Capítulo II

Bobby havia dito que o motel mais próximo encontrava-se a uns 40 quilômetros de onde eles estavam; perguntou se estavam bem e Sam respondeu que sim, porém muito cansados. Conversaram por um tempo até que Sam, rendendo-se ao cansaço, agradeceu pela informação, desligou o telefone e dirigiu-se ao irmão depois de um longo bocejo.

—Dean, me acorde quando a gente chegar, ok? Não consigo ficar dois minutos sem bocejar.

Dean olhou de relance para o irmão e notou olheiras quase imperceptíveis sob seus olhos pesados de sono. Ele se preocupava tanto com seu irmão! Sam era tudo o que ele tinha; era seu porto seguro. Seu bem-estar era secundário; o de seu irmão vinha em primeiro lugar. Não sabia ao certo se era por ele ser o irmão mais velho, mas achava que tinha o dever de cuidar; de proteger Sam.

—Claro, Sammy. Sem problema. — Falou, dando um meio sorriso.

Então Sam olhou para ele mais uma vez, dando aquele sorriso que fazia alguma coisa dentro de seu irmão se agitar; aquele sorriso que Dean tanto gostava. Recostou-se mais no banco e fechou os olhos.

Cinco minutos depois Sam dormia profundamente enquanto Dean dirigia o Impala e torcia para que chegassem logo ao motel, pois seus olhos estavam ficando cada vez mais pesados; sentia-os protestar, ardendo cada vez que piscava.

Mais dez minutos e então eles saíram da estradinha de terra e entraram na rodovia. Dean pôde dirigir mais rápido, pois a estrada de terra tinha muitos buracos, de modo que ele tinha que dirigir de vagar para evitá-los.

Depois de meia hora, o que pareceu uma eternidade a um Dean exausto, finalmente enxergou um prédio com uma iluminação fraca e lembrou-se das muitas vezes em que reclamou de ter que dormir em motéis de beira de estrada. Aquele motel, agora, lhe parecia a porta de entrada do paraíso.

Estacionou o Impala no pequeno estacionamento do motel e reparou no aspecto da construção. Não era um prédio nada luxuoso; dava até uma certa impressão de abandono, pelo menos àquela hora da noite, mas só o fato de pensar que logo tomaria um longo banho e cairia na cama o fez dirigir-se apressadamente a um Sam completamente adormecido no banco do passageiro.

Dean ia acordar seu irmão, mas algo que ele não soube explicar; nem saberia explicar num futuro próximo, tampouco, o fez abaixar a mão com que sacudiria o ombro de Sam e olhá-lo por um bom tempo.

Analisou seus traços demoradamente e afastou, de vagar, os cabelos que lhe caíam à altura dos olhos. A lua, já alta no céu, fazia com que a luz do luar banhasse seu rosto, deixando-o mais pálido e destacando as olheiras que insistiam em se mostrar. Então Dean sentiu algo que não soube explicar – ultimamente estava sentindo muitas coisas das quais não podia explicar ou entender – ao olhar para o rosto abatido de Sam: Talvez fosse pena, ou a vontade de cuidar dele, mas, somado a isso, vinha também algo a mais; algo que o incomodava e ao mesmo tempo lhe confortava de uma forma inigualável.

Ele amava muito seu irmão, sabia disso. Mas durante todos esses anos convivendo com ele, nunca havia sentido, ou percebido, esse algo mais que agora se mostrava evidente, como que iluminado pelo luar, assim como o rosto de Sam. A despeito da tranquilidade e do silêncio daquele lugar, uma grande batalha se iniciava entre sua mente e seu coração; entre os sentimentos que sempre estiveram lá e novos sentimentos, recém chegados; melhor dizendo, recém descobertos.

Então Dean levou a mão com que havia afastado os cabelos de seu irmão há alguns segundos – talvez minutos; ou seriam horas? – até seu ombro e o sacudiu de leve, chamando-o.

— Hey, sammy, acorda. — Sua mão estava trêmula, aparentemente sem motivo algum.

Sam continuava dormindo profundamente, de modo que foi necessário chamá-lo mais duas vezes para que acordasse.

O terceiro chamado fê-lo acordar num pulo, sobressaltado. Sam esperou até que seus olhos, relutantes e protestando contra a interrupção de seu sono profundo e merecido, entrassem em foco. Olhou de Dean para o estacionamento do motel, ocupado por seis carros, incluindo o Impala; espreguiçou-se e falou com a voz pastosa e arrastada, porém com um sorriso:

—Finalmente chegamos, então? Isso não é algum tipo de miragem, é?

Dean sorriu, pois estava cansado demais e até mesmo rir lhe custava um enorme esforço.

—Não, não é uma miragem. Chegamos mesmo ao tal motel que o Bobby nos falou.

O estacionamento ficava na parte de trás do motel, de modo que Sam, ao percebê-lo falou:

—Estou tão cansado que o caminho até a entrada não me parece nada convidativo.

—Sammy, pare de drama. Estamos a 12 horas na estrada, não há nada no mundo que eu queira mais do que uma cama. — Falou, descendo do Impala e batendo a porta com cuidado. Abriu o porta-malas e pegou sua mochila com roupas e objetos de uso pessoal.

Sam desceu e fez o mesmo. Dois minutos depois os irmãos Winchester encontravam-se na recepção do motel.

Era pequena e mal decorada mas, a despeito da aparência do prédio visto pelo lado de fora, tinha um aspecto bem cuidado e limpo.

Foi preciso tocar a campainha da recepção seis vezes para que um senhor com feições nada convidativas viesse atendê-los. Dessa vez foi Sam quem se manifestou e dirigiu-se ao senhor.

—Boa noite. Gostaríamos de ficar com um quarto para passarmos a noite.

Então o senhor assentiu e sorriu — acentuando ainda mais suas rugas; aparentando ter o dobro da idade, que já era bem avançada — e foi rapidamente pegar uma chave para os rapazes. A maioria das pessoas que paravam ali pediam informações e partiam, de modo que não era de se estranhar a expressão no rosto do homem.

Ao pegar a chave, Dean sentiu seu estômago protestar — sua última refeição havia sido há 12 horas, antes de partir da cidadezinha — então perguntou ao senhor se poderia servir-lhes o jantar.

— Sim, sim! Não se preocupem. Molly, minha esposa, levará o jantar até seu quarto em meia hora.

Os rapazes agradeceram e dirigiram-se ao quarto.

Era amplo, com duas camas separadas por um criado-mudo. O papel de parede do quarto, que um dia fora azul-turquesa, estava desbotado e gasto, mas, fora isso, o aspecto geral do quarto era aconchegante.

Sam, o primeiro a entrar, deitou pesadamente na cama do canto, enquanto seu irmão sentava-se na cama mais próxima ao banheiro e abria sua mochila. Dean pegou uma camiseta preta de algodão, uma calça confortável de moletom, uma boxer preta e dirigiu-se a Sam, que olhava para o quarto, reparando em cada detalhe.

— Sammy, se precisar usar o banheiro pode ir, mas não demore. Quero muito tomar um bom banho e cair na cama.

Sam, que reparava em uma parte gasta do papel de parede perto da sua cama, olhou para o irmão e, depois de mais um dos seus longos bocejos, respondeu:

— Não quero usar agora, não. Pode tomar seu banho, mas não demore. Também quero tomar uma ducha. Parece que aquela poeira toda da estrada está impregnada até meus ossos.

Dean balançou a cabeça, pegou suas roupas e foi para o banheiro.

O mais novo dos Winchester pegou sua mochila também e tirou três peças de roupa. Sua mochila era o extremo oposto da de seu irmão. Enquanto suas roupas eram guardadas com cuidado, peça por peça, a mochila de Dean parecia vomitar as roupas assim que se abria o zíper. Sam achou que se irmão havia ligado o chuveiro, mas logo percebeu que começava a chover lá fora. Colocou a mochila ao lado de sua cama e as roupas sobre ela; deitou mais uma vez na cama; fechou os olhos, adorando ouvir o barulho suave da chuva, mas, por incrível que pareça, não se sentia sonolento. Abriu os olhos mais uma vez e esquadrinhou o quarto. Agora Dean havia ligado o chuveiro, Sam pôde perceber pelo vapor que saía por baixo da porta. Era incrível como seu irmão tomava banho quente até mesmo quando estava calor.

Então, de repente, uma imagem veio-lhe à cabeça e ele não pôde conter uma exclamação: Pegou-se pensando em seu irmão despindo-se e entrando no box; no seu corpo através do vapor; na água escorrendo pelo seu peitoral, pelas suas costas...

Deus! O que está acontecendo comigo? — perguntou um Sam completamente aterrorizado, com o coração acelerado. Sentia seu rosto queimar, suas mãos estavam trêmulas e, percebeu, estava ofegante.