Cold Rain

Damon saiu do Grill, colocando sua jaqueta.

Ele sequer notou as pessoas que passavam por ele correndo para escapar da chuva.

Focalizando a praça há alguns metros de distancia, ele caminhou lentamente para lá.

Ele se sentou no banco que ficava bem no meio da praça, de frente para a estátua de um dos fundadores da cidade.

Se ele fosse humano, essa chuva que aumentava a cada minuto seria preocupante. Uma gripe. Algumas semanas para se curar.

Mas ele estava morto, e não ligava nem um pouco para os pingos gelados que batiam em seu rosto quando ele virou a cabeça para cima.

A sensação era boa.

Ele viu um casal passar correndo ao lado dele. Rindo de braços dados.

Ele revirou os olhos, bufando.

As coisas podiam ser fáceis assim, não?

Ele ter encontrado uma moça decente quando era jovem, ter se casado, uma dúzia de filhos, morrendo alguns anos depois.

Mas era óbvio que as coisas não eram simples assim para todos os seres da terra.

E ele sabia que com ele em especial não era diferente.

Damon abriu os olhos e deixou a água da chuva derramar sobre eles.

Incomodava um pouco, mas ele forçou as pálpebras a ficarem abertas.

Depois de alguns minutos, certo de que seus olhos estariam vermelhos agora, ele voltou a cabeça para frente.

Levantou a mão direita e olhou para o anel azulado.

Ele estreitou os olhos. Pegou o anel e retirou do dedo. Colocando no banco a seu lado.

Damon inspirou profundamente olhando para frente.

Esfregou as mãos para tirar um pouco da água. Inútil.

O anel parecia ter um alarme sonoro que estava berrando estridente ao seu lado. Mas ele ignorou.

Depois de alguns minutos ele recolocou o anel no dedo.

Nos próximos trinta minutos ele ficou nesse dilema.

Tirando e recolocando o anel.

Por fim ele suspirou e colocou o anel no dedo de uma vez.

Muito bom. Muito maduro.

Ele virou a cabeça para cima novamente. Abriu a boca e deixou alguns pingos caírem em sua língua.

Ele estava perdendo tempo. Muito tempo.

Poderia estar agora revirando alguns diários velhos em busca de algo que o ajudasse a matar Klaus quando chegasse à cidade e salvar sua Elena.

Elena.

E-le-na.

Damon estalou a língua no céu da boca, batendo depois nos dentes inferiores pronunciando o nome em voz alta.

Elena.

Baixa. Morena. Cabelos compridos. Jeans. All Star. Carinha miúda. Adolescente irritante. Sorvete de creme com calda de chocolate. Muito chocolate. Dormir de luz acesa. Medo do escuro. Ler exatamente oito páginas de um livro por noite. Lasanha. Sábado. Cantar mal no chuveiro. Ipod no máximo. Covinhas ao sorrir. Olhos leite com chocolate. Sorrir muito. Chorar o dobro. Amiga bruxa. Amiga vampira. Namorado vampiro. Tia maluca. Irmão problemático. Mãe vampira. Pai otário. Trauma de corvo. Diário. Colar com verbena. Emburrada. Mas sabe sorrir. Ás vezes.

Era incrível a quantidade de informações que ele aprendera sobre aquela menina em poucos meses. Ele sabia ao mesmo tempo tudo e nada. Poderia ficar horas e horas discutindo sobre sua personalidade sem chegar a lugar algum.

Damon sabia que o mais próximo do céu que poderia chegar era ao ver as poucas vezes em que ela sorria. Seus lábios se esticando e exibindo uma fileira de dentes brancos e alinhados. O sonoro ruído que saia de sua garganta, parecido com uma melodia de ninar.

O paraíso para ele podia ser quando ela coloca os braços pequenos ao redor dele, tentando numa tentativa desesperada acordar o homem bom que há nele.

Damon riu alto.

Ele já vira muita dor em toda sua existência. A maior parte provocada por ele mesmo. Mas a reviravolta que a vida dessa menina deu desde a chegada dele e de seu irmão a sua cidade era quase apavorante.

Quase.

Ele olhou o anel novamente, encarando a pedra cintilante.

Seria fácil não?

Simplesmente esperar algumas horas e pronto.

Banhar-se pelos raios quentes do sol. Seria até gostoso.

Mas o calor do sol estaria quente demais para ele. Dissolveria a pó todos os músculos do corpo morto e frio dele.

E então assim ele poderia descansar por toda a eternidade.

No céu ou no inferno.

Qualquer lugar seria melhor do que passar mais um dia ao lado dessa menina.

Mas ele riu de novo ao perceber que estava enganando a si mesmo pensando nisso.

Ele não faria nada disso.

Não tentaria se matar e acabar com toda essa agonia que achatava seu coração mais uma vez, nem uma vez sequer.

Por que ele não tinha o direito de fazer isso.

Sua existência não estava mais em suas mãos.

Estava nas mãos dela agora.

Ela tinha o dever de dizer a ele quando quisesse que ele abandonasse o mundo.

Ou quando quisesse que ele permanecesse a seu lado para sempre.

Damon olhou para o céu novamente.

A chuva tinha ido embora.

Os primeiros raios de sol, trazendo um novo e cansativo dia, estavam aparecendo.

Colorindo o céu em uma mistura de escuro e claro.

Noite e dia.

Trevas e luz.

Bonito.

Damon sorriu para as estrelas que iam embora.

Você estava certa, mãe.

Até que não demorou muito para eu achar a tal pessoa de que você me falou.

Mas a senhora me enganou.

E agora meu coração dói todo dia por essa sua mentira.

Você me disse que eu sofreria se perdesse essa pessoa.

Mas não disse que seria uma dor muito pior viver todos os dias ao lado dela, sem poder tê-la.

Se levantou e partiu em direção a pensão.

Não notou uma árvore familiar que estava ao lado do banco à noite toda. Com as folhas agora encharcadas com gotas da chuva. Parecendo que tinha chorado a noite toda.

Uma árvore que tinha umas flores bonitas.

Com muitos espinhos.

E pétalas azuis.

XXXXXX

Pobre Damon. Realmente me parte o coração ver ele triste assim. Não acho que esteja muito melhor na série.

Admiro ele nesse aspecto de esconder suas emoções muito bem. Mas uma hora ele explode. Todo mundo explode.

Espero que tenham gostado. Agradeço as reviews.

xoxo