Segundo Lugar
Severus Snape não era um homem com grandes afinidades a respeito de jovens amores. Os sorrisos e os olhares lhe deixavam se sentindo mal, cheio de um despeito que parecia que iria tomar conta de si todo. Mas, por algum motivo, conforme ele via Draco Malfoy ignorar Pansy Parkinson, enquanto a garota olhava para ele como se o sol nascesse e se pusesse onde ele estava, o fazia perceber o quão patético deveria ter parecido para os outros ao longo de sua adolescência.
Verdade fosse dita, até Lily lhe dava mais espaço do que a brusquidão com que Draco tratava a menina, seus olhares de desprezo e sua mera tolerância conveniente a seus carinhos. Ela parecia se encolher conforme ele era cada vez mais distante, mais frio, mais isolado. Ela nada sabia da missão impossível que lhe fora imposta, era ainda muito jovem e inocente, acreditando nos ideais que lhe foram ensinados, sem questioná-los. Ela ainda não sabia nada sobre a verdade da guerra, a brutalidade da morte, a dor da perda. Sua vida era simples e adolescente, enquanto a de Draco não era mais.
Aquela guerra, na qual tanto era perdido, que acabara com seu amor, acabaria com o dela também. E Snape apostava que ela ficaria completamente perdida, tomando decisões erradas, esperando agradar, esperando desafiar, qualquer coisa que chamasse atenção dele para si. Sabia exatamente o que ela faria, pois ele tinha cometido os mesmos erros.
Pansy Parkinson, claro, era uma menina excepcionalmente tola, excepcionalmente óbvia. Ela levava o coração em suas mangas, para o mundo inteiro ver, e não tinha o que era preciso para se defender dos demais. Só sabia atacar, de forma tola e maldosa, para resolver suas próprias dores íntimas.
Não viu, mas soube, que a garota tinha sido tola o suficiente para declarar-se a favor de entregarem Potter no começo da Batalha de Hogwarts. Não o surpreendeu: ela era realmente simples assim. O que o chocou foi vê-la chegar em Hogsmeade amparada pelos braços firmes de Blaise Zabini.
Nunca pensara muito em Blaise – era um rapaz reservado e que não se colocava demais. Sabia guardar seus pensamentos, sabia usar uma capa de indiferença, e no geral era um aluno do qual todos poderiam se orgulhar. Era a primeira vez que ele via de fato o rapaz demonstrar qualquer afeto por outra pessoa. Sorriu, internamente, sabendo que todos têm um ponto fraco.
Nos momentos vazios, nos quais nada tinha para fazer antes que a luta começar, a cena aparecia em sua mente, conforme ele, fiel a sua promessa, garantia que todos aqueles alunos estavam em segurança. Ela também não percebia a excepcionalidade dos cuidados de Blaise: para ela tudo que importava era o abandono que Draco lhe inflingira e, pensando nisso sempre, jamais notaria na suavidade dos dedos em torno de seus braços, apoiando e dando a força da qual ela precisava sem saber onde achar, pois só sabia procurá-la em um lugar.
Só esperava que isso pudesse ser o suficiente para o menino: o segundo lugar, como o dele fora.
