Disclaimer: personagens e lugares pertencem a JK Rowling e à Warner Brothers, excepto aqueles criados por mim. Fanfiction escrita sem fins lucrativos.

Baseada no filme de 1991 O Pai da Noiva, com Steve Martin e Diane Keaton. Quaisquer semelhanças com o argumento são mais que meras coincidências.

Produção: Agosto 2010 – Abril 2011

Avisos: fanfiction apropriada para todos

Spoilers: DH

Sumário: Rose Weasley regressa a casa com uma notícia surpreendente: ela vai casar! Mas a notícia, aparentemente feliz, promete fazer estragos no coração de uma das pessoas que ela mais ama…


N/A: em primeiro lugar, queria pedir imensas desculpas por levar mais de um mês a actualizar, o último estágio foi um pouco mais puxado do que estava à espera e foi-me mesmo impossível passar por aqui mais cedo. De qualquer maneira, muito obrigado pelas reviews que me deixaram e pelos favoritos, fico mesmo muito contente por saber que gostaram. Espero que o segundo capítulo esteja à altura e até à próxima! =D

Erros de digitação, pontuação, conjugação verbal e demais ofensas à língua portuguesa são culpa minha e peço perdão pelos mesmos. A minha beta tirou férias e eu fiz o meu melhor, mas às vezes isso não é suficiente.


O PAI DA NOIVA

CAPÍTULO II: O noivo

Não sei ao certo porque me dói tanto a cabeça. Os raios de sol da manhã feriram-me a vista e senti uma pontada no meio da testa que me fez voltar a enterrar a cara na almofada e virar-me na cama por entre os lençóis.

Não me consigo lembrar de nada! Foi ontem que a Rose chegou a casa, certo? Talvez tenha exagerado no vinho e esteja com uma bruta de uma ressaca, sem dúvida que era o tipo de coisa…

Flashes súbitos dispararam então na minha mente: Rose feliz a mostrar o anel de noivado. "Papá, vou casar!" Scorpius Malfoy e aquele que quase foi o último nome que ouvi na vida. Rose furiosa a trancar-se no quarto e a deixar-me na mesa a falar para o boneco.

Abri tanto os olhos que eles até me doeram.

- AAAAAAHHH! – um grotesco grito de horror escapou-se-me por entre os lábios enquanto me sentava na cama, hirto como uma estátua.

Hermione, já vestida e com os caracóis graciosamente caídos pelas costas, olhou para mim através do espelho sobre a cómoda. Estava com ar de poucos amigos quando o fez.

- Ron! – ralhou ela. – Toma tino!

- Desculpa, tive um sonho horrível! – apertei com força a cana do nariz até me lembrar de repente: - Quer dizer, foi um sonho, não foi? É que pareceu tão real…

Ela desviou o seu olhar do meu. Suspirou quando se debruçou sobre a cómoda para colocar os brincos.

- Não foi um sonho – murmurou enquanto tentava acertar com o furo da orelha.

Graças aos céus! Atirei-me para trás, francamente aliviado, agarrado à cabeça que ainda não parara de doer. Um prenúncio de mau dia, já sabia!

E depois as palavras de Hermione ecoaram na minha mente.

Esperem lá…

- O QUÊ? – e tornei a sentar-me.

- Pára de gritar, Ron, não sou surda!

Não lhe respondi porque senti uma nova pontada no meio da testa.

- Argh, Hermione, deste-me alguma coisa?

- Não, fiquei à espera de te ver cair fulminado por um ataque cardíaco! – ela lá se acertou com os brincos e virou-se por fim para mim. – Dei-te uma Poção Calmante. Se tivesses dormido mais um pouco e não acordasses aos gritos comigo, sentir-te-ias muito melhor.

- EU NÃO ACORDEI AOS GRITOS CONTIGO! – depois senti-me doente com o olhar assassino dela e caí em mim: – Pelo menos não tinha intenções de tal. Desculpa!

De braços cruzados e encostada contra a cómoda, Hermione olhava para mim com ar de quem é capaz de me comer vivo.

- O que é?

- Estou à espera que cresças. E que enfrentes isto de maneira positiva.

- Positiva? A minha filha vai para o estrangeiro durante uns meses e volta para casa para me comunicar que está noiva. Do Scorpius Malfoy! – a fúria voltou a despontar no meu peito ao pronunciar o nome maldito. – Do Scorpius Malfoy! Nunca gostei daquele fedelho emproado! Eu sabia que aquela amizade ia dar para o torto mas sempre pensei que a Rose não se deixasse iludir! Aquele hipócrita do Draco Malfoy devia ter sido obrigado a cumprir um voto de castidade, mas nããããão, ele tinha de procriar e prolongar o seu estúpido nome de família…

Hermione continuava com a mesma cara. Não tugiu nem mugiu.

- E tu, não dizes nada? – mas os nossos olhares cruzaram-se e de súbito pensei descobrir: - Tu já sabias?

- Claro que não, Ron, fiquei tão surpresa quanto tu ficaste!

- Sobre o casamento, talvez. Mas já sabias do que havia entre eles? Sabias que… sabias que ela estava a falar do Malfoy?

Ela soprou de frustração.

- Bem, se queres saber a minha opinião, penso que era bastante óbvio que a Rose sentia algo mais que amizade pelo Scorpius, era só uma questão de tempo até eles perceberem isso.

Oh, mas que bom! A minha mulher continua uma especialista a avaliar os sentimentos dos outros e eu é que me lixo por não ter nascido com a inteligência dela!

- E porque é que não partilhaste essa informação comigo?

- Porque pensei que até para ti era óbvio! – pff, muito gosta ela de fazer notar a minha burrice! – Mas tu estás tão cego pelos teus preconceitos ultrapassados que és incapaz de ver o quão feliz é a tua filha quando está com ele!

- Preconceitos ultrapassados? Ele é um Malfoy, Hermione! Já te esqueceste do que o pai e o avô dele nos fizeram?

- Já segui em frente. Ultrapassa-o, Ron, isso foi há mais de trinta anos!

- Pois, para ti é fácil falar…

- Para mim?

O que foi uma coisa bastante estúpida de se dizer, facto. Mas não deixava de ter o seu fundo de razão: mesmo que o nascimento Muggle dela pesasse mais que a minha traição ao sangue na opinião de canalhas como os Malfoy, era ela quem apregoava tretas sobre união e segundas oportunidades para com esse tipo de gente. E eu ainda lhes queria torcer os pescoços. Digam lá, portanto, se eu não tenho razão?

Para minha grande surpresa, a expressão de Hermione, que se assemelhava horrorosamente à de uma leoa prestes a cortar a garganta à sua inocente presa, adocicou-se e até um sorriso ternurento se esboçou nos seus lábios.

- Não sei porque é que estás assim – comentou ela com o mesmo tom de voz paciente que costumava usar para acalmar as birras dos miúdos. – A Rose está apaixonada pelo Scorpius, não pelo pai dele.

- Livra! – só a ideia dava vómitos.

- Se parasses para pensar e abrisses os olhos, ias perceber que o Draco Malfoy fez um óptimo trabalho com o filho. O Scorpius é um miúdo simpático e educado, em nada parecido com o pai que nós conhecemos. Toda a gente comentou isso na primeira vez que ele foi à Toca com o Albus, até o Harry admitiu estar errado acerca dele. E tu concordaste!

- Naquela altura não sabia que ele planeava seduzir a minha filha! – teimei eu, cruzando os braços. – Andou por aí a fingir-se de menino bonito e afinal era um safado! Gárgulas galopantes, eu… eu não permito que este casamento se concretize!

Hermione soprou de troça:

- E o que é que vais fazer? – gozou ela. – Amarrá-la à cama e proibi-la de casar?

- Se for preciso!

- Deixa de ser parvo, Ronald! A Rose é uma miúda inteligente, se tomou esta decisão é porque decidiu que era o melhor para ela e para a relação deles. E depois, já é maior de idade, pode fazer o que quiser da vida.

- Ainda assim, eu sou o pai dela, tenho uma palavra a dizer!

- Pois tens – Hermione continuava a rir na minha cara. Falava com aquele tom de voz venenoso que costumava usar quando éramos ambos adolescentes e me queria magoar a sério. – Mas uma coisa te garanto, ela não te vai ouvir!

- Não tem ela outro remédio – insurgi-me eu, desafiando-a.

- Ora, Ron, se eu tivesse dado ouvidos ao meu pai, a nossa história não teria terminado da maneira que terminou…

Apanhou-me com esta. Por momento até me esqueci da Rose, do Scorpius e do casamento anunciado.

- O que queres dizer com isso?

Eu e o meu sogro sempre tivemos uma óptima relação, desde o dia em que Hermione me levou com ela para conhecer os pais e me apresentar como namorado. Costumava tratá-lo por "sogrão" e ele chamava-me "pelintra" (*); depois de casarmos, e principalmente depois de os miúdos nascerem, passámos a ser simplesmente "William" e "Ronald".

Agora que pensava nisso, fora mais ou menos nessa altura que o seu aperto de mão se tornara mais suave e o seu sorriso mais aberto. Fora nessa altura que se tornara mais fácil respirar na sua presença, porque era ele quem começava espontaneamente as conversas e eu já não ficava à espera de encontrar as palavras certas.

Seria possível que a nossa relação não tivesse sido tão perfeita quanto eu pensava?

Seria possível que ele tivesse o hábito de se sentar na cama todas as manhãs e pôr-se a enumerar para a mulher as várias maneiras possíveis de me trucidar sem deixar vestígios?

Hermione soltou uma gargalhada. Espero que percebam que apesar de ser um prazer ouvir esta mulher rir connosco, é bastante desagradável quando ela se ri de nós.

- Oh Ron, não achas que o meu pai preferia ter por genro alguém que não lhe perguntasse como é que todas aquelas pessoas estranhas cabiam dentro da caixinha minúscula da televisão?

Ainda se ria quando se debruçou para me dar um beijo de despedida antes de sair para o trabalho. Eu mal lhe respondi, ainda aturdido com as novidades.

O meu sogro não gostava de mim!

Os passos de Hermione a descer as escadas já soavam distantes quando de súbito de ocorreu: será que ele alguma vez descobriu a maneira de cometer o homicídio perfeito? Acho que vou precisar de ideias…


Ter uma filha esperta e inteligente é óptimo na altura de receber os relatórios escolares, mas quando a queremos apanhar a jeito para uma conversa séria pode tornar-se numa grande dor de cabeça!

Nos dias que se seguiram ao anúncio bombástico, Rose fez de tudo para se me escapar por entre os dedos: estava sempre de saída para o Ministério quando eu descia para o pequeno-almoço e só regressava a casa quando eu já cabeceava de sono na poltrona da sala, exceptuando, claro, nas noites em que eu ficava até mais tarde no quartel-general, noites que ela aproveitava para se deitar mais cedo; não nos cruzámos uma única vez no Ministério, nem sequer do mísero do elevador; e, como se isso não bastasse, ainda aproveitou os tempos livres para visitar todos os familiares, o que, sendo uma Weasley, significa que não fez outra coisa senão saltar de casa em casa, onde lhe ofereciam sempre jantar e até dormida se fosse preciso.

A sua desculpa era que tinha imensas novidades para pôr em dia com os tios e os primos, mas eu sabia que ela só andava a tentar evitar-me. Até porque, de qualquer maneira, duvido muito que lhes tenha contado a novidade, uma vez que o George não me escreveu a dar os pêsames, o Harry não apareceu para me consolar no papel de melhor amigo desolado e não fiquei subitamente órfão de pai.

Enquanto isso, eu ia tentando controlar-me. Tentar é o verbo-chave. A verdade é que se ainda não enviei uma maldição por correio para casa dos Malfoy, a minha fúria tem de sair por algum lado ou termino a sete palmos de terra mais cedo do que desejaria. O Hugo já levou um raspanete por me cumprimentar com um "bom-dia, alegria!" demasiado entusiástico (o que o levou a fazer um pacto de silêncio à minha pessoa até Hermione me arrastar por uma orelha e obrigar-me a pedir-lhe desculpas) e acabei por passar uma noite no sofá porque a minha mulher se queixa que o meu orgulho gigantesco ocupa toda a cama.

Como se não bastasse, na manhã seguinte, quando ainda estava a tentar moldar a minha coluna vertebral naquilo que ela era antes do estúpido do sofá acabar com ela, a Hermione sai-se com esta:

- Amanhã o Scorpius vem cá jantar – e continuou a espalhar solenemente o doce de laranja na sua tosta, como se tivesse simplesmente anunciado que hoje estava a fazer sol.

Até as minhas dores de costas pareceram insignificantes.

- E o que é que esse – contive-me antes de dizer aquilo que realmente queria dizer. – rapaz cá vem fazer?

Ela encolheu os ombros, despreocupada, sem nunca olhar para mim:

- Suponho que não seja para anunciar o noivado e pedir a mão dela em casamento. Afinal, quem faz isso nos dias de hoje?

Bufei para a minha caneca de café com leite.

- Ele que tente! – resmunguei (muito) baixinho. Só quando ela pousou a colher e me encarou ameaçadoramente é que me lembrei da sua audição fora do comum.

- Olha lá, Ronald, aquilo que eu te disse sobre o meu pai não teve qualquer efeito em ti?

- Teve. Vou pensar seriamente se lhe dou ou não um presente neste Natal.

- Pois a intenção não era essa! – comentou ela rispidamente. – Era suposto fazer-te entender que mesmo que tivesses outro ideal de rapaz para genro, esta não é uma escolha a ser feita por ti, e também que nada te garante que não venhas a descobrir que estavas enganado quando achaste que a tua filha se estava a condenar à infelicidade!

Ele pensou isso de mim? Lindo…

Mas a diferença aqui é que o meu sogro, sem dúvida alguma, não me conhecia. E eu conheço muito bem a gente daquela laia.

- Por isso, se amas a tua filha tanto quanto dizes – continuava Hermione, sem reparar que eu estava com a cabeça noutros pensamentos. – vais apresentar-te amanhã no jantar com um sorriso e tratar o Scorpius como o membro da família que ele agora é!

E foi assim que eu hoje terminei à porta da minha casa preparado para receber Scorpius Malfoy como a um filho.

Ou assim tentar fazer.

Há várias coisas em Scorpius que me apoquentam. Por exemplo, o quanto ele se parece com o pai – o cabelo é do mesmo tom de amarelo claro, o rosto é pálido e pontiagudo, e até a maneira de vestir não me é exactamente estranha. Só os olhos diferem, de um castanho tão escuro quanto chocolate negro. Mas quando ele me aparece na soleira da porta, aquilo que me faz querer agarrá-lo pelos colarinhos é o seu descaramento em vir até à minha presença de mão dada com a minha filha.

- Pai, mãe, Hugo – diz Rose com um sorriso de orelha a orelha. – O meu noivo, Scorpius Malfoy!

- Olá, boa-noite!

Ele estende uma mão pálida e de dedos compridos que o Hugo se apressa em apertar. Hermione também se debruça sobre ele, cumprimentando-o com dois beijos na face ossuda e murmurando disparates sobre ser um prazer tê-lo aqui e estar muito feliz com as novidades.

E de repente Scorpius está à minha frente, ainda de mão estendida e com ar de quem implora por clemência após cometer uma grave e indesculpável infracção.

- Mr. Weasley…

Tive uma súbita visão de mim mesmo a pegar na varinha e a transformá-lo num sapo com cornos, fazendo-o voar por todo o quarteirão. Mas depois alguém me dá um encontrão e a imagem idílica desaparece. Scorpius continua especado à minha frente, sinto o olhar de Hermione a queimar-me as costas, e então sei que não tenho outro remédio senão responder-lhe.

Um aperto de mão frio, desprovido de emoção e um pouco mais violento do que seria necessário.

Depois disso, Hermione arrasta-o consigo até à sala de estar e toda a família vai atrás. A Rose passa sem sequer olhar para mim – bom, não sei que mais ela quer, ele está agora a ocupar o meu lugar habitual no sofá e ainda está a respirar, não está? Nem acredito que isto me está a acontecer, o filho do Malfoy em minha casa como convidado especial e ainda por cima toda a gente está a agir como se eu é que fosse o mau da fita!

Revirei os olhos, suspirei profundamente. Confesso que atirei com a porta e fingi que tinha sido uma corrente de ar. Mirei-me ao espelho do vestíbulo. «Tu és capaz, Ron! Isto é canja depois de tudo aquilo que já fizeste!»

Falar é fácil. Muito fácil.

Bem, lá vou eu e seja o que Merlin quiser. Cheio de coragem, cerrei os dentes e juntei-me a eles na sala.

- É um país lindíssimo, estou muito agradecido por esta oportunidade – comenta Scorpius no momento em que ocupo o cadeirão que Hugo deixara vazio para mim. – É claro que é muito importante fortalecer a nossa aliança diplomática com a França…

O discurso dele já se conseguiu tornar mais aborrecido do que os de Percy e ainda agora o comecei a ouvir!

- Ele pediu-me em casamento no dia em que fomos juntos a Paris, mesmo no topo da Torre Eiffel – diz Rose, completamente embevecida, quase a babar-se para cima dele. – Não é romântico?

Evito olhar para Hermione neste momento. Sei no que está ela a pensar: que foi ela quem me pediu em casamento a mim, numa tarde preguiçosa de Domingo quando andávamos a ver montras na Diagon-Al. Apesar de ter sido eu quem insistiu na questão durante cinco anos, ela ainda considera aquele "Sabes, talvez esteja na altura de nos casarmos!" como sendo o pedido oficial.

Nada romântico, portanto.

Nada como o perfeito Scorpius Malfoy.

Ele ri-se dengosamente para a minha filha e inclina-se como se a fosse beijar. Já estou prestes a levantar-me para lhe fazer a cara num bolo quando eles juntam apenas as testas numa turra amigável. Não houve beijo e sinto a minha fúria amansar, pelo menos até a mão dele roçar no joelho dela e eu repensar seriamente os meus instintos assassinos.

Posso fazê-lo esganar-se a si próprio.

Posso fazê-lo beber uma poção corrosiva.

Posso cortá-lo aos bocadinhos e enterrá-los no quintal dentro de uma caixa de fósforos.

Posso decepar-lhe as mãos, os lábios e o…

- Mr. Weasley?

Então reparo que estão todos a olhar para mim. Scorpius parece ligeiramente desconcertado, mas Hermione parece bem certa daquilo que me deseja fazer. E não me cheira que seja coisa boa!

- Está-se a sentir bem? – o pequeno hipócrita finge estar preocupado.

- Claro que estou!

- Ouviste alguma coisa do que o Scorpius estava a dizer? – rosna Hermione do seu canto. – Assim só por acaso?

- Claro que ouvi! – a minha expressão ofendida serviu de máscara para o facto de que tinha sido apanhado em flagrante. – Que… bom!

Hugo imediatamente transformou o riso num violento acesso de tosse. Rose, por outro lado, fuzilou-me com o olhar e escondeu o rosto nas mãos, não sei se incrédula se decepcionada.

- Er… pois…

Scorpius piscou os olhos, na certa tentando que o seu único neurónio assimilasse o que tinha acontecido, e ao fim de dez segundos continuou:

- Mr. Weasley, eu compreendo que isto seja um grande choque para si. Garanto-lhe que não pretendo desrespeitá-lo, a si ou à sua família, seja de que maneira for. Mas eu amo a sua filha. Vivi metade da minha vida com ela e agora sei que não quero que isso mude.

- As pessoas que não querem ficar sozinhas arranjam um animal de estimação, Mr. Malfoy, não casam com a primeira pessoa que lhes aparece à frente!

Definitivamente, não sei por que razão as mulheres desta família são tão desprovidas de sentido de humor! Olhem para o Hugo, ele achou imensa piada! Até o Scorpius, cujo cérebro funciona ainda a carvão, sorriu timidamente, como se não estivesse certo do que devia fazer.

- Não é uma questão de solidão, é a própria companhia – diz ele, numa tentativa desesperada de me tentar convencer. – Eu quero viver o resto da minha vida com a Rose e com mais ninguém.

- Ora, por favor, vocês pensam lá nisso com a vossa idade!

- Engraçado – interrompeu então Rose, com um tom de voz que eu nunca antes lhe ouvira. – Não eras tu que costumavas dizer que aos catorze anos já sabias que a mãe era a mulher da tua vida?

- Pois, mas eu e a mãe fomos feitos um para o outro e o mesmo não pode ser dito de vocês os dois!

- Mr. Weasley… – Scorpius continuava a insistir, sem qualquer sorte.

- O que pensam os teus pais de toda esta história?

Ora aí está, o busílis da questão! Que fique bem assente que se o pai ou o avozinho jarreta dele tentarem alguma coisa contra a minha filha vão ter de se haver comigo! A família Malfoy vai-se tornar numa família extinta!

Scorpius esboçou um esgar de troça.

- Eu diria que o meu pai gostou tanto da ideia quanto o senhor! – ironizou ele.

- Pois que fique bem claro, meu menino: se algum dos teus tocar num cabelo que seja da Rose, eu não respondo por mim!

- Pai!

Mas as palavras dela foram interrompidas pelo próprio Scorpius, que levantou a mão para pedir a palavra:

- Mr. Weasley, eu sei que as nossas famílias não se deram muito bem no passado – isso é uma maneira bonita de colocar as coisas, os antepassados dele divertiam-se a espezinhar os meus desde o início dos tempos! – Mas estes são tempos de mudança! Nenhum dos meus se vai levantar contra a Rose, tal como espero que nenhum dos seus se levante contra mim. Eu não sou o meu pai, nem o meu avô. Sou o Scorpius, apenas o Scorpius, e penso que já demonstrei a todos que podem confiar em mim!

Já perdi a conta a quantas vezes ouvi esta mesma conversa, mas, ainda assim, há qualquer coisa que estimula o meu cepticismo. Um Malfoy não é de confiança, ponto!

No outro cadeirão, Hermione exibe um sorriso compreensivo. Ela não pensa assim, claro. Ela aderiu ao velho lema do Dumbledore, que dava segundas oportunidades às pessoas e acreditava piamente na sua redenção. Foi por isso que deu um emprego ao Draco quando ninguém o contratava à custa do seu passado. E é por isso que está disposta a aceitar de mão beijada o Scorpius como genro.

Mulheres… comovem-se com facilidade… (é o que continuo a dizer!)

- Eu amo a Rose, Mr. Weasley, e quero passar o resto da minha vida com ela! – repete ele, apertando a mão dela no seu colo. – E nada me daria mais prazer do que subir ao altar com a sua bênção!

As duas metades do meu cérebro travam uma luta de morte para encontrar a resposta. Não quero que este casamento aconteça. Não quero que a minha filha seja a próxima senhora Malfoy. Não quero partilhar netos com o Draco. Não quero, de maneira alguma, misturar-me com esta gente.

Acima de tudo, não quero deixar a minha menina voar. Não acredito que isto vá alguma vez resultar, e eu só quero que ela seja feliz.

Mas dizer "não" implica mais coragem do que parece. Arrisco-me a perder de vez a minha filha, que olha para mim com uma expressão desprovida de amor e admiração. Arrisco-me, talvez, a perder a minha mulher, que já demarcou a sua opinião relativamente a esta questão.

A vida ensinou-me a ser corajoso, mas talvez a verdadeira coragem aqui não seja insurgir-me contra elas. Talvez seja esquecer a minha vontade e deixar Rose aprender com os seus próprios erros.

- Eu não… – suspirei. – Eu não vos vou proibir de casar!

Afinal, estarei sempre aqui para a amparar quando as coisas com o Scorpius derem para o torto. Nessa altura, vou até coibir-me do típico "Eu bem te disse que…" e simplesmente acolhê-la de volta.

Afinal, sou ou não sou o melhor pai do mundo?

Continua…


(*): para quem não está familiarizado com a palavra, "pelintra" significa "malandro, pobretanas, reles" – resumindo, não é, definitivamente, um elogio, mas duvido que o Ron percebesse alguma coisa de calão Muggle! XD

No próximo capítulo:

«Uma parte do meu cérebro diz-me que já não conheço esta mulher vestida de noiva que tenho à minha frente, mas o meu coração relembra a outra que ela ainda é a mesma bebé a quem cantei sorrateiramente durante a noite para a adormecer e a mesma menina que levei pela mão até à sua primeira viagem no Expresso de Hogwarts…»