Love-Lost Elegy

Capítulo um: Morte & Conclusões Indevidas

"Cale a boca! Se você têm um problema que pode resolver, deveria pôr um sorriso nesse rosto!"

Eu distorci essas palavras que a mim um dia foram ditas, e meu sorriso desde então não foi o mesmo. Ele perdeu o significado, o de felicidade. Quando é mesmo que estou "feliz"? Quando que não seria uma fantasia formada pela minha mente? Eu prezava por uma paz que na verdade não existia, pois tudo o que de fato senti, quanto aos problemas que cheguei a enfrentar, por forçá-los para além da minha visão - dessa forma não me fazendo ver, passou a se acumular... até que, um dia, eu não poderia fazer nada além do que entregar-lhes a liberdade merecida. E, com isso, descobrir quem realmente eu era, para poder então dividir essa identidade conhecida com outro. Que seria a minha felicidade do meu sorriso esquecido. Mas ainda estaria longe.

- Feliciano-kun, pode ir atender aqueles dois?

Essa memória é do ano anterior a este. Kiku apontou para mim uma mesa, com dois rapazes que pareciam ter idade semelhante a minha. Assenti e iria na direção destes, se Kiku não tivesse me segurado e falado um tanto nervoso:

- Tome cuidado, aquele senhor de terno, se não me engano, é um Kirkland. Nosso contribuidor.

- Ah, certo - me aproximei, então era alguém importante! Eu não podia bobear!

- O que vão querer? - perguntei, tentando prestar bastante atenção para não esquecer nada (isso acontecia com certa frequência...).

- Um Hamburguer, moço!

- Isso aqui é um restaurante e não uma lanchonete! Peça algo decente!

- E daí? Eles podem conseguir isso porque é o h-e-r-ó-i que está pedindo, e então eu poderei salvar todos! Isso não é incrível? HAHAHA~

- Ei! Não fique gritando!

- Você também está falando alto, então não têm problema, né? - ele se direcionou a mim, ignorando o que o outro dizia. - Ah, eu também quero refri, e mais um hamburguer, e uma batata-frita e...

- Er... eu só quero um chá. - pediu o loiro, tirando a atenção que eu tinha do mais alto.

A minha primeira impressão de Alfred F. Jones era que ele parecia ser uma boa pessoa para uma conversa. Interessantemente eu estava certo, ainda sairíamos algumas vezes depois. Já esse amigo dele... o tal representante, eu não diria o mesmo. Mas se fossem me perguntar o que eu primeiro notei nele, eu não comentaria sobre a sua personalidade antes daquelas sombrancelhas. Que grandes! Realmente não tinha como não olhar! E ele pareceu bem irritado quando viu que eu estava o encarando.

- C-Certo, está anotado! - bati continência com a mão esquerda e me mandei, querendo fugir daquele olhar fuzilante, que medo! Se olhar matasse, ai de mim!

Entreguei o papel para meu irmãozão Francis, que trabalhava ali como um cozinheiro.

- Eu devo ter esquecido alguma coisa... m-mas não seria muito diferente do que está aí, não deve ter problema.

- Se você escrevesse os pedidos ao invés de desenhá-los, talvez estivesse tudo aqui... ei... isso são hamburgueres?

- Ah, foi aquele cara que pediu, o de óculos. Não sabia que servíamos isso...

- E não servimos, mas não se preocupe com isso - ele fez um gesto com a mão despreocupado - eu vou lá falar com eles.

- F-Francis, a panela! - escutei alguém falar, mas... de onde veio?

Francis foi até a dupla, e depois de um tempo, ele e Arthur começaram a discutir.

E eu só tremia, temendo o pior. Nem tinha idéia que essa situação era tão corriqueira para eles.

- T-Toma - eu me virei e não vi ninguém, apenas uma xícara flutuante -, isso pode acalmar o Arthur.

Vale lembrar que eu não sabia o nome daqueles dois na época, mas foi fácil entender que ele estaria se referindo ao "cara das sombrancelhas".

- T-Tá - balancei a cabeça, em afirmativa, lentamente.

Me segurava para não gritar. Era um... um...

Peguei a bandeja rapidamente, e caminhei até onde estavam a dupla mais Francis, pensando assombrado: "F-Fan-Fantasma!?"

- Olha aqui, seu...

"Poft" Quando abri os olhos... opa. Eu havia derrubado o chá nele. Arthur me encarou com os olhos em chamas... e aquilo seria o segundo deslize que eu dava. Primeiro, as sombrancelhas, e agora o chá. Não pensei duas vez: Saí correndo dali.

- Desculpaaa~!

- Pára... de correr... - falou Ludwig, ofegando, segurando meu pulso ao me alcançar.

- Desculpa... - percebi que estava cansado. Eu não sabia ao certo onde estávamos, mas parecia ser do outro lado da cidade.

- Certo... vamos voltar.

- E-Eu não quero! - gritei.

- Qual o problema? Depois daquilo, aqueles caras já devem ter ido embora...

- É mesmo...? Ah, mas não é só isso... - baixei a cabeça, não querendo que ele conseguisse ver meu rosto.

- ... é comigo? - deduziu ele.

Sim. Ele tinha certado de primeira! Muito preciso, como sempre.

- Me desculpe... - soltei, querendo que o assunto se encerrasse naquele momento.

- Não têm problema, eu já tinha lhe dito: Se já gosta de alguém, não precisa ficar se culpando. Coisas assim acontecem muito. - Ludwig disse e antes que eu pudesse retrucar, bagunçou meus cabelos. Um gesto de carinho...

Era mais complicado para mim do que ele poderia imaginar.

Porque eu amava ele, mas não o que estava na minha frente... este era apenas um amigo que eu estimava muito. Suas ações e hábitos, que fizeram com que eu descobrisse que Ludwig, e o garoto que me perseguia na infância, fossem a mesma pessoa, eram iguais; mas... mesmo assim, eu não conseguia reconhecê-lo, e ele também não se lembrava de mim. Como se eu nunca tivesse feito parte de sua vida antes de sermos colegas de trabalho.

Eu queria contar tudo o que eu estava pensando, esse dilema que enfretava, para o meu amigo; mas eu simplesmente não conseguia. Não saía... Doía muito, então eu preferi deixar como estava.

- Tudo bem... - assenti para ele, e seguimos para o restaurante.

Mais uma vez eu "sorri".

Não voltei a falar com o Arthur até que viesse até mim, de repente, com aquela carta.

Mas ele ia vez ou outra para o estabelecimento, às vezes acompanhado do Alfred (que aproveitava a oportunidade para me convidar para algum lugar legal, ah, mas se o Arthur fosse eu recusava); só pedia chá e parecia estar sempre de mau-humor, como se estivesse sendo obrigado a frequentar o lugar. Ou seja, eu tive uma terrível má impressão para me aproximar dele uma outra vez; Era Kiku quem o atendia, e pareciam ter ficado amigos; Era seu último ano trabalhando ali, pois passara em um concurso público para ser um policial civil, eu fiquei muito feliz por ele.

O novo ano que seguiu passara rápido e logo chegou setembro; Eu e Ludwig passamos na prova para entrar na faculdade, ele ia fazer Engenharia, enquanto eu faria Arquitetura. Começaríamos próximo ano - o que seria tranquilo, se eu não tivesse ficado tão instável nos últimos tempos.

Começou quando fui ao armazém, um dia, a mando de Yao para verificar se a entrega que pediu teria sido efetuada corretamente. Oh, se eu tivesse ido ali antes, ou bem mais tarde; tinha que ser justo naquele momento.

Eu escutei um barulho e, imediatamente, entrei em pânico. Quem seria? Um assaltante? Mas, por quê roubaria comida? Seria um ladrão, que estaria sendo perseguido, e se escondeu ali? Sei que pensei em muitas possibilidades; minhas pernas se recusavam a me obedecer, então apelei para minha outra alternativa infalível: ligar para alguém. Poderia ser qualquer um, na verdade nem vi para quem liguei; pressionei um botão e utilizei a discagem rápida.

Logo que fui atendido, desatei a falar: dei o endereço do local e pronto (Quer dizer, depois de gritar histéricamente para ser salvo). Daqui a pouco eu veria a cara do sujeito. E, pela minha indiscrição, seja lá quem estivesse naquele lugar comigo também; quando percebi já não tinha mais volta.

- O-O quê...? - minhas pernas voltaram a funcionar, mas apenas para tremerem.

E minha mente ficou em branco, eu só focava... aquilo.

- Haha... r-realmente, dessa vez fui pego de jeito... - a voz saiu com certo esforço, ao pé do meu ouvido, porque eu estava bem no fim do corredor – que se ligava a outro, por onde ele vinha.

Eu vi como ele segurou com ambas as mãos aquela região, que estava tingida por algo que eu não queria indentificar o quê. Seu pescoço... alguma coisa o manchava... ele estava perto demais para não me exergar.

- V-Você...?

Minha voz não saía.

- E-Está bem...? - aquela pessoa ainda conseguia se preocupar comigo!? Senti vontade de gritar para que se calasse, ele tinha que se calar! P-Porque...

Eu continuei o olhando fixamente, especificamente na cor que parecia gradualmente tomar espaço por suas vestes, corrompendo-as.

Percebendo que eu não iria falar, a pessoa simplesmente encostou as costas na parede irmã da minha, e foi deslizando... escorregando... aquela ação poderia ter demorado meros segundos, mas tenho certeza que o que passaram-se foram horas. Como palavras que começam a moldar o conteúdo de um papel em branco, preenchendo-o uma a uma.

- Eu... gosto do Arthur - ele falou aquilo pausadamente, como se o que o esperasse fosse um cochilo depois de um dia difícil.

- Eh? - soltei surpreso, que hora para falar aquilo! A contradição que causou-se com a situação me tirou do choque.

- ... Mesmo. Deve ser azar... haha...

- Você vai ficar bem! Alguém deve estar chegando! - disse aproveitando a brecha adquirida, tentando me enganar mais uma vez inutilmente.

Azar?

- Ha... já faz um tempo eu estou assim. Até eu tenho que saber quando sair de cena.

- Não... - enquanto eu absorvia o significado de suas palavras, mais o pânico, e o medo, e o desespero agiam contra mim, como substâncias nocivas ao corpo - Até você? ... se for assim... que chances eu tenho?

Ele parecia confuso, sem entender o que eu queria dizer. Era importante para mim a resposta para aquela pergunta; mas não havia ninguém ali para me responder.

Eu não conhecia muita coisa da área médica, então eu só tratei de ajudá-lo a se acomodar melhor aonde estava e, como último recurso, rasguei parte da minha blusa; havia muito daquilo, acho que só queria limpar minha conciência, para quando perguntassem eu pudesse dizer que fiz algo.

- Feliciano! - escutei passos ao meu lado - O que houve!? ... o quê?

- D-Do... meu lado... - o que falei não deveria ter passado de um sussurro.

Quem estaria ali? Era a pessoa que eu chamei? O ser passou por mim e deu um grito horrificado.

- Meu Deus... Alfred!? Você está me escutando? Reaje cara, é sério...

Alfred apenas olhou para mim, mas não parecia me enxergar mais; sussurrou algumas poucas palavras que não pareciam ser dirigidas a minha pessoa:

"Desculpa... irmão..."

- Sinto muito por fazê-lo ir tão em cima da hora, mas eu não tive muita escolha-aru.

- Tudo bem - falei com a minha habitual máscara, que similar era ao meu próprio rosto.

Aquilo era uma mutação indesejada de uma personalidade frágil. E aquele incidente foi apagado assim que o local foi deixado, mas ele ainda estava ali; corroendo...; dilacerando...; uma proteção para uma outra que se perdeu.

- Achamos isso com... - Kiku entregou para mim, e Yao me observava preocupado?

- Que legal! Uma carta do vovô Cézar! - exclamei contente.

A carta tinha um tom bem animado e eu apenas me preocupei em prestar atenção naquilo. Kiku e Yao não se encontrariam ali, e eu não estaria numa delegacia, mas sim em um lugar de energia; fazendo-me um ignorante a tudo.

Pelo que pareceu, ele queria entregá-la antes, mas por descuido acabou por levá-la junto.

Como eu queria tê-la comigo antes... mas, no momento, aquilo seria apenas um anúncio para um mal fim.