2 - Cheers!
O ano letivo começou e Remus tentou concentrar-se em preparar as aulas e ocupar-se em decorar os nomes dos alunos. Harry estava em sua classe de Defesa Contra as Artes das Trevas, e isso era ótimo. Snape não lhe dirigia mais que o indispensável de palavras formais, e Lupin já decidira não lhe dar bola e também só lhe dirigir os 'bom-dias, boas-tardes e boas-noites' de volta. Falaria com Papoula sobre a noite de lua cheia, do sábado para domingo, se alojaria na Casa dos Gritos, e estaria tudo resolvido, pelo menos por enquanto.
Na sexta-feira à noite, Remus não usufruía de nenhum tempo livre. Tinha aula para preparar e trabalhos para corrigir. Decidiu trocar o jantar numa ida apresada até a ala hospitalar, para acertar os últimos detalhes com Papoula.
Estava se arrumando em sua sala. Tinha acabado de vestir o terninho de vime marrom, quando uma batida incomum soou em sua porta.
– Pois não?
Ninguém respondeu. Remus franziu o cenho e abriu a porta.
Deu de cara com um Snape carrancudo, ele trazia uma poção fumegante em mãos. Não foi a sua intenção mas, Lupin ficou boquiaberto. Seria mesmo o que ele estava pensando?
Snape não tirou os olhos de Lupin, falou rápido e sem emoção aparente:
– Não que seja do meu agrado, mas preciso entrar e lhe explicar como ministrar corretamente isto que tenho em minhas mãos.
Lupin escancarou a porta no mesmo momento e Snape deu um passou para dentro, observando cautelosamente tudo ao redor. Lupin fechou a porta e enquanto Snape estava de costas, arrumou rapidamente a gola do terninho.
– Então "isto" é a sua sala? - sorriu com escárnio e dirigiu-se até a mesa onde Lupin estava a pouco separando os trabalhos para corrigir. Snape encarou a mesa, um tanto quanto interessado nos trabalhos, mas só durou dois segundo até se voltar para o lobisomem.
– Isto que tenho em minhas mãos - e ergueu a poção na altura dos olhos (como se fosse preciso, Lupin não tirara os olhos dela) - é uma poção Wolfsbane. Precisa tomar uma dose na noite antes da lua cheia e outra dose na noite exata da lua cheia.
Snape aproximou-se de Lupin e falou tão teatralmente que o outro teve vontade de rir.
– Duas-doses-Lupin. Tome apenas uma dose, e você sofrerá as consequências.
Esvoaçou a capa até a mesa e descansou ali a poção fumegando.
Lupin não sabia o que dizer. Será que Dumbledore tinha entrado numa trégua com Snape?
Snape sabia que ele ouvira sua discussão com o diretor, e de alguma forma tinha se comovido?
– Severus... Eu... - Lupin não conseguia banir a emoção alegre que lhe tomou naquele instante. Gratidão. Snape era mesmo uma muralha. E talvez, pensou rápido (só Dumbledore saiba o que havia do outro lado).
Mas Snape fez uma cara de azedume.
– Poupe-me dos seus agradecimentos, Lupin. Se quer saber, não estou fazendo isso por você- (por Dumbledore, claro), pensou Lupin. - Estou fazendo pela segurança dos alunos e pela integridade desta escola.
E dando uma última e discreta olhada no local, dirigiu-se rápido a saída, parando na porta.
– Quase ia esquecendo- tirou um cilindro medidor do bolso e jogou para Lupin - A quantidade da marca vermelha deve bastar.
E saiu.
Lupin ficou parado no meio de sua sala. Era uma criatura perigosa, tinha plena ciência disso, mas lhe falarem isto com todas as letras, era diferente. Ele não pretendia machucar a ninguém, tanto que já planejara ficar na Casa dos Gritos em noites de lua cheia. Mas Snape, parecia ignorar o fato e pensar o pior de Lupin.
Olhou do medidor para a poção, sem acreditar. Nunca tinha provado do efeito desta poção antídoto. E se não funcionasse com ele? Ainda assim, seria melhor passar a noite na Casa dos Gritos. E concluiu que não era o caso de contatar Papoula. Ela provavelmente lhe gritaria umas besteiras e depois jogaria o líquido fora na pia mais próxima. Papoula era absurdamente a favor da transformação, e não acreditava em nada que fosse de contra a maldição. Mesmo sendo uma Wolfsbane preparada pelo Snape.
E Lupin estava disposto a tentar. Seria o caso de falar com Dumbledore? Afinal precisava contar a alguém que ia beber esta poção. Se estivesse envenenada? Snape...
Lembrou-se de sua fala dramática e finalmente riu.
Decidiu tomar o antídoto imediatamente. Concluiu que nada poderia piorar a vida miserável que já tinha.
Foi até a mesa e derramou o líquido esfumaçando no cilindro até a medida vermelha.
UM... DOIS... TRÊS! "Cheers!" Pensou ironicamente, e virou o conteúdo na boca.
A sensação era a de engolir fogo e carvão em brasas.
Urrou de dor e caiu de joelhos arfando, quase derrubando o restante da poção. Pensou que suas costelas doíam mais que tudo, quando então a dor atacou seu estômago e tudo já não era uma descrição o bastante. O ar em seus pulmões tornou-se cargas pesadíssimas e ele foi forçado ao chão com um baque. Fechou o punho com força e quebrou o cilindro de vidro que ainda tinha em suas mãos, mas não se importou com um pedaço do grosso do vidro cortar e afundar em sua palma, pois nesse momento sua cabeça queimou como se tivesse mergulhado-a em larvas vulcânicas recém formadas.
Lupin soltou um berrou de loucura e dor. Todos os que estavam no Salão Principal, conversando alto, comendo e bebendo seus jantares, num tanto quanto longe de sua sala, não o puderam ouvir.
Neste momento a porta de sua sala se escancarou e um vulto negro adentrou a sala. Snape se abaixou até onde Lupin estava se debatendo, com os olhos fora de órbita.
[...]
