... Olá de novo, hehe. Agora notei como o primeiro capítulo ficou enorme. o.O Acredito que este aqui não seja menor, mas é mais emocionante, rss. E onde estão minhas reviews? O.O Só recebi duas... Ficou tão grande que mais ninguém quis ler?? Respondam-me! O-O Enfim, vamos lá... Enjoy it e me mandem reviews! - olhinhos brilhantes e aquosos -

Disclaimer: Nem Harry Potter nem nenhum outro personagem me pertence. São todos da J.K. Rowling, que enriqueceu e fez a vida com eles. Estou apenas brincando um pouquinho.


Capítulo 2: Certeza e Insegurança

Inteligência e livros. Eu nunca fui arrogante o bastante para achar que era só isso que importava, mas não conseguia compreender certas pessoas que desdenhavam da quantidade de sabedoria que os livros contêm. Meu pai me dizia que viver é a maior fonte de sabedoria que existe; e eu tenho que admitir que um dia, duvidei disso. Tola fui eu, que não percebi quantas coisas existiam e que jamais poderiam ser escritas ou publicadas - tantas coisas que mesmo que eu fosse fazer uma lista delas, não haveria papel suficiente no mundo.

Essa foi a primeira e provavelmente a mais dolorosa vez em que fui obrigada a admitir que eu estava errada. Pois bem, eu estava; mas ninguém pode me julgar por isso. Errei e acertei muitas vezes, como qualquer um... E continuo fazendo isso. Errar também é acertar, às vezes. Não sei qual o critério que faz as duas coisas estarem tão próximas: a sorte, a sensatez, a coragem ou o acaso, ou se não existe critério algum.

Ainda é um pouco assustador para mim admitir isso, mas eu não li sobre essas coisas em lugar nenhum. Eu as vivi. E foi vivendo também que percebi o quanto meu pai tinha razão, pois quando mais eu acreditei que estava certa, eu estava enganada; quando mais eu quis acertar, eu cometi erros. Quando eu achei que tinha errado, os resultados foram positivos. E quando eu desejei odiar como nunca, eu amei mais do que já havia amado na minha vida.

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O verão havia passado sem muitas novidades para Pansy. Havia encontrado uma das muitas casas abandonadas por famílias com medo da guerra e vivia com algum conforto - o maior que uma Comensal traidora podia conseguir. Mesmo que não soubesse muito, colocara todos os feitiços de proteção e antilocalização que conhecia na casa, a fim de evitar que fosse encontrada por qualquer um.

Era fácil ter o que precisava, já que dispunha de magia, e ela não mantinha contato com ninguém - se informava através dos jornais e se escondia atrás de um rosto transfigurado. Todavia, o ócio estava começando a deixá-la maluca; sem nada para fazer, Pansy mergulhava nos próprios pensamentos e divagava sobre o que o futuro lhe reservava.

No meio do outono, seu rosto estava estampado nos jornais bruxos e trouxas, junto com o de alguns outros, numa lista de possíveis criminosos perigosos procurados pelo Ministério, mas ela não se abalou. Não faria muita diferença ir para Azkaban, ela vivia atormentada sem precisar de Dementadores - e, de qualquer forma, eles já não guardavam a prisão.

Toda a Londres ostentava um ar deprimente, pois eles vagavam pelas ruas à solta. O Ministério perdera totalmente o controle sobre eles, mas Voldemort também não tinha a oferecer o suficiente para conquistá-los definitivamente. Os prisioneiros do Lord das Trevas não eram nada comparados ao prato cheio que era uma Londres abalada por uma guerra estranha, cheia de trouxas indefesos e com o clima péssimo de proximidade do inverno.

A casa em que Pansy agora morava parecia ser a de uma família mestiça, pois continha elementos trouxas, mas também alguns objetos bruxos. Uma coisa, que ela descobrira se chamar televisão, servia de distração em alguns momentos – apesar de inicialmente o mundo trouxa lhe parecer estúpido demais para ter importância. Mas a falta de atividade levou a loira a prestar mais atenção no que acontecia, e os telejornais também eram uma forma de se manter informada.

Para uma bruxa, era óbvio que o misterioso deslizamento de terra que causara várias mortes era obra de Lord Voldemort, embora os trouxas nem sonhassem com a sua existência. Ver a guerra por outro ponto de vista fez Pansy refletir sobre o que todas aquelas pessoas deviam estar passando: fenômenos inexplicáveis, mortes misteriosas, uma batalha contra um inimigo sem rosto. Sequer sabiam ser o alvo do ódio de um grupo crescente, e não tinham nenhuma condição de se defender.

Assim como ela tinha feito, se preocupavam com seus pais, seus filhos e irmãos e desejavam o fim da guerra – mas, indefesos, dependiam de outras pessoas para lutar por seu lado. Dependiam de gente como Hermione.

Pansy soube também pelo jornal que a outra estava bem, e uma pontada de satisfação passou pelo seu coração. Era ótimo o fato de Hermione ter sobrevivido, principalmente porque, com certeza, ela se lembrava que fora Pansy quem a salvara, e a loira sabia que possivelmente iria precisar da ajuda de alguém do outro lado. E alguma coisa lhe dizia que essa necessidade viria em breve.

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Hermione bocejou, o cotovelo apoiado na mesa, e espirrou logo em seguida. Era tanta poeira; incrível como ela conseguia se infiltrar entre as páginas dos livros. Espirrou novamente e fechou o livro, irritada. Andava se irritando fácil, ultimamente, nos últimos... Quatro ou cinco meses, mais especificadamente. Era não só irritante, mas também ultrajante o fato de que quase todos da Ordem estavam lutando de verdade, fazendo o que chamavam de "trabalho de campo", enquanto ela estava lá, sendo praticamente inútil.

Mas a voz da razão - vulga Minerva McGonnagal - a designou para fazer o "trabalho de pesquisa", deixando-a para escanteio. Bom, sejamos justos, ela pensou, chateada, não sou só eu. Charlie e Arthur, assim como Luna Lovegood, também estavam ajudando a fazer todo o tipo de trabalho de pesquisa para a Ordem da Fênix.

Arthur especulava informações no Ministério, Charlie fazia pesquisas práticas e às vezes também ia a campo; Luna havia herdado o talento da mãe e era muito útil para fazer e desfazer feitiços para a Ordem, e Hermione cuidava de pesquisas sobre maldições, objetos enfeitiçados e, claro, a procura pelas Horcruxes.

Logo quando voltara para a sede da Ordem, ainda no verão, Harry e Ron se recusavam a contar qualquer coisa para ela por remorso e medo de colocá-la em perigo novamente. Mas sua perspicácia, ao lado de alguns ataques de raiva, convenceu os garotos a informá-la sobre os assuntos.

Não tinha sido nenhuma surpresa saber que eles haviam ido atrás dos Malfoys por suspeitarem que uma Horcrux pudesse estar com eles. A surpresa maior foi descobrir que nenhum deles, nem mesmo Lucius, sabia que tinha um objeto tão precioso em mãos, por que ele havia sido herdado pela família Black. Era uma tiara de casamento, proveniente de Rowena Ravenclaw, que de alguma forma fora parar nas mãos de Voldermort e depois nas de Narcissa.

Eles especulavam que o pai dela teria entregado a tiara ao Lord das Trevas, crente de que a devoção de sua família pela causa sangue-puro era a maior garantia de que a tiara permaneceria segura. Não estava de todo errado; Narcissa consumara um casamento com um bruxo de sangue puro, mas ele jamais poderia prever os rumos que a vida de sua filha iria tomar.

Harry e Ron enfrentaram muitos problemas para achar e depois se aproximar dos Malfoys, que não queriam ouvir coisa nenhuma. Por fim, Harry falou diretamente para Narcissa depois de a encurralar com Ron que queria a tiara de casamento que ela herdara. Claro que a loira achou aquilo ridículo, mas, além de não estar numa posição muito vantajosa, ela não sabia o que a tiara tinha de tão especial. Em troca do objeto, obrigou-os a fazer um Voto Perpétuo de que nunca iriam revelar onde os encontraram e nem voltar a procurá-los. Os Malfoys sumiram novamente pelas estradas do interior da Inglaterra enquanto Harry e Ron retornaram à sede da Ordem, contando uma Horcrux a menos.

Desde então, Hermione havia sido incumbida de buscar fatos históricos que pudessem se relacionar com as Horcruxes, enquanto seus dois amigos partiam em buscas, até então, infrutíferas. Mas ela não conseguia deixar de se sentir inútil, sempre enfiada com a cara em um livro, sempre protegida dentro da Casa dos Black. Graças a Deus havia arrumado um método de calar a maldita boca do quadro da mãe de Sirius, senão já teria enlouquecido ali dentro.

Para completar, outra busca sua havia sido mal sucedida: Pansy Parkinson. Curiosa com o paradeiro da loira, a procurara com feitiços mas não a encontrara. Talvez já estivesse morta; era bem provável, pela traição que cometera tirando Hermione de seu cativeiro, Pansy com certeza tinha sua cabeça a prêmio entre os Comensais da Morte. Todavia, o que mais intrigava a morena era o porquê de Pansy ter feito aquilo, uma vez que, naquela época, a coisa estava pendendo para o lado de Voldermort.

Pansy não tinha tantos motivos assim para temer a derrota, e de qualquer forma, ela estaria segura à sombra do Lord - ou pelo menos era o que Hermione imaginava antes de o desaparecimento dos pais da Comensal vir à tona. O "banho de sangue" , como fora divulgado pelas revistas sensacionalistas, não dava margem para muita especulação: ou os Parkinsons fugiram como os Malfoys, ou estavam mortos. Hermione acreditava bem mais na segunda hipótese.

Quase no inverno, ela já desistira de procurar Pansy, pensando que talvez devesse se sentir aliviada se a outra tivesse morrido - pelo menos não teria uma dívida bruxa com ela. Mas ela simplesmente não conseguia pensar assim; sentia-se chateada e penalizada com essa possibilidade. Não que não fosse uma pessoa empática, mas certamente o cativeiro havia mexido muito com sua cabeça. Porque às vezes, Hermione sonhava com toda a dor que passara ali, com as mãos frias de Pansy segurando sua cabeça e com sua voz lhe dizendo que ela não podia morrer.

No entanto, tudo parecia parado. O vento uivando, as lágrimas nos velórios, os bebês nascendo inocentes. Era uma pena que passasse tão pouco tempo com Ron; gostava muito da sua companhia, quando não brigavam, pelo menos. Às vezes, se perguntava porquê não sentia aquela saudade louca que era tão famosa - sentia uma preocupação alucinante, tanto por Ron quanto por Harry, mas nada especialmente dirigido a seu namorado.

Gostava quando estava com ele, gostava de sentir seus braços quentes ao seu redor, mas aquilo não se parecia muito com o que ela sempre ouvira falar como paixão. Bem, talvez ela estivesse errada... Às vezes, Ron lhe beijava e lhe pedia perdão copiosamente, e seu coração parecia que ia quebrar de ver aquela cena. Por mais que repetisse que seu seqüestro não tinha sido culpa dele, o comportamento se repetia. Hermione até farejara algo estranho ali, mas não passava tempo o suficiente com Ron para desvendar o que quer que fosse.

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Ela não precisava ver; ela sentia, e era o suficiente. Pansy sentia que havia alguém lhe seguindo na rua, nas puçás vezes que ia tomar ar ou comprar jornal, alguém lhe espiando quando entrava em casa. Era uma constante sensação de que estava sendo vigiada, estava correndo perigo - e ela já sabia que devia prestar atenção naquilo. Deixara de ser uma garota quando seus pais morreram; havia se tornado uma mulher, que estava por sua própria conta e risco, e tinha de saber cuidar de si mesma. Estava sozinha.

Já era inverno, os dias prateados desfilando pela sua janela, quando Pansy saiu para comprar uma coruja castanha. Só pela obrigação de colocar um nome, resolveu chamá-la de Iris, e voltou para casa com a mesma insistente sensação de estar sendo observada.

Do quarto onde Iris, solta, comia um pouco de ração ruidosamente, Pansy ouviu algo parecido com uma explosão. Ela sacou sua varinha e, a segurando com força, foi até o corredor, de onde podia ver o primeiro piso em silêncio. Parecia poder ouvir sua respiração ecoar pela casa, quando viu um vulto com uma capa preta passar alheio ao segundo piso.

Ela tentou um Estupore silencioso de onde estava, em vão; a luz apenas deixou o vulto descobrir onde ela estava. Era um homem, que vinha subindo a escada correndo, passos pesados, pulando dois em dois degraus. Pansy correu para dentro do quarto e o trancou, reforçando os feitiços de proteção na porta, sentindo o coração bater muito rápido conforme o homem bradava todo tipo de feitiço, irritado.

A loira procurou pela caixa de jóias de sua mãe, e a esvaziou dentro do bolso interno do casaco. Mas antes que pudesse aparatar, sua porta explodiu e Mulciber fez sua varinha voar diretamente para sua mão. Os olhos castanhos do homem a encaravam com um brilho insano porém cansado, e Pansy trincou os dentes, ainda segurando a caixa de metal na mão. Talvez aquela fosse a hora... Mas se era, ela descobriu que não tinha o menor desejo de morrer.

- Você tem contas a aceitar com o Mestre, criança. - O Comensal rosnou, a varinha apontada para ela. Sem pensar, Pansy arremessou a caixa contra ele, que não conseguiu pará-la a tempo; o objeto o acertou em cheio na cabeça, e ela aproveitou a chance e passou correndo por ele, arrancando as duas varinhas.

Ela disparou pelo corredor, Mulciber ainda mais irado em seu encalço. Torceu um tornozelo enquanto descia a escada aos tropeços e seu cérebro atordoado ainda teve tempo de se arrepender de ter colocado feitiços antiaparatação na casa, enquanto ela suportava a dor de pisar com o pé direito. Não percebeu que sua coruja seguia o Comensal, tentando atacá-lo.

O homem corpulento segurou sua capa por um ombro, fazendo-a se desequilibrar. Os dois foram ao chão, Pansy segurando as varinhas com toda a força, até que Mulciber apoiou seu braço sobre o pescoço da mulher, colocando seu peso nele e ignorando a corujinha bicando suas costas e fazendo um tremendo barulho.

Sem ar e sem conseguir se mover direito, Pansy jogou as varinhas para longe, sua visão já ficando negra. Mulciber a soltou e correu atrás delas como um cão, mas a loira ainda teve tempo de segurar a calça e enfiar as unhas na perna do Comensal. Ele soltou uma exclamação e tentou chutá-la, sem sucesso; buscou alcançar as varinhas, mas era impossível arrastar a outra Comensal junto, já que ela estava grudada em sua perna. Pansy, em desespero, cravou os dentes na panturrilha do Comensal, fazendo-o soltar um urro de dor.

A mulher puxou a capa dele para baixo, levando-o ao chão, e passou por cima dele de qualquer jeito. A única coisa que Pansy via eram as varinhas jogadas no chão perto da porta; era como se ali estivesse sua única chance de sobreviver, e realmente estava. Saiu engatinhando pelo chão, Mulciber a segurando pelo tornozelo torcido, fazendo-a gritar de dor e raiva, abanando uma Iris louca para longe.

Mesmo com a coruja piando, podia ouvir seu coração desordenado quando ele a puxou para trás, e ela lhe acertou alguns chutes com a perna boa. Estava perto demais, perto demais da sua varinha para deixá-la escapar... E Mulciber parecia dividido entre segurá-la e tentar pegar a própria varinha, sua perna sangrando pelo chão.

Com um impulso, Pansy se virou, ficando sentada no chão, e meteu o pé esquerdo na clavícula do Comensal, aproveitando o impulso para se esticar e pegar sua varinha. Mulciber a fitou quase sem acreditar, enquanto ela ficou de pé com um pulo e passou pela porta arrombada. Desaparecera antes mesmo do homem pegar a varinha e explodir a parede da frente da casa, transtornado com o fracasso de uma tarefa tão simples; não tivera tempo nem de matar a maldita coruja, que saíra voando revoltada casa afora. Deixara uma garota, uma garota estúpida ser mais rápida... Mulciber bufou, sabendo que aquela falha iria custar caro.

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Pansy havia aparatado para uma outra casa em que entrara antes, mas que agora caía aos pedaços. Pelo menos era um lugar onde se protegia do frio congelante que fazia lá fora, e onde ela poderia sentar e pensar com calma. Sentar, aliás, fora uma coisa que fizera imediatamente, seu tornozelo latejando.

Como será que eles me acharam? Ela pensou, mesmo sabendo que a magia negra quase não tinha limitações. Mas ao descer os olhos para a varinha que ainda segurava na mão, Pansy se deu conta de algo ridiculamente óbvio: podiam-se rastrear pessoas pelo uso de suas varinhas, embora esse procedimento nem sempre funcionasse e só pudesse ser feito por pessoas autorizadas pelo Ministério da Magia. Claro que os Comensais estavam pouco ligando.

Como tinha sido idiota! Agora não podia mais usar sua varinha. Pansy, sabendo que já estava transfigurada, resolveu usar a magia para curar uma última coisa: seu tornozelo. Ela lançou um Episkey, torcendo para que funcionasse, e ouviu um "clec" quando seus ossos voltaram ao normal. Sabia que era uma questão de tempo até algum outro Comensal descobrir que ela estava naquela casa, então se levantou, guardou a varinha e saiu para a rua.

Fora uma dura caminhada até o Beco Diagonal, e ela tentava se convencer que seus olhos ardiam pelo vento, e por nenhum outro motivo. Chegando lá, ela se encaminhou diretamente para a Travessa do Tranco, lugar que não gostava muito, mas onde havia uma loja de jóias e antiguidades que comprava de tudo sem querer saber a procedência.

Pansy entrou quase entorpecida, mal prestando atenção em seus atos. Tirou dois brincos de rubi que sua mãe tinha que lhe renderam uns bons galeões, e continuou caminhando de volta até o Beco Diagonal, que não estava movimentado por causa da guerra e do frio. No entanto, alguns lugares ainda funcionavam, e ela comprou um cachecol azul, um par de luvas de lã, um pergaminho, pena e tinta.

Saiu de lá e se dirigiu a um parque totalmente vazio, para se sentar sobre um banco de cimento úmido. Pansy permaneceu sentada ali, pensando onde sua coruja estava, agora que precisava dela. Provavelmente sequer a procuraria; havia sido sua apenas alguns momentos, e devia estar voando feliz por aí ou se aquecendo em algum lugar confortável.

O vento deixou seu nariz vermelho, e ela se enrolou o quanto pôde com o cachecol, os olhos ainda lacrimejantes, e permaneceu ali até o anoitecer, sem a menor idéia de onde ficaria. Quando a luz desapareceu totalmente, Pansy caminhou lentamente até o Caldeirão Furado, que costumava chamar carinhosamente de espelunca. Pagou seis noites e se hospedou num quarto da espelunca, da onde saía apenas para comer.

Eventualmente deixava a janela aberta para ver se Iris voltava, mas também porque o ar gelado lhe dava uma sensação reconfortante. Passou cinco semanas hospedada ali, e vendeu uma pulseira para pagar toda a comida e o álcool que consumia – Pansy nunca imaginou que iria apreciar tanto beber.

No último dia da sexta semana, ela estava deitada apreciando o torpor alcoólico, quando um barulho irritante a arrancou de seu mundo calmo. Ao sentar, ela logo viu sua corujinha bicando insistentemente o vidro da janela, obviamente morrendo de frio. Pansy riu sozinha e a deixou entrar, observando a coruja dar voltas pelo quarto e espantando os flocos de neve de cima das penas castanhas.

Alimentou-a e esperou a coruja descansar, esperando também conseguir alguma sobriedade. Só no dia seguinte ela se sentou à pequena mesa, pena e tinta na mão, para escrever a carta que sabia que teria de ser escrita algum dia. Depois, mesmo com alguma pena da coruja, prendeu o pergaminho na pata dela, a instruiu para esperar resposta e a despachou janela afora, na neve.

Suspirando, Pansy torceu para que Iris conseguisse encontrar Hermione.

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- Desculpe. - Hermione disse, corando levemente, fazendo Fred rir. O rapaz, em réplica, soltou um arroto ainda mais alto que o dela, que provocou risos na sala e indignação de sua mãe.

- Fred, não foi essa a educação que eu te dei! - O ruivo riu de novo, sem responder, e Hermione se levantou.

- Bom, eu iria adorar ficar aqui mais um tempo, mas preciso voltar aos livros. - Ela disse, em tom de desculpa, e Arthur lhe sorriu.

- Mas já? - Molly falou, as sobrancelhas erguidas. - Você vai ter uma congestão se ler depois de comer.

- Mãe, a Mione lia comendo em Hogwarts. - Fred respondeu com simpatia. - Daqui a pouco ela vai começar a comer os livros. - Hermione virou para ele e rolou os olhos, rindo levemente e pronta para responder, mas sendo interrompida por um barulho de batidinhas.

- Uma coruja. - Arthur disse, se levantando para abrir a janela. - Alguém sabe de quem é?

Os três negaram, e ele abriu a janela cautelosamente, estendendo a mão. Porém a coruja pequena voou por ele e parou na mesa de centro, piando e olhando para Hermione, que se surpreendeu.

- Ora, é para mim. - Ela se abaixou, intrigada, e removeu o pergaminho da pata da coruja. - Pronto, pode ir. - Disse com educação, mas a ave piou, deu uma volta na mesa e bicou sua mão de leve, fazendo a morena resmungar. - Ah, você quer uma resposta... Venha comigo.

Ela pediu licença da sala e foi até seu quarto, a coruja lhe seguindo. Sentou-se e abriu o pergaminho em cima da escrivaninha, seu rosto ficando mais sério à medida que lia.

"Hermione Granger,

Acho que você não tem nem suspeita de quem é esta carta. Naturalmente, porque nunca fomos amigas... Mas eu te fiz um grande favor, e agora vou cobrá-lo.

Preciso de proteção, de um lugar seguro para ficar. Como se não me bastasse o seu pessoal querer me achar, agora o Lord das Trevas está querendo o meu pescoço – e como eu já salvei o seu um dia, está na hora de você me retribuir o favor. Arrume um lugar seguro para eu me esconder, e estaremos quites.

Não pense que isso é uma armadilha ou coisa assim, você deve imaginar o quanto eu sou bem querida pelos Comensais da Morte depois de ter te libertado. Então me responda marcando um lugar para nos encontrarmos e esclarecermos isto de uma vez.

Caso você duvide da autenticidade dessa carta, bom... Eu mudei de idéia. Você tem sorte, sim... Quem a sorte odeia certamente sou eu.

P.P."

Hermione mordeu o lábio inferior com força, sem nem perceber, e sentiu seu corpo congelar na mesma posição. Piscou algumas vezes, raciocinando rápido demais para ser lógica, e só conseguiu acordar quando a coruja bicou sua mão mais uma vez.

Haviam passado mais de seis meses desde o incidente... A carta significava que só então a corda apertara para Pansy. A morena, mesmo com alguma desconfiança, puxou uma pena e tinta e escreveu a resposta no espaço vazio do pergaminho. Suas mãos, por algum motivo, tremiam ligeiramente, mas ela conseguiu terminar a carta e mandar a coruja de volta para a remetente.

Recostando-se na cadeira, ela manteve os olhos castanhos fixos na borda da escrivaninha, lembrando da primeira conversa que manteve com a Comensal. Sorte... Era uma coisa na qual ela nunca acreditara, sorte era mais uma questão das escolhas que você fazia do que outra coisa.

De qualquer forma, a sorte havia se virado contra Pansy, e agora Hermione tinha de acudi-la por causa de uma dívida. A reação de Harry e Ron provavelmente não seria muito boa, mas ela simplesmente não tinha outra opção; dívidas eram dívidas, e afinal Pansy realmente tinha salvado seu pescoço um dia. A motivação, agora, era mais óbvia do que nunca – puro egoísmo – mas Hermione sabia que não devia se surpreender com isso. Pansy era uma sonserina, afinal.

Mas ela estava surpresa e, por mais que aquilo lhe parecesse estúpido, um pouco chateada também.

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Pansy ficou honestamente apavorada quando se olhou no espelho. A falta de magia havia feito sua transfiguração ir por água abaixo; depois de mais de um mês sem renová-la, ela estava perfeitamente como era antes: cabelos loiros claros na altura do pescoço, olhos acinzentados, rosto ligeiramente magro.

Tudo bem, sabia que beber prejudicava a transfiguração e fazia a pessoa voltar ao normal mais rápido, mas agora isso não importava. Ela tinha um problema, que era o de sair do quarto sem ser reconhecida. Pansy já estava planejando pedir a comida dali mesmo, arrumar uma varinha roubada, ou qualquer coisa que a ajudasse, mas Iris batendo o bico na janela lhe tirou a concentração.

Ela abriu a janela e deixou a coruja irritada entrar, se surpreendendo com a rapidez da resposta; mas, pensando direito, Hermione não devia ter mesmo muito que fazer. Ela passou a mão na cabeça da coruja de leve e pegou o pergaminho, o desenrolou e sentou na cama.

"P.P.

Entendo sua situação, mas não me sinto segura de conversar por carta. Prefiro me encontrar com você num lugar público, para terminarmos essa situação.

Quanto à possibilidade de isso ser uma armadilha, eu não tenho certeza de nada, já que você ainda é uma Comensal da Morte. Portanto, me encontre amanhã às 16:00 totalmente sozinha, na praça à direita da Casa dos Gritos. Use algo azul.

H.G."

Pansy suspirou, enrolando a carta novamente. Tombou para trás na cama, as mãos embaixo da cabeça, com medo do que o futuro lhe reservaria. Pelo menos sabia que Hermione era sinônimo de proteção, já que a morena não podia chamar Aurores, ou mandá-la para Azkaban, nem nada do tipo.

Se alguém, nos seus catorze ou quinze anos, lhe dissesse que um dia iria depositar toda a sua confiança em Hermione Granger, ela teria um ataque de risos, no mínimo, ou mandaria a pessoa direto para St. Mungus. Se alguém lhe dissesse que ela estaria sozinha, sem ninguém que gostasse por perto, ela talvez iria se assustar. Se alguém lhe dissesse que ela estaria com a Marca Negra no braço e fugindo dos Comensais... Bem, esta pessoa, com certeza, estaria certa.

Ao contrário do que achava, Pansy não demorou a pegar no sono naquela noite. Dormiu e sonhou apenas uma vez, com a última vez que vira Hermione; o estranho no sonho era que ela podia sentir a dor que a outra estava passando, podia sentir o medo e ao mesmo tempo a resignação da morena. Era estranho sentir que Hermione, por mais dor e raiva que sentia, não pensava na morte de forma amarga; parecia satisfeita com o que tinha feito.

Se o que sonhou era verdade, Pansy não saberia dizer. Mas ela acordou já com o sol alto escondido atrás das nuvens, a luz no rosto e lágrimas escorrendo pela face pálida. Sentou-se e se conformou em chorar sem saber bem porquê; depois que o choro passou, seu primeiro impulso foi o de pedir um pouco de vodca, mas lembrou depois que devia ficar sóbria. Não queria estar com a cabeça confusa quando fosse encontrar Hermione.

Pediu o almoço com algum esforço para não ser reconhecida, comeu pouco e foi tomar banho logo depois. O seu pequeno guarda roupa era constituído de peças recém compradas com o dinheiro dos penhores e estava limpo, graças a um produto mágico que comprara. Era simplesmente horrível viver sem varinha, era um atraso de vida e tempo incrível, que a fazia se perguntar como os trouxas agüentavam viver com todas aquelas máquinas, produtos e trecos que ela vira na televisão.

Colocou uma calça preta e um casaco pesado também preto, que ia até seus joelhos; aproveitou e enrolou o cachecol azul que comprara no pescoço, cobrindo a boca e deixando as pontas para fora. Mesmo pronta para partir, Pansy sentou na cama, a varinha na mão, e suspirou.

Era seu último golpe, sua última chance. Usaria a varinha mesmo correndo o risco de ser pega por alguém; se algum outro Comensal aparecesse, ela simplesmente se esconderia atrás de Hermione, já que a morena tinha a obrigação de protegê-la. Iris estava fora da gaiola, muita ração e água disponíveis caso Pansy não voltasse cedo. Não queria pensar na possibilidade de não voltar.

Ela finalmente levantou, tomou coragem e aparatou na frente da Casa dos Gritos. Seus passos eram lentos ao dar a volta no imóvel, e pareceram ainda mais pesados quando ela avistou Hermione sentada sobre um banco de cimento, os cabelos castanhos e revoltos chicoteando atrás de si. A loira olhou ao redor, e só haviam duas pessoas afastadas, andando rápido para sair logo do frio. Ela engoliu em seco e caminhou até o banco, seus pés afundando na neve e seu coração batendo pesadamente.

Hermione logo a avistou, ficando de pé num pulo. O frio era uma boa desculpa para suas mãos escondidas no casaco, mas Pansy sabia que ela segurava uma varinha firmemente, pronta para qualquer coisa. Ela respirou fundo, seus dentes batendo levemente, e observou a loira caminhar devagar em sua direção, as mechas de cabelo dançando em frente ao rosto sem parar. Estava mais nervosa do que esperava, a mão direita apertando a varinha com muita força, o rosto tenso e sério. Quando Pansy chegou perto o suficiente para poderem conversar, logo disse:

- Posso me sentar? - A morena molhou os lábios, desconfiada.

- Está mesmo totalmente sozinha, Parkinson? - A outra revirou os olhos.

- Você está vendo alguém? - Hermione respirou fundo mais uma vez e sentou-se, acenando para a Comensal imitá-la.

- Pensei que tivesse fugido com seus pais. - Hermione disse, o olhar perdido em algum ponto do chão branco. Pansy também não a fitou quando respondeu.

- Eles morreram antes disso, provavelmente a mando de Você-Sabe-Quem. Eu fugi sozinha, depois que a deixei no hospital. - As duas ficaram em silêncio, ouvindo o vento uivar, até Pansy continuar sarcasticamente: - Aliás, você ainda não me agradeceu.

Hermione a fitou friamente, desprezo estampado no olhar, e retrucou:

- Não estou certa se devo te agradecer por alguma coisa, já que foi você quem me raptou. E não me interessa saber por quê ou por quem você fez isso, Parkinson. - Ela completou, e sua frieza foi como um tapa para Pansy. - Apenas me diga o que espera que eu faça por você.

- Eu já disse. - A loira respondeu, controlando a raiva. - Quero um lugar seguro para ficar, pois estão rastreando minha varinha. Um lugar onde nenhum Comensal possa me achar. - Hermione riu secamente.

- Você concorda que só o fato de você ser uma deles já dificulta um pouco as coisas, não é? Não posso simplesmente enfiar você na casa de alguém sem considerar os riscos que esta pessoa vai correr...

- Foda-se você, Granger. - Pansy disse abruptamente, a mirando irritada. - Foda-se se eu sou um problema ou não; você tem uma dívida bruxa comigo, e caso seu cérebro sangue-ruim não consiga entender, você vai ter que me ajudar. Foda-se se está preocupada com onde vai me colocar ou o que eu posso fazer, os meus pais foram mortos pelos Comensais, meu melhor amigo talvez esteja morto, eu fui chantageada pra te seqüestrar e você ainda acha que eu sou um risco? - A expressão de Hermione se alterou ligeiramente. - Você não liga pra os meus problemas, eu também não ligo para os seus. E não ligo se agora eu sou um deles. - Pansy terminou com as sobrancelhas altas, e em tom incisivo. – Vire-se sozinha, assim como eu fiz.

Hermione teve o impulso de despejar dezenas de coisas em cima da loira; de pular sobre ela e a socar até que sua grosseria sumisse. Mas respirou fundo, tentando reunir calma várias vezes. Levantou-se e mordeu o lábio, pensativa. Estava prestes a responder quando um bruxo apareceu repentinamente de trás da Casa dos Gritos e tentou acertá-las com um feitiço.

Pansy imediatamente levantou e a agarrou pelo braço, a varinha já na mão.

- Aparate comigo! - Ela disse nervosa, e jogou um feitiço no Comensal sem sucesso. Hermione pareceu dividida, a varinha em punho e os olhos alertas. De repente, desaparatou com Pansy para uma rua que a loira desconhecia.

As duas suspiraram um momento, aliviadas mas sem se olharem, até a morena começar a andar apressadamente pela calçada, as casas trouxas desfilando em frente aos seus olhos. Pansy a seguiu de perto, em silêncio, até perguntar baixo:

- Onde nós estamos? - Hermione não se deu ao trabalho de responder; apenas continuou andando até parar na frente de um vão entre duas casas.

- Na sua próxima casa, Parkinson. - Pansy fitou-a, depois fitou as casas, confusa, e a morena fechou os olhos com força um minuto. Teria muita coisa para explicar.

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A loira entrou na casa em silêncio, os olhos ligeiramente arregalados, e levou um susto quando sentiu Hermione segurar a sua mão. Estava prestes a soltar uma frase mal educada quando topou com um homem ruivo, calvo e abatido que ela não reconheceu - mas que pela expressão séria e a mão dentro da capa, certamente a conhecia.

- Tudo bem, sr. Weasley, ela está comigo. - Hermione se apressou em dizer, sentindo a outra apertar sua mão involuntariamente. - Precisamos conversar urgentemente. - Ele sacou a varinha e a apontou para a morena, que não pareceu se surpreender. - Eu não estou enfeitiçada, sr. Weasley, a abóbora continua cantando no jardim de inverno. - Hermione falou, séria, mas docemente, fazendo os ombros de Arthur relaxarem, mas não seu braço abaixar. - Esta é Pansy Parkinson.

- Eu sei, filha. - Ele murmurou, a varinha agora apontada para a loira. - O que ela está fazendo aqui? - Hermione suspirou mais uma vez, enquanto Pansy permaneceu imóvel e impassível.

- Ela está sendo ameaçada pelos Comensais da Morte por ser uma desertora; foi ela quem me deixou no hospital, lembra? E eu não pude pensar em nenhum lugar mais seguro no momento do que aqui. - Finalmente Arthur abaixou a varinha, a cabeça fervendo de perguntas e questionamentos. Murmurou algo para si mesmo e acenou para a sala de estar.

- É, nós precisamos conversar... Leve-a até o quarto do último andar e volte, Hermione. Isto é muito sério. - Ele completou, a testa franzida, e sumiu atrás de uma porta. Relaxando os músculos que nem sentira tensionar, Pansy engoliu em seco e Hermione soltou sua mão, lhe dando uma sensação desagradável de insegurança. Se sentia um rato entrando diretamente na boca de um gato, sem defesa alguma e sem ter para onde escapar.

A morena fez um gesto para Pansy seguí-la e subiu dois lances de escada, caminhou por um corredor - que assim como a casa toda - passou-lhe uma sensação sinistra e abriu a porta de um quarto desocupado em que havia uma cama e uma cômoda, grades na janela e um aspecto deprimente de prisão que não agradou nem um pouco a jovem Comensal.

- Me dê a sua varinha. - Hermione disse, estendendo a mão. - Se quiser ficar aqui, terá de ser assim. - A loira lhe entregou o objeto com má vontade e entrou no aposento, as sobrancelhas contraídas. - Você vai ficar trancada aqui até resolvermos o que vamos fazer com você. - A morena completou com frieza, como se estivesse falando de um animal. Também sabia ser cruel quando queria.

- Eu vou ser uma prisioneira? - Pansy replicou sem pensar, e os olhares de ambas se cruzaram por longos minutos, faíscas indo e vindo numa linha contínua.

- Não. Diferentemente de mim, você pode partir quando quiser, Parkinson.

Hermione fechou a porta, a selando por fora com um feitiço, deixando Pansy sem saber se a detestava ou se a entendia. Não demorou muito para se arrepender de seu descontrole no parque; obviamente ela não havia ajudado em nada a si mesma ofendendo Hermione. Sentou na cama e suspirou, desanimada, as mãos cobrindo o rosto; talvez ela realmente tivesse ido para a boca do gato, porque não tinha garantia nenhuma de que as outras pessoas iriam acreditar nela. Hermione, mesmo que não acreditasse, não tinha outra opção, porém a dívida bruxa era algo que só as duas compartilhavam.

Outra pessoa, se quisesse, podia fazer o que bem desejasse com ela sem a morena saber - talvez, se achassem que ela sabia muito sobre os planos dos Comensais, podiam até torturá-la tentando obter alguma informação. A princípio a idéia lhe pareceu absurda, já que Pansy não conseguia imaginar ninguém do lado da luz recorrendo a esses meios, mas talvez estivessem desesperados a ponto de esquecer seus próprios princípios. Ela mesma esteve, um dia.

Dois andares abaixo, Hermione passava por um dos piores interrogatórios da sua vida. Todos que estavam na casa - Arthur, Molly e Bill e Remus, que estavam de passagem - simplesmente voaram para cima dela como se ela estivesse fora de si; e as perguntas variavam desde "Por quê você não nos disse nada antes?" até "Você andou tomando alguma poção ilegal, Hermione?". Com algum trabalho eles conseguiram fazer Minerva comparecer; e com um gemido, a morena percebeu que aquilo estava se tornando uma reunião extraordinária da Ordem da Fênix.

- Eu não tinha mais onde colocá-la. - Ela falou, pelo o que lhe pareceu ser a centésima vez, para a mulher preocupada. - Não havia onde mais protegê-la, já que a varinha dela está sendo rastreada.

- Mas você não ponderou os riscos de trazê-la até aqui, srta. Granger? Mesmo sob ataque, devia ter lembrado que uma única atitude mal pensada poderia fazer ruir todo o nosso trabalho. - Minerva respondeu, severa, mas não irritada, os olhos estreitos fixados em Hermione calmamente. A morena mordeu o lábio com alguma vontade de chorar de pura frustração, porém respirou fundo erguendo a cabeça e disse:

- Eu sei, sra. McGonnagal. Assumo toda a responsabilidade pelo o que fiz e pelo o que pode acontecer daqui para a frente... Só espero que vocês possam entender a minha situação. - Ela olhou para o teto deprimidamente. - Eu não tenho mais o que fazer. - Se recompondo, ela voltou a olhar para as pessoas da sala. - Duvido muito que Parkinson seria capaz de fazer qualquer coisa, já que pelo visto nós somos a última saída dela, e garanto que ela não faz idéia de onde está. De qualquer forma, eu me desculpo pelo susto e me comprometo a vigiá-la todo o tempo que estiver aqui.

- Mesmo que não quisesse, você foi quem a trouxe para cá. - Remus disse num tom cansado. - E é quem mais fica aqui. Acho que todos estamos de acordo que você deve pôr os olhos em cada coisa que ela fizer ou falar daqui para a frente.

- 24 horas por dia. - Bill arrematou, e um murmúrio de concordância passou pelo ambiente, fazendo Hermione respirar um pouco mais aliviada. O clima tenso pareceu se dispersar e o jovem Weasley levantou, ajeitando as roupas. - Bom, eu preciso ir agora.

Os Weasleys se despediram, McGonnagal também se levantou, pronta para partir, e os integrantes da Ordem foram deixando a sala um a um até restarem apenas Hermione e Remus. Para sua surpresa, o homem sorriu levemente para ela antes de voltar a falar.

- Sabemos que você não tinha o que fazer, afinal é uma dívida bruxa. Mas eu sei que mesmo que não fosse, você não negaria abrigo se ela estivesse precisando, Hermione. - A morena ergueu os olhos, o mirando tristemente.

- Sabe? Como pode ter certeza, Remus? - Ele balançou a cabeça, ainda sorrindo, os olhos emoldurados por olheiras insistentes.

- Eu apenas sei. Agora vá vê-la, e verificar se ela precisa de alguma coisa. Você pode apresentar ela a cada um com o tempo. - Hermione se levantou e estendeu a mão para o lobisomem.

- Tudo bem, você vai ser o primeiro. - Ele relutou alguns instantes, mas ela o convenceu, de modo que subiram ambos até o andar do quarto da Comensal da Morte. Hermione destrancou a porta com um feitiço e quando a abriu, deu de cara com uma mulher acuada contra a cabeceira da cama, a fitando com os olhos bem abertos.

Remus não disse nada a ninguém, mas podia sentir o medo que vinha da loira, e teve aquilo como um bom sinal. Quando apareceu, Pansy trincou os dentes, sem saber o que esperar, e a morena disse:

- Você vai ficar aqui, nesta casa, e eu vou te levar para conhecer ela depois. Esse é Remus Lupin, talvez você se lembre dele. - Os olhos astutos de Pansy mediram o homem de baixo à cima, e ela falou:

- Claro, foi nosso professor. Você está... Diferente. - Ela controlou a língua, quase dizendo que o seu antigo professor estava acabado. Mas Remus estava acostumado com a substituição e a mirou com sagacidade, fazendo-a engolir em seco. Pansy se levantou e estendeu a mão, cumprimentando o homem. - Prazer.

- Acho que nem tanto. - Ele replicou, dando de ombros. - Eu, pelo menos, não tenho o menor prazer em revê-la nessas circunstâncias. - Seu tom foi simpático, o que fez a loira se tranqüilizar um pouco, e concordar com a cabeça.

- Espero que saiba que uma vez que você está aqui, faz parte do jogo, Parkinson. - Hermione disse, ainda fria. - E se pular fora, será considerada uma traidora por nós também.

- Não tenho a menor intenção de pular fora, Granger, e muito menos de traí-los. Só quero sobreviver. - Ela respondeu, regulando a arrogância na voz, e Hermione lhe deu um sorriso azedo, ainda sem perdoá-la.

- O que me preocupa é o que você é capaz de fazer para isso. - Remus olhou de uma para a outra, sentindo mas não conseguindo amenizar a tensão no ar, e se apressou em dizer:

- Mas enquanto você estiver do nosso lado, não vai ser maltratada por ninguém. - Ele disse para Pansy, logo depois se voltando para a outra mulher. – Eu preciso ir agora. - Ela acenou e ele segurou a mão dela por um momento e lhe sorriu, demonstrando um apoio que Hermione precisava muito. Remus saiu do quarto fechando a porta, o olhar de Pansy indo da saída até Hermione sem parar; a morena percebeu algo estranho e a questionou, sobrancelhas franzidas:

- O que foi? - A loira rapidamente dissimulou seus pensamentos e colou os olhos no chão.

- Nada. - As duas permaneceram em silêncio por pouco tempo, antes de voltar a falar. - Minhas coisas e minha coruja ficaram no Caldeirão Furado.

- Não se preocupe, alguém irá buscar tudo. - Hermione respondeu, mas Pansy continuou inquieta.

- Quando você disse que eu ia ficar aqui, quis dizer na casa ou no quarto? - Perguntou, relutante, e a morena ergueu as sobrancelhas.

- Na casa, claro. - Hermione respondeu, se sentando na cama a uma boa distância da outra. - Ninguém iria te deixar presa assim... Se bem que eu aposto que o Moody vai odiar a idéia de ter outra Comensal vagando pela casa. De qualquer forma, - Ela retomou. - Você vai poder circular com uma condição. - E sua face se contorceu em desgosto, fazendo Pansy ficar curiosa. - Bom, eu vou ter de te vigiar.

- Como, vigiar? - A loira replicou um tempo depois. - Você vai ser como uma babá?

- É. A sua babá, o tempo inteiro. - Ela respondeu, ainda aborrecida. - Vou te acompanhar onde quer que vá e vou dormir aqui, também. E não reclame. - Pansy não sabia se ria na cara da outra ou se permanecia estática. Era para pensar, se valia a pena ter de agüentar a presença de Hermione durante toda a sua estadia, que provavelmente iria durar toda a guerra; e esta, ninguém sabia quanto tempo iria durar. Tempos difíceis estão por vir, ela pensou, sarcasticamente, e deu um sorriso torto para Hermione.

- Tudo bem. Contanto que você não fique me perturbando, eu vou ficar na minha. - A morena a fitou incrédula.

- Ficar na sua? Acho isso impossível, mas já que não tem outro jeito... - Ela deu de ombros. - E como nós vamos ficar juntas o dia inteiro, eu já tenho uma tarefa para você. - Pansy piscou, sem perceber que não estava mais apoiada contra a cabeceira defensivamente.

- Tarefa? - Hermione assentiu com a cabeça, sua raiva amenizada.

- Sim. Todos que moram ou passam por esta casa contribuem de alguma forma com a guerra contra Voldemort, e com você não vai ser diferente. - Ela ignorou a careta que Pansy fez ao ouvir o nome. - E se o que me disse é mesmo verdade, tenho certeza que ajudar a derrotá-lo vai ser um trabalho muito agradável. - A loira apertou os lábios, balançando a cabeça levemente, seu olhar parado no nada.

- Vai. Com certeza.

ooo

Pansy não demorou para constatar que aquela casa definitivamente era sinistra. Por mais que Molly tentasse lhe dar um ar mais alegre, colocando cores ou estampas mais vivas nas cadeiras, era absolutamente inútil; se a casa por si só já guardava um ar de desgraça, o vai e vêm de pessoas cansadas ou desoladas ajudava a deixar o lugar com o clima de um quartel do lado perdedor.

Segundo Hermione, não era bem assim; mas Pansy não acreditava em tudo o que a morena lhe falava. Não conseguia acreditar, por exemplo, que pesquisar a taça, o colar, as capas ou as ceroulas dos fundadores de Hogwarts significasse alguma coisa para o lado da Luz. Às vezes, quando havia algum problema relacionado a feitiços ou maldições inventados, as buscas que as duas faziam parecia ter algum sentido. Mas o sentido logo desaparecia para Pansy.

Ela notou que a outra mulher estava obviamente deprimida por estar presa ali dentro, e que sua responsabilidade de vigiar a loira só aumentara sua insatisfação. Hermione falava muito sobre o mundo trouxa – mesmo Pansy tendo demonstrado claro desinteresse pelo assunto -, pouco sobre a guerra e nada sobre si mesma, entre outras coisas. Não que a vida pessoal de uma sangue-ruim fosse muito instigante, mas Pansy havia ficado mais de seis meses sem conversar com ninguém, e qualquer assunto que aparecesse servia.

Estava lá faziam duas semanas, e parecia ter conhecido a maioria das pessoas que circulavam pela casa, mesmo que não fossem muitas. Os Weasleys, tanto os pais quanto os filhos, não lhe davam muita importância; exceto a caçula, Ginny, que parecia bem aborrecida com sua presença, talvez por não poder conversar com Hermione como antes. Remus era especialmente complacente com a morena e lhe era bem amistoso, exatamente ao contrário de Tonks e Alastor Moody, que pareciam nem querer respirar o mesmo ar que ela.

Às vezes, achava que sua "babá" também tinha esse sentimento, mas era só quando ela estava muito irritada. Pansy não pôde deixar de reparar que nessas duas semanas, ela não vira novamente nem Harry Potter nem o seu fiel escudeiro, que agora era namorado de Hermione. Era duro ter de segurar as piadas tipicamente sonserinas, mas a loira percebeu que seu preconceitos com os trouxas, os mestiços e bruxos que simpatizavam com eles havia diminuído bastante. Talvez os noticiários da televisão tivessem lhe despertado alguma compaixão, afinal.

De qualquer forma, ainda detestava Ron Weasley, e o sentimento pareceu aumentar quando ela acordou uma noite e ouvir Hermione chorar muito baixo, praguejando contra o namorado que não lhe escrevia. Era um pobretão bastardo mesmo, para deixar alguém sem notícias bem no meio do fogo cruzado.

Hermione vivia um furacão de emoções; em alguns momentos, não via grande problema em ter Pansy grudada em si o tempo todo, em outros aquilo lhe irritava mais do que imaginava ser possível. O estresse da guerra, a falta de notícias de Ron e Harry e a ineficiência das pistas sobre as Horcruxes estavam deixando-na com os nervos à flor da pele. Para piorar, a primavera ainda estava razoavelmente longe, e aqueles dias cinzas e obscuros só serviam para lhe dar a sensação de estar presa.

Alguns dias depois de ter uma crise de choro que lhe fez esquecer até de Pansy dormindo no outro lado do quarto, as duas estavam em um dos cômodos da grande casa revirando páginas e espirrando, quando Pansy lhe perguntou casualmente:

- E os seus amigos, Potter e Weasley? Onde estão? - Hermione não tirou a atenção do livro.

- Não acho que você deva saber isso. De qualquer jeito... - Ela suspirou. - Eu não sei. - Pansy balançou a cabeça, virando a página velha do livro que fingia ler.

- Que pena. Potter e a garota Weasley ainda estão namorando? - Ela voltou a perguntar, e Hermione lhe fitou, curiosidade exposta no rosto.

- Por quê o interesse repentino, Parkinson? - A loira deu de ombros, com um ar de desprezo.

- Não há nada mais acontecendo na minha vida, é normal que eu queira me intrometer na vida dos outros. - Hermione se surpreendeu segurando uma risada, e balançou a cabeça, tentando ignorar o fato. Virou mais uma página, pensando que não havia mal em tentar se distrair uns momentos.

- Não, não estão. Acho que só vão reatar quando a guerra terminar. - Pansy prontamente pensou Se o Potter sobreviver, mas tratou de ficar calada.

- E por que você e o Weasley estão juntos? - A morena a fitou placidamente, e Pansy logo corrigiu. - Digo, por que também não terminaram por causa da guerra? - Hermione umedeceu os lábios, os olhos baixos.

- São casos muito diferentes; Harry não quer colocar Ginny em perigo, mas eu e Ron já estamos visados há muito tempo. Não temos porque terminar agora. - A loira espalmou a mão sobre o livro, fingindo que lia algo com atenção, e um silêncio calmo pairou sobre elas alguns minutos. Era tudo estranho demais para conseguirem agir normalmente, mas pela primeira vez desde que Pansy chegara ali Hermione não estava se sentindo desconfortável perto da outra; era como uma colega de trabalho, apenas isso. No fundo, ela sentia pena da Comensal, não raiva e tampouco rancor, e aquela pena ia lentamente se transformando em tolerância.

- Você pensa em se casar? - Pansy voltou a perguntar, a voz levemente aguda numa tentativa fracassada de parecer inocente. A outra resolveu que iria responder o que quer que Pansy perguntasse, desde que não fosse sigiloso ou comprometedor.

- Honestamente, não sei. Acho que sou muito nova para pensar nisso. Sem contar que... - Ela piscou rapidamente. - Deixa pra lá. Só acho que é muito cedo. - A loira começou a bater o pé no chão com ritmo, entendiada, e se deu ao luxo de um atrevimento:

- Você não acha que merece coisa melhor, Granger? - Hermione ergueu os olhos, petrificada com a ousadia. Mas Pansy apenas sorria tortamente, um olhar divertido no rosto. - Aquele jogador, qual era o nome dele? Viktor Krum. Ele serviria para você. - Hermione balançou a cabeça e soltou uma exclamação.

- Quem você acha que é, Parkinson? Para começar, eu não me lembro de ter pedido sua opinião sobre quem eu namoro. E você não conhece o Ron, não pode julgar se ele me merece ou não. - Pansy fez um sinal negativo, a ironia escapando pelos seus poros. Um vez sonserina, sempre sonserina.

- Não, errado. Eu não posso julgar se ele gosta de você ou não, e vice-versa, já que eu não sei o que vocês sentem. Mas é ridiculamente óbvio o quanto ele é, na medida exata da sua inteligência, estúpido; e da sua lucidez, retardado; e da sua compaixão, incrivelmente baixo. - Hermione mal sabia o que responder, jamais iria esperar uma chuva de ofensas sobre Ron vindas de quem mal parecia entender do assunto. A Comensal coçou o nariz, ainda sorrindo estranhamente, com uma vontade nítida de ver a morena ficar nervosa. Ela decidiu que não lhe daria esse gosto; e respirou fundo antes de responder fria e educadamente.

- Mais uma vez, não pedi sua opinião sobre isso. Não pedi sobre nada, aliás, o que me lembra o fato de que você devia ficar quieta. - Seu tronco foi se inclinando na direção da loira por cima da mesa. - Você não se conforma de não saber nada do que se passa entre nós, do que se passa nas nossas vidas, e como não pode nos ofender como nos tempos de Hogwarts, está procurando informação para tentar de um jeito mais adulto... Pois desista, Parkinson, nada do que você falar vai fazer a menor diferença. E nem vai conseguir me tirar do sério.

Pansy riu desdenhosamente, e ficou quieta, pensando que aquela era a melhor decisão; porém permaneceu assim apenas por alguns segundos, antes de replicar:

- Quem parece estar vivendo nos tempos de Hogwarts aqui é você, Granger. Não percebeu que eu não sou a mesma, nem você, nem o mundo? Eu não me preocupo em aborrecer vocês, só não sabia que expressar minha opinião não era permitido. Bom ficar sabendo. – Hermione rangeu os dentes sem notar.

- É claro que você pode se expressar aqui, mas tudo tem limite. Se a sua opinião for ofensiva, pode guardar para você!

O silêncio voltou a tomar o lugar, dessa vez ornado por duas mulheres irritadiças. Hermione virava a página com violência, a testa franzida como a de uma criança contrariada, deixando Pansy com vontade de rir do comportamento infantil da outra; mas ela permaneceu como estava, sabendo que rir só iria piorar a situação.

Com o passar dos dias, parecia não existir um modo de sua relação com a outra mulher piorar; todos os dias da semana que se seguiu as duas sentavam-se, liam e faziam anotações sem trocar uma só palavra que não fosse estritamente necessária.

Era como se o tempo não passasse, para Hermione. Ela assistia, impotente, os dias frios passarem sem fazer diferença; o sol se erguia, cruzava o céu e se punha sem que nada se alterasse na sua vida. Ela sabia que lá fora havia pessoas morrendo na guerra e se arriscando para salvar o mundo de um peso – nesses pessoas se incluíam seu namorado e seu melhor amigo, cujas notícias chegavam num intervalo torturante de semanas.

A única companhia constante que tinha na maioria das vezes preferiria não ter. Pansy podia ser insuportável quando queria, já tinha demonstrado essa habilidade no colégio e não hesitava em repeti-lo depois de adulta. A morena sabia que por trás do sarcasmo e da postura desagradável se escondia alguém comum, que queria voltar a viver normalmente – todavia, os surtos de mau-humor da Comensal apagavam aquilo com tal rapidez que Hermione desejava estar sozinha.

Talvez seu erro fosse o mesmo que Dumbledore cometera: o de acreditar no lado bom das pessoas. Remus lhe dizia que isso não era um erro em si mas era perigoso em excesso, e provavelmente estava certo. Quase toda a Ordem da Fênix travata Pansy com alguma desconfiança, e os veteranos – principalmente Moody – criaram reservas até mesmo com Hermione. Ela supunha que era medo que ela estivesse enfeitiçada, estivesse sendo ingênua demais, ou até mesmo coisa pior. O fato era que os que a entendiam, Remus, Harry e surpreendentemente Minerva, estavam sempre distantes ou ocupados demais para servirem de alívio.

Ainda estava nevando um pouco em Londres, o que desanimava Hermione imensamente. Porém, a pior parte era não saber se mesmo depois que o inverno partisse, a sensação de frio e desolação iria passar.

ooo

Era óbvio que, cedo ou tarde, Pansy teria que consertar a besteira que fizera para não enlouquecer dentro daquela casa. Em mais um dia monótono, ela sentou-se de frente para Hermione e passou a mão pelos cabelos, pigarreando.

- Tem recebido notícias do Potter e do Weasley? – Ela disse, e a morena sequer ergueu os olhos do pergaminho em que escrevia para responder:

- Não estou a fim de papo, Parkinson. – Pansy, que já esperava algo assim, cruzou as mãos sobre a mesa calmamente.

- Foi só uma pergunta. – Hermione levantou os olhos fuzilnado-a com o olhar, e a loira soube que não iria ser tão fácil quanto desejava.

- Eu não gosto de conversar com gente azeda. – Piscando, Pansy respirou fundo tentando reunir paciência e cordialidade.

- Você também não anda muito doce. – Acabou soltando, e Hermione estreitou os olhos, fazendo a loira remendar antes da explosão. – Digo, por que você estaria? Por que eu estaria? – A face da outra voltou ao normal e Pansy respirou aliviada por evitar outra briga estúpida. – Não temos nenhum motivo para ficarmos pateticamente felizes.

- Talvez estarmos vivas fosse um bom. – Hermione disse com uma seriedade que soou como arrogância para a loira. – Talvez devêssemos estar agradecidas, Parkinson, com o estado e o lugar onde estamos. Depois de tudo o que eu passei, eu me sinto feliz de acordar e ver que estou no mesmo lugar onde fui dormir. – A raiva que havia despontado em Pansy rapidamente evaporou ao ouvir as palavras da outra. Apesar de tudo, a entendia mais do que gostaria – e, dessa vez, tinha notado uma certa amargura contínua na voz da jovem bruxa.

- Acho que devíamos estar felizes... – Pansy disse olhando para a mesa. – Mas não estamos, e não podemos fazer esse fato simplesmente desaparecer, Granger, não importa quantas poções ou feitiços para animar fizermos, o medo e a raiva sempre vão voltar. – Ficou surpresa com sua própria honestidade, e Hermione a fitou calmamente, vendo pelo o que lhe parecia a primeira vez como Pansy realmente se sentia. Seus olhos castanhos passearam do rosto da Comensal para suas mãos cruzadas e ela engoliu em seco, descobrindo que não gostava de ver a outra simplesmente conformada com aquilo.

- Mas não podemos nos contentar com isso. Algumas coisas como o que aconteceu comigo ou com seus pais não vou mudar ou desaparecer, mas nós ainda estamos aqui. O que somos e onde estamos é o que importa. – Pansy a fitou com alguma discordância, fazendo-a continuar. – Quando eu digo onde estamos não é só a casa ou a cidade; é se estamos no fundo do poço, se estamos sozinhos, de que lado estamos. Acho que o que separa as pessoas nessa guerra... – Ela completou depois de pensar um pouco. – É se elas se conformam ou não. Com Voldemort à solta, todo trouxa, bruxo ou mestiço vive sem paz, esperando uma tragédia. Quem não se conforma com isso se une contra ele.

Hermione se calou, assistindo Pansy olhar para as unhas com um ar distante, e teve alguma esperança que sua sinceridade funcionasse melhor do que sua última estratégia de defesa: a grosseria. Elas passaram alguns minutos quietas, uma sensação pairando na sala amena como a consciência de um assassino confesso. Então Pansy suspirou e levantou os olhos cinzentos para a morena, falando baixo:

- Eu concordo com você, não dá pra se conformar. Mas assim como é impossível apagar o passado, também é impossível ser otimista o tempo todo... Para mim é, pelo menos. – Deu de ombros. – Mas o que você me disse não me serviu de consolo, pelo contrário: se é a revolta que nos separa, então de que lado eu estou?

- Do nosso. – Hermione respondeu sem pensar, e a outra negou com a cabeça.

- Não, agora eu estou. E só vim porque não tinha mais para onde ir. Mas eu não quis lutar, eu apenas me conformei em fazer o que mandavam, obedecer ordens e cometer crimes. – Ela disse, os olhos fixos na morena, e sua voz foi se alterando. – Fiz tudo o que eu fiz para salvar a minha pele e a dos meus pais, e faria qualquer coisa que dissessem se isso fosse os manter vivos ou os trazer de volta. O que eu sou, Granger? Só uma covarde ou uma egoísta de merda? – Pansy completou com raiva, esta que obviamente não era dirigida à Hermione. Os olhos da Comensal ardiam, mas ela não fez questão nenhuma de esconder isso, e a outra mulher teve de cortar a vontade de segurar a mão da loira.

Hermione tentou não se penalizar e conseguiu; o que sentia não era pena, mas um outra sentimento indistinguível. Por fim, respondeu lentamente:

- Não é tanto o que você é, Parkinson, é o que você sente. Você amou seus pais, foi isso que te levou a tudo isso... Por isso você está aqui. Por amor. – As lágrimas brilhavam nos olhos de Pansy. – As pessoas fazem loucuras por amor. – Hermione disse, a voz aguda, e pouco tempo depois a outra sorriu levemente para algum ponto invisível, perguntando:

- Você já fez alguma loucura por amor, Granger? – Seus olhos se voltaram para ela desprovidos de malícia ou desprezo; e a morena sorriu de volta, tentando aproveitar aquele momento raro de entendimento mútuo.

- Muitas. Ah, pode me chamar de Hermione. – Pansy apertou os lábios, assentindo. – E chega de autopiedade, por favor, isso não leva a nada. – A loira riu, espantada com a capacidade de Hermione de estragar momentos especiais com considerações racionais.

- Vejo que você não perdeu a capacidade de ser inconveniente, às vezes. – Hermione ergueu as sobrancelhas. – Esse é o tipo de momento em que você devia ficar quieta, deixar como está, e não ser a velha e boa sabe-tudo formada em chatice. – Pansy riu novamente, deixando a morena sem saber do quê ela ria, mas sem conseguir se irritar. – Mas eu vou deixar passar, Hermione. – Ela completou com deboche. – E pode me chamar de Pansy, também.

Era como se um muro que separava as duas tivesse sido reduzido a escombros prontos para serem pisoteados. Pansy não admitia, mas saber que Hermione também estava deprimida havia lhe acalentado algumas noites; porém melhor que isso, era saber que ela – ela, pelo menos – não a julgava ou a via como uma pária. Era bom saber que ao menos alguém ainda enxergava nela uma pessoa e, às vezes, nem mesmo Pansy o fazia.

Hermione entrou no clima e riu também, voltando a se debruçar sobre o pergaminho e replicando:

- Você pode deixar passar, mas eu não vou esquecer o "sabe-tudo" tão cedo. – Pansy a imitou, puxando um rolo para perto de si.

- Formada em chatice. – Murmurou, fitando Hermione por baixo dos cílios claros, fazendo a outra ter certeza que algo havia mudado radicalmente. A morena rasgou a ponta do pergaminho e anotou a ofensa, fazendo Pansy rir, e, inconscientemente, gostando do som de seu riso ecoando pela saleta.