Capítulo 2 – A Dança

Uma longa mesa fora arrumada no salão principal do castelo, com todas as espécies de iguarias e bebidas que poderiam ser oferecidas durante a festa. À frente da mesa fora montado um tipo de palco, onde seriam feitas as apresentações em honra aos convidados.

À cabeceira da mesa estavam sentados Sayuri, Hikaru, Inu-no-Taisho, Megumi e Sesshomaru, da esquerda para a direita nesta ordem. Mas faltava uma pessoa.

Ah, sim! Mitsuki estava nos bastidores, esperando a sua vez de se apresentar. Depois de levar uma bronca de seus pais sobre boas maneiras e como se comportar, ela estava mais irritada do que nunca, mas ainda assim teria de se apresentar "como uma boa menina e sem reclamar", como dissera o seu pai quando ela ousou abrir a boca para falar da apresentação.

Que ótimo dia estava sendo aquele.

E ele ainda prometia, pois havia sido obrigada a fazer as honras da casa para o príncipe Sesshomaru enquanto este ficasse no castelo. Aquilo era simplesmente ma-ra-vi-lho-so.

Dito príncipe olhava à sua volta, um tanto entediado, enquanto comia calmamente e com a postura de um senhor feudal. Parecia que ele também estava ali contra a sua vontade, apenas cumprindo um compromisso de família como era de se esperar que fizesse.

Mitsuki abanava-se graciosamente com o leque quando ouviu algumas garotas exclamarem enquanto espiavam por trás das cortinas:

- Então aquele é o príncipe Sesshomaru?

- Sim, é ele! Vistes como é lindo? E que músculos ele deve ter por baixo de todas aquelas camadas de seda! – respondeu a outra por entre risinhos.

- Com certeza – a primeira concordou. – Pena ele ser tão sério. Estavam falando na corte que nunca o viram sorrir!

- Não acredito! – a segunda exclamou baixinho. – Não serão apenas rumores? Afinal, ele pode ser sério, mas é quase impossível não sorrir a vida inteira!

- É verdade! Eu ouvi isso da minha camareira que ouviu das serventes do clã Taisho. Incrível, mas parece que é verdade!

A princesa, cansada de ouvir todas aquelas besteiras e fofocas, virou os olhos e levantou-se, indo em direção às duas garotas.

- Vocês não têm nada melhor para fazer? – ela reprimiu ambas. – Vamos, as duas aos seus lugares, daqui a pouco será a apresentação.

As garotas fizeram uma levíssima careta por serem reprimidas e afastaram-se da cortina com uma breve mesura, indo postarem-se ao koto e ao shamisen. Assim que elas deixaram o local, ficou uma pequena fenda na cortina e Mitsuki apressou-se em arrumá-la. Por acidente, ou não, ela acabou olhando para além do palco e seus olhos pousaram sobre Sesshomaru. Mesmo que contra a vontade, ela não pode deixar de pensar enquanto o observava:

"Até que ele é mesmo bonito. Eu me pergunto por que ele é tão sério assim..."

Como se tivesse ouvido os pensamentos da bela princesa, Sesshomaru olhou exatamente para o local onde Mitsuki estava. Seus belos olhos cor de âmbar perfuravam os dela e pareciam mandar arrepios para todo o seu corpo.

Mitsuki rapidamente fechou a cortina, quebrando aquele contato visual que mais parecia um feitiço. O que foi aquilo? Que coisa mais estranha havia acontecido... E agora ele pensaria que ela estivera espionando-o! Sinceramente, aquele dia não poderia ficar pior.

O som de um pequeno gongo de bronze soou por todo o salão, anunciando que o espetáculo começaria e fazendo com que as conversas subsidiassem à praticamente nada. Finalmente estava na hora. Todos os olhos voltaram-se para o palco e as cortinas foram puxadas para o lado, revelando uma vista divina.

Mitsuki estava parada no centro do palco em posição para a dança, mas o que mais impressionava a todos era a sua beleza ainda mais realçada pelos kimonos que usava. As duas camadas mais interiores eram brancas, depois vinham duas camadas de um kimono dourado que parecia ter sido tecido com fios de ouro e que brilhava como o sol, seguidas por outras duas de um kimono prateado, o qual parecia ter sido tecido com fios de prata e que brilhava como a lua cheia em um céu sem nuvens. Seus longos cabelos loiros estavam intricadamente presos com três pentes e um pequeno sorriso adornava seus belos lábios. Enfim, parecia mais um anjo que havia caído do céu.

E assim, ela dançou.


Depois da dança, que havia encantado e emocionado a todos, bem, quase todos, e pela qual ganhou elogios sem fim, Mitsuki alegou não estar muito bem e pediu permissão para retirar-se aos seus quartos. Dada a permissão, a princesa fez uma breve mesura e retirou-se. Realmente, estava cansada, mas isto não queria dizer que ela não pudesse permanecer na celebração, apenas ansiava um pouco pela quietude e solidão dos seus quartos com um bom livro para fazer-lhe companhia. E de preferência, longe do príncipe Sesshomaru.

Ora, ele quase não aplaudira a sua apresentação! E isso mesmo depois da princesa dar tudo de si a fim de provar que as primeiras impressões nem sempre deveriam ficar. Definitivamente não gostava dele nem um pouco.

Chegando ao seu quarto, Mitsuki fechou a shogi em silêncio, retirou os pentes do cabelo, deixando-o fluir livremente pelas suas costas, e começou a procurar pelo livro que estivera lendo àquela tarde.

Depois de meia hora procurando pelo bendito livro e depois de revirar todo o quarto atrás dele, a princesa foi obrigada a concluir que não havia trazido-o para cá. Mas então onde estava? Lembrava-se bem de estar lendo-o um pouco antes de Yukino ir buscá-la esta tarde sob o carvalho. Espere... era isso! Agora se lembrava bem. Havia deixado o livro embaixo da grande árvore quando fora levantar e simplesmente esquecera-se de pegá-lo.

Colocando uma capa sobre os kimonos, Mitsuki saiu sorrateiramente do castelo, tomando cuidado para evitar as áreas onde as festividades ocorriam, por uma porta lateral da ala dos criados, a qual dava no pátio no palácio, onde outra festa estava ocorrendo.

Vários homens e mulheres youkais estavam ao redor de uma grande fogueira, praticamente todos eles bêbados e fazendo todos os tipos de orgias imagináveis e inimagináveis. O cheiro era simplesmente horrível e a princesa sentia-o ainda mais forte devido ao seu olfato aguçado.

Ela passou ao largo de tudo aquilo, procurando manter-se nas sombras para evitar qualquer tipo de coisas indesejadas. Mas todo o seu esforço mostrou-se em vão quando um par de braços a agarrou por trás e tampou a sua boca, impedindo-a de gritar.

- Ora, ora, veja o que temos aqui – veio a voz, um tanto próxima demais de seu ouvido, daquele que a segurava.