meu ombro para saber se os irmãos Uchiha ainda dormiam. Para o meu alívio eles não moveram nem um músculo.

Antes que eu pudesse ir embora sorrateiramente, lembrei-me da promessa que fiz a Itachi de lhe preparar um chocolate quente. Suspirei enquanto pegava a minha bolsa que deixei na poltrona da sala. Ele havia me pedido tão insistente e veementemente na noite anterior que seria crueldade da minha parte não fazer o chocolate, principalmente depois de sair sem me despedir. Portanto, na ponta dos pés eu fui até a cozinha adjacente à sala cumprir a importantíssima promessa que fiz a uma criança de sete anos.

Eu estava esquentando o leite no fogão quando algo me fez olhar para trás. Um acidente quase aconteceu quando vi Sasuke parado na porta, o seu ombro escorado no umbral, braços cruzados, como se estivesse me assistindo há algum tempo.

"Sasuke!" eu exclamei com o meu coração palpitando. "Não apareça assim tão de repente! Estou preparando o leite do seu irmão e poderia tê-lo derrubado e me queimado!"

Foi o meu nervosismo que me fez repreendê-lo, não a indignação em si.

Ele arqueia uma sobrancelha. "O que queria que eu fizesse? Te enviasse uma mensagem de texto avisando que eu estou entrando na minha própria cozinha?"

Eu não consegui distinguir se ele estava falando por irritação ou sarcasmo. De qualquer forma, aquela não seria uma má idéia. O único problema era que ele não tem o meu número do celular para me enviar qualquer tipo de mensagem – e como eu queria que ele tivesse o meu nome na sua agenda.

Bem, uma coisa de cada vez. Já estava de bom tamanho ele estar conversando comigo e curtindo não somente as minhas fotos no Facebook como também o elogio que pessoas faziam delas.

Sem saber o que dizer e para esconder o meu rosto que, eu podia apostar, começava a se avermelhar, eu me virei para o fogão, mexendo o leite com uma colher. Eu estava completamente desfocada da minha tarefa culinária agora que Sasuke se juntou a mim na cozinha, e eu tive que me lembrar a todo instante de não desviar muito a minha atenção para o garoto para não estragar a refeição e acabar me fazendo de boba mais uma vez na frente de Sasuke.

De repente eu o senti ao meu lado, multiplicando o meu nervosismo.

"Eu..." Eu limpei a garganta. "Estou preparando esse chocolate quente para Itachi, mas não sei que horas ele acordará. Caso ele durma até tarde, se importa se eu deixasse o leite na panela para que você o esquente novamente para o seu irmão?"

"Por que você mesma não faz isso?" ele perguntou, escorando o seu quadril na bancada ao lado do fogão. Agora ele constantemente ficaria na minha visão periférica – digo periférica porque eu não me atrevia a levantar os olhos da panela para fitá-lo.

"Tenho que ir para casa," eu respondi em um murmúrio. Parecia que todo o meu trabalho dos últimos dias para que eu não mais me sentisse tão submissa a ele estava indo por água abaixo agora que estávamos completamente sozinhos.

"Os seus pais não estão lá," ele afirmou, como se eu não soubesse disso.

"Eu sei, mas tenho muito que estudar." Eu desliguei a chama do fogão.

Um silêncio estranho se transcorreu em que eu olhava inutilmente como uma idiota para o chocolate quente, sem sair do lugar.

"Traga as suas coisas para cá," ele disse, soando mais como uma ordem do que como um convite. Eu suspeitava que fosse exatamente essa a impressão que ele queria passar.

Eu enruguei a testa, arriscando um encarar. "Por que eu faria isso?"

Ele dá de ombros. "Não tem ninguém na sua casa."

"O que é melhor para estudar," eu retruquei, sem entender de onde ele havia tirado essa idéia.

Ele arrancou o seu olhar do meu para olhar para frente. "Itachi gostaria que ficasse aqui."

Eu suspirei e passei uma mão pelos meus cabelos desarrumados. "Você sabe que eu amo o seu irmão e adoro estar com ele, mas ele demanda muito da minha atenção. Eu não conseguiria estudar com ele ao meu lado. Além disso, eu e a sua mãe combinamos que você ficaria em casa hoje e amanhã para cuidar de Itachi."

"Eu nunca disse que não ficaria."

Se ele pensava que estava esclarecendo as minhas dúvidas, estava redondamente enganado. Cada palavra que ele falava me confundia um pouco mais – e não só as dessa conversa em particular, mas todas desde que voltamos a agir civilizadamente um com o outro.

"Então, por que eu devo ficar também?" eu perguntei, genuinamente sem entender aonde ele queria chegar.

Ele parece refletir por um segundo – segundo que fez o meu coração acelerar impossivelmente mais. Por que Sasuke precisava pensar para responder uma pergunta tão simples quanto aquela?

"É perigoso ficar sozinha em uma casa daquele tamanho."

A justificativa dele arrancou de mim uma risada nervosa. "Sasuke, eu sempre fico lá sozinha quando os meus pais viajam e nada me aconteceu até hoje. E eu já disse que não há perigo algum em ficar sozinha em um condomínio fechado –"

"Traga as suas coisas para cá."

Eu quase me assustei com a brusquidão e tom de voz dele, ainda mais imperativo que antes.

O que era ele e essa sua nova obsessão em me manter na sua casa?

"Sasuke, eu não posso..." eu murmurei.

"Eu distraio Itachi enquanto você estuda. Ele não vai te atrapalhar." Eu já ia contrariá-lo quando ele continuou a falar. "Quero um pouco disso."

"Disso o quê?" Céus, se eu já tinha dificuldades em compreendê-lo quando ele conversava de apenas um assunto, imagine quando ele mudava o tópico subitamente – e enquanto ainda estava atordoada pela insistência dele.

"O chocolate quente," ele respondeu, apontado para a panela com a cabeça.

"E-eu achei que não gostasse de doces," eu comentei, surpresa. Desde pequeno Sasuke tinha uma aversão especial a qualquer coisa doce. Quando isso mudou?

Provavelmente durante os anos em que ele me ignorou.

Ele me olhou nos olhos e sussurrou: "Gosto de chocolate quente." E saiu.

Xxxxx

A.N.: E mais uma vez eu errei as minhas previsões. O que era para ser uma oneshot está prestes a ganhar o seu terceiro capítulo. Espero que gostem!

E não esqueçam de checar a minha página no tumblr! Eu sou completamente nova nisso e ainda não tenho ideia do que fazer... O meu nome lá é ladysimplyme. Eu espero postar teasers, novidades e outras besterias por lá.

Ah! E eu decidi dar uma encurtada no título da história.