CAPÍTULO 2
Eu Devia Ter Imaginado
- Quem era aquele rapaz?
- Pai?
Draculaura entrara no quarto há poucos minutos e estava debruçada na janela espiando o pouco da rua que podia ver além do jardim, quando o pai parado à porta interrompeu seus pensamentos. Ele aparecera repentinamente, como sempre fazia. Ela precisava aprender aquele truque.
- Quê? Que rapaz? - perguntou ela, nervosa.
- Não se faça de desentendida, mocinha. Estou falando do garoto que te trouxe aqui agora há pouco. Quem é? - o vampiro parecia muito bravo, mas seu tom era mais seco e frio que o habitual.
- É... É o Patrick. - Draculaura respondeu baixinho. Não se lembrava de ver o pai daquela maneira fria antes. Estava ficando preocupada.
- E de quem se trata esse humano? - perguntou o pai.
- Eu o conheci esta noite, pai. A gente só conversou um pouco, só isso. - explicou ela falando muito rápido.
- Pensei ter dito que não era pra você sair de casa. - disse ele simplesmente, ainda muito frio.
- Mas você nunca me deixa sair! - reclamou Draculaura - Eu pareço uma prisioneira nesta casa!
- Eu não a deixo sair exatamente por isso! Isso que aconteceu hoje! Você não consegue ficar longe dos humanos! Os mortais não são como nós, e você sabe disso. Sabe o que estará em jogo se eles descobrirem sobre os vampiros, sobre nós! - o vampiro fez uma pausa, e continuou num tom mais baixo. - Precisaremos fazer alguma coisa quanto a isso.
- Ele não sabe de nada! Eu não falei nada, juro. Por favor, pai, não faça nada contra ele. Por favor! - os olhos de Draculaura encheram-se de lágrimas enquanto ela implorava.
- Isto não é para você decidir. - respondeu ele severo. - Você não tem responsabilidade, é egoísta e não pensa na sua espécie. Eu a mimei demais.
- Pai... - Draculaura chorava.
Sem demonstrar nenhuma emoção, o pai entregou a ela uma pequena garrafa com um líquido carmim.
- Tome. Esta é a última refeição que vou lhe dar. - e já saindo do quarto, acrescentou - Está na hora de aprender a viver como um vampiro.
Draculaura, com a garrafa nas mãos, chorava e a refletia as palavras do pai.
Viver como um vampiro. Isso significava conseguir sozinha o sangue de que precisaria para manter sua não-vida. Significava caçar. Caçar seres vivos para se alimentar da vida deles. E caçar humanos.
Ao contrário do que muitos pensavam, vampiros não precisavam matar suas vítimas para lhes sugar o sangue. Era possível beber apenas uma pequena quantidade que não lhes faria falta, mas era muito difícil não deixar marcas ou lembranças. Alguns tinham o poder de apagar a memória de suas vítimas, outros se alimentavam apenas de pessoas adormecidas, alguns tinham até servos humanos que lhes forneciam sangue por vontade própria. Sempre se podia alimentar-se de sangue de animais também, é claro, mas não era tão nutritivo (ou saboroso) e quase sempre resultava na morte do animal.
Ainda assim, a morte da vítima humana era mais frequente do que Draculaura gostaria. Uma vez iniciado o ataque, o instinto primitivo do predador era de sugar até o fim. Era preciso muito autocontrole dos vampiros modernos para se alimentarem com parcimônia. Muitos vampiros tinham consciência e todos sabiam que deixar um rastro de cadáveres fatalmente atrairia a atenção das autoridades, ou pior, de caçadores de vampiros.
O medo desse descontrole e a aversão por ferir um ser vivo era o que impedia Draculaura de caçar. Ela procurava se alimentar o máximo possível de comida humana, mas seu pai, superprotetor, complementava suas necessidades com doses de sangue que ele tirava de suas vítimas e levava para ela. Ele não aprovava esse comportamento e sempre dizia que uma hora ela precisaria amadurecer e aceitar quem ela era.
Aceitar quem ela era... Será que Patrick poderia aceitar? De alguma forma, a noite toda enquanto estava com ele, ela sentiu que ele a observava como nunca ninguém a olhara antes. Aqueles olhos claros tinham um brilho dourado que parecia enxergar até sua alma, caso ela tivesse uma. Ele parecia despi-la por completo, além de seu disfarce mal-improvisado, além de suas máscaras para os de sua espécie, além de quem ela mesma acreditava ser. Ele via quem ela realmente era, e não quem esperavam que ela fosse.
E ele demonstrou cada segundo que estava gostando de quem ele via.
Este pensamento a reconfortou um pouco e fez surgir timidamente aquele sorriso de antes. Já devia ser muito tarde. Hesitando um instante, Draculaura bebeu o sangue que seu pai trouxera e colocou sua camisola para dormir. Antes de fechar o caixão, prometeu a si mesma que faria tudo o que fosse preciso para proteger Patrick. Uma pessoa especial e cheia de luz como ele não deveria ter se envolvido com uma criatura das trevas como ela. Mas como o destino é inexorável, agora era dever dela cuidar para que aquele brilho nunca se apagasse.
Continua...
