Prefácio

Sirius sentou-se na cama imunda, que rangia, reclamando de seu peso. Levantou uma ponta do colchão, e entre as tábuas de sustentação da cama, resgatou um pedaço de papel amassado. Desdobrou-o, e segurou-o contra seu peito, como se apertar aquele papel velho e esfarrapado fosse capaz de acabar com a saudade que parecia comprimir seu coração. Na foto, Remus sorria genuinamente, os cabelos dourados refletiam a luz do sol, e a grama verde e bem cuidada fazia com que a foto ficasse mais bela ainda. Não parecia real, tampouco. Não se lembrava ao certo deste dia, não se lembrava ao certo de grande parte de sua vida. O sofrimento que lhe afligia por ser condenado a viver e morrer com frio, fome, e saudade deixava as memórias dos bons tempos cada vez mais distantes. Cada vez mais embaçadas. E, por fim, cada vez menos reais, até Sirius convencer-se de que tudo não passara de um sonho. Uma ilusão.

Começou a despir-se. Suas costelas eram aparentes, seu corpo estava dolorido. Então era isso. Acabava aqui. Apesar de sonhar com o dia em que reencontraria Remus, o faria sorrir, o abraçaria e diria como sentira a sua falta, sabia que agora isso não era mais possível. Não haveria despedida. Não haveria abraço. Haveria apenas um silencioso adeus.

Caminhou para a fila, que andava em direção a pequena casa de madeira, pintada de branco. Estava frio, mas Sirius simplesmente não o conseguia sentir. Entrou na câmara, e com um baque, fecharam-se e lacraram-se as portas. O desespero se fez presente, tanto na gritaria das pessoas, quanto no choro. Tanto na vã tentativa de esmurrar as portas, quanto nas mãos que deslizavam pelas paredes, desistindo, aceitando. Percebendo que não havia saída, escapatória.

Quando o gás começou a se esgueirar pelos tubos, não tentou prender a respiração. Os corpos começaram a cair ao seu redor. E a última coisa que ouviu antes do seu próprio tombar-se, desdobrando-se ao destino, foi Remus sussurrando em seu ouvido, como se o vento tivesse trazido sua voz até ele. Te amo.