Capítulo 1 – Doença
– Feliz aniversário Isabella, querida! – meu avô pronunciou após cantar os parabéns. – Assopre as velas e faça um pedido.
20 anos. O tempo passou tão rápido pra mim. 10 anos haviam se passado e eu ainda sonhava com eles: Laura e Augusto Fontes. Como eu sentia falta deles. Nada compensaria a dor de não tê-los mais comigo, nada ocuparia o vazio que eles deixaram no meu coração. Nem mesmo Alfredo, meu avô, conseguiu diminuir a dor que me consumia pela falta dos meus pais.
Lembro-me, como se fosse ontem, Alfredo entrando em meu quarto. Apesar de minha pouca idade, eu pude compreender em seus olhos vazios e distintamente úmidos que algo havia acontecido. Ele, como um bom avô que preza pela saúde emocional de sua neta, me falou toda aquela história de que Deus precisava dos meus pais ao seu lado e eles tiveram que partir para o céu. Quantas crianças já ouviram aquilo? Muitas eu presumo. História manjada; tanto que eu a ouvi sendo repetida inúmeras vezes pelas pessoas que conheceram meus pais. Isso me chateava, não por causa do déjà vu, mas sim porque eu não acreditava naquilo. Meus pais estavam mortos. Enterrados. Nada mais poderia mudar o que tinha acontecido e nada diminuiria minha dor; talvez o tempo fizesse alguma diferença como alguns diziam, mas naquele momento o que eu mais desejava era mergulhar na escuridão com eles e nunca mais abrir os olhos.
Bem, como eu esperava o tempo não diminuiu minha dor, apenas fez com que eu obtivesse força para lidar com ela; para construir uma camada protetora forte o suficiente para deter seu crescimento contínuo. Eu não me considerava uma pessoa feliz; pra mim, felicidade só se encontrava em histórias. Sim... eu estava infeliz ! Não tinha pais, amigos, irmãos. Apenas Alfredo, que já estava ficando muito velho e não demoraria muito até que ele também fosse tomado de mim.
– Pedir o que vô? Eu não tenho o que pedir. A única coisa que eu desejo é impossível se tornar real ou você vai me dizer que meus pais vão voltar hein?! Vai vir com aquele monte de histórias tolas e imaginativas sobre mágica?! Desculpe, mas adivinha: eu cresci!
Ouvi Alfredo chamar por mim enquanto eu corria para o meu quarto, mas eu o ignorei. Eu queria ficar sozinha... Só eu e minha amargura compartilhando o mesmo corpo. Subi as escadas em velocidade recorde, tropeçando em meus próprios pés. Por sorte minha coordenação motora sempre esteve ao meu favor, e me impediu de rolar escada a baixo e terminar meu aniversário na emergência de algum hospital. Bati a porta do quarto com força quando entrei. O barulho era um aviso que Alfredo conhecia claramente: "Não incomode!"
Meu quarto era um dos únicos lugares em que eu me sentia tranqüila e infinitamente confortável. Meus pais haviam me deixado uma quantidade significativa de dinheiro que Alfredo administrava muito bem, e por isso não me faltava nada. O lugar era bem planejado e moderno; eu mesma o havia mobiliado e pintado à meu gosto. A cama ficava encostada na parede leste e o grande guarda-roupas na oeste. A janela ficava de frente para a porta e ao seu lado, a escrivaninha com meu laptop e diversos livros. O centro do quarto era vazio de mobília... Havia apenas um grande tapete preto e várias almofadas brancas – na verdade o quarto inteiro era tomado por esse contraste preto-e-branco que revelava o quanto a vida tinha perdido a cor pra mim – onde eu costumava passar tardes inteiras deitada ouvindo música.
Ah... Música! A única coisa que me fazia sentir liberdade, que me fazia voar. Esquecer do mundo, dos problemas, das pessoas e pensar apenas naquele momento; em cada batida agitada ou calma, suave ou grosseira, simples ou composta.
As paredes eram lotadas de pôsteres que estampavam os rostos daqueles que me faziam flutuar. Linkin Park, Three Days Grace, Papa Roach, Manacá, Capital Inicial, Evanescence, Luxúria e vários outros, sempre ali, compartilhando meus momentos mais íntimos. E lá estavam eles novamente, ao meu lado, salvando com suas canções o que sobrou do que devia ser uma data feliz.
A manhã passou rapidamente e o tempo em que fiquei sozinha me fez repensar sobre certas atitudes. Eu era infeliz, isso eu não poderia negar, mas era certo envolver Alfredo em minha dor? Ele estava velho e precisava de paz, mas eu o estava fazendo infeliz comigo. Meu avô não tinha culpa de nada! A culpa era minha por descontar nele a ira pelos caminhos que minha vida tinha seguido.
Eu vi que estava sendo egoísta; precisava me desculpar, afinal, ele havia se preocupado tanto em celebrar meu aniversário para tentar me deixar mais feliz e eu o decepcionei.
Antes de sair do quarto vi que já eram duas da tarde. Não me dei conta do horário em que fiquei trancada. Alfredo já devia ter almoçado. Desci as escadas e fui para a cozinha, mas lá só havia um bilhete com sua caligrafia dizendo para eu esquentar a comida que ele tinha deixado na geladeira.
Eu não iria comer. Bom... Pelo menos não agora. Tinha que me desculpar primeiro. A consciência estava pesando e eu odiava me sentir culpada. Droga!
Fui ao quarto dele – uma ocasião muito rara devido ao trato que tínhamos: ele fora do meu quarto e eu fora do dele –, mas ele também não estava. Alfredo andava saindo muito durante os últimos tempos e nunca dizia aonde ia e eu já estava começando a me preocupar com isso. Antes de sair notei uma foto nossa no criado-mudo – bem antiga por sinal – e fui até lá para pegá-la. Passei levemente o dedo sobre o vidro protetor, me lembrando daquele dia. Estava ensolarado e Alfredo havia me levado para passear na praia de Copacabana. Meus pais ainda eram vivos.
Suspirei. Era tão difícil lembrar esses momentos. Alfredo lutou para me criar sozinho e eu devia isso a ele.
Recoloquei a foto no lugar e um envelope branco que estava sobre o criado-mudo me chamou a atenção. Havia um emblema de uma clínica hospitalar de um dos amigos de meu pai e o nome do meu avô estampado, mas o que aquilo fazia ali? Eu sabia que Alfredo estava me escondendo algo e meu sexto sentido me dizia que suas saídas estavam ligadas aquele envelope. Calmamente eu o abri – na verdade o reabri, pois ele já fora aberto em outra ocasião ou pelo médico ou por Alfredo – e li por cima o diagnóstico de alguns exames, todos com o nome do meu avô, e aí senti o choque que uma das palavras me causou. "Câncer", eu murmurei atônita. Agora tudo estava claro pra mim. Parecia que tudo tomava forma diante dos meus olhos, me mostrando a verdade. As saídas não explicadas, os diversos remédios que ele tomava, as dores que ele costumava sentir – e que ele vivia afirmando que não era nada – tudo agora estava claramente infiltrado em minha cabeça me dando respostas para todas aquelas perguntas.
Alfredo estava doente. Muito, muito doente. Ele ia morrer! Oh, meu Deus. Meu avô ia morrer!
Uma pintada de dor me invadiu enquanto eu sentia o corpo tremer. Em questão de segundos eu senti o rosto úmido e o leve gosto de sal em minha boca. Minhas lágrimas não faziam jus ao desespero que circulava por minhas veias como veneno, adormecendo cada parte do meu corpo e então eu senti o chão gelado em minha bochecha molhada.
– Não! Ele não! – foram minhas últimas palavras antes de cair na inconsciência.
**
Eu estava em lugar inteiramente branco. Não havia fim, não havia começo. O branco se estendia por todas as direções e eu não via a linha do horizonte. Eu estava no meio do nada, vestida com um vestido preto, o único ponto no meio de todo aquele universo sem fim. O desespero começava a se manifestar conforme eu corria sem direção em busca de uma saída, mas eu não via nada no meio de todo aquele vazio. Continuei vagando inutilmente, procurando por qualquer coisa em que pudesse me agarrar para sair daquele lugar... Foi então que eu avistei outro ponto preto, distante. Uma ansiedade me invadiu junto ao alívio que veio logo em seguida quando eu percebi que não estava mais sozinha.
Comecei a correr o máximo que pude tentando alcançar o ponto. Conforme a distância entre nós diminuía, o ponto ganhava forma e logo percebi que era uma pessoa.
– Ei você. – gritei, mas a figura humana não mexeu um músculo. Ela estava parada, olhando em minha direção, quando pude perceber que não se tratava de uma simples pessoa. Era ele. Era Alfredo – Vô. Sou eu, Isabella.
Ele trajava um terno preto, a face pálida e enrugada me fitava com intensidade. Os cabelos grisalhos eram quase invisíveis. Ele não mudou sua expressão serena conforme eu me aproximava, fazendo-me ficar presa em seu olhar. Então quando eu estava a uns 15 metros dele, um buraco negro se abriu no chão, no espaço entre nós, ferindo aquele universo branco.
– Eu te amo Bella. – ele disse sorrindo, ainda imóvel. Parecia uma estátua humana que movimentava apenas os lábios.
Não havia meios de chegar até ele. Aquele abismo negro me assustava e parecia não ter um fim, assim como aquele vazio desprovido de cores. De repente ele começou a aumentar, sugando o chão em minha direção.
– Vô! – gritei exasperada. O abismo ia me sugar... Eu precisava correr.
E então eu corri o máximo que pude, enquanto o negro me seguia manchando o universo branco. Ele ficava cada vez mais próximo, aumentando meu desespero. Senti o chão faltar sob os meus pés e me dei conta que agora eu despencava, mergulhando no buraco negro. Eu gritei à plenos pulmões enquanto via a superfície branca ficar cada vez menor, até sumir. E eu havia sido completamente submersa naquele novo universo maligno, sozinha no esquecimento. Sentia-me sendo sugada para baixo, mais e mais fundo, até que ouvi chamarem meu nome.
– Isabella? Bella, meu anjo, responda. Isabella? – dizia a voz que eu conhecia muito bem.
– Vô?! – Um brilho surgiu na imensidão negra e eu me estiquei ao máximo para alcançar a luz.
– Eu estou aqui querida. – A voz dele foi tomada por alívio – Você está bem?
Nesse momento eu toquei a luz e um grande feixe de claridade foi lançado sobre mim, me cegando. Fechei os olhos tentando evitar a claridade repentina e quando voltei a abri-los vi uma imagem distorcida em minha frente.
– Bella, o que aconteceu querida? – Alfredo estava preocupado. O conhecia bem o bastante para sentir o tom que suas palavras tinham.
– Vô, eu... – Fiz força para sentar. Minha cabeça estava explodindo e levei os dedos até minhas têmporas fazendo movimentos circulares, tentando conter a dor que as pulsações proporcionavam. Notei que estava no sofá da sala.
– Você parece tonta, querida.
– Não. Eu estou bem. – disse-lhe forçando um sorriso. Pela expressão dele ficou claro que não o enganei.
– O que você tem Bella? Onde dói?
– É sério, vô. Eu estou bem! – disse agora com mais convicção e me pareceu que essa segunda tentativa havia funcionado. – Apenas minha cabeça está latejando um pouco.
Ele me encarou com alívio, o olhar sereno me acalentando. O terror do sonho começava a se dissolver enquanto eu começava a ter certeza que havia voltado para o mundo real, colorido e junto de Alfredo.
– Quanto tempo eu fiquei inconsciente?
– Eu não sei querida. Quando eu cheguei você já estava no chão, desacordada. – Sua expressão agora estava séria, manchada por um leve receio. – O que você fazia em meu quarto, Bella? Não foi você mesma que insistiu para fazermos aquele acordo idiota?!
Epa. Eu estava encrencada.
– Ai vô. Foi mal. – Na verdade havia sido péssimo. Alfredo nunca gostou muito desse acordo e sempre esperou um deslize meu para provar que eu estava sendo muito absurda. – É que eu queria pedir desculpas pelo meu comportamento infantil essa manhã, mas aí eu não te achava em canto nenhum e achei que você estivesse lá. E... – As palavras fluíam rápidas demais e eu tive que parar por alguns segundos em busca de ar.
– E? – ele perguntou, me incentivando a continuar. Ele parecia ansioso, mas de um jeito estranho, tenso; como se estivesse esperando por más notícias.
– E aí eu vi um... – Eu fiz uma pausa brusca. As memórias começaram a passar diante dos meus olhos fazendo-me lembrar do envelope, do nome da clínica, dos exames, de tudo. Entrei em choque.
– Bella?! O que foi querida?
Eu não respondi. Não tinha forças nem para movimentar os lábios. Eu até tentei, mas as palavras ficaram presas na garganta, me sufocando. Senti Alfredo chacoalhando meus ombros na tentativa de chamar minha atenção que estava presa em lembranças. Sem sucesso. Eu só conseguia pensar que o destino estava novamente cruzando meu caminho para mais uma vez arrancar outra pessoa de mim.
Quando o choque das lembranças passou, veio a reação. As lágrimas que até o momento estavam presas, agora escorriam deliberadamente pelo meu rosto. Em um movimento rápido, eu enterrei a cabeça no peito de Alfredo.
– Perdão minha Bella. – Dava para sentir a dor em suas palavras.
– Por que vô? – eu murmurei entre soluços.
– Eu devia ter sido mais cuidadoso. Não era para você ter visto nenhum daqueles papéis.
– Não! Você devia ter me contado! – Eu o encarei, exasperada.
– Me perdoe Bella! – Ele desprendeu seu olhar do meu por alguns instantes e logo voltou a me encarar. – Eu só não queria que você sofresse...
Minha expressão agora era de incredulidade. Ele só podia estar brincando. Ele acha que me pouparia da dor, me escondendo seu segredo? Será que ele não pensou que eu sofreria muito mais se soubesse da sua doença quando eu fosse obrigada a velar seu corpo? Pensar que conviva com ele achando tudo normal enquanto ele definhava? Sem dúvida a dor ia ser pior.
– Vô... Preste bem a atenção. – Suspirei tentando me manter calma, enquanto controlava as lágrimas. – Eu te amo e é claro que eu vou sofrer. Você é a única pessoa que eu tenho no mundo e não quero te perder. – Minha voz falhou nas últimas palavras. Eu ainda não tinha assimilado a seriedade dos fatos.
Alfredo era minha única família; tudo o que eu tinha. Eu o amava demais e a dor dele era a minha dor. Será que ele tinha entendido isso?
– Esse é um fardo que eu tenho que carregar sozinho. Eu não quero que você perca sua vida sofrendo por um velho condenado como eu. Eu quero que você seja feliz.
Parecia que não. Na verdade parecia não era uma palavra adequada. Ele não tinha entendido mesmo! Ponto.
Mas eu admirava aquele homem. Sempre forte, se negando a aceitar qualquer ajuda. Sempre querendo minha felicidade, não importando as circunstâncias.
– Vô... Pare de se condenar assim. Eu não vou perder minha vida ficando com você.
– Bella, eu...
– Eu não vou te abandonar. Prometo!
Os olhos deles brilharam por causa das lágrimas que estavam presas. Velho turrão. Até nesses momentos ele quer parecer forte.
– Obrigado. – ele murmurou e uma lágrima caiu.
Agora que eu sabia que podia perdê-lo, meus olhos se abriram para a realidade e eu pude ver o quão importante ele era para mim.
Idiota, idiota, idiota.
Eu me sentia uma completa idiota. Um ser desprezível em todos os aspectos. Tive tanto tempo com ele e nunca liguei para isso. Eu me odiava por ter dado as costas para a vida e para ele, vivendo em meu mundinho particular. Tantas coisas que poderíamos ter vivido juntos; tantas oportunidades que ele havia me dado de renascer e eu dei de ombros. Agora era a vida que estava dando as costas para mim, me roubando a única pessoa viva que eu amava.
Eu devia estar no lugar dele definhando, sofrendo. Era eu quem havia dado as costas para o mundo. Era eu a infeliz que detestava a vida e não Alfredo. Ele sempre gostou de viver.
Droga! Tudo era tão injusto.
Eu o abracei, me reconfortando em seu peito quente, molhando sua camisa com minhas lágrimas geladas.
Havia decidido recuperar o tempo perdido. Eu voltaria a viver e faria Alfredo feliz até sua última respiração. Eu aproveitaria cada segundo ao seu lado e faria de nossos dias contados, inesquecíveis.
– Eu te amo! – murmurei enquanto ele me acalentava. Senti seus dedos pousarem em meus cabelos castanhos, afagando-lhes com carinho. Meus olhos ardiam agora que as lágrimas tinham retornado a eles, mas eu não ligava. Queria apenas aproveitar aquele momento tão especial entre nós dois.
E fiquei ali, agarrada ao seu peito, ouvindo cada batida do seu coração e tendo a certeza do quanto aquele som agora era importante. Por quanto tempo ele continuaria cantando para mim? Eu não sabia. Mas aproveitaria cada segundo daquelas batidas enquanto fosse possível.
Mas e quando ele... Parasse? O que seria dali em diante? Essa era uma questão em que eu não queria pensar no momento. Eu ocuparia minha cabeça apenas com o presente, vivendo cada dia por vez sem ficar pensando no futuro doloroso que me aguardava.
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Bem... aí está o primeiro capítulo e espero sinceramente que tenham gostado. Ele pode paracer maçante para alguns, mas garanto que as coisas ficarão bem melhores ;D Aguardo reviews! Vou deixar aqui uma prévia do próximo capítulo:
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– Isabella Fontes! – respondi prontamente. – Senhor...?
– Edward Cullen.
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[...]
– Bem... a pessoa que eu mais admirei até hoje foi minha mãe. Ela era meu modelo de perfeição e era brasileira. Isso fez com que meu interesse pelo seu país de origem se tornasse algo meio que possessivo. Aprendi a língua, a cultura e finalmente estou aqui! O Brasil é cheio de maravilhas, de fascínio, de belezas e é um prazer para os meus olhos contemplar uma delas agora. – ele me fitou de modo intenso e eu não pude deixar de corar. – Você está rubra. – ele sorriu travesso e deslizou o polegar pela minha bochecha direita. – Não se envergonhe por ser bela.
– Obrigada! – eu sussurrei.
[...]
