Disclaimer: Saint Seiya e seus personagens relacionados pertencem ao mestre Masami Kurumada e às editoras licenciadas.

Reviews, antes de qualquer coisa!

Krika Haruno: Eu tb lavo, passo e cozinho! E faz um bom tempo que eu queria escrever uma fic yaoi maior que uma one-shot.

GabbeFox: Que bom que gostou, aqui tem mais!

RavenclawWich: Vc está estudando a região de Provença? Ow, Gód, espero não cometer nenhuma heresia... Fico feliz que esteja gostando!

Uma pequena observação sobre esta fic em si, a respeito de como eu coloquei Camus e Saga neste enredo. Eu sei que o cavaleiro de Aquário é frio, sério e enigmático, mas ele não é mudo! E aqui ele e Saga já tem uma amizade mais estreita e não teria sentido um monólogo do geminiano e uma ou outra palavra por parte do Camus, né? Além disso, eu sempre vi o aquariano como um homem decidido, o tipo do direto-e-reto no que quer, sem rodeios, ao passo que o Saga ainda tem suas dúvidas e busca aceitação entre seus pares.

Vamos ao capítulo, então? Boa leitura!

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Capítulo II

Escrito ao som de "Carry you home", James Blunt

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O Renault sedan, cor prata, cortava as estradas calmas da Provença em média velocidade. Não era uma missão oficial, então, não era preciso pressa em chegar ao destino. Margeando a estrada, havia campos de lavanda, girassóis e vinhas e ao fundo, o céu azul quase sem nuvens. Parecia até que o carro seguia por um arco-íris.

Camus estava compenetrado na estrada, já fazia algum tempo que não dirigia por aquelas bandas. Saga, no banco do passageiro, já estava em silêncio há uma meia hora, pensativo. Vez ou outra lançava um olhar para o cavaleiro ao seu lado, estudando sua face inalterada. Mas sabia que, por dentro, Camus estava em ebulição. Estava de volta à sua terra.

-O que foi? – Camus perguntou, ao perceber o olhar mais demorado sobre si.

-Está nervoso?

-É estranho você me fazer esta pergunta, Saga... Parece até que não me conhece.

-Não é uma missão, Camus, é sua família... Quanto tempo não os vê?

-Dez anos, quando fui convocado às pressas por um telegrama enviado pela governanta da família, pouco antes de o Isaac desaparecer no mar siberiano.

-Eu me lembro desse telegrama, ele passou por mim antes de ser enviando a você.

-Então, se sabe sobre ele, por que me perguntou se estou nervoso?

-Não entendi, Camus.

-Não tenho mais parentes vivos, Saga. Aquele telegrama tratava da morte de meu tio Pierre, que cuidava das terras de minha família aqui em Provença.

-Eu... Eu sinto muito.

Camus nada disse, continuou dirigindo atento à estrada que seguiam. Saga voltou a ficar calado, e por um momento se perguntou o motivo de não ter lido o telegrama quando este havia chegado ao Santuário, uma vez que como Grande Mestre, absolutamente tudo era mantido sob seu forte controle.

No entanto, logo foi tirado do mundo representado por seus pensamentos, Camus manobrava o carro em direção ao acostamento, estacionando logo em seguida. Estavam ao lado de uma vinha extensa, que se perdia de vista pela continuação da estrada.

-O que... O que foi?

Mas a pergunta de Saga ficou sem resposta, uma vez que Camus saiu do carro e subiu apressadamente a pequena elevação de terra que separava o asfalto da vinha. Se embrenhando no meio dela, quase sumiu da vista de Saga, que a esta altura também estava fora do veículo.

Encostado no capô, ele viu o cavaleiro de Aquário voltar poucos minutos depois, trazendo algo entre as mãos.

-Tome, pegue um cacho. – ele estendeu o que trazia em mãos para o companheiro de viagem – Dizem que as uvas das vinhas de Montparnassy são as mais doces de toda França.

-Obrigado.

Saga pegou o cacho das mãos de Camus, mas o outro não o soltou de imediato, as mãos acabaram por se tocar no processo e um pequeno choque percorreu a espinha do cavaleiro de Gêmeos. Ou teria sido apenas impressão?

-Não precisa agradecer. – Camus disse, soltando o cacho de uvas e dando a volta no carro, para retomar a viagem.

O outro balançou a cabeça por um instante e então entrou no veículo, e durante o restante do tempo, se dedicaria a descobrir se era mesmo verdade o que Camus dissera sobre aquelas uvas.

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É claro que sabia que a família de Camus tinha ascendência nobre, mas nunca imaginara que além das terras oferecidas pelo próprio Luís XIV, também possuíam um pequeno castelo. Estava um tanto deslumbrado com aquela descoberta, era uma construção de pedras cinzentas, emoldurada por trepadeiras que cresciam ao redor de suas paredes e varandas, e com um jardim muito bem aparado à frente.

Camus manobrou o carro até parar em frente à escadaria de acesso ao castelo, e logo uma senhora de baixa estatura, gordinha, de cabelos curtos e grisalhos e miúdos olhos violeta veio até eles.

-Pois não, senhores? O que de... – ela disse, mas sua frase parou no meio ao ver Camus descer do carro. Imediatamente os olhos se encheram de lágrimas – Camyu? Meu filho... Camyu!

Ela se atirou nos braços do cavaleiro, abraçando-o com força e beijando suas bochechas e testa sem parar enquanto chorava, Camus retribuindo o abraço de maneira protetora. Saga ficou observando aquela cena com um discreto sorriso nos lábios, presenciar o cavaleiro de Aquário dando vazão ao que sentia era uma cena rara e digna de ser apreciada.

-Senti tanto sua falta, Camyu... Meu menino!

-Eu também senti a sua, Marie. Venha, deixe-me apresentar um amigo que trouxe comigo da Grécia... Este é o Saga, nós trabalhamos juntos... Esta é a Marie, ela é governanta de minha família há muitos anos.

-Tantos que perdi a conta! Sua avó ainda era uma jovenzinha e eu já trabalhava nesta vinha. Muito prazer, monsieur.

-O prazer é meu, milady.

-Venham, vamos entrar! Todos ficarão muito felizes em te ver, Camyu, especialmente Thierry!

-Mas ele não estava em Madri?

-Disse bem, estava! Ele terminou a especialização e agora trabalha conosco na cooperativa.

Marie entrou pelo castelo com Camus à frente, logo alguns empregados vieram e, com ordens dadas pela governanta, cuidaram das malas e demais pertences dos cavaleiros que estavam no carro. Saga, seguindo atrás dos dois, prestava atenção na conversa que se desenrolava e foi inevitável uma pontada curiosa em sua mente: Quem seria o tal de Thierry?

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O quarto de hóspedes era amplo, parecia até um pequeno apartamento com uma ante-sala, um quarto separado para vestir-se e banheiro privativo, com banheira estilo colonial em louça. Tinha uma varanda também e duas janelas enormes, dava até para se sentar no beiral e apreciar dali a paisagem, uma vez que estava bem de frente para o jardim e os campos de girassóis.

Aliás, as flores compunham diversos arranjos espalhados pelas mesinhas de canto e centro do quarto, dando ao ambiente um ar alegre e colorido. Suspirando, um pouco cansado pela viagem, Saga foi até o quarto de vestir onde estavam suas malas e se dedicou a organizar tudo, embora não soubesse quanto tempo exatamente ficariam em Provença, não lhe parecia uma boa ideia deixar suas roupas amarrotarem dentro das malas.

De súbito, lembrou-se que prometera ao irmão que ligaria assim que chegasse ao seu destino, para dizer que haviam chegado bem. Pegou o celular e discou rapidamente o número, que caiu em caixa postal, pois estava fora de área.

-Essa é boa, em Atenas a recepção é perfeita! – comentou em voz alta, discando novamente.

-Em Atenas sim, mas não na Ilha de Milos. Dependendo do local, você não consegue fazer uma ligação de forma alguma.

Era Camus, que entrava pelo quarto. Saga arqueou uma sobrancelha, como assim Ilha de Milos? O que Kanon faria por lá?

E mais importante, como o cavaleiro de Aquário sabia que Kanon estava lá e ele, o irmão, não?

-Deixe, mais tarde eu tento ligar para ele então. O que pretende fazer agora, Camus?

-Nesse exato momento? Descansar um pouco. Deveria fazer o mesmo, mais tarde a Marie certamente irá mandar nos chamar para o café.

Saga assentiu. Camus, então, já estava saindo do quarto quando o cavaleiro de Gêmeos chamou sua atenção por um instante.

-Camus?

-Sim?

-Obrigado pelo convite, eu... Eu acho que estava mesmo precisando ficar um tempo fora do Santuário.

-Apenas aproveite, Saga. – ele disse com seu característico ar enigmático e saiu do quarto, sorrindo levemente.

Saga não percebeu, mas aquela pequena frase continha uma dezena de significados...

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Era o final de tarde quando escutou baterem à porta e uma voz feminina anunciar que o café estava à postos. Abrindo lentamente os olhos, Saga levou alguns segundos para se situar e lembrar que não estava na casa de Gêmeos. Estalando o pescoço, ele foi ao banheiro lavar o rosto e pentear os longos cabelos, que prendeu em um rabo de cavalo baixo. Trocou de roupa rapidamente e saiu do quarto, cumprimentando alguns empregados que estavam no corredor, um deles lhe indicou onde havia sido servido o café.

Ao chegar na sala indicada, que ficava no térreo do castelo, próxima à biblioteca, ouviu vozes que conversavam entre si. Uma, mais séria e grave, porém, não menos divertida. A outra, cheia de agudos e risos que, estranhamente, o incomodaram um pouco.

Ao entrar na sala, viu Camus sentado à mesa, bebendo um copo de suco, enquanto prestava atenção no que um outro rapaz, sentado de frente para si, lhe dizia. Como estava de costas para Saga, tudo o que o cavaleiro visualizava eram os cabelos castanhos e curtos e as costas largas.

Quem seria?

E por que ver que Camus se divertia com o que ele lhe dizia o deixava incomodado?

-Saga! – Camus o viu parado junto à entrada da sala e o chamou – Veja Thierry, este é o amigo de quem lhe falava há pouco.

O rapaz se levantou de onde estava sentado e cumprimentou Saga, que não deixou de notar que ele tinha os olhos violetas e miúdos como os de Marie. Parecia ser do tipo expansivo e que chamava toda atenção para si quando estava no ambiente.

-Fico feliz em finalmente conhecer um amigo de Camus! Eu já estava a pensar que era lenda o fato de ele ter uma vida fora de Montparnassy.

-É um prazer, er... Thierry?

-Isso mesmo. Sente-se, mamãe se superou no preparo deste café! Nem mesmo quando passei quase dois anos em Madri sem vir para cá ela me preparou tantos bolos, tortas, pães e doces para comemorar meu retorno.

Agradecendo, Saga se sentou à mesa ao lado de Camus, e serviu de uma fatia de bolo de limão, quieto em seu mundinho particular, ao passo que Thierry retomou sua narrativa de onde havia parado antes do cavaleiro chegar. Camus não sorria, mas ouvia com atenção o que ele dizia e vez ou outra fazia algum comentário pertinente.

Difícil era entender o motivo de sentir seu sangue rodar ao contrário observando os dois rapazes em sua animada conversa.

-Quanto tempo pretendem ficar, Camus? – Thierry perguntou, mas se dirigindo também à Saga.

-Alguns dias, mas ainda não sei quantos exatamente. Atenas nos concedeu férias e não determinou de quanto tempo seriam.

Saga encarou Camus, o pedaço de bolo que comia a centímetros de sua boca e a respiração suspensa. Os olhos azuis estavam arregalados.

-O que foi, Saga?

-Camus, você... Você ouviu o que acabou de dizer?

-Claro que sim. – ele se ajeitou na cadeira e lançou um olhar para fora da sala, para ter certeza de que ninguém os ouvia – Saga, Thierry sabe sobre quem somos de verdade e sobre o Santuário, não se preocupe.

-Camus e eu nunca tivemos segredos um para o outro, crescemos juntos como irmãos.

"Nunca tivemos segredos um para o outro" era a única parte da fala de Thierry que ficara presa à mente do cavaleiro de Gêmeos. Por que não gostara de ouvir aquilo? Aliás, porque imaginar que Camus pudesse ter uma vida além do Santuário e outros amigos fora Milo de Escorpião parecia tão... Ruim?

-Eu preciso fazer uma ligação, com licença. – ele disse, saindo da sala e indo em direção às escadas que levavam ao primeiro andar do castelo.

-É impressão minha ou seu amigo estava desconfortável com a minha presença? – Thierry perguntou, em tom divertido. Camus sorriu de volta, bebericando seu suco.

-Talvez. Então, Thierry... – o cavaleiro de Aquário disse, encarando o amigo – Vai me ajudar com o que lhe pedi?

-Sabe que sim, Camus.

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O fim de tarde passou, o jantar chegou logo. Além dos dois cavaleiros, Marie e seu filho também ocupavam lugares à mesa, mas Thierry se retirou logo depois de comer, sem esperar pela sobremesa, dizendo que tinha um assunto do trabalho a tratar. E engraçado como foi só o rapaz sumir de vista que o clima ficou mais ameno para Saga.

Algum tempo depois, pedindo licença, Marie se retirou para auxiliar os empregados a tirarem a mesa e limpar tudo. Chamando Saga com um aceno, Camus saiu com ele para o jardim.

-O que acha de uma caminhada noturna? Está uma noite fresca.

-Por que não? Aonde vamos?

-Até as vinhas, Thierry disse que preparou um presente de boas vindas para nós dois.

-Ah, tá... – Saga concordou, ligeiramente contrariado. Mas não disse ou demonstrou nada.

O caminho não era tão longo, seguiram pelo jardim e viraram à direita no campo de girassóis. Conversavam amenidades e assim foi até chegarem à primeira vinha, onde havia um pequeno coreto no meio da plantação. Thierry estava por lá e Saga notou que havia uma mesa com duas cadeiras e diversas garrafas e taças de vinho sobre o tampo.

-O que preparou para nós, Thierry? – Camus perguntou, ligeiramente desconfiado.

-Primeiramente, sentem-se senhores.

Ambos se sentaram e Saga então notou que haviam duas vendas sobre a mesa, ao lado de uma garrafa de vinho branco. Thierry abriu esta garrafa e serviu duas taças.

-Camus sabe que meu sonho sempre foi trabalhar nessas vinhas, mas eu não queria ser apenas mais um colono. Então, fui para Madri, onde estudei gastronomia e me especializei em vinhos.

-Um sommeliere.

-Exatamente. E como tal, aprendi algumas técnicas para tornar uma degustação de vinhos uma atividade extremamente prazerosa e inesquecível e achei que seria um belo presente de boas vindas recebê-los com um presente assim.

-Do que está falando, exatamente?

-Sabe estas vendas sobre a mesa? São para vocês e essenciais para uma degustação às cegas. Coloquem, por favor.

Camus sorriu, achando a ideia muito interessante. Saga, por sua vez, não gostou muito daquilo, mas o que iria fazer? Recusar não lhe parecia algo delicado ou inteligente a se fazer.

Vendaram seus próprios olhos e então Thierry serviu a cada um uma taça de vinho, que bebericaram de leve, apenas para sentir o sabor e o aroma.

-Hun... Este me parece ser um tinto seco, de uma safra mais antiga... 1950, talvez?

-Tinto e seco sim, Camus, mas a safra... Este é o Montparnassy safra de verão 1954.

A degustação seguiu, Saga mal falava, apenas ouvia as opiniões de Camus e o riso de Thierry, se sentia com um intruso naquela cena toda. Já estava considerando tirar aquela venda idiota e sair dali quando a voz de Thierry e o anúncio que seria a última taça soou. "Ótimo", pensou "Assim acabamos logo com essa palhaçada!".

Ficou esperando o rapaz lhe entregar uma taça, mas ela não chegou às suas mãos, por que tanta demora? Foi então que algo aconteceu.

Primeiro sentiu a respiração próxima ao seu rosto, seguida pelo cheiro de menta em suas narinas. O ar estava frio ao seu redor, o que estava acontecendo? Entreabriu os lábios para questionar algo e, quando deu por si, lábios quentes estavam sobre os seus, doces e molhados por vinho. Eram macios, assim como o toque da língua que buscava a sua, provocando-o e brincando lentamente. Um beijo sem pressa.

Fez menção de tirar a venda, mas quem o beijava não deixou. E então, da mesma maneira inesperada que começara, terminou. E Saga ficou parado, sem saber o que fazer. Ou como agir.

-Tinto suave, safra de inverno de 1970, Thierry... Este é realmente delicioso.

Ouviu a voz de Camus e então saiu de seu estado de torpor, retirando sua venda, o cavaleiro de Aquário já estava sem a dele e tinha a taça erguida, pedindo a Thierry que o servisse um pouco mais. Saga ficou olhando para os dois, sem entender nada.

-E então, Saga, o que achou da degustação?

O cavaleiro continuou parado, sem entender nada. Por que aqueles dois agiam como se nada tivesse acontecido?

Ou realmente nada acontecera e ela andava sonhando acordado?

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Uma pequena nota de final de capítulo: o castelo de Montparnassy, a família de Camus, não é uma daquelas construções medievais com torres e fossos e sim como os tradicionais chatêaus franceses, que se assemelham a grandes casarões. Tipo o Castelo de Moulinsart onde o Capitão Hadock vive nas Aventuras de Tin Tin!

Continua...