"O AMOR... É CEGO?"
Autor(a): Lynsay Sands
Adaptação: Nessinha Cullen
Shipper: Edward/Bella
Gênero: Romance, muito humor e algumas cenas "picantes" (com avisos prévios para aqueles que não curtem esse tipo de leitura).
Censura: NC-13
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Inglaterra, 1720
Amor Perigoso!
Edward Cullen, o conde de Masen, sabia que a bela e estabanada lady Isabella Swan poderia ser perigosa. Ela era, na verdade, um desafio. Mas era exatamente o desafio que ele precisava...
Isabella, ou simplesmente Bella – como preferia ser chamada –, sempre desejou encontrar um noivo, mas sua madrasta queria mais ainda que a enteada encontrasse alguém disposto a se casar com ela. Bella concordava que os óculos escondiam a beleza de seu rosto, mas se ela seguisse o conselho da madrasta e não os usasse, como iria enxergar? Já causara confusão suficiente para merecer um apelido infame nos círculos sociais em função de sua deficiência visual. Todos os possíveis pretendentes pareciam sair correndo... Até que de repente apareceu um cavalheiro disposto a dançar com ela. Um homem elegante, atraente, misterioso...
E Bella se vê a tropeçar... no amor!
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CAPÍTULO I
Londres, 1720
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— Masen! Que bons ventos o trazem a cidade?
Lorde Edward Cullen, o conde de Masen, desviou a atenção dos casais que dançavam e olhou para o homem que se aproximara dele. Alto, forte, moreno e tremendamente bem-apessoado: Emmett McCarty.
Edward e McCarty, seu primo, haviam sido muito amigos no passado. O tempo e a distância, porém, haviam enfraquecido esse laço, com uma pequena ajuda da guerra com a Espanha. Ignorando a pergunta de Emmett, ele retribuiu o cumprimento com um leve sorriso e voltou o olhar para a elegante coreografia dos homens e mulheres na pista de dança.
— Está aproveitando a temporada, McCarty? — perguntou.
— Muito, muito. Sangue novo. Novas caras.
— Novas vítimas — Masen acrescentou em tom seco.
— Também. — Emmett riu. Ele era conhecido pelo sucesso em seduzir jovens inocentes. Só não fora ainda forçado a sair da cidade devido a seu título e fortuna.
Balançando a cabeça, Edward esboçou um sorriso pálido.
— Você não se cansa nunca da caça. Lamento dizer que todas me parecem a mesma. Posso jurar que essas são decepcionantemente iguais às jovens que estavam debutando a última vez em que estive aqui, que eram iguais às do ano anterior.
O primo achou graça e sacudiu a cabeça.
— Faz dez anos que você se deu ao trabalho de vir pela última vez à cidade, Edward. As jovens de então estão todas casadas e procriando, ou a caminho de se tornarem solteironas.
— Diferentes rostos, mesmas damas — Edward disse, dando de ombros.
— Tanto cinismo — censurou Emmett — Você soa como um velho, homem.
— Apenas mais velho – Edward corrigiu. — Mais velho e mais sábio.
— Não. Velho! — Emmett insistiu, rindo e voltando o olhar para as pessoas que se movimentavam diante deles. — Além disso, há algumas verdadeiras belezuras este ano. Aquela loira, por exemplo, ou a morena com Cheney.
— Hum. — Edward observou-as. — Corrija-me se eu estiver errado, mas acho que aquela moreninha, por mais encantadora que seja, não tem nada na cabeça. Assim como lady Emily que você seduziu da última vez em que estive aqui.
Emmett arregalou os olhos, surpreso com a observação.
— E a loira — Edward continuou, examinando a jovem em questão — é filha de pais comerciantes, muito endinheirada, e à procura de alguém que tenha título para se juntar. Mais ou menos como Kate Ainsley, outra de suas conquistas.
— Acertou em cheio — Emmett admitiu, parecendo um pouco incrédulo. Alternando o olhar de uma mulher para outra, ele riu contrafeito: — Agora você estragou tudo. Eu estava considerando dar atenção a uma delas, ou a ambas, mas, depois do que disse, elas perderam qualquer encanto. — Franzindo a sobrancelha, Emmett esboçou uma reação: — Ah, mas conheço alguém que você não conseguiria analisar com tanta facilidade.
Pegando Edward pelo braço, ele obrigou o primo a circular até o outro lado do salão, parando então.
— Lá está ela! – disse, satisfeito. — Aquela jovem com vestido de musselina amarela. Lady Isabella Swan. Lanço o desafio de que você se lembre de alguém de sua última temporada com quem compará-la.
Edward examinou a jovem em questão. Mignon, de aparência muito delicada e adorável como uma rosa recém-desabrochada. Tinha os cabelos castanho-escuros, rostinho redondo, olhos grandes e expressivos e lábios carnudos, e parecia tão deprimida ao observar a sua volta como jamais vira qualquer outra jovem. Sua curiosidade foi aguçada.
— Da última temporada? — perguntou.
— Isso – confirmou Emmett, divertido.
— Por que não está dançando? Uma lindeza como ela deveria estar com todas as danças prometidas.
— Ninguém se atreve a tirá-la, e, se você quer bem a seus pés, é melhor que também não o faça.
Edward levantou as sobrancelhas, de modo inquisitorial.
— Ela é tão cega quanto um morcego e um perigo para as canelas — avisou Emmett, balançando a cabeça em confirmação diante do olhar incrédulo de Edward. — De verdade, ela não consegue dar um passo sem pisar em seu pé e tropeçar. Ela nem sequer consegue andar sem tropeçar em tudo. — Ele fez uma pausa, avaliando a expressão de seu primo. — Sei que você não acredita. Eu também não acreditava. — Emmett voltou-se para fitar a jovem e continuou: — Fui bem avisado, mas não dei ouvidos e a convidei para jantar — disse, observando Edward. — Estava usando calças escuras aquela noite... infelizmente. Ela confundiu meu colo com a mesa e colocou a xícara de chá em mim. Ou, melhor, tentou. A xícara capotou. — Emmett demonstrou desconforto à mera lembrança. — Pobre de mim, ela quase queimou minhas partes baixas.
Edward encarou o primo e caiu na risada.
— Isso. Ria. Mas, se eu nunca tiver um filho, legítimo ou não, será por culpa exclusiva de lady Isabella.
Sacudindo a cabeça, Edward riu ainda mais, o que lhe fez tão bem. Havia anos não achava a mínima graça em nada. Mas a imagem daquela linda florzinha perto da parede, confundindo o colo do primo com uma mesa e derrubando uma xícara de chá era valiosa.
— O que você fez? — finalmente perguntou.
Emmett meneou a cabeça e levantou as mãos em um gesto de desalento.
— O que poderia fazer? Agi como se nada tivesse acontecido, fiquei onde estava e tentei não chorar de dor. — Olhou novamente para a jovem com um suspiro. — E, verdade seja dita, acho que ela nem notou o que havia feito. Dizem que ela enxerga bem com os óculos, mas é fútil demais para usá-los.
Ainda sorrindo, Edward seguiu o olhar que o primo dirigiu à jovem, observando com atenção seu ar tristonho.
— Não, ela não é fútil — ponderou, vendo a mulher mais velha ao lado de Isabella murmurar alguma coisa, levantar-se e sair.
— Bem... – Emmett ia dizendo, mas parou quando Edward fez menção de se dirigir à jovem. Balançando a cabeça, ele balbuciou: — Você foi avisado.
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— Não force a vista para não ficar estrábica, por favor.
Aquilo não era um pedido, mas sim uma ordem, e Bella já estava farta das ordens da madrasta. Se ao menos permitisse que ela usasse óculos, não precisaria estreitar os olhos. Não ficaria tampouco tropeçando nas coisas e nas pessoas. Mas não podia usar os óculos porque afastaria os pretendentes.
Como se seus modos desastrados não os afastasse, refletiu Bella cansada, e intimamente riu dos pequenos "acidentes" que tivera desde que chegara a Londres.
Além de não enxergar as mesas em que deveria colocar as bandejas de chá, tivera um tombo feio na escada. Por sorte, não havia se machucado muito, só alguns arranhões e algumas manchas, mas não quebrara nada. Houvera também o pequeno incidente de cair na frente de uma carruagem em movimento, sem falar de ter posto fogo na peruca de lorde Newton.
Um novo suspiro escapou dos lábios de Isabella ao lembrar-se do sermão de Irina depois do último acidente. A madrasta havia decidido que se ela era tão cega e desastrada sem os óculos, só havia uma alternativa. No futuro, quando na presença de outras pessoas, teria de ficar sentada quieta. Não poderia tocar em castiçais, xícaras, pratos, ou seja, basicamente em nada. Não devia mais participar das refeições com as visitas, e sim dizer que não estava com fome. Mesmo que estivesse. Tampouco devia beber. Sair para caminhadas estava fora de questão se uma criada não estivesse junto.
Sempre que Irina terminava tais discursos, só restava a Bella, quando havia outras pessoas presentes, sentar-se ao lado da madrasta, procurando parecer serena. O que significava não estreitar os olhos.
Com um suspiro, Bella voltou a olhar para os vultos que desfilavam pela pista de dança. Cansada, abaixou os olhos para as próprias mãos. Seria mais uma noite entediante.
— Posso ter o prazer desta dança?
Apesar de ouvir o convite, Bella não se deu ao trabalho de levantar os olhos. Para quê? Não ia conseguir ver nada direito mesmo. Em vez disso, aguardou que a madrasta respondesse, perguntando a si mesma quem seria o estranho que ainda não ouvira falar de seus desastres. Se tivesse ouvido, com certeza não se aproximaria.
Percebendo que Irina ainda não havia declinado o convite em seu nome, alegando que ela estava muito cansada, ou qualquer outra desculpa polida, Bella olhou de lado e viu que Irina, ou melhor, o borrão rosado como conseguia identificá-la, não estava mais lá. Nesse instante um borrão preto ocupou a cadeira, sobressaltando-a.
Forçando os olhos, ela tentou em vão ver vestígios rosa forte, cor que a madrasta usava, à sua volta.
— Acredito que a dama que estava sentada aqui até um minuto atrás saiu em busca de algo para comer — o estranho disse-lhe tão próximo ao ouvido que Bella pôde sentir sua respiração.
Contendo um estremecimento, voltou de imediato a atenção para o homem a seu lado. Ele era dono de uma voz grave, muito agradável, e pelo que conseguia entrever de sua figura, era bastante grande. Pela milésima vez, desejava estar de óculos para poder enxergar.
— Ela não lhe disse aonde ia? — perguntou o estranho. — Pareceu-me vê-la falando com você antes de sair.
Bella corou um pouco, e tornou a fitar a mancha colorida que se movimentava pela pista de dança, admitindo:
— Talvez tenha dito. Acho que eu estava distraída com meus pensamentos e não prestei atenção.
Embora tivesse uma vaga lembrança de Irina ter comentado alguma coisa, Bella estava mergulhada demais em autocomiseração para prestar atenção.
Era muito humilhante ficar sentada, tendo como distração apenas fragmentos de conversa das pessoas que passavam, muitas vezes tecendo, indelicadamente, comentários a seu respeito. Seus desastres aparentemente eram a piada da temporada. Tinha ganhado o apelido de estabanada Isabella, e todos ficavam na expectativa de qual seria o próximo "acidente" para se divertirem.
— Dizem que você é tão cega quanto um morcego, e fútil demais para usar óculos.
Bella piscou os olhos surpresa diante dessa inesperada declaração. Se a indelicadeza das palavras dele a surpreendeu, ela pôde perceber que surpreenderam seu interlocutor ainda mais. A respiração dele ficou suspensa como se tivesse se dado conta do que havia dito. Olhando de soslaio, deu para perceber que ele levantara a mão para cobrir a boca.
— Perdão, acho que estive tempo demais longe da sociedade. Nunca deveria...
— Ora, não se preocupe. — Bella dispensou as desculpas e afundou na cadeira com um ar desanimado. — Está tudo bem. Sei o que as pessoas falam. Acham que, além de desastrada, eu sou surda, pois não se preocupam de falar na minha frente ou por trás de seus leques. Falam bastante alto para que eu ouça. — Ela imitou o modo como as pessoas falavam, fazendo caretas. — Oh, vejam, lá está a coitadinha, a estabanada Isabella.
— Peço desculpas — ele disse baixinho.
— Não precisa se desculpar. Pelo menos você disse na minha cara.
— Sim, mas... — O rapaz pareceu relaxar um pouco agora que as mãos dela não significavam mais uma ameaça. — Na verdade, era mais uma pergunta. Eu queria saber se você é mesmo como dizem.
— Bem, não sou tão cega assim. — Bella sorriu tristonha. — Enxergo bem de óculos. Mas minha madrasta os tirou de mim. — Ela arriscou um sorriso na direção dele e esclareceu: — Irina parece acreditar que terei mais sorte de incendiar o coração de um bom partido sem os óculos. Embora a única coisa em que pus fogo até agora foi na peruca de lorde Newton.
— Como? — Edward perguntou, espantado. — Na peruca de Newton?
— Sim — ela confirmou, recostando-se na cadeira e tentando afastar a lembrança. — Pois é. Mas, se quer saber, a culpa não foi inteiramente minha. Ele sabia que eu não enxergava bem sem meus óculos. Por que cargas d'água tinha de me pedir para levar a vela mais próxima a ele? — Bella fez uma pausa e olhou de soslaio na direção do estranho. — Sem a peruca, ele é careca feito uma bola de bilhar, não é?
Pareceu-lhe que ele aquiesceu com a cabeça, mas era difícil dizer. Também percebeu sons abafados, como se ele estivesse lutando contra o riso.
— Vamos, pode rir — Bella disse, sorrindo. — Eu também ri, só que não na hora.
Ele então relaxou um pouco mais e, como estivessem sentados lado a lado, Bella pôde até sentir o vigor de seu braço e de sua perna que encostaram ligeiramente nela.
Bella apertou os olhos, tentando fazer com que o rosto do estranho entrasse em foco. Queria muito ver como ele era. Gostava do som de sua risada e de sua voz, firme e macia. E, embora devesse se afastar um pouco para não permitir a proximidade do quadril dele roçando no seu a cada movimento, gostava da sensação que sentia, por isso fazia de conta que não percebia.
— Como Newton reagiu a esse pequeno acidente?
— Nada bem. Culpou-me, claro. Disse-me um par de grosserias também. Acho que teria me agredido se os criados não o tivessem detido e tirado de casa — admitiu, suspirando. — É claro que depois minha madrasta não parou de fazer discurso sobre como devo e não devo me comportar daqui para frente.
— Que tipo de discurso?
— Quase tudo é proibido. — Bella sorriu. — Veja, não posso comer em público, não posso beber em público... De fato, não posso tocar em nada, como castiçais, vasos de flor, nada. Não posso nem sair para um passeio sem uma companhia para me guiar.
— Mas ela não disse nada quanto a dançar, não é?
— Não, mas isso nem precisava. — O sorriso de Bella esvaneceu-se. Ela hesitou por um momento, depois tentou explicar: — Não enxergo nada direito. Dançando só vejo borrões de cor e luz ao meu redor, e acabo perdendo o equilíbrio. — Ela fez uma pausa, sentindo que começava a corar à lembrança da última alma corajosa que a havia tirado para dançar. Tropeçara nele e ambos acabaram caindo no chão. Deveras constrangedor.
— Então mantenha os olhos fechados.
— Como? — Bella voltou o olhar para o vulto escuro a seu lado.
— Se mantiver os olhos fechados, você não perderá o equilíbrio — o rapaz lhe explicou e ela sentiu a mão dele aproximar-se da sua, para ajudá-la a levantar-se.
Estava pronta para recusar, mas o toque da mão dele provocou-lhe um frisson. Foi uma sensação estranha, excitante, que a fez sentir-se viva.
— Eu não... — começou a dizer, parando quando ele pôs a mão em seu queixo, levantou seu rosto e inclinou para olhá-la nos olhos.
Por um breve momento, ela contemplou claramente o mais lindo par de olhos verdes aveludados que já tinha visto; ele então se afastou um pouco e saiu de foco.
— Confie em mim.
Não era bem um pedido, mas uma imposição. Bella pensou naqueles olhos tão brilhantes e tão gentis, e concordou com a cabeça. Ele ajudou-a a se levantar e conduziu-a entre as pessoas até a pista de dança.
— Agora... — A voz dele era calma e suave ao tomá-la nos braços. — Feche os olhos e relaxe.
Bella estava hipnotizada.
— É só me acompanhar. Não deixarei que você tropece.
Apesar de ter acabado de conhecê-lo, Bella confiou nele e sentiu-se em segurança. De olhos fechados, contava apenas com seus ouvidos e as mãos do rapaz para conduzi-la. Ela se deixou levar pelos toques dele: um aperto na mão, uma pressão mais forte em sua cintura. E a sensação do ar passando conforme rodopiavam e rodopiavam pelo salão, sem escorregões, nem tropeços. Pela primeira vez desde a sua chegada a Londres, Bella não se sentia desajeitada. Estava nas nuvens.
Quando a música parou, ele apertou-lhe e, segurando-a pelo braço, conduziu-a pelo salão.
— Você dança divinamente, milady — disse-lhe ao ouvido, abrindo caminho entre os demais pares.
Bella ficou ruborizada e sorriu orgulhosa, balançando a cabeça.
— Não, milorde. O crédito não é meu. Desconfio que é você quem dança divinamente. Com outras pessoas com quem dancei só fiz tropeçar e cair.
— Então a culpa é dessas pessoas. Você é leve e graciosa como uma pluma.
Bella pensou por um breve momento e acabou concordando:
— Talvez esteja certo. Afinal, se fosse só um problema meu mesmo o seu óbvio talento não teria sido fácil me conduzir. Talvez meus parceiros anteriores estivessem um pouco nervosos e inseguros.
Ela percebeu o riso na voz dele e levantou as sobrancelhas, desconfiada.
— Milorde?
— Sua sinceridade. Estou encantado com sua falta de falsa modéstia. Isso nunca havia me incomodado antes, mas agora o nariz empinado das pessoas quando estão na cidade me é bastante desagradável. Achei deliciosa sua franqueza.
Bella sentiu-se rubra, mas os primeiros acordes de uma nova música ecoaram no ar e seu parceiro tornou a tomá-la nos braços.
— Feche os olhos — ele recomendou, apertando o braço em volta de sua cintura.
De olhos fechados, Bella entregou-se ao prazer da dança. Passou-lhe pela cabeça que não deveriam estar dançando tão colados. Mas se tentasse evitar essa proximidade, talvez se sentisse insegura e poderia tropeçar como antes. Além do mais, era tão gostoso estar nos braços dele. Sentia-se aninhada e segura.
— Por que você não desobedece a essa sua madrasta?
Bella piscou, tentando em vão ver o rosto diante dela.
— Como assim?
— Por que você simplesmente não usa seus óculos?
— Ah, até tentei no primeiro dia em que cheguei a Londres — ela disse com certa irritação. — Desci com eles pronta para o baile de lorde Yorkie. Irina ficou lívida. Arrancou os óculos de meu rosto e quebrou-os bem diante de meus olhos para que eu visse o que estava fazendo.
— Ela teve a coragem de quebrar seus óculos? — Edward indagou, visivelmente chocado com a desfaçatez da madrasta.
Bella balançou a cabeça, séria.
— Irina sempre dá um jeito de ser obedecida.
— Mas se ela os quebrou, como você faz para circular pela casa? — ele quis saber, pesaroso.
— Não circulo. — Bella deu um sorriso desolado e admitiu um pouco envergonhada: — Preciso ser guiada pelos criados. É horrível.
— Imagino que seja — ele sussurrou.
— Hum. – Ela refletiu por um breve instante sobre toda essa humilhação e então disse: — O pior de tudo é que não posso fazer nada sem meus óculos. Não posso bordar, arrumar as flores, nada. E é impossível ler. Mesmo que eu grude os livros nos meus olhos, não dá para ler por muito tempo, pois acabo ficando com dor de cabeça. Imagine o meu tédio. Não faço outra coisa a não ser ficar sentada, tamborilando os dedos.
Edward teceu um comentário solidário embora seus lábios esboçassem um leve sorriso. A expressão amuada de Isabella era deliciosa de se ver. Ela era muito encantadora. Ainda que talvez não da maneira tradicional. Os lábios eram grandes demais para serem considerados bonitos, mas ele os achava simplesmente sedutores. E o nariz talvez fosse um tanto atrevido para os padrões da época, mas ele gostava.
Edward estava tão ocupado em observar as feições de Isabella que mal percebeu quando a música mudou. Finalmente acertou o passo para a valsa, sem, contudo, desviar os olhos do rosto dela, enquanto ouvia as inúmeras atribulações de uma vida sem óculos.
E a lista era indiscutivelmente longa.
Vestir-se era uma tarefa difícil, pois sempre dependia do humor da criada e ficava torcendo para estar com a roupa adequada. Nunca sabia como estava o cabelo e também para prendê-lo dependia da criada. Ela ia explicando e parecia não ouvir as afirmações dele de que seu penteado estava perfeito e seu vestido era impecável.
Isabella obviamente não buscava elogios. Corando muito, ela ignorou as palavras dele e continuou a explicar que tinha que ser guiada pela casa pela mesma criada, por temer cair da escada ou tropeçar em alguma coisa que não visse. E, sem dúvida, confundir uma pessoa com outra era mais um problema, embora começasse a ficar exímia em reconhecer vozes. Era também irritante deixar a comida cair no colo, muito embora isso só acontecesse na intimidade, uma vez que não tinha autorização para comer ou beber na frente de visitantes. Só faltava usar babador para poupar as roupas.
Edward mordeu os lábios para não rir ao imaginá-la de babador, mas as coisas que contava foram ficando mais graves, como quase ter incendiado a casa algumas vezes ao acender as velas e ter derrubado o mordomo e vários criados inúmeras vezes, sabendo que todos a odiavam por causa disso. Eles se encolhiam quando ela estava por perto e já cochichavam que ela era um desastre ambulante.
Isabella contava cada detalhe de forma animada, e Edward tinha dificuldade de reprimir um ar divertido e conter a risada, até que ela percebeu o esforço que, por delicadeza, ele estava fazendo e lhe disse que podia rir à vontade.
A sonora gargalhada que soltou surpreendeu o próprio Edward. Lady Isabella fez sua alma sentir-se leve e seu coração doer de ansiedade.
— Você tem uma linda voz, milorde. E uma linda risada também — ela elogiou, sorrindo.
— Obrigado, milady — disse ele, refazendo-se do riso. — É bondade sua me dizer isso, depois de meus maus modos em rir de suas desgraças. Peço-lhe de coração que me perdoe.
— Imagine! — Bella retrucou. — Olhando em retrospectiva, parece mesmo engraçado, embora duvide que Irina acharia.
À menção do nome da madrasta, o humor de Edward mudou e, muito embora ela não conseguisse ver, a expressão de seu rosto se fechou.
— Desculpe-me a sinceridade, milady, mas sua madrasta me parece bastante maldosa, uma cretina.
— Nossa! — Bella olhou-o de soslaio. — Não diga uma coisa dessas.
— Por que não? — ele perguntou, divertido. — Não tenho o mínimo medo dela.
— Não, mas se ela soubesse ficaria furiosa e não iria gostar de você por referir-se a ela desse jeito.
— Não faço a mínima questão de que ela goste ou não goste de mim... — Edward começou a dizer, mas foi interrompido por ela.
— Oh, mas deveria. Se Irina não gostar de você, não permitirá mais que eu dance com você e... eu estou adorando — desabafou Isabella um tanto constrangida.
O ar de desprezo que havia no rosto de Edward esvaiu-se diante dessa confissão, dando lugar a um olhar terno.
— Bem, nesse caso vou me esforçar por tratá-la com o máximo respeito. — Ele percebeu o constrangimento dela e acrescentou: — Porque eu também gosto muito de dançar com você.
Bella levantou o rosto radiante. Foi uma pena não conseguir enxergar o sorriso que ele lhe devolveu.
Como que por instinto, Edward dirigiu o olhar para o lugar onde Isabella estava quando a viu pela primeira vez. Diminuiu um pouco o passo ao vislumbrar a dama que estava sentada junto a ela naquele momento. A madrasta estava de volta ao mesmo lugar depois de saciar a fome e percorria o salão com os olhos à procura da enteada sumida. Não demorou muito para que localizasse a atrevida.
Como se esperava, Irina não pareceu muito satisfeita ao vê-los dançando. Na realidade, parecia horrorizada. Ao perceber que ela começava agora a se encaminhar em linha reta em direção a eles, Edward fingiu não vê-la e procurou, como um guardião, conduzir Isabella para a direção oposta.
Imaginou que, ao se afastar, Irina pararia e aguardaria que completassem a volta até se aproximar dela, mas, olhando de relance, viu que ela os seguia pelo salão. Aparentemente, a madrasta era do tipo persistente. Era o que deveria ter imaginado. Ela lembrava um buldogue, pensou sem qualquer generosidade, e fitou a jovem em seus braços.
— Por que toda essa determinação de sua madrasta para que você não use óculos?
— Ela quer que eu encontre o par perfeito. Meu pai ficará zangado se ela não conseguir, entende?
— Bem, de fato, não entendo — Edward balbuciou, mudando subitamente de direção ao ver que corriam o risco de serem pegos pela madrasta. Manteve-se em silêncio por um momento, tentando evitá-la, e então comentou: — Você certamente teria mais chance de encontrar o par perfeito se pudesse vê-lo.
— Devo confessar que também acho. Mas Irina não acha. Ela diz que não sou nada atraente de óculos e teme que isso acabaria com qualquer oportunidade, além de meu passado comprometedor.
— Passado comprometedor? — Surpreso com tal comentário, Edward parou de supetão na beira da pista de dança.
— Você não soube do escândalo?
Antes que Edward pudesse responder que não, um grande vulto escuro se projetou sobre ambos. Virando-se, ele franziu a testa, irritado ao se deparar com a inconveniente madrasta, que parou ofegante ao lado deles.
— Isabella! — Irina disse bruscamente, e Edward sentiu a jovem enrijecer em seus braços sob a chicotada daquela voz, afastando-se dele de um sobressalto para voltar-se para a madrasta.
— Diga, Iri... — Isabella foi agarrada por Irina e arrastada pelo braço, sem a menor cerimônia, para bem distante de seu par.
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N/A:
E aí, meus amados leitores?
Digam-me, o que estão achando dessa história? Eu sou suspeita para julgá-la, considerando que eu adoro de paixão esse livro e a autora dele, então vocês têm que me dizer a opinião de vocês. Esse primeiro capítulo foi cortado ao meio porque ele era um pouco longo, mas eu prometo que a continuação sairá em breve para vocês.
Mas sobre a história, o que acharam do Edward? E essa versão da Bella, hum? Bem desastrada, igualzinha a nossa Bellinha de Twilight rsrsrs. Hoje vocês viram como foi o primeiro contato do meu casal preferido de todos os tempos =D. Eles não são um amor juntos? Prometo que para a próxima semana vocês terão mais um pouquinho dessa deliciosiosamente hilária história de amor.
Ahhh! Antes que eu me esqueça, tem duas coisinhas importantes que eu gostaria de falar aqui:
1º: Esse capítulo eu dedico à autora do meu primeiro review em O amor... é cego?: Ana Krol (q infelizmente foi apagado quando eu postei pela primeira vez. Sinto muito, msm). Obrigada pela atenção, querida. Esse capítulo vai para você =D. xoxo
2º: É claro que eu não vou esquecer de outra leitora que também comentou nessa história em minha primeira postagem: Lidih. Eu lamento de verdade que os comentários de vocês duas tenham sido deletados, mas isso não quer dizer que eu me esqueci - que fique bem esclarecido isso. Ah, e tbm da leitora anônima Viviane, que disse ter amado minha humilde adaptação e me fez ficar felicíssima.
3º: Há outras adaptações de obras da Lynsay Sands por aqui no FF, caso vocês queriam saber. Duas delas, cuja adaptação está sendo feita pela Carina Miranda, são Amor à força e Always. Ambas são tão divertidas e engraçadas que é impossivel você não soltar gargalhadas enquanto lê. Eu, particularmente, tive uma séria crise de risos quando li o primeiro capítulo de Always, com direito a falta de ar e dor na barriga. Leiam, tenho certeza que vocês adorarão!
Bom, acho que isso é tudo. Eu vou, mas em breve estarei de volta com mais atualizaçoes para vocês.
Bjss e au revoir.
