Nós ou eles
Capítulo II – Pegando o bonde andando
Manhã de domingo em Konoha, e às seis horas Hinata já estava de pé. Ficara no quarto de hóspedes, que agora seria seu quarto e, por incrível que pudesse parecer, não estava sujo e asqueroso como o resto da casa. Pelo visto Neji estava errado ao dizer que a cozinha era o lugar mais limpo daquela residência... Mas claro que Hinata não sabia que ele havia falado isso.
Arregaçando as mangas, respirou fundo e imediatamente começou a trabalhar. Precisava ao menos deixar a casa apresentável. Recordava-se bem de seu pai dizendo para ajudar seu tio e não lhe dar trabalho... No entanto, não fazia isso pelos outros, fazia-o por si, pois não queria ser uma inútil como Hiashi sempre a lembrava. Poderiam chamar isso de egoísmo ou orgulho, o que seria algo ruim, de acordo com o que lhe ensinaram no internato, mas ela era capaz de admitir que possuía esses sentimentos. Era tímida e generosa, mas não era tão tola como sempre julgavam.
E também havia o fator sujeira, que contava muitos e muitos pontos. Estava enervando aquela sujeira toda...
Nunca se ocupara de forma tão afoita, por isso, na altura do almoço estava cansada como se tivesse corrido uma maratona, mas não desistiu, fez apenas uma pausa para comer, sem conseguir imaginar onde Neji ou o tio estavam; o último deixara apenas um bilhete avisando que chegaria tarde. "Crianças, comam no horário certo, chegarei tarde. Hizashi."
Como Neji fizera o favor de desaparecer, restou-lhe apenas comer sozinha, o que não era muito diferente do internato, onde não conversava muito com as outras garotas. Em sua própria casa, só havia graça nas refeições quando seu pai não estava, apenas assim se soltava o bastante para se divertir um pouco com sua irmã menor, Hanabi. Sem se lamentar, preparou comida rápida congelada e logo voltou ao trabalho.
"Como será que conseguiram deixar a casa tão suja?", indagou-se imaginando mil possibilidades, mas sem se apegar a nenhuma.
Limpou, lavou, esfregou, enxaguou, desinfetou e finalmente terminou o trabalho. Faltou apenas lavar a roupa suja, os lençóis e outros artigos do gênero, mas isso ficaria para outro dia, já estava tarde e não havia mais Sol para ser aproveitado...
Resolveu tomar um banho para ver se livrava seu corpo da sujeira e se aliviava o cansaço de seus músculos. O ano letivo começaria oficialmente na segunda-feira, isto é, no dia seguinte, precisava estar descansada...
E ao sair do banheiro, qual não foi sua surpresa ao dar de cara com seu primo. Ele estava apoiado na balaustrada do patamar da escada, como se a estivesse esperando. Diferente do dia anterior, ele a encarava atentamente, apesar dos olhos visivelmente cansados e escuros pelas olheiras. Teria ele passado a noite fora? Bem, não era da sua conta e também não se preocupava com isso naquele exato momento, apenas o fato dele a fitar tão intensamente é que a deixava inquieta. Ser completamente ignorada num dia para no outro ser analisada cuidadosamente não era algo convencional. Mas desde quando Neji era exatamente normal?
Encarando-o de volta, tentou a todo custo manter o olhar, mas, como sempre, não conseguiu. Resolveu quebrar o silêncio para ver se o incomodo no estômago diminuía.
"N-Neji-ni--", então subitamente se lembrou da repreenda do dia anterior. "Desculpe".
Mas ele não reagiu, não se moveu um único milímetro, ao menos piscou.
"Não imaginei que me levaria a sério...". Finalmente suspirou. "Não era para limpar a casa".
"Oh.", era isso? De alguma forma a declaração dele a aliviou, pois já havia começado a ficar apreensiva. "Tudo bem, eu gosto de trabalhos domésticos".
Neji arqueou uma sobrancelha em completa descrença, mas não disse nada. E assim permaneceram. O único barulho ouvido era o tique-taque do velho – e enorme - relógio de pêndulo, no meio do corredor.
Bem, e agora?
"Vai ficar aí parada com cara de boba só de toalha? Vai logo pro quarto ou vai pegar um resfriado, sua tonta!". Neji falou rispidamente, as sobrancelhas franzidas em irritação.
Hinata soltou uma exclamação inaudível, levando a mão à boca, completamente envergonhada. Neji a deixou tão tensa que acabou se esquecendo do resto. E nesse resto, incluía-se sua condição de falta de roupas. Saiu correndo para o quarto, os cabelos pingando água pelo caminho.
oooo
Quando finalmente teve coragem de sair do quarto, foi direto para a cozinha preparar o jantar, o que significava pegar algum entulho congelado e esquentá-lo no microondas. A essa altura, era certo que precisava imediatamente fazer compras, porque naquela casa não havia nada mais que enlatados, congelados, ramen e ovos. Que tipo de pessoa sobrevive com esse tipo de comida?
Ao chegar ao destino, teve a resposta para sua pergunta retórica, pois encontrou Neji sentado à mesa, com cara de tédio, e Hizashi encostado na pia, esperando o jantar ficar pronto enquanto ralhava com o filho.
"... quando for dormir fora, ao menos me avise! Quer que eu morra de preocupação?". Falou e, finalmente notando Hinata, acrescentou quase distraidamente: "Ah, Hinata, você estava aí?"
"Hum, a-acabei de chegar", respondeu receosa, sabia que não era bom ouvir conversa alheia, mesmo que tivesse sido sem querer.
Neji lhe lançou um olhar zangado e depois a ignorou. Hizashi franziu as sobrancelhas, num gesto muito semelhante ao que Neji fizera mais cedo, enquanto Hinata corou violentamente.
"Algum problema, crianças?".
"Nenhum", falou o garoto de forma ranzinza.
"Hinata?". Dirigiu-se à menina, visivelmente descrente da resposta do filho.
"N-não", respondeu num fio de voz enquanto se sentava a mesa e era servida pelo tio.
"Pelo visto Neji brigou com você quando eu não estava, não é?", indagou Hizashi.
Neji revirou os olhos brancos nas órbitas. Hinata fitou o garoto de soslaio antes de responder:
"N-não, senhor".
"Se você diz... A propósito, obrigado por limpar a casa", agradeceu sinceramente. "Nossa empregada está de licença, por isso a casa estava tão suja... É realmente vergonhoso...", comentou ligeiramente encabulado.
"A-ah, não foi nada".
"Nós realmente agradecemos, não é Neji?"
E Neji de repente pareceu pular da cadeira para logo em seguida concordar, ainda que de forma aborrecida... Hinata teve a impressão de que seu tio Hizashi o chutou por baixo da mesa. Fora mesmo só impressão? Bem...
oooo
"Esta é Hyuuga Hinata, e este ano ela será companheira de vocês, tratem-na bem, certo classe?", disse o professor após escrever o nome da garota no quadro-negro.
"Sim, Iruka-sensei", responderam em coro, como alunos da educação básica.
"Sente-se em qualquer lugar que preferir, não há lugares realmente definidos, embora esperemos que se sente nele daqui para frente".
"S-sim."
Caminhando aos tropeços sob o olhar de toda a sala, Hinata sentou no primeiro lugar vago que avistou: a quinta carteira, na fileira rente à janela, atrás de um garoto que conseguia ter a cara mais amarrada que a de Neji, mas isso Hinata não notou, pois sequer prestou atenção onde estava sentando e menos ainda nos olhares fulminantes que um grupo de garotas lhe dirigiu, ainda que se sentisse um rato de laboratório em exposição.
"Acalme-se, Hinata, é só hoje, amanhã ninguém vai se lembrar de você...", pensava, enquanto segurava a própria mão, tentando parar a sudorese nervosa.
"Oh, e aí, Hinata-chan! É bom vê-la novamente.", ouviu a voz de um garoto dizer animadamente. Alta e aguda a voz não lhe era estranha... Levantando os olhos na direção do som, deu de cara com o mesmo garoto loiro que lhe pagara um ramen no sábado, Naruto. O sorriso largo chegava até os olhos fechados em arco, lembrando uma raposa faceira, com certeza um sorriso contagiante.
"Dobe, não fale '-chan', isto é uma afronta aos bons costumes, você mal conhece a garota", disse o rapaz sentado à frente de Hinata e ao lado de Naruto. Ele falava como se Hinata não estivesse ali ou não pudesse ouvir, mas ela estava ali e ouvia tudo. Isso a incomodou um pouco... Ela não se importava que Naruto a chamasse de "Hinata-chan", apesar do "-chan" denotar uma certa intimidade, além do uso de seu nome e não sobrenome, claro.
"Hahah, como se você ligasse para 'os bons costumes', Sasuke-baka", falou Naruto com sarcasmo e alto o bastante para a sala toda ouvir.
"Não fale assim com o Sasuke-kun, Naruto!". Chispou a garota sentada na frente de Naruto, enquanto dava um tabefe no garoto.
"Ah, Sakura-chan, por que sempre me trata assim?", indagou dramaticamente. A essa altura, a sala toda assistia a cena, até mesmo o professor parara o discurso decorado de começo de ano letivo.
Hinata estava tão vermelha quanto o vestido de uma qualquer ao passo que o tal do Sasuke ignorava-os completamente, como se já estivesse acostumado com esse tipo de situação.
"Ei, ei, Naruto-kun, poderia fazer silêncio? Preciso continuar a aula...".
"Sim, Iruka-sensei", falou acenando ao professor e baixinho emendou: "Como se só eu estivesse falando... Humph!"
Sasuke sorriu presunçoso.
"Teme!". Os lábios de Naruto formaram a palavra.
oooo
O primeiro intervalo não tardou a vir, o que deixou Hinata meio entristecida, afinal, enquanto estivesse em aula, não teria que se preocupar com companhia. Mas o que no inicio parecia um bicho de sete cabeças mostrou-se mais aprazível que um filhote de gato. Tudo graças a Naruto, que conseguia falar pelos cotovelos e alegrar o ambiente.
"O que eu mais odeio, além do Sasuke-teme, é esperar três minutos para o ramen ficar pronto. Não consigo me imaginar vivendo sem ramen...", dizia Naruto felizmente, apenas fechando a cara quando falou de Sasuke. O referido garoto apenas girou os olhos, entediado. Parecia ser assim todos os dias desde lá sabe-se quando: Naruto falando alguma idiotice e Sasuke ignorando, enquanto Sakura batia no pobre loiro.
"M-mas, ainda est-tamos n-no primeiro intervalo... A-ainda há mais um e o almoço, n-não?"
"Ah, mas eu ainda tenho mais dois potes de ramen na minha mochila! Tem um pra cada recreio!", explicou.
"Naruto, 'recreio' é coisa pras criancinhas do primário! Estamos no colegial, por isso, diga 'intervalo'", ensinou Sakura, enquanto tentava fazer uma coroa com pequenas flores tipo mosquitinho.
"E qual a diferença?", indagou confuso, mas não esperou por resposta, foi logo abrindo o pote de ramen berrando, feliz, "itadakimasu".
"Ah, deixa pra lá... Você nunca aprende mesmo...".
"E aí, moçada!". Cumprimentou um rapaz displicentemente. Caminhava chutando areia e sorrindo largamente, mostrando os caninos afiados.
"Ae, Kiba, você só aparece na hora do rango!". Falou Naruto, com metade do macarrão para fora da boca.
"Argh, como se eu quisesse esse seu ramen mastigado...".
"Melhor que comida de cachorro". Retorquiu ofendido.
"Por quê? Você já comeu?".
"Shino, manda ele calar a boca! Eu to comendo!", gritou Naruto, fazendo cara de nojo.
"Bom dia pra você também, Naruto". Shino disse polidamente, apesar do sarcasmo no cumprimento.
"Ah, bom dia," – sorriu forçadamente – "agora, manda ele calar a boca!".
"Por que não manda você, nanico?", interrompeu Kiba.
"Porque você nunca me escuta, mas sempre escuta o esquisito".
"Estou profundamente ofendido...", comentou Shino.
"Naruto, não é assim que se fala com as pessoas!", repreendeu Sakura.
"Deixa ele...", falou Sasuke.
"COMO AS-...". Começou Sakura, mas, vendo que era com Sasuke que gritava, corrigiu-se. "Como quiser, Sasuke-kun".
"Ah, então essa aí é mesmo a prima do Neji? Quando o Iruka-sensei a apresentou não consegui acreditar... 'Como pode uma garota tão gracinha assim ser parente daquele metido!', eu pensei".
"E falou em voz alta o bastante para eu ouvir". Completou Shino. Hinata enrubesceu até equiparar a cor de uma papoula e não tardou Kiba ficar da mesma cor.
"Não sei porque ele está vermelho... Depois de falar até o que não deve...". Comentou Sakura, sendo apoiada por Naruto.
"Ah, falando no abutre do Neji, vocês ficaram sabendo?". Perguntou Kiba, provavelmente tentando desviar o assunto que ele mesmo havia começado. Hinata arregalou os olhos. "Abutre"?
"O quê?". Naruto caiu feito pato.
"Tão falando por aí que ele levou um fora da Tenten...".
"Meu Deus...". Fez Shino, colocando a mão sobre o rosto.
"Que foi, Shino?", indagou Kiba. "Você já 'tá sabendo...", falou confuso.
"Não é isso, idiota". Respondeu.
"O que é então? Se não é nada, não me interrompa". Disse com um fio de irritação na voz. "Então, como eu ia dizendo..."
"Fala logo! O recreio tá acabando!", falou Naruto. Ele provavelmente calculava o tempo do intervalo pelo tempo que demorava em comer seu ramen.
"Se vocês me deixassem falar!"
"Aff, eu vou ao banheiro...". Falou Sasuke, levantando-se do pé da árvore onde estava sentado.
Kiba revirou os olhos nas órbitas, murmurando um "então vai logo, saco!".
"Disse alguma coisa?", indagou Sasuke sorrindo de uma forma estranha.
"Não, imaginação sua!"
"Feh", e saiu caminhando calmamente em direção ao prédio da escola.
"Como eu ia dizendo..."
"Ssshhhh!", fizeram Sakura e Naruto, apontando para o outro lado, onde um Neji furioso passava, sendo seguido de perto por uma garota afoita.
"Espera, Neji! Quantas vezes teremos que dizer que nada mudou?", falou a garota, sua voz alta chamando a atenção de todos no jardim, menos a de Neji, que continuou andando em direção ao prédio. Insistente, a garota o parou, segurando-o pelo pulso energicamente, num gesto que pareceu mais do que atrevido – e corajoso – para Hinata.
"Se nada mudou, então por que me esconderam? Vocês pensaram que eu ia atrapalhar", falou rispidamente, mas em tom baixo, tão baixo que os quatro curiosos – Naruto, Sakura, Kiba e Hinata – quase não puderam ouvir, embora, de qualquer forma, não compreendessem o significado das frases captadas. Shino parecia não dar a mínima atenção.
"Nós já falamos sobre isso ontem! Você não atrapalha! Era só difícil falar..."
"Não... Vocês tinham medo da minha reação... Por quê?". Indagou, puxando o braço com força, quase levando a garota junto. "Não é como se eu fosse me opor ou algo assim...".
"Mas...".
"Não precisa pedir, eu caio fora por conta".
"Mas... Mas... Por que você não aceita mudanças? Já temos 17 anos, estamos crescendo, você não vê?"
"Tenten".
"Hum?". Por alguns instantes, ela pareceu ansiosa com o que viria a seguir.
"Você está se contradizendo". Falou, de repente adquirindo aquele ar estóico tão característico. "Quando estiver lúcida, pode vir falar comigo, caso contrário, esquece que eu existo", e continuou o caminho até o prédio, mas não sem antes lançar um olhar gelado na direção dos cinco curiosos. A garota, Tenten, ficou para trás, praticamente aos prantos.
Os cincos ficaram mudos por alguns instantes, até Naruto quebrar o silêncio.
"Kiba, pensei que você tinha dito que a Tenten tinha dado um fora no Neji..."
"Mas parece que foi o contrário...". Completou Sakura.
"É, bem..."
"Só por que eu tava feliz que alguém tinha dado uma lição naquele teme..."
"Pensei que só o Sasuke fosse teme...", interveio Kiba.
"Eu também...", falou Naruto, "Mas acho que estava enganado...".
(continua...)
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N/A: por favor, não se acostumem com atualização rápida como essa, a não ser que me deixem animada o bastante pra escrever feito louca . E não é todo dia que atualizo duas fics de uma vez... Estranho que ainda não tenha começado a chover...
E só uma coisinha... Meu Neji tá tão assustador assim? Mas ele nem tá tão OOC nesse sentido, afinal, a caracterização dele depende um pouco da minha visão e... O Neji era um tremendo filho-da-mãe no início da série. Fala se aquele sorrisinho arrogante-cínico-afetado não era de esmagar coração? Ah, eu amo esse garoto.
Bem, agora já está praticamente na cara quem serão os casais, não? ¬¬'
Agradecimentos especiais a Yami no Tenshi, Shia Ukyo, Hyuuga Tha, ItachiSaru, Camis e :..Sanguxa..:. Muito obrigada por revisarem, meninas xD.
Bem, é isso pessoal.
Até o próximo capítulo --.
Raku-chan
Julho de 2006
(Revisão: Fevereiro 2008)
