N.A.: ~*Yo, Minna!
Aposto que levaram um susto quando viram a notificação de atualização dessa fic que inicialmente era para ser uma one, mas como havia dito nas notas finais, eu tinha em mente trazer um capítulo esclarecendo o que houve com a Sakura e outro mostrando como eles ficaram depois que ela contou. Bom, fiquei extremamente satisfeita com os vinte comentários que o capítulo anterior ganhou e os pedidos para que eu trouxesse esse capítulo e realmente espero que tenham gostado do que imaginei quando escrevi ele sobre o que tinha acontecido com a Sakura. Algumas pessoas acertaram parcialmente o que havia ocorrido e as parabenizo por isso! Vocês estão ficando muito espertinhos para o meu gosto ou estou ficando previsível demais kkkkkk
Sei que estou devendo capítulos de outras fanfics minhas, e que sou uma verdadeira cretina, e realmente devo me desculpar porque eu não conseguia escrevê-los de jeito nenhum! Acho que era porque minha mente fez greve em prol a esse capítulo aqui, porque nada saía e olha que tentei escrever os capítulos que estou devendo de outras fanfics! Vamos ver se é isso né, agora que está postado, acho que consigo voltar com as outras kkkk
É isso, gente! Preparem os lencinhos porque acho que vão precisar! Alerta máxima de drama =P
Capítulo inspirado na música Roads de Portishead, porque ainda sim essa fanfic é uma songfic. Aconselho a ouvir durante a leitura, mesmo não sendo obrigatório já que trouxe a letra! ^^
Boa leitura!*~
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Capítulo 2 - Roads/Portishead
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Ohh, será que ninguém consegue ver
Que temos uma guerra pra lutar?
Nunca encontramos nosso caminho
Apesar do que eles dizem
— … eu era tão jovem. — sua voz soou carregada de nostalgia, mas não daquelas que nos faziam sorrir. Levantei minha cabeça e a vi com o olhar perdido, longe, como se estivesse presa naquelas lembranças. Me perguntei se realmente era uma boa ela me contar, no entanto ao vê-la se sentar e suspirar pesadamente me convenci de que eu não poderia interferir mais, ela já estava decidida a prosseguir independente do quanto doesse. Era uma das qualidades mais admiráveis dela, superar, sempre superar. Se levantou e buscou em seu guarda-roupa um hobby de seda num rosa bem claro com rendas pretas em suas mangas e barra. Virou-se de costas e foi até a janela, pousando uma das mãos no vidro límpido. — Tinha doze anos quando aconteceu. Era meu aniversário e papai e mamãe queriam me dar o melhor presente de todos: a realização de um sonho… — Expirou como se tivesse levado um soco na boca do estômago e a mão livre foi ao peito. Levantei-me rapidamente, me vesti e fui a seu encontro, apesar de perceber que mesmo que eu estivesse ao seu lado fisicamente, mentalmente ela se via sozinha. — … um sonho que se tornou meu maior pesadelo. — concluiu e fechou os olhos, expulsando lágrimas que se acumularam.
Como isso parece tão errado?
A partir desse momento
Como isso parece tão errado?
— Sakura. — chamei, mas não alcancei seu interior, ela não me ouviu, não me sentiu. Era tarde demais para impedi-la de reviver o que quer que a tivesse atormentado por tanto tempo.
— Papai e mamãe eram extraordinários. Os melhores pais do mundo e não porque quiseram transformar meu sonho em realidade, mas porque eles me amaram, tanto, de forma tão sincera e onipresente que a perda que sofri me impediu de seguir em frente… foi a única coisa que eu realmente não consegui superar. — sua voz embargada sumiu no fio que sustentava a frase. Seus olhos abriram e congelaram em seu reflexo no vidro. A mão espalmada escorregou até cair e balançar sem vida. O olhar perdido, a respiração mecânica e a boca entreaberta exalavam sua dor, sufocante até para mim que apenas a observava. — Éramos felizes. Uma vida confortável em meio a bons patrimônios, pessoas boas, uma família unida. Tudo muito perfeito até aquele dia.
Sua voz cada vez mais embargada mantinha-se firme, rígida consigo mesma. Forçava-se a voltar àquele dia e me expor de coração aberto o que havia a machucado de tal forma. Ouvia sua narração com atenção, sentindo sua dor a cada palavra pronunciada até que me vi em seu lugar naquele acontecimento.
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"— Querida, descanse um pouco até nosso avião pousar. A viagem será longa. — mamãe disse, ajeitando meu cinto. Sorria gentilmente para mim enquanto papai nos observava alegre.
Estava ansiosa, era minha primeira viagem de avião. Apesar de termos boas condições financeiras, papai e mamãe sempre foram muito protetores. Nossas viagens eram sempre em transportes terrestres, mesmo que o percurso demorasse uma eternidade, mas eram agradáveis e divertidas. Dessa vez tinha que ser diferente, nosso destino ficava no meio do Oceano Pacífico e não havia outra forma de chegar a não ser avião, já que barco era muito arriscado devido as inúmeras tempestades e papai entrava em pânico só de pensar.
Então lá estávamos nós, rumo a Monuriki, uma pequena ilha desabitada em um grupo de ilhas conhecidas como as Ilhas Mamanuca. Meu sonho era conhecer essa ilha paradisíaca, pois havia um livro que papai e eu líamos todas as noites antes de dormir que contava os mistérios dela. Sabia um por um de cor e salteado e desejava conferi-los pessoalmente, senti-los, vivê-los junto de minha família: as duas pessoas mais importantes da minha vida.
As expectativas eram grandes. Ansiosa, olhei pela pequena janela para fora. Parecia que o avião nunca ia decolar. De repente o tempo resolveu me afrontar, ele parecia ter parado e hoje sei que gostaria que realmente tivesse parado ali, assim seria eternamente feliz.
As turbinas ligaram e logo o avião estava manobrando para sair do aeroporto. Olhei com expectativa mamãe e papai, com um sorriso que não cabia em minha boca. Gentis como sempre, sorriram de forma ansiosa, contagiados por mim.
— Feche os olhos, princesa. Sinta o avião decolar. — papai orientou e fechou os olhos, segurando a mão de mamãe que segurou a minha com a outra.
Senti o avião tremer, se movimentar e decolar e o frio na barriga crescer cada vez mais. Minhas mãos suavam e não conseguia deixar de rir. Era uma mistura gostosa de nervoso com ansiedade, tão viciante.
A viagem estava sendo tranquila, entediante até. Papai dormia, mamãe lia uma revista e logo dormiu também e eu bufava olhando para fora da janela, onde havia apenas mar. Mar, mar e mais mar. Parecia uma eternidade e eu realmente estava ficando irritada. Foi quando o avião inclinou levemente uma das asas e meu olhar ficou preso ao que havia abaixo de nós. Estávamos fazendo o retorno por cima da ilha dos meus sonhos, a reconheceria de qualquer ângulo.
— Mamãe! — chacoalhei sua mão, que ainda estava entrelaçada a minha — Mamãe, acorda! Papai! — gritei, assustando-os. — Chegamos! — soltei a mão de minha mãe e animada apontei para a janela.
Algo que jamais deveria ter feito, pois me arrependeria todos os dias da minha vida por ter soltado sua mão, como me arrependi. Havia olhado uma última vez para seus rostos radiantes, com sorrisos calorosos a ponto de seus olhos se fecharem, antes de um barulho ensurdecedor nos desorientar e tudo a nossa volta girar. Via apenas flashes de fogo, destroços voando para todos os lados, um vento cortante jogando meus róseos fios longos sobre meu rosto. Gritei agarrada aos braços da poltrona, estava assustada. O desespero fora tão grande que fechei os olhos e não os abri mais. Havia desmaiado.
Tempestade… Na luz da manhã
Eu sinto…
Que não tenho mais nada a dizer
Congelada em mim mesma
Lembro que antes mesmo de abrir os olhos eu chorava. Meu corpo inteiro doía, apesar de minha perna direita se destacar entre todas as dores. Meu peito doía. Meu sonho doía, sim, em meu interior ele sangrava porque o que era lindo se tornou obscuro. Por que aquilo havia acontecido? Havia sido uma menina má?
Abri os olhos com dificuldade, um deles estava inchado. Sentia algo escorrer por minha testa, era viscoso. Ao vê-lo em meus dedos, identifiquei que era sangue. Já estava noite, mas ainda havia fogo e destroços para todos os lados. Estava na beira da praia, encharcada de água salgada, areia e sangue. Levantei-me gritando por socorro, mas ninguém me ouvia. Até hoje não sabia como havia ido parar lá, apesar de ter minhas deduções.
Levantei desnorteada e desesperada, perguntando-me como aquilo pode acontecer.
— Mamãe? — gritei, olhando a minha volta. — Papai?!
Não sei quantas vezes o fiz, mas gritei tanto por eles que minha voz estava fraca e rouca. Havia chorado tanto que meus olhos estavam inchados e ardendo e estava com uma dor de cabeça insuportável, além das outras dores no corpo e principalmente em minha perna direita, que posteriormente vi que estava com um grande corte profundo. Não sabia julgar o que era pior. Meu sonho virando pesadelo, as dores intensas no corpo ou a dor em meu peito. Estava com medo, como nunca havia ficado antes. Estava sozinha, como também nunca havia ficado antes.
Andei pela praia de ponta a ponta procurando mais sobreviventes, embora o avião tenha sido contratado por papai, havia a tripulação, mas não encontrei ninguém. Uma parte do avião estava ali, mas era só isso. Desolada, ajoelhei-me observando as fracas ondas acariciarem a areia. Não aguentava mais chorar, não aguentava mais sentir e não aguentava mais ser envolvida por aquela solidão.
Algumas horas haviam se passado, já estava clareando enquanto continuava da mesma forma que estava quando vi três pessoas nadarem para a praia. Levantei-me num pulo e corri para lá. Agradeci aos céus por reconhecer duas das três pessoas, eram papai e mamãe. Abracei eles tão forte, mas tão forte, que papai reclamou o aperto. Mamãe estava em seu colo e permaneceu quando caímos de joelhos na areia. Estava dormindo, foi o que papai disse na época, mas ela realmente nunca acordara e só dias depois eu descobri o que tinha de fato acontecido.
Com mamãe no colo, papai nos levou para longe do mar. Havia um homem com ele, carregando coisas que pareciam terem vindo de dentro do avião. Cuidadosamente ele a colocou sobre a areia e a ajeitou para que as mãos delicadas dela ficassem sobre a barriga.
— Mamãe não ficará com cãibra, papai? — questionei, pois ela gostava de dormir com os braços esticados justamente para evitá-los.
Papai apertou a mão da mamãe e debruçou-se sobre ela. Ele queria esconder seu rosto de mim, suas lágrimas, mas eu era muito nova para perceber isso, até porque nunca havíamos vivenciado uma tragédia daquela magnitude e papai nunca teve de esconder sua dor de mim, posto que nunca houve dor até aquela data. O vi respirar fundo e enxugando as lágrimas que na época achei serem suor sorriu para mim.
— Não, minha princesa. Mamãe está tão feliz por estarmos vivos que dormirá pesado desta vez. Nem a cãibra irá perturbá-la.
Ingênua, assenti achando que se tratava apenas de um bom sono. Papai era muito bom em demonstrar ser forte e mais ainda em distorcer os fatos para me proteger da dor, no entanto, aquilo foi apenas o começo. Não havia água naquela ilha, nem comida e nós sabíamos disso, por isso no avião tinha comida estocada o suficiente para ficarmos quatro dias, tempo bastante para conhecermos tudo que havia para conhecer lá. Ainda sim tentamos, procuramos por frutas, mas elas não eram saudáveis, depois recorremos ao mar, peixes ou até algas, procurar por qualquer coisa que servisse, no entanto não haviam peixes próximos e era arriscado ir além da margem por causa das fortes correntezas que sabíamos que rodeavam a ilha. Não chovia para aproveitarmos a água. Não havia nada que pudesse nos manter vivos e mesmo assim papai se esforçava para continuar me protegendo da realidade assustadora e dolorosa. Enquanto procurávamos comida e água papai tratava a busca como uma caça ao tesouro. Como um excelente guia me fazia mergulhar nos mistérios que líamos e que naquele momento narrava ao mesmo tempo que conferíamos. Era fascinante o poder que ele tinha sobre mim e minha imaginação.
Passados alguns dias, com papai alegando que mamãe acordava enquanto eu dormia, pois eu estava estranhando o fato de nunca vê-la acordada, o homem que estava junto de nós começou a passar mal, muito mal. Seu corpo não resistiu as más condições em que estávamos, assim como os nossos, apesar de termos resistido por mais tempo.
Lembro-me que papai disse que sairia para tentar pescar um pouco mais a frente das últimas tentativas com aquele homem. Me advertiu para que eu não me aproximasse da pequena cabana que improvisamos com grandes folhas de coqueiro para mamãe repousar, pois não queria que eu interrompesse seu descanso e como uma boa filha o fiz. Me mantive na margem, brincando de fazer castelos de areia, algo que papai e mamãe sempre faziam comigo quando íamos a praia. Não tinha mais idade para aquilo, porém a bolha invisível de felicidade que meus pais criaram para mim era tão aconchegante que não me importava. Um pouco antes de anoitecer papai voltou, mas sozinho. Arrastava consigo uma grande bolsa laranja, alguns cocos ainda presos ao galho e enlatados. Estava cansado, muito cansado, mal conseguia sorrir para camuflar sua infelicidade.
Perguntei o que houve, onde estava o homem que havia ido com ele, porquê trouxe aquelas coisas, mas só o que papai dizia era que havia pensado numa forma de me tirar dali. Pela primeira vez havíamos discutido."
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Ouvi um baque violento contra o chão e pisquei, voltando a realidade. Sakura havia caído sobre os joelhos, desgastada tanto físico como psicologicamente. Seus olhos estavam inchados e extremamente vermelhos, seu nariz avermelhado, seu rosto encharcado com as lágrimas. Peguei uma caixa com lenços de papel da gaveta de uma mesinha ao nosso lado e lhe entreguei ao me abaixar para abraçá-la, porém ela rejeitou meu abraço, apesar de segurar firme minha mão.
— Já chega. — pedi, ficando cada vez mais desesperado ao vê-la daquela forma. — Não precisa mais dizer nada.
Ela chorava alto, demonstrando que sua dor era insuportável. Soluçava, urrava, gemia. Era sufocante vê-la daquele jeito. Comecei a me preocupar ainda mais quando ela voltou a se balançar para frente e para trás, como fez há seis anos e três meses atrás naquele acidente que sofremos e ela se perdeu naquele trauma.
Não tenho ninguém ao meu lado
E com certeza isso não está certo
E com certeza isso não está certo
— O que está acontecendo, papai?! — Sakura gritou num tom implorativo como se fosse a menina de doze anos daquela história. Levou as duas mãos aos ouvidos, como se ouvisse a voz de seu pai e gritou, como se o respondesse. — Eu não quero ir sem vocês!
Segurei seu delicado rosto com as duas mãos para forçá-la a olhar pra mim — Sakura. — chamei, mas seu olhar estava perdido, imerso naquela lembrança. — Volta pra mim. — Supliquei, completamente aflito e angustiado por vê-la perdida numa tormenta sem fim em sua mente.
De repente sua feição sofreu uma alteração brusca. Não estava mais revirado em dor, estava congelado e sem expressão alguma e suas mãos caíram em seu colo, então eu sabia, ela havia voltado para aquela lembrança vívida. Sua narração voltara a ser profundamente real, me levando direto para aquele acontecimento mais uma vez.
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"— Prometa, Sakura, prometa que nunca mais vai voltar, nunca! — papai exigiu, apertando meus braços e me chacoalhando. Nunca o vi tão descontrolado e desesperado daquela forma e o choque fora tão grande que não consegui reagir naquele momento. Nossa discussão já havia me assustado o suficiente. Me abraçou e acariciou meus fios róseos desculpando-se em murmúrios por me preocupar. — Sua mãe e eu te amamos tanto, minha princesa. Somos eternamente gratos por você ser essa filha maravilhosa que é e precisamos que faça isso por nós, para que possamos descansar tranquilos e em paz. — explicou-me num tom gentil seu pedido, ainda que estivesse desesperado. Afastou-me e acariciou meu rosto. Foi a primeira vez que o vi chorando e foi ali que percebi a gravidade da situação. — Colocarei você naquele bote. Haverá água e comida por uns dias, terá de remar e será cansativo, mas não desista, sobreviva. — assenti ao vê-lo exigir minha concordância pelo olhar de forma tão intensa que apenas pude obedecer. — Isso, agora prometa que nunca mais voltará. — meus olhos voltaram a se encherem de lágrimas e me vi chorando desesperadamente, mesmo que eu tivesse assentido. Me abraçou mais uma vez e dessa vez consegui retribuí-lo e o fiz com todas as minhas forças porque sabia que era nosso último abraço.
Eu não tinha forças para falar, mas papai sabia que mesmo que não tivesse firmado aquela promessa em palavras jamais a quebraria. A dor que senti naquela despedida vive dentro de mim até hoje. Tudo o que eu era se perdeu naquele momento. Chorar não era mais suficiente para aliviar aquela dor, mesmo que ainda o fizesse involuntariamente."
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— Ele preparou minha partida em silêncio enquanto da mesma forma o observava, pensando no quanto o destino era cruel. Papai estava tão desesperado que passou por cima dos seus maiores medos, usando o único meio que ele realmente desaprovara, que por coincidência foi o que nos obrigou a vir de avião, me deixando sozinha num bote para encarar todas as variáveis, outro de seu maior medo. — ela continuou depois de minutos em silêncio, ainda naquele estado catatônico. Lágrimas ainda fugiam de seus grandes olhos arregalados e perdidos no passado. — E só naquele momento havia entendido o porquê de papai me obrigar a prometer ir sozinha e não voltar mais. Ele já estava muito doente. Tossia sangue no tempo em que colocava as coisas no bote e hoje sei que ele tinha ciência de que mesmo que tivesse vindo comigo as chances de sobreviver eram baixas, além de reduzir as minhas, porque seriam duas pessoas para compartilhar do pouco de água de coco e comida enlatada que havia trazido. Em nossa despedida silenciosa porém extremamente significante, vi em seu olhar que estava feliz por ficar, porque garantia minha sobrevivência e porque ficaria ao lado de mamãe, como sempre disse que gostaria. — ela piscou, expulsando mais lágrimas e suas esmeraldas encontraram meus olhos. — Eu parti vendo o sol se misturar ao mar ao seu nascer sem olhar para trás, e só ali conseguir pronunciar o que estava preso em meu coração: "Eu prometo". Repeti inúmeras vezes a resposta para o pedido de papai, perdida na imensidão do mar e da solidão.
Ah, será que ninguém consegue ver
Que temos uma guerra pra lutar?
— Passei muito tempo a deriva no mar. Sobrevivi as tempestades. Sobrevivi a fome e a sede. Sobrevivi a minha morte, porque aquela doce menina havia morrido com seus pais. — ela continuou a narração. Os olhos cansados, consequências de chorar; piscavam lenta e pesadamente.
Nunca encontramos nosso caminho
Apesar do que eles dizem…
— Não sei quanto tempo depois fui encontrada. Um grande navio cargueiro me resgatou.
Como isso parece tão errado?
— Eu não queria ser encontrada, não queria sobreviver e nem cumprir minha promessa… — a voz embargada desapareceu no sussurro até retomar sua força de forma monstruosa, impiedosa consigo mesma — …mas fui encontrada. — alegou com rancor — Sobrevivi. — fechou os olhos, a expressão facial denunciando o quanto estava enojada pelo que estava prestes a falar. — E cumpri minha promessa.
A partir desse momento
— Não havia nada que me fizesse descumprir minha promessa, nem aqueles homens me mostrando a importância de eu voltar com eles para verificar se havia mais sobreviventes. "Eu não vou voltar.", repeti mais do que o necessário para eles entenderem, mas o que eles não sabiam era que a única que precisava entender aquilo era eu, porque eu queria voltar.
Como isso parece tão errado?
— Era errado eu seguir a diante, mas o fiz. Não voltei mais e mesmo diante das acusações de todos sobre mim pela minha escolha e exigência, eu repetia para mim todos os dias, a todo segundo que "Eu não quis aquilo". Eu não quis que meu presente de aniversário de doze anos, minha viagem dos sonhos, se tornasse meu pior pesadelo. — afirmou com dureza, a dureza que Haruno Sakura exigia de si mesma para sobreviver. — Eu não quis que meus pais morressem pelo meu sonho. — fechou os olhos, os lábios se contorciam em repulsa de si mesma, era nítido e palpável. — E eu não quis deixá-los lá e nem ser a única sobrevivente.
Sakura abriu os olhos chorosos e tudo que havia visto pela primeira vez lá atrás, quando a vi em choque, estava eminente naquele momento. Sua dor era maior que qualquer outra coisa que sentisse e essa enorme cicatriz estava cravada em sua alma. Agora eu entendi as frases que ela repetira diversas vezes enquanto estava em choque: "Eu não vou voltar" e "Eu não quis aquilo". Frases que também estavam cravadas em sua alma, obrigando ela a ser o que era, mas eu havia a julgado errado em uma coisa: sua imponência, rigidez, frieza, calculismo e inacessibilidade não era contra as pessoas a sua volta, ou contra mim, era contra si mesma. Era a forma que havia encontrado de proteger a pequena Sakura que ela alegava ter morrido naquela tragédia junto com os pais e de não ser assombrada por aquele passado.
Abracei-a, sendo prontamente retribuído, mas ela não parou, continuou inerte sua narração.
— A seguradora contratou um guardião legal para cuidar de mim até que atingisse a maioridade pois o presidente era um grande amigo do meu pai e depois de tantos anos compreendi certas coisas. Papai havia sido forte por mim e por mamãe. Ele me protegeu de ver todos que estavam naquele avião sem vida, me protegeu da verdade de que mamãe não estava dormindo e sim que havia perdido a vida, me protegeu de ver o homem que voltara com papai perder a vida e me protegeu da tormenta de saber que estava perdendo a vida também. Ele queria que eu fosse embora e não voltasse mais para sempre ter a lembrança de que eles ficaram bem naquela ilha, dormindo tranquilamente e descansando em paz.
Se encolheu em meus braços e a apertei ainda mais, beijando o topo de sua cabeça. — Você não está mais sozinha. — afirmei, acariciando seus fios róseos.
— Obrigada, Sasuke. — ouvi em seu habitual tom aveludado revestido de gratidão e sorri, sabendo que agora ela havia sobrevivido também àquele passado que não sabia lidar, mas que aprendeu e o superou.
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N.A.: ~*Posso falar? Escrevi o capítulo inteiro chorando, gente! Sério mesmo! Acho que estou na TPM, não é possível!
Não sei se consegui tocá-los como esse enredo me tocou, mas espero realmente que tenha conseguido porque quis muito transmitir a intensidade da relação da pequena Sakura com os pais, do quanto eles eram importantes para ela, além de a ingenuidade e inocência dela no auge, que foi muito difícil construí-las e mais ainda desconstruí-las para iniciar a decadência delas, o que a obrigou deixar de ser daquela forma. A transformação da pequena Sakura para a imponente Sakura foi extremamente complicado porém importante, então tive que tomar muito cuidado para não distorcer o que eu queria passar e para o caso de não ter conseguido desenvolver o motivo claramente nesse capítulo, esclareço aqui: Sakura se tornou aquela mulher revestida na "armadura de dama de ferro", não para afastar os outros, mas para afastá-la de si mesma, daquele trauma e daquela dor e infelizmente havia saído de seu controle, influenciando também ao seu redor.
Bom, era isso o que quis mostrar. Espero que tenham gostado do que a levou a esse extremo e principalmente que tenham sentido. Há muito mais o que dizer sobre a infinidade de coisas que quis passar, mas guardarei minhas palavras para dar espaço para as palavras de vocês! Contem-me o que acharam detalhadamente se possível, se entreguem a mim como me entreguei a vocês de coração! Inclusive sobre o que acharam da postura do Sasuke nessa situação.
Estarei a espera.
Ah, e antes que me cobrem, ainda estou pensando em postar mais um capítulo para mostrar como Sasuke e Sakura ficaram depois dessa baita confissão e exposição dela com ele, já que ele havia se exposto desde do início a ela. Não prometo, mas se estiverem curiosos o bastante para ver esse capítulo, posso criar para vocês! ^^
Conto com a opinião de vocês!
Até a próxima, queridos!*~
