Oláá. Cá estou eu, com o Capítulo 1 prontinho, direto das minhas aulas de Filosofia e Física! Também é um bocado enrolado, e acho que não faz muito sentido... Espero que gostem.
Alfred já estava correndo quando recebeu a bola. Corria o mais rápido possível, afinal, esse era o seu dever. Correr. Receber a bola. Passar a bola. Correr. Recebê-la de novo, e correr mais um pouco. Fazer o touchdown.
É claro que a estratégia do time consistia em bem mais que isso, mas ficava mais fácil para Alfred ver o jogo apenas como esses passos. Como se jogar futebol americano fosse simples assim, apenas uma sequência de atos mecânicos que de alguma forma também eram espontâneos. Assim como ficava mais fácil visualizar a vitória quando ele conseguia desviar dos armários que compunham a defesa do outro time.
Assim como era possível ouvir a vitória junto com o som da torcida.
E sentir a vitória quando o vento frio batia no seu rosto suado através do capacete.
Tudo isso dava a Alfred um barato tão grande que ele às vezes imaginava como seria se aqueles jogos durassem para sempre.
E então voltamos ao passe da bola. Naquela noite de sexta-feira, exatamente às oito horas e dezessete minutos, Alfred Franklin Jones, 17 anos, quarterback do time de futebol americano da Jemison High School, recebeu a bola de seu colega de time, pronto para finalizar a partida com um touchdown.
Tudo parecia sincronizado, em perfeito equilíbrio.
Até que ele sentiu.
Como se alguma coisa o segurasse, o garoto parou de correr. Era como se o mundo houvesse parado também. Não havia mais barulho, e de repente ele se sentiu estranhamente solitário, ali de pé no meio do campo.
- Ai!
Alguém havia lhe dado um beliscão na nuca, o que fez Alfred olhar para trás. Ali, bem atrás dele, estava uma fada.
Uma criaturinha alada, de cabelos azuis e orelhas pontudas, pairando atrás dele, rindo.
- Oi, Alfie! Ótimo jogo, hein?
E antes que o quarterback pudesse dizer qualquer coisa, a fada passou zunindo por ele e desapareceu. Alfred piscou várias vezes, tentando se lembrar do que devia estar acontecendo, até que percebeu um homenzinho ruivo parado à sua frente. Ele usava roupas e chapéu verdes, uma barba não muito grande e também tinha orelhas pontudas.
Um leprechaun, Alfred registrou mentalmente, lembrando-se de uma figura num livro de histórias que sua mãe lera para ele há muito tempo. O leprechaun abriu um grande sorriso, e tirou do ar uma moeda de ouro. O garoto arregalou os olhos, olhando da moeda para o rosto sorridente do ruivo, que riu e soprou a moeda, e esta desapareceu.
- Opa, acho que deu a minha hora. Ele está chegando. Até mais, Alfred!
O pequeno homem irlandês deu uma piscadinha marota, girou nos calcanhares e começou a andar, e num piscar de olhos, desapareceu.
- Que diabos...
Algo atrás das arquibancadas estava pegando fogo. As chamas estavam altas, e a qualquer momento iriam engolir a torcida. Alfred gritou para saírem dali, mas ninguém pareceu ouvir. E aliás, como o fogo de repente ficou azul? Assim, do nada. Ah, ele constatou, talvez não seja fogo afinal...
Uma gigantesca onda se ergueu acima dos torcedores, e em segundas a água invadiu o campo, começando uma espécie de inundação. Alfred tentou correr, ainda com a bola na mão, mas era como se seus pés estivessem colados no gramado. O garoto tentou gritar novamente, mas não saiu nada de sua boca. Só havia o silêncio, o puro e vazio silêncio... Estranho, pois a água não devia estar fazendo barulho?
- Jones! JONES! O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO, MOLEQUE? ACORDA!
De repente a água sumiu e tudo havia voltado à realidade, e o treinador, a torcida e o resto do time gritavam para Alfred correr. A visão da defesa da equipe adversária em massa correndo para cima dele, a apenas alguns metros de distância, o fez obedecer a ordem sem hesitar.
Logo recuperando a velocidade, o garoto olhou para o placar na lateral do campo. Faltava menos de um minuto para o fim da partida. Se Alfred conseguisse, eles ganhariam o jogo e o título de campeões regionais. Senão, azar.
Então de novo, ele estava vendo, ouvindo e sentindo a vitória. E, ainda com a bola segura em seus braços, foi quase possível apalpar a vitória quando ele se jogou no chão e ouviu toda a torcida ir ao delírio quando o juiz gritou "touchdown!"
Aquilo era mesmo uma viagem.
Um sorriso bobo se formou no rosto de Alfred quando os colegas o ergueram no ar. O capitão do time, Steve, parecendo não caber em si de felicidade, lhe entregou a taça, e Alfred a segurou acima da cabeça. Se fosse possível congelar algum momento, seria aquele, quando todos os sorrisos e gritos de comemoração se voltavam para ele. Para que visualizar a vitória quando você já a tem?
- Pensem "naquilo"! – o fotógrafo disse, mirando a lente da câmera para os rostos sorridentes dos jogadores, que riram. Foto batida, ele olhou para a pequena tela da máquina e levantou o polegar para o time.
- Ficou ótima, pessoal. Mando pra vocês depois.
- Coloca ela no anuário, Kevin!
- Vou ver se dá pra encaixar.
Kevin Stinson era o fotógrafo do jornal da escola e editor do anuário. O fato de ser simpático com todos e ter o poder de arruinar a imagem de qualquer um perante os colegas garantiu-lhe certa imunidade contra provocações e certas babaquices.
- Ei, Kevin! Acho que uma foto do quarterback que garantiu a nossa vitória ia ficar legal, não? – Steve deu tapinhas nas costas de Alfred, sorrindo orgulhoso.
O resto da equipe começou a ir embora, trocando cumprimentos e ainda falando sobre o jogo.
- Claro, eu sou o herói do time... – o quarterback fez uma pose exagerada, rindo – Que tal assim, Kevin?
- Ok, ok, Jones... Mas faz uma pose menos tosca. – o fotógrafo riu também e ajustou novamente a lente da câmera.
- Ah, deixa assim, ninguém nunca me leva a sério mesmo...
- Se você insiste... – o flash fez os olhos de Alfred arderem, mas ele não piscou.
- Ficou ótimo. Vai te garantir uma garota por semana até a formatura.
- Sério?
-Não. – Alfred levantou uma sobrancelha e suspirou.
- Tudo bem. Elas me amam mesmo assim.
- Vai nessa. – Kevin revirou os olhos e guardou a câmera na mochila. – Vou usar essa foto mesmo, tá? Não ficou tão ruim.
- Tudo bem. Você já vai embora?
- Acho que sim.
Eles estavam no campo, agora vazio. Era possível ouvir a conversa animada do resto do time bem ao longe. Os holofotes ainda estavam acesos nas laterais do gramado. Kevin e Alfred trocaram um aperto de mão, e começaram a andar em direções opostas.
- Mas, eu queria te perguntar uma coisa.
Alfred parou de andar e olhou na direção do outro.
- O quê?
- Pouco antes depois de receber a bola antes de fazer o touchdown, você parou de repente. Ficou uns dez segundos plantado ali, vendo o tempo passar. O que foi aquilo?
Na verdade, o garoto não havia pensado naquilo depois do jogo. Tinha sido peculiar, muito peculiar. Uma alucinação? Ou só sua cabeça viajando por aí?
Engraçado, porque para mim, durou mais do que dez segundos...
Alfred deu um sorriso sem graça e passou a mão pelo próprio cabelo.
- Ah, aquilo? Bem, foi... ahm… Pra dar uma emoção naqueles últimos minutos, né... Quer dizer, mais do que já tinha… e me deu um branco do que eu tinha que fazer, e acabei perdendo a hora, e aí... – ele falou muito rápido, e riu de um jeito forçado – É, foi isso.
- Ok, se você diz...
Kevin franziu as sobrancelhas e continuou a andar, acenando um tchau para Alfred, que caminhou em direção ao vestiário.
É claro que ele não acreditou. Desculpa mais esfarrapada. Aposto como vai comentar isso com o Steve e ele vai vir me encher o saco segunda-feira. Mas bem, antes essa desculpa do que dizer a verdade, não é? "Ei, pessoal, eu travei naquela hora porque vi uma fada e um leprechaun e depois alucinei com uma inundação no campo. Haha, mas pelo menos a gente ganhou, né?" Eles iam pensar que eu usei drogas antes do jogo e me expulsar do time... Acho melhor não falar nada, e se alguém perguntar, eu invento alguma coisa na hora. Tipo uma estrela cadente.
- É isso. Eu vou dizer algo como "passou um cometa naquela hora", e ninguém vai me incomodar, porque eu sou o quarterback e o herói e... – O capacete azul-claro, antes na sua mão, caiu no gramado. Os olhos azuis se arregalaram, e ele, pela segunda vez naquele dia, parou de andar sem motivo aparente.
Lá, do outro lado do campo, não muito distante de Alfred, estava um cavalo branco. Tão branco que chegava a brilhar, mesmo de longe. Estava com aquela postura confiante que os cavalos têm, como se estivesse esperando alguém digno o suficiente para ser seu cavaleiro e dono.
O que o um cavalo tá fazendo aqui, hein? Ainda mais em dia de jogo... Espera aí...
- CARALHO! É UM UNICÓRNIO!
Sim, o belo cavalo branco tinha um chifre saindo da testa.
- Ssshh, não fale assim, vai assustá-lo... – ele ouviu alguém sussurrar no seu ouvido. Era a mesma voz fina e alegre que lhe dissera "ótimo jogo, hein?" mais cedo, durante a partida. O garoto arriscou olhar de canto para de onde a voz vinha e encontrou o rostinho sorridente da fada.
- Você tem que confiar, Alfie. – ela disse, e começou a voar na direção do unicórnio.
Como que hipnotizado, o garoto a seguiu, deixando o capacete ali no chão. Ele não conseguia olhar para outra coisa além da fada (ela devia ter o quê, uns dois palmos de altura?) e do unicórnio, um pouco mais distante. Ela chegou lá antes e começou a acariciar os pêlos brancos da criatura, que pareceu muito confortável.
E então Alfred chegou lá. A fada riu. O unicórnio olhou para ele com olhos expressivos demais para um cavalo. O garoto estendeu a mão para tocar o pelo branco.
E num segundo, não havia nada na sua frente. Ele piscou várias vezes, aturdido, e começou a olhar ao redor, apenas para perceber que estava completamente sozinho no campo.
- Acho que deve ser o cansaço... Não sei o que mais me faria alucinar com coisas que não existem...
Ainda confuso pela visão, ele caminhou até o vestiário. A luz estava acesa, mas o lugar, vazio. Alfred tirou o uniforme e os protetores, guardou-os no seu armário, retirou as lentes de contato e entrou no chuveiro, ainda repassando em sua mente aquilo que deveria ter sido uma alucinação mas lhe parecera muito real.
Tão real.
A voz da fada, e o sorriso do leprechaun. O olhar do unicórnio. O brilho daquela moeda. A água inundando o campo. Será que aquilo tinha algum tipo de significado? Seria o seu subconsciente tentando lhe dizer algo, ou seriam só viagens sem sentido enquanto ele ainda estava anestesiado pela emoção de jogar?
Se está tentando me dizer alguma coisa, o que é?
Com gestos mecânicos, o quarterback saiu do banho, pegou roupas limpas na mochila e as vestiu. Pegou os óculos de grau (que ficavam guardados em seu armário durante os jogos), calçou os tênis, e apagou a luz antes de sair.
Indo na direção da saída da escola (que já estava completamente vazia, apesar de o jogo não ter acabado há tanto tempo assim), ele pegou o celular no bolso da calça jeans. Incrivelmente, havia se passado bem mais tempo do que ele percebera. Duas horas a mais do que deveria, na verdade. E seu pai lhe ligara bem menos vezes do que ele esperava.
É impossível que eu tenha passado DUAS HORAS INTEIRAS no banho. Inacreditável.
Sorrindo e acenando um "adeus" para o zelador que destrancou o portão da escola, ele saiu para a rua deserta e parou em frente ao ponto de ônibus. Tirou o iPod da mochila e colocou os fones, dando play em alguma música que começava com um solo de bateria interminável.
O ônibus não demorou muito, e estava vazio. Alfred deu sinal e subiu, colocando a mão no bolso do jeans, procurando pelo dinheiro trocado.
Tinha uma nota de cinco dólares e uma moeda. Uma moeda de ouro, lisa e maciça.
Uma moeda que ele não fazia ideia de como fora parar ali, já que ele só a vira uma vez na vida, e tinha certeza de que fora apenas uma alucinação em que a moeda desaparecera para sempre com um sopro do leprechaun...
Confuso, ele entregou os cinco dólares e recebeu o troco. Colocou o dinheiro no bolso, mas continuou com a moeda de ouro misteriosa na mão, olhando curioso para ela durante toda a viagem até a casa.
Quando chegou o ponto mais próximo do lar dos Jones, o ônibus parou. Alfred desceu e caminhou até a porta da frente. Lançando um último olhar para trás, pôde ver o veículo arrancando e percebeu que alguém olhava para ele de uma das janelas.
Um homenzinho ruivo, de cartola verde, que sorriu e deu uma piscadinha.
É, não fez sentido nenhum. Ou fez...? Fica a seu critério. Ou não. Tenho certeza de que você, meu caro leitor, está frustrado pelo meu embromation e pelo fato de o Arthur não ter aparecido ainda... Mas fiquem tranquilos, no próximo capítulo talvez ele faça uma ponta... /apanha.
Espero que tenham gostado a ponto de continuar acompanhando. Reviews vão ser muuuito apreciadas. Até o próximo capítulo! :D
