Naquele começo da manhã, onde Shampoo se ausentara logo cedo como fizera todos os dias para ver o seu "suposto" noivo prometido, algo estava diferente naquele restaurante. Fazia um silêncio total. Cologne estranhou o fato do Mousse não estar varrendo o chão e limpando as mesas. Ele apareceu de malas prontas. O motivo era simples. Regressar para China e estadiar na sua casinha onde mataria saudade com sua mãe, embora o motivo principal fosse outro.

Mousse passeou seu olhar pelos arredores tão familiar e cheio de lembranças, muitas eram ruins e poucas eram boas de fato. Um rápido flashback invadiu seus pensamentos, deixando-o nostálgico e sentimental.

Shampoo. O único motivo pelo qual prendera Mousse no Cat Café por tanto tempo. Mesmo com pouco reconhecimento no seu trabalho duro e cansativo, aguentara todas as broncas da Cologne devido ao amor cego que sentia pela garota de cabelos roxos mais belos da face da Terra.

- Onde você pensa que vai? – Cologne indagou, acomodada sobre sua bengala de estimação.

- Eu irei embora daqui definitivamente – Mousse afirmou, convicto – e ninguém vai me segurar, nem você sua velha ingrata.

- Eu sei que você voltará depois de três dias como da outra vez* – disse bastante segura de si, seguindo para trás do balco – Desfaça logo essas malas e vá limpar as mesas.

- Até nunca mais – essas foram as últimas palavras de Mousse antes de partir.

Mousse mal sabia que aquele definitivamente seria o seu último diálogo trocado com sua velha anciã. Lágrimas insistiam em escorrer do seu rosto. Sentiria saudades de tudo e de todos, especialmente da sua amada, embora ela nunca tivesse lhe dado atenção.

Virou-se para trás uma única vez na esperança da Cologne lhe impedir, no entanto, uma alma viva sequer existia na entrada do restaurante. Um aperto no peito obrigou Mousse colocar a mão na região do tórax. Fez algumas massagens e logo a dor cessou como se aquilo fosse um aviso. "Nada irá me impedir dessa vez..." Pensava ele, decidido.

Com uma pontada de tristeza no coração, Mousse desapareceu na imensa rua deserta e vazia. Retornaria somente quando estiver mais forte e pronto para desafiar Ranma e conquistar seu amor de infância.

A culpa do afastamento de Mousse não seria da Shampoo e muito menos da Cologne. Quem mandou o ingênuo apaixonar-se justamente por uma das mulheres mais belas e fortes do clãdasAmazonas? Talvez fosse mais fácil esquecê-la de vez...

O sol já havia despontado no horizonte e o jovem de trança e Akane estavam atrasados para a aula. Ranma não tinha tomado café da manhã e enfiou uma fatia de pão na boca, correndo atrás da karateca. Apesar do casamento arranjado pelos pais na tentativa de unir os dois oficialmente, nada havia mudado entre eles a não ser o fato do Saotome ter declarado seus sentimentos amorosos a sua noiva mesmo sem querer.

O casal estava correndo em direção a escola Furinkan quando uma certa garota inconveniente surgiu em frente a eles com sua bicicleta. Shampoo saltou das duas rodas e abraçou intensamente o Ranma que esperou apanhar da Akane, essa nada fez e simplesmente deu as costas para ele.

- Não adianta Shampoo – Akane disse vitoriosa – ele já se declarou para mim com todas as palavras e você está perdendo o seu tempo.

- O que – Ranma fingiu não entender – o que você está dizendo?

- Isso – Shampoo agarrou ainda mais forte o corpo do garoto de tranças, sendo possível ouvir os estalos dos ossos e indagou furiosa – isso é verdade?

Akane fitou atentamente os olhos negros do seu noivo. Esse sentiu seu rosto enrubecer violentamente e desviou seu olhar da karateca e não sabia como reagir áquela situação embaraçosa, não depois da sua declaração desastrosa naquelas thermas das águas quentes**.

Shampoo entendeu a mensagem e estapeou a face direita do Saotome, tomando o caminho de volta para o restaurante. Ranma ignorou a chinesa e colocou uma das mãos na região um pouco acima da cintura de sua noiva, a deixando levemente corada. O relacionamento entre eles finalmente estava começando a engatar...

Ao retornar no Cat Café, Shampoo estranhou encontrar sua bisavó sozinha, correndo para todos os lados e fazendo várias tarefas ao mesmo tempo. Caminhou pelos arredores à procura do seu amigo de infância, porém não o achou em lugar algum.

- Cadê o idiota do Mousse? – Shampoo indagou, irritada.

- Até que enfim você chegou – Cologne ignorou a pergunta da sua neta e disse – me ajude aqui querida porque os clientes estarão chegando daqui a pouco e as mesas ainda estão cheias de pó.

- Eu não acredito que vou ter que fazer tudo isso sozinha – bufou, baixinho – aquele desgraçado me paga...

- E vai se acostumando que ele não voltará assim tão cedo – comentou, indo para trás do balcão preparar o macarrão.

- Como assim? – indagou, torcendo o pano encharcado.

- Ele viajou para a sua terra natal – disse para acalmar os olhinhos surpresos da sua neta – mas fique tranquila que não vai durar três dias e logo estará de volta.

- E quem disse que eu me importo com aquele fracassado? – respirou fundo e desabafou - Aquele inútil poderia nunca mais voltar, assim podemos contratar alguém melhor...

- Pare de reclamar que logo logo ele estará de volta e você ficará livre para visitar seu futuro noivo – falou, jogando as massas na enorme panela de água.

- E se ele ficar de vez com a Akane? – questionou, insegura.

- Nesse caso basta você continuar insistindo até o seu futuro noivo desistir da outra – disse – a não ser que seu interesse por ele seja uma mentira...

- Mas eu nunca tive dúvidas do meu amor pelo Ranma – respondeu, inquieta – Eu irei agora mesmo raptar ele daquela... – antes que ela pudesse sair dali em disparada rumo a casa dos Tendo, Cologne a impediu, batendo de leve na cabeça da Shampoo com sua bengala.

- Não antes de me ajudar a tirar o pó do chão e das mesas – disse.

- Aquele maldito pato me paga... – murmurou sozinha.

O ódio da chinesa pelo seu amigo de infância cresceria nos dias seguintes, não mais que a preocupação da sua ausência que experimentaria durante as próximas semanas...

Um mês se passara. Mousse não voltara após três dias como previa a anciã e nem dera notícias a ninguém. Cologne estava realmente ficando preocupada com o desaparecimento do seu mais fiel empregado e quem sabe futuro noivo da neta, caso ele vencesse Shampoo numa batalha como diziam as regras do clã.

O clima do Cat Café também mudara bastante. Shampoo insistia para sua bisavó colocar alguém como sua ajudante temporária, independente do sexo, mas teimosa como era, Cologne ainda tinha esperanças do Mousse voltar para o restaurante.

Agora, a chinesa vivia cansada, sem tempo para ver seu futuro noivo, isso é, se ainda podia chamá-lo dessa forma, pois tinha pego Ranma em flagrante com a Akane entre carícias e beijos. Sua ausência apenas havia servido para os pombinhos aprofundarem ainda mais a relação entre eles, assim comprovando o quanto Saotome era desinteressado por outra garota.

Shampoo tentara evitar o máximo em pensar no seu amigo de infância para não quebrar os principais mandamentos do seu clã: ser eternamente devota aquele que a derrotara; pensar jamais em outro homem.

- Eu não aguento mais... – a chinesa murmurou sozinha, limpando a milésima mesa.

- Oras, foi você quem falou que não queria que ele voltasse para cá nunca mais – Cologne indagou.

- Eu estou querendo dizer do trabalho que ele deixou para mim – resmungou, sentando-se um pouco na mesa que acabara de limpar – a senhora deveria contratar outra pessoa...

- Fique calma... – pensou – "mas como essa minha neta é teimosa, se soubesse o quanto Mousse cresceu dentro dela durante todo esse tempo que conviveram juntos."

- Eu vou limpar a bagunça dos fundos – Shampoo levantou-se da cadeira e desapareceu no depósito onde ficava guardado os tesouros sagrados da Cologne.

Ao notar o estado daquele pequeno armazém, Shampoo suspirou fundo e começou agitar o pó com seu espanador, tossindo duas a três vezes. Quando a poeira baixou, subitamente lembranças do Mousse vasculhando a bugiganga veio na sua mente.

- Maldição... – reclamou, passando sua mão nos seus olhos – tudo culpa sua...

Mousse acabara de chegar na sua casinha localizada em uma pequena vila sem nome. Logo na entrada, uma senhora esboçou um lindo sorriso entre os lábios e o recebeu com amor e carinho. Quanto tempo será que ele ficou sem visitar sua mãe? Tanto tempo fazia que ele nem conseguia lembrar.

- Como você cresceu... – ela disse, com uma voz suave.

- Também não precisa exagerar – ele sorriu, sem jeito.

- Quando eu recebi sua carta fiquei tão contente que acabei comprando bastante coisa para preparar seu banquete – sorriu, mostrando sacolas e mais sacolas abarrotadas de verduras e legumes.

- Nossa por kami – assentiu a cabeça em sinal negativo e comentou – a senhora não precisava fazer tanta cerimônia por minha causa...

- Venha querido – ignorou as falas e levou Mousse para seu quarto.

O quarto não era tão grande, mas a dona de casa fazia questão de dar conforto ao seu amado filho único. Havia somente uma simples cama e um grande armário vazio, cabendo perfeitamente uma pessoa e suas bagagens. Aquilo era tudo que Mousse necessitava: um canto para dormir e guardar seus pertences.

Esqueceria por algum tempo as maravilhas que tivera, os restos de comidas saborosas preparadas pela Cologne; contemplar sua amada sair do banho com aquele cheirinho gostoso de sabonete todas as noites após o expediente antes dela visitar Ranma. Naquele instante, Mousse queria focar completamente no seu treino.

- Gostou filho? – sua mãe indagou, ansiosa.

- Claro – Mousse disse, despertando para a realidade – claro que sim.

- E você pretende ficar aqui por quanto tempo? – indagou.

- O tempo necessário para destruir aquele desgraçado que roubou minha amada... – respondeu, com brilho mortal nos olhos.

- Eu ainda vou te convencer a desistir dessa moça que está desperdiçando sua juventude... – comentou, preocupada.

- Impossível – confessou – eu a amo demais e sei que um dia ela vai olhar para mim, mas para isso eu preciso treinar duro e vencer Ranma Saotome.

- E esse foi o seu verdadeiro motivo de estar aqui – falou, desanimada – ou seja você mentiu para mim naquela carta quando escreveu que sentia saudades de mim...

- Desculpe mãe... – disse, abaixando a cabeça – eu menti para a senhora sim...

- Eu não quero intrometer na sua vida, mas – após uma longa pausa, indagou – não é mais fácil você ganhar dessa mulher que do rapaz? – completou – Você mencionou nas outras cartas que ele está junto com outra moça.

- Mas aquele indecente dá em cima da minha Shampoo mesmo prometido da outra – ficou de pé e retirou os óculos fundo de garrafa e a indumentária branca com raiva, ficando somente de calça.

- Veja só para você filho – insistiu – um rapaz tão belo e cheio de saúde perdendo tempo com uma... – Mousse não permitiu que ela terminasse a fala.

- Alto lá como você vai falar dela – disse, irritado - eu vou continuar sendo louco por ela queira a senhora ou não.

- Eu não vou insistir mais – mudou rapidamente de assunto para evitar uma briga feia com o recém-chegado – bom, você deve estar cansado da viagem – sugeriu – eu acho melhor descansar por hoje.

- Eu não posso perder meu tempo – ele pendurou a indumentária num ombro e disse – quanto antes começar o treinamento irei aproximar mais de realizar o sonho de me casar com minha Shampoo...

- Você é um louco filho... – disse.

- Eu sou sim – respondeu com todas as forças – louco por ela.

- Depois eu te levo o almoço, portanto – continuou – não se distancie demais da casa...

Mousse respirou o ar puro e avistou o matagal infinito a sua disposição, passeando seu olhar para as numerosas árvores que formavam um teto. Aquela paisagem seria sua segunda casa por tempo indeterminado.

Treinaria todos os dias até esgotar as suas energias vitais e se tornaria o homem mais forte e poderoso do mundo caso fosse necessário para conquistar sua amazona irritante com coração de gelo. Enfrentaria todos os tsunamis que tentarem cruzar seu caminho e derreteria o iceberg...

Encostou a indumentária com todas as armas escondidas numa árvore. O primeiro passo era fortalecer unicamente os braços e as pernas para ficarem tão duras como o aço. Um treino árduo e diferente de todas as outras, afinal de contas Mousse estava habituado com a mordomia de usar ferramentas contra seus adversários e havia desacostumado os músculos do corpo.

No instante seguinte, percorreu por entre as árvores e desferiu golpes quase invisíveis aos olhos de um ser humano comum, tamanha era a velocidade dos socos e chutes. Estava tão focado no treino que não tinha visto sua mãe aproximar-se da zona de perigo.

Com um pouco de demora, percebeu uma senhora acenando em sua direção com uma marmita na mão. De repente, aquelas árvores atingidas começaram a desmoronar sobre ela.

- Cuidado! – gritou desesperado.

Com movimentos rápidos, avançou apressadamente sobre o corpo frágil de sua mãe, virando seu escudo. A cena foi tão rápida, tensa e forte que ela mal tivera tempo de piscar os olhos. A natureza enfurecida havia desabado sobre as costas do Mousse.

- Filho? – berrou, ainda abraçada sob o desfalecido – Alguém nos ajude!

Uma paisagem passava repetidamente na mente do inconsciente: árvores imensas caindo sobre ele. Esse despertou do pesadelo num susto. Suado, ofegante e deitado em uma cama desconhecida, o jovem parecia perdido naquele aposento.

Nesse instante uma senhora de idade adentrou-se acompanhado por um possível médico daquela região, trazendo consigo um prato de sopa. Ela ofereceu o banquinho para o homem se sentar e colocando a tigela próximo a cabeceira da cama, fez o mesmo.

- Que bom que você acordou filho – disse, aliviada – tivemos muita sorte de sermos salvos por um jovem que coincidentemente caminhava perto de nós...

- O que aconteceu comigo? – Mousse indagou, confuso.

- Ah filho como não se lembra – explicou, emocionada – você salvou a minha vida...

- Ele ainda deve estar atordoado com o que aconteceu – o médico falou.

- Eu – o jovem tocou a atadura da cabeça e indagou, com uma voz fraca e trêmula – quem eu sou?